BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Veículos mais modernos; ruas nem tanto


Henry Ford (1863-1947) — fundador da Ford Motor Company — foi o grande visionário da indústria automobilística; o primeiro empreendedor a fabricar automóveis em série. Ele achava que o consumismo era a chave para humanidade. Numa de suas célebres frases, disse: "o dinheiro é a coisa mais inútil do mundo; não estou interessado nele, mas sim no que posso fazer pelo mundo com ele".

Nunca a indústria automobilística despejou tantos veículos novos nas ruas das cidades brasileiras, como nos últimos anos; nunca o usuário/consumidor comprou tanto, ou trocou tanto de veículo, como nos últimos anos. Economia estabilizada e crédito fácil, um convite irrecusável. Sair do “velhinho” e poder ter um zero quilômetro, agora é sonho possível.

Parece que só vemos vantagens nessa progressão, nessa nova era; onde os veículos, definitivamente, tomaram conta dos espaços das ruas; onde uma nova classe social surge: o consumidor compulsivo. As cidades acanhadas, despreparadas e sem planejamento, ainda suportam aos problemas diários — isso é fato —, mas com ninguém se movendo da cadeira. E com tudo isso, o futuro que se projeta não é o melhor. Falo adiante.

Primeiro vamos aos automóveis. Há no mercado uma quantidade infinita de marcas e modelos; populares e de luxo; nacionais e importados. Estão muito mais seguros que na década de 80, para comparar. Atendem a todo tipo de conforto e segurança aos motoristas e passageiros. Cintos de três pontos para todos; encosto de cabeça em todos os lugares; air bag para todos os lados; freios ABS; bancos e direções ajustáveis na vertical também; GPS no painel; ar-condicionado e direção hidráulica.

Olhando por esse ângulo, vemos que as indústrias evoluíram muito nos últimos anos e isso também é um chamariz para o comprador. Os automóveis nos dão status de poder, ascensão social e ostentação. Ficamos mais felizes com eles. Quem não tinha um, passou a ter; quem possuía um, agora tem dois, ou tem um melhor... Andar de automóvel é o meio de transporte mais eficiente e confortável para quem pode ter. Ninguém ousará dizer o contrário.

Se a indústria dos veículos está no sentido vertical da modernidade e segurança, o mesmo não se pode dizer das vias por onde circulam. Os municípios, onde existe corpo técnico para cuidar das vias, ainda há um pensamento ultrapassado no modo de enxergar o sistema viário, no que se concerne à mobilidade e acessibilidade, em comunhão com a vida na urbe. A visão é caolha e retrógrada. Como venho dizendo, isso não pode ser relevante à vida de morar na cidade. Antes de tudo, vem o viver a cidade, habitar a cidade; vem o ser feliz na cidade. Os deslocamentos são consequências ao modo de vida que buscamos. Por onde passam, os veículos estão abrindo mais faixas e espremendo as construções; em meio a eles está o sujeito a pé; esse que escolheu o meio de transporte mais primitivo para se deslocar. E os técnicos ainda querendo espremê-lo mais contra o muro.

Nos seminários e fóruns de transporte e trânsito (já fui a vários), a retórica é sempre a mesma; fala-se em mobilidade, acessibilidade, calçadas seguras, ciclovias, transportes públicos e a repugnância aos automóveis que entopem as ruas e poluem. Parece que todos enxergaram o futuro, ou reinventaram a roda. Mas, quando voltam para suas cidades — nas ações de planejamento das obras, ou naquilo que deveria mudar —, tudo continua na mesma. Continua-se em tratar com galhardia os veículos (que hoje são mais seguros) dando-lhes mais fluidez na pista; em detrimento à segurança de quem está vulnerável e desprotegido na calçada; esquece-se também de preservar parte das vias para outros meios de transporte, com um objetivo claro: devolver a qualidade que se perdeu no tempo.

Quanto mais faixa para tráfego de veículos se abre, mais veículos irão aparecer. É a lógica do trânsito das cidades. Isso não tem fim. Ou teremos a cidade só para circular e não para habitar? O “quanto mais, mais” serviria — numa forma mais segura, qualitativa e acessível — se pensasse assim para as calçadas e ciclovias também. As calçadas captam ainda a grande massa que trafega nos centros urbanos. Depois vem o transporte público. Há dados sobre isso. Os discursos são cidadãos, mas a prática nem um pouco.

Detesto algumas frases feitas. Esta é uma delas: “esse é o preço do progresso...”. Como urbanista devo abominar essa teoria torta.

A cidade de São Paulo — já na UTI — é um mau exemplo de como não se deve cuidar do transporte e trânsito, onde a engenharia de tráfego já não tem mais eficiência. A frota, estimada em 7 milhões de veículos, cresceu 40% em uma década — com as ruas agonizando. O projeto do metrô está atrasado pelo menos uns 30 anos. E quantas obras paliativas nesse tempo foram feitas para minimizar os impactos? Quanto de dinheiro público se investiu em tais obras, para durarem até o primeiro engarrafamento?

O relator do Código de Trânsito Brasileiro poderia ter grifado o artigo primeiro. Ou, muito dos que pensam nessa coisa diariamente — só consultam os artigos das infrações —, deveriam voltar-se para o que diz esse artigo: “§ 1º Considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas...”. Eu grifei. Sendo movimentação de pessoas, por que não zelar dos que andam a pé nas calçadas? Por que não cuidar, ampliar, sinalizar os espaços das calçadas? Tudo que está para fora do lote privado, faz parte da via — é público. Calçada faz parte da via; e a via é de responsabilidade do órgão de trânsito. Está nesse código também.

Em quase todos os municípios do Brasil, a construção e manutenção das calçadas não ficam na conta das Prefeituras; é de responsabilidade do morador ou proprietário do imóvel. Isso não funciona — todos sabem, mas a prática é teimosa. Em contrapartida, com o crescimento absurdo da frota de veículos nos grandes centros, as calçadas estão minguando, ficando obsoletas esburacadas e intransitáveis. Os municípios e seu corpo técnico deveriam assumir a responsabilidade de construir, ampliar, conservar e sinalizar o caminho dos pedestres também. Dentro de um automóvel, seus ocupantes estão bem mais seguros que o cidadão que anda a pé. Por culpa dos órgãos públicos, quem anda a pé ou de bicicleta estão mais sujeitos aos acidentes que o ocupante de veículos. As estatísticas mostram que mais se morre no trânsito por atropelamento. Quem está cuidando disso?

Na minha cidade, desde 2007, há uma Lei em vigor, se atentando às calçadas. Fora a cidade que está aí — onde há calçadas que não terão mais conserto, já morreram —, a questão se volta ao espírito da “calçada segura” que se pode fazer, mas isso não alcançou as almas necessárias, e está muito longe do cidadão comum. Com a devida vênia, não vemos calçadas sendo construídas de forma acessível. E quando ela se contrapõe às entradas e saídas de veículos, são interrompidas para passagem desses (pensamento primitivo). E não é o que diz a Lei! Como já falei aos colegas, a Lei deveria mudar para Lei da “Calçada Acessível”; assim, quem sabe, haveria mais entendimento o que seja transitar sobre um piso livre de barreiras; onde eu e qualquer pessoa, dentro do seu grau de dificuldade de locomoção, consigamos trafegar por esforço próprio. Simples.

Gostaria de falar só desses conceitos, mas há uns números bons para simplificar essa tese. Uma pessoa trafegando a pé na rua, em passo de passeio, ocupa 0,86m² (Neufert, Ernst); esta mesma pessoa, solitariamente dentro de um automóvel, irá ocupar 11,00m² do sistema viário. E não precisa da física para provar que, ninguém irá conseguir colocar 12 pessoas dentro de um automóvel. Para o transporte público de massa — o ônibus padrão —, considera-se 42,00m² dessa ocupação; esse irá transportar o mesmo número de passageiros sentados, que sua área. Rapidez, conforto e menos poluição do ar. A foto acima do texto, que recolhi da internet, ilustra o que seja essa ocupação das vias pelas pessoas nos diferentes tipos de modais de transportes.

Se diminuirmos os espaços das vias para os automóveis com prioridade às calçadas, ciclovias e transporte público será uma alavanca propulsora para uma mudança de conceito e quebra de uma regra viciada. Devolver ao cidadão, a cidade que vive. Em consequência, as indústrias passarão a fabricar automóveis com dimensões reduzidas, para o máximo 02 ocupantes — os smart cars. Como já ocorre em alguns países europeus. Veículos de carga também poderão ser menores. Na outra ponta, para os grandes deslocamentos, os governantes iriam colocar os seus projetos de transporte de massa nas ruas, funcionando. Mais calçadas; mais ciclovias; mais transporte de massa e automóveis menores em quantidade e tamanho. E assim voltar a respirar a vida na urbe.

Outro dia alguém me perguntou: se você defende tanto esse seu ponto de vista, por que você anda de automóvel? Não sou nenhum ativista levantando bandeira; sou um urbanista teorizando conceitos. Neste momento que escrevo essas linhas, é óbvio, ando porque não tem nada mais seguro, confiável, confortável, eficiente, prático, rápido (ainda) para se deslocar. Nem é pelo status. O dia que adotarem políticas claras de transportes na minha cidade; transferindo todos esses itens para um transporte de massa; ainda, dificultar o tráfego de automóveis e valorizar outros modais, fatalmente deixarei o automóvel na garagem, como muitos também farão. Por encontrar facilidade e dificuldade na mesma conjunção.

Os brasileiros que vão à Europa, acham chique poder se deslocar em Paris por metrô; acham maravilhoso poder alugar uma bike e sair pedalando; ficam felizes sentar em cadeiras na calçada dos bistrôs, para tomar um café e ler jornal. Outro mundo? Não, apenas mudança de método. As cidades europeias, seculares, não foram projetadas para automóveis. No entanto, menos densas, seus governantes foram buscar outros caminhos e soluções. Em Paris, a cada 400 metros tem-se uma estação de metrô.


Mapa das linhas de metrô de Paris

Para a realidade brasileira, o senso comum, daqueles que cuidam da área técnica e os gestores públicos, é as ruas sejam construídas para os automóveis em prioridade, sem ater-se com o restante que circula por elas. Vale lembrar, no sistema viário, uma pessoa dentro de um veículo moderno e novo, está mais seguro — e por isso comete mais abusos — do que a pessoa que caminha pela calçada. Essa está totalmente desprotegida e continuará, pois o senso comum herdado é do conceito: rua para o automóvel e automóvel para a rua.

A indústria automobilística, a indústria do petróleo, a especulação imobiliária; são muitas as forças ocultas  interessadas em ganhar com o caos urbano. Esses tomaram as cidades das mãos do poder público; tudo em troca do progresso (urgh!). Do outro lado, o morador/consumidor é voraz e débil. Em tudo está o dinheiro, que Ford dizia ser inútil e não interessar. O resultado é uma qualidade de vida descendo ladeira.

Ford foi um inovador em fabricar automóveis em série, pensando na humanidade. Queria o bem das pessoas. Nunca imaginou que o futuro reservaria muitos enleios: das cidades, das ruas, da urbanização sem planejamento, da emissão de gases, do meio ambiente, dos congestionamentos... Não imaginou os caminhos e rumos tortos que seu invento alcançaria. Ele sabia muito dos automóveis, pena que não entendia nada de ruas.

Quando penso em ir à praia no verão e imagino as estradas lotadas, com as cidades praianas mais ainda, reflito: como deveria ser bom o tempo das carruagens, a praia parecia mais perto, de tão gostoso que era viver.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2012.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2011...2012 - Balanço do Blog



Caros leitores (as),

O ano voou. Alguém teve este mesmo sentimento? Não sei se isso é bom ou ruim, mas o ano passou como um raio, um cisco. Não sou daqueles que fica colocando na balança os prós e contras. É a vida que temos que passar, não existe outra. Neste ano tive uma perda grandiosa, meu irmão partiu, viajou fora do combinado... A vida é assim mesmo: sempre recomeçando; sempre um novo ano para fazer nossas promessas e melhorias onde não andou bem. E as perdas estão por acontecer. Um dia seremos nós os perdidos.

Eu comecei o ano achando que não teria tanta inspiração para escrever. Às vezes achamos que a fonte secou, mas logo vêm fatos novos, ou lembranças, ou histórias que não resistem ficar tão somente na nossa memória. Precisam sair pelos poros.

Como já falei aqui (ou lá no Facebook?), tudo que escrevo é meu, pertence a mim até quando está na construção, na folha virtual do word, depois já não mais me pertence. Pertence ao leitor que lê, interpreta e assimila ou não aquilo para sua vida. Comigo só fica os direitos reservados da escrita.

Este ano recebi vários comentários – agradeço a todos! -, mas teve um que veio de uma pessoa anônima (Giulia Ramalho). Ela escreveu num e-mail para mim:

“Tenho 14 anos não me interesso muito por leitura já tentei ler aguns livros até consegui termina-los mais confesso que não tinha aquele prazer em lê-los , estava procurando algumas crônicas porque estou aprendendo sobre gêneros textuais . Até que acabei chegando em seu Blog , parabéns adorei suas postagens ,sobre sua infância sobre algumas experiências de vida que você passou, o jeito com que escreve é adimirável , tenho que dizer de todos livros que li nenhum se compara ao prazer que tive de ler suas postagens ,Parabéns e obrigada .

Fiquei mega feliz e compartilhei com alguns amigos. É isso, quando jogamos nossas conversas na rede, elas se espalham. Por isso, a responsabilidade se torna maior ainda. Não sabemos até onde e em quem aportarão.

As caminhadas, as conversas de bar, as notícias, as lembranças, as piadas no Facebook... Tudo virou fonte de inspiração para escrever. Quantas vezes, voltando de uma caminhada, eu já tinha quase o texto todo na cabeça. Ia pra frente do computador e escrevia, escrevia... Depois lembrava que tinha que tomar banho.

Houve aqueles textos que deram trabalho, demoraram. “O pecado mora ao lado” foi um desses. Comecei, fechei, larguei e mudei o rumo da prosa no meio. Tudo depois que li um livro sobre Marilyn Monroe.

Estou feliz com a produção do ano. Comecei o Blog em Abril de 2010, com 03 crônicas já escritas. Este ano, escrevi 12 crônicas a mais que 2010. Qual delas eu gostei mais? Todas! A importância que cada uma teve na sua construção me fez feliz naquele momento. Algumas eu resumi em poucas palavras; outras foram mais longas. Escrevi entre 600 a 1200 palavras cada uma - para não cansar o leitor.

Segue a lista, em ordem de postagem, para quem perdeu alguma. Clique e leia. Ainda dá tempo, o ano ainda não acabou e no próximo tem mais.

UM FELIZ ANO NOVO!

CRÔNICAS - 2011:

1 - Por você, faria isso mil vezes (escrita no apagar das luzes de 2010)

2 - Pão com manteiga






8 - O adesivo da família feliz (a mais lida. Por que será?)


10 - Pedras e diamantes (2ª mais lida)






16 - O pecado mora ao lado (a mais demorada para escrever)



19 - O avião azul (em memória de Tarcício de Oliveira)













© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / dezembro de 2011.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Natal sem crônica

Este ano não escrevi nenhuma crônica para o Natal; minto, escrevi “As luzes de Natal”, mas nem considero que foi um mergulho, foi um nado no raso... Explicarei adiante. Antes, uma história que fala de formação, de infância pobre e de superação.

Para quem não conhece – já citei algumas vezes aqui - Reinaldo Azevedo é um jornalista político; ele tem um Blog desde 2006, onde comenta especificamente sobre política, embora fale de outros assuntos também. O Blog é atualizado diariamente com seus textos. Chega a escrever um livro por semana. Há quem o odeie; mas há muito mais os que o amam - seus fiéis leitores. De fato, ninguém consegue ser unânime. Nem ele o será. Ainda mais com temas tão polêmicos.

São 120 mil visitas por dia no Blog. Creio que seja um Recorde, se comparado aos outros que tratam de assuntos análogos. Sou um desses, desde 2006. Empresários, políticos (até os que o odeiam), artistas, humoristas, cineastas, anônimos, todos consultam seus textos antes de formar opinião sobre qualquer assunto. Reinaldo já criou jargões, inventou palavras; é irônico, tem picardia, humor, mas por trás de tudo que fala tem esta coisa do compromisso com a verdade, com argumentação dos fatos; não deixa nada sem resposta do que publica. Como ele mesmo deixou claro, pode-se ter opinião contrária do que se diz, só não pode ter opinião sustentada na mentira. Esse é Reinaldo, ou Tio Rei, como gosta de ser chamado.

Outro dia uma pessoa me disse – numa forma de me inquirir - que sou um escravo de suas publicações. Não, eu o leio diariamente para ter lucidez (ou mais) sobre o que penso e que está nos noticiários por aí. Demais leitores do seu Blog fazem o mesmo. Leio também outros cronistas, em especial os que escrevem no jornal Folha de São Paulo: Pondé, Coutinho, Marcelo Coelho, Ruy Castro, Eliane Catanhêde, Danuza, Barbara Gancia e também leio Dora Kramer do “Estadão”. Mas, nenhum desses têm mais retidão, lucidez no que escreve do que Reinaldo Azevedo.

Bem recente, ou para ser preciso dia 24/11/2011, ele postou um texto que emocionou a mim e muitos dos seus leitores. Na última vez que fui conferir já ultrapassava os 1400 comentários.
Ao ser chamado por seus algozes, de reacionário, tucano e principalmente de representante da elite e burguesia, Reinaldo, tomou fôlego e escreveu nessa madrugada um texto comovente. Trouxe para todos a sua origem humilde, de quem foi pobre um dia, mas nunca se deixou vencer por essa fraqueza e estupidez latente de se apoiar na pobreza para se justificar e dizer: sou um herói! Recebendo aplausos, como fazem alguns políticos por aí. Não precisou disso. Estudou, lutou e venceu. Somente isso, ou tudo isso. O texto do “Ferrorama” você pode ler (Clique aqui). Depois que li pensei, como muitos dos seus leitores, nas nossas histórias de vida, que muitas pessoas não imaginam existir. Assim, nos rotulam disso e daquilo.

Voltei ao meu texto do ano passado sobre o Natal.

Este ano não escreverei nada sobre o Natal. Acho que tudo que tinha que dizer sobre as lembranças, sobre minha infância – o Natal tem gosto e cheiro de infância -, sobre os presentes, está na crônica que postei aqui o ano passado: "O presente de Natal". Quiçá, no próximo ano escreverei um conto de Natal, ou contarei uma história sobre o Natal de outras pessoas, mas a minha história está nessa crônica, não tem outra. Quem não leu ainda, convido à leitura (Clique aqui). Confesso, quando escrevi algumas lágrimas desceram. Depois passou. Assim como foi difícil para Reinaldo Azevedo aquele texto (Este será um texto difícil, leitores!), para mim também foi esse. Falar da infância tão longe, mas tão presente ao mesmo tempo em nossas lembranças; falar do presente de Natal que veio numa Kombi que estacionou no portão de casa, só com lágrimas nos olhos.

É chegado o Natal. Famílias cristãs do mundo inteiro se dão as mãos num abraço à manjedoura do Menino que vai nascer; numa corrente de união, oração, fé, esperança, luz, perdão, paz e amor. Podemos viver um Natal sem crônicas, sem histórias e contos; mas não podemos viver um Natal sem esses ingredientes. E as lembranças? Guardo todas, pois nenhum Natal será melhor como os que vivemos sem brinquedos. Eles nos trouxeram a compreensão e os grandes tesouros. De onde viemos tristes, eu sei, mas não morremos por isso; nem por não ter tido um mísero ferrorama.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / dezembro de 2011.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eu queria poder voar


Na mitologia grega, foi Ícaro quem saiu de uma prisão voando com asas de cera. Mas, durante seu voo desobedeceu a seu pai Décalo. Ele recomendou que não chegasse próximo ao sol para não derreter as asas. Inebriado pela sensação de liberdade e poder, Ícaro subiu mais alto que podia até o sol derreter suas asas de cera e cair no mar.

São lendas e histórias que nossos antepassados nos trazem, mas na sutileza, com algum conteúdo para nossa vida. A liberdade alcançada, a desobediência e a queda. A carta de navegação que não se segue. Quanto nos vale a liberdade? A que altura podemos chegar? Qual o nosso limite? Afinal, seres humanos não voam. E se nos dessem asas próprias, teríamos essa sapiência dos pássaros?

Somos da terra, nascemos primatas, bípedes e para ter os dois pés fincados no chão. Voar é coisa para passarinho; esses voam, respeitando as leis e o sentido da liberdade conferida. Esses seres livres, aparecem como bons presságios da natureza, trazendo a boa nova, carregando esperanças em suas asas, que o sol não derreterá nunca. Aprendamos com os penados. Sem limites para nossos voos, mas com prudência e obediência a quem nos deu asas.

Peter Pan era um menino que nunca precisou de asas para voar; ele pensava, desejava e voava; se jogava no espaço sem medo, depois dava rasantes pelo céu e dormia no ar - em colchão de nuvem. Nunca ninguém lhe dissesse que não poderia fazer aquilo. Mas seu lado maduro vivia a bater na janela de Wendy. Ela resistia ao menino e seus convites para voar. Ela queria crescer; ele voava porque não queria crescer. Se virasse adulto, iria parar de voar; iria parar de ver lugares, mundos e visitar terras do nunca; iria parar de imaginar coisas de criança. Homem que para de voar deixa de ser criança, deixa de sonhar.

Escritores, poetas, cineastas, pintores, arquitetos, heróis de desenho animado... São outros tantos que se permitem voar. Num voo, muitas vezes, solitário e calmo, sem alarde e transformações; livre das prisões, contestações e imposições dos limites; de ventos no rosto e olhares sobre a cidade, sobre a vida. Nas asas do imaginário. Que graça tem o avião? E o para-quedas, o helicóptero? O voo é do homem só, que parte do chão sozinho, sem nenhum apetrecho, sem asas; somente pelo sonho, que em si reservou, e tudo que o leva a cobrir montanhas e rios. Na alma leve, que eleva seu corpo nas alturas.

Um dia de manhã, sem inspiração, liguei o computador e a primeira frase que li foi: “Queria saber voar...”. Foi como uma oração, um mantra que desceu sobre mim. Passei o dia todo pensando naquela frase curta. Pensei que somente em mim havia aquela incompletude. Pensei se antes de saber, eu tinha que poder — ter asas — depois seguir o aprendizado do voo. Por fim, senti um alívio, havia alguém para compartilhar essa desilusão, que me segue pelos dias.

Uma vontade reprimida, que pensei somente eu guardar. Não li algo tão curto, bonito e prazeroso de sonhar: sentir o coração pulsar nas alturas — 10 mil pés. Quantos de nós já não tivemos este anseio, sair voando por aí, deixando tudo que nos aflige lá no chão. Assim como Ícaro, se libertar das correntes, das prisões que temos aqui dentro: “Romper a incabível prisão. Voar num limite improvável Tocar o inacessível chão”. Dar asas a si é poder se libertar e viver sem medo da queda livre. Por que quem se permite, não terá as asas quebradas, ou irá voar só com uma das asas. Voar nada mais é que o nosso pensamento. E sempre com esta certeza: o que importa não é a comida, a busca, a riqueza, mas o voo.

Por que voar é bom? Tira-nos da angústia cotidiana; tira-nos do lugar da dor e nos transporta longe, para o reino da alegria; faz-nos esquecer dos adultos que somos; faz-nos enxergar tudo de um ângulo onde temos mais clareza e compreensão; faz-nos viajar em nós; traz-nos de volta aos lugares de onde fomos felizes; faz-nos voltar no tempo para reparar e abreviar nossa dor; aproxima-nos das pessoas que amávamos à distância; faz-nos chegar mais perto de Deus. Por isso e muito mais que voar é bom.

Se outra vida, eu tiver por graça, quero ser um passeriforme, uma gaivota, uma águia; assim poderei voar; alimentando-me das sementes das folhas, ser feliz e livre com minhas asas que o sol não derreterá jamais.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / dezembro de 2011.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

As luzes de Natal


A esta hora da noite, alguém na janela vizinha instala suas luzes de Natal. A cada noite a vizinhança se ilumina. Mais e mais luzes aparecem. Apaguem a iluminação pública e deixe só as luzes piscantes das fachadas – andaremos por suas trilhas, sem medo. Há uma concorrência, ou uma referência: moro naquele apartamento com luzes azuis e vermelhas na janela, onde há um papai Noel subindo pelo gradil... Virou chamariz. Nesta época do ano, ficamos na torcida para que o dia voe e o sol desapareça logo no horizonte. Quero ver as luzes piscando e os enfeites de Natal das janelas.

A esta hora da noite, a Lagoa Rodrigues de Freitas deve estar clara como o dia. Parece que lá há competição, ou concurso para o melhor enfeite de Natal. Quem pisca mais, ou quem faz mais desenhos em multicores.  O conjunto dos prédios, que circundam a Lagoa, é como uma valsa sem música, num sincronismo de luzes e cores. Realmente é um cenário maravilhoso, com aquelas luzes todas cintilando no reflexo nas águas brandas da lagoa. A árvore de Natal gigante navega sem direção, pra lá e pra cá. Pousada sobre as águas. Um astronauta (ou papai Noel), lá de cima dirá: um disco voador pousou numa região do planeta terra, está piscando.

São somente luzes que vêm pela corrente da eletricidade, enchendo nossos olhos turísticos; vêm neste tempo do amor que perdoa. Depois elas passam e se apagam. A vida prossegue sem elas...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / dezembro de 2011.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O tempo que é tudo

Andar pela rua faz bem. E andar por aí, despretensiosamente e sem rumo, me faz pensar na vida, no big bang, em gêneses e apocalipse, nos homens, nas guerras, na globalização; faz pensar em mim... Buzinas, sons, luzes, cartazes, gente nesse vai-e-vem, entregue em sua catatonia; mergulhada em seu tédio e melancolia sem fim. Uns cruzam meus olhos; outros me tentam ultrapassar com o celular no ouvido. Onde vão parar? Quanto tempo eles terão? A cidade me devora, lembrei-me de uma canção... Andar agora me faz mal, com os porquês que me entopem.

Por um instante, eu só queria ser servido desse entendimento. Eu, como os outros que estão desse lado da vida, não pedi para estar aqui. Vim porque vim; vim sem convite; vim porque a vida deve ser missionária, talvez; vim porque todos têm que passar por aqui — o caminho. Vim de um gene contrário; não como animal ou inseto, mas com um cérebro evoluído. Seja esta a grande angústia e viver a se inquirir. Cá estou e onde está Deus que não vejo? Em tudo que zunia, fui pensar no tempo que temos; no tempo que nos resta. As horas passam; e os segundos, nem se fala...

Tente resumir sua vida em um dia. Você nasce à zero hora e morrerá 24 horas depois. Uma vida de mosca doméstica (elas vivem um pouco mais). Foi o tempo que lhe deu o Criador: somente 24 horas para viver como Ser Humano. O que fará com seu tempo? Agirá da mesma forma com o tempo que pensa ter, da longevidade da morte distante? Quando o cachorro do seu vizinho começar a latir, irá pular o muro e agredi-lo? Interfonará à portaria, pois sua vizinha do andar de cima usa um aspirador de pó bem na hora da sua siesta? Brigará? Roubará? Corromperá? Matará? Mentirá? Fará maldade, ou usará o seu mísero tempo para fazer o que pode ser melhor para você e os que te cercam? Lembre-se, você só tem poucas horas. Talvez fosse melhor ter um cérebro de mosca ou não pensar no fim tão próximo.

O tempo é o causador de tudo que fazemos com nossa vida; achamos controle sobre ele e não temos, na verdade, nenhum; achamos que somos indestrutíveis e iremos sair ilesos pela porta dos fundos, também não somos; achamos que chegaremos à velhice, como bônus da vida, e teremos tempo antes para dizer: perdão pela vida mundana que muitas vezes vivi. A morte parece distante, longe do nosso ideal de vida. Não penso nela, pois é melhor ver o amanhecer a me encher de esperança, do que me deitar com ela; então, deixo que chegue como um ladrão que me arrebata na noite escura.

Vejo, por exemplo, os jovens que morrem em acidentes de trânsito. Morrem porque veem a morte muito distante da aurora da vida; morte não entra nos assuntos das rodas. Mal sabem que essa sombra vive rodeando suas vidas, como um cão faminto - dizem alguns especialistas. Veem a morte mais próxima, sim, do avô que balança em sua cadeira na varanda; já a juventude que goza de plena saúde, de músculos fabricados em academia, é uma viagem sem fim. Só não vão perguntar quantas vezes, aquele pacato velhinho, já esteve à beira do precipício; quantas vezes, ele teve que parar para pensar mais na vida e o que estava fazendo com ela. Chegou até ali porque na linha da vida desviou os perigos, no tempo não estava escrito: hora de morrer. Pode ser que a morte nos encontre quando nós mais a procuramos. O tempo é o causador dessa falha de circuito.

Escreveu Rubem Alves sobre a morte de Ayrton Sena: “Enganam-se os que pensam que Senna competia contra os outros. Os outros também desejavam ser heróis, todos saíram juntos, em procissão, como se numa liturgia, a desafiar a morte”. Quem busca adrenalina não quer competir com ninguém; somente há um tempo, o de vencer; tem controle e se deixou na distância de sua morte; pode encontrá-la numa curva da estrada, na entrega de sua dor, ou na pista de fórmula 1.

O grande clássico das telas nos anos oitenta, Blade Runner — O caçador de androides (1982), traz à reflexão, entre outros recados subliminares, o tempo que temos de vida. Sua trama tem como cenário uma Los Angeles de 2019; onde replicantes e seres humanos quase que se confundem nas semelhanças físicas e também nas emoções. Ao mesmo tempo, em que quatro replicantes da linhagem Nexus 6, vão atrás de seu criador com o objetivo de aumentar seu tempo de vida, um caçador implacável os persegue. Ao deparar com o seu criador (Deus), o replicante beija-lhe os lábios e o mata afundando-lhe os olhos por trás dos seus óculos; o criador negou que lhe pudesse dar mais tempo de vida. Na cena final, no terraço de um edifício, o replicante — personagem de Rutger Hauer — se agacha e sussurra suas últimas palavras: “todos esses momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. Antes, ele poupou a vida daquele seu caçador. Um filme para ser lembrando sempre.

A vida de replicantes que vivem somente quatro anos e as nossas, que poderemos viver mais, têm o mesmo mistério do tempo que nos resta e para onde iremos depois. Queremos mais do que nos foi dado. A humanidade e a ciência vivem a buscar alquimias que tentam prolongar a vida humana. É obscuro o mundo que não sabemos se existe depois. Uns dirão que é isso ou aquilo, dimensões infinitas; os de fé dirão que é a eternidade com Deus. Não importa, ninguém quer saber disso agora. Querem viver e muito, correndo atrás do tempo.

Agora meu tempo voa como um puma ligeiro no deserto escaldante; e o tempo de encerrar esta crônica já expirou alguns minutos. Hora de encerrar...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2011.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Espírito empreendedor

Como todo usuário de computador, às vezes preciso fazer uma manutenção ou corrigir algum erro de sistema quando a máquina emperra (em Minas diz quando trem engasga). Não entendo nada, sou apenas aquele que desfruta. O profissional ao qual recorro é um rapaz novo, pouco mais de 20 anos; ele mora num bairro próximo onde eu resido. Um sujeito calmo, atencioso e que gosta de explicar nos mínimos detalhe os defeitos que encontra. Na hora, entendo o que diz, mas logo depois que começo a usar disperso.

Não faz muito tempo precisei que ele fosse até minha casa. Ele marcou um horário e chegou numa pontualidade britânica. Abriu, avaliou, arrumou e cobrou só a visita. Deixou um cartão comigo. Depois precisei dele por causa da bateria de um leitor de livro que tenho, parecia que não funcionava mais. Dessa vez levei até ele. Ele tem uma oficina simples na frente da casa onde mora; aproveitou a garagem de cinco por cinco metros para fazer seus consertos. Observei uma quantidade de computadores abertos sobre a bancada. Uma iluminação ruim, num local meio desorganizado – talvez só para mim. No período que permaneci, ele parou duas vezes para atender o celular, parece que não lhe falta serviço. Ele se transporta numa motocicleta com uma caixa na parte de trás. Deixei o aparelho e ele ficou de me retornar no sábado à tarde. Conforme prometido, ele me ligou no sábado dando uma satisfação de que não encontrara a peça, mas não iria desistir em resolver meu problema. Por sorte, o aparelho voltou a funcionar normalmente e, por hora, não precisei mais de sua ajuda. Ele não me cobrou nada. Não entrego meu computador para ninguém mais, tamanha é minha confiança em uma pessoa, no mínimo, prestativa e honesta.

Toda semana eu levo meu carro para lavar, nem que seja para aquela lavagem rápida, de tirar a poeira – só na lata. Descobri um lavador ótimo. O local fica numa avenida movimentada, mas sem publicidade, somente um banner escrito “lavador”. É um terreno enorme, onde funciona também uma garagem para caminhões. Não importa a hora que chegue lá, o proprietário sempre para de fazer o que está fazendo para me atender. Às vezes, quando está ocupado, ele chama um funcionário. A lavagem simples custa 10 reais, mas ele capricha; com um spray de óleo nas partes específicas da ferragem e tinta preta nos pneus. Depois de lavar, ele enxuga. Sempre com uma conversa boa enquanto faz o serviço. Diz que seus filhos menores o ajudam, mas prefere a escola em primeiro lugar, quer que sejam estudiosos – talvez porque não tenha estudado. Somente a menina ele não trás, acha que não é serviço de mulher. Ainda pretende instalar um trailer para vender lanches e bebidas num canto do terreno. Sempre com muita disposição, trabalho e com as ideias à frente. Ele também é jovem.

Outro dia andava por uma feira e encontrei-me com o Ivan. Chamei-o pelo nome como há 20 anos. Ele me olhou assustado debaixo daquele guarda-sol do seu carrinho de picolés. Sorriu e quis saber de onde eu o conhecia. Ele era vigia na agência bancária na qual trabalhei – faz tempo. Naquela época, ele andava numa bicicleta com uma cesta, e carregava uma caixa de isopor com salgadinhos e quitutes que sua mulher preparava. Antes de entrar para o trabalho, Ivan vendia seus salgadinhos no estacionamento do banco. Agora, o encontrei vendendo picolés em saquinho plástico, esses que chamam sacolé. Pelo tamanho da embalagem – grande – há mais picolé do que se fosse ao palito. Ele ainda me mostrou que o leite condensado está no fundo do sacolé, fazendo um dégradé com a cor amarelada do maracujá. Perguntei se era de sua fabricação, ele assentiu: “Minha mulher faz. Temos uma pequena fábrica de sorvetes e picolés. Ela faz e eu vendo”. Mesmo com a pele queimada pelo sol escaldante do dia-a-dia, alguns riscos nos cantos dos olhos, o sorriso de Ivan é o mesmo de 20 anos atrás. Ele deve amar o que faz.

Poderia parar por aqui com essa história do Ivan (me emocionei ao encontrar com ele), mas antes me veio outra lembrança. Ainda há muitos jovens – graças a Deus – dentro das escolas sonhando com um futuro, em ajudar a si e ao seu país. Querendo ser bons profissionais e inovando; buscando alternativas para uma vida sustentável e mais feliz. Vi numa matéria de um jornal local, um grupo de alunos de uma escola técnica da minha cidade, ganhou um prêmio pela criação de um reciclador automático de garrafas pet. Mesmo não os conhecendo, fiquei orgulhoso; seus pais devem ter ficado muito mais.

Bem diferente daqueles estudantes que invadiram e depredaram a reitoria de uma Universidade, só para ter o direito ao uso de drogas no Campus. Ainda bem que esses mimados são minoria; o mundo e o futuro cuidarão deles. Só valem pelo esperneio que fizeram. O espírito vencedor está mesmo nos verdadeiros homens, esses que estão na rua vendendo sacolé com sorriso no rosto.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / novembro de 2011.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dessa vez é para sempre...


Alguns leitores já devem ter ouvido esta frase: “Dessa vez é para sempre”. Ou, “Dessa vez é pra valer”. Muito presente no vocabulário de quem está vivendo uma nova relação, como quem resolveu dar mais uma chance para antiga. As idas e vindas do amor, como assim cantou Roberto Carlos: “Eu que sempre fui tão inconstante / Te juro, meu amor / Agora é pra valer...”.

Após o desastre da relação anterior, dizem que, a melhor forma para sepultar ou pôr uma pedra em cima, é viver uma nova paixão. E sempre quando iniciamos uma nova relação, os primeiros dias são de descobertas, das qualidades infinitas, das coisas em comum; uma nova música tocará naqueles encontros ao luar, com fadas, sininhos e harpas. Estarão mesmo vivendo um momento de torpor, do sexo bom, de pernas bambas e alegria incontida. Ela foi feita para mim; nascemos um para o outro, dirão.

Os dias passam e começam a perceber que a outra pessoa vai perdendo o encantamento; que tudo que imaginou, ou projetou nela vai se desmilinguindo. Os olhos já não têm o mesmo brilho; aquele ardor se esfacela. Já não está inebriado com sua voz. Acabou a fase do encanto. Uns deixarão a relação pelo caminho e simplesmente dirão: “não deu química”. Outros irão extrair o sumo, ou na verdade, enxergar o que está por trás daquela pessoa que cruzou o seu caminho. Ela tem algo mais do que o encantamento que se perdeu nos olhos.

Receio o destino das relações, quando alguém me vem dizer que encontrou a sua cara-metade, sua alma gêmea. Fico estático esperando a próxima notícia, ou aquela frase que poderá dizer de partir para outra, pois não foi dessa vez. Os anúncios das pessoas sobre si são sempre mentirosos. Na outra ponta, tem aquela que irá dizer: “ele fuma e é um ateu convicto, mas tem um bom caráter e uma integridade impar...”. Esses têm mais chance de progredirem no amor. De cara, ela já identificou o que não gosta nele, mas percebe-se a alma, o seu lado bom de conviver. Vai extrair o sumo.

Conheço casais que estão junto mais de vinte anos e nunca se casaram; nunca passaram perto de um cartório ou de uma igreja. Simplesmente resolveram andar juntos, na mesma passada, olhando para o mesmo horizonte e sem pressa de chegar. Há outros que conheci que namoraram por anos, depois planejaram um casamento cheio de pompas, mas a relação não durou muito tempo. Não há explicação. Está certo que, há casais que se casam porque é única forma oficial de se separar, como já ouvi uma vez de uma pessoa: “eu tive de me casar com ela para conseguir-me separar. Antes ela não aceitaria...”.

Com os desfechos do primeiro e do segundo casamento, é melhor não mergulhar novamente em outro. É necessário o tempo do arrefecimento, da calmaria no peito. E por isso, acredito que o tempo da espera, o tempo do “enquanto o amor não vem” é mais importante. É quando cuidaremos de nós sem a presença de outra pessoa. Suportar a si primeiro é regra para se relacionar com alguém. E quanto tempo pode durar isso? Difícil mensurar. O tempo da secura poderá durar meses ou anos. O importante é não ter pressa e assim confundirmos tudo novamente, fazendo repetições. Esvaziar-se do sentimento anterior, da dor da mágoa. Nas condições que muitas vezes deixamos uma relação, ao atracarmos com a primeira pessoa que cruza o caminho, fatalmente não dará certo; é essencial fazer a limpeza antes. Para uma nova relação amadurecer, é preciso desistir as agruras e fazer a escolha certa; tolerar, ter paciência, compreender, resignar... Tudo irá complementar.

Enquanto ele crescia dentro da empresa, ela se apequenava nos serviços domésticos, lavando, passando, cozinhando. Ele nunca fez elogio da casa que encontrava quando chegava. Ele andava estranho nos últimos dias e ela farejava que ele tinha outra, e tinha. O divórcio veio como um relâmpago. Ele saiu de casa e foi formar uma nova família com a moça com a qual trabalhava; essa estava na segunda pós-graduação; com ele fazia cursos de línguas e se falavam o dia todo. Casaram-se e logo os filhos vieram. A ex-mulher voltou para casa da mãe; foi recomeçar a vida onde nunca havia imaginado. Saiu para o mercado de trabalho, aos 35 anos e sem experiência nenhuma. Ralou, chorou, sofreu, ganhou peso. Dos bens materiais, só lhe restou a pequena casa que hoje aluga. Trabalha num subemprego e leva marmita para almoçar. Ainda bem que não teve filhos. Da próxima vez não errarei mais, disse ela.

Muitos se lembrarão de casos análogos, com a história que acabei de narrar, ou se verão dentro dela. De mulheres que casam com maridos intelectualmente mais adiante do que ela, ou vice-versa. Daquele modelo de família patriarcal, onde homem trabalha e mulher cuida de casa, já não há mais chance de prosperar. A analogia que faço é da escada que subimos com quem está ao nosso lado. Ele enxergou na anterior, uma pessoa que não estava mais ao seu alcance, no mesmo patamar. Já a colega de trabalho, ele a percebia na mesma direção e degraus próximos da escada que subia. Depois uma atração aqui, um olhar ali, e enfim o despertar.

É preciso também ter percepção do time da relação, a hora de partir sem deixar sequelas. Ninguém tem o direito de ficar aporrinhando a vida do outro. O amor acaba, posto que é chama (já disse o poeta); e as chamas se apagam aos vendavais das janelas abertas. Felizes os que apaziguarão os ventos e ainda viverão até onde a morte os separa, mas na maioria das vezes acaba mesmo antes. Isso não há mal nenhum. Só o trabalho de recomeçar.

Lembra-se de quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era para sempre? Sem saber que, o “para sempre”, sempre acaba.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / novembro de 2011.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Futebol, religião, mulher...

Há coisas que não se discutem, dizem alguns apartadores de brigas, da turma do “deixa disso”. Futebol, religião e mulher. Será?

Futebol
O futebol, por chiste, se discute e muito. Que graça tem em ter um time e não falar dele, nem quando está mal no campeonato? Que graça tem chegar ao trabalho, depois do seu time ter vencido, e não tirar um sarro de alguém? Que graça teria os programas esportivos, se não houvesse as discussões, as polêmicas? A bola entrou ou não? Nenhuma graça. O futebol subsiste em razão também das discussões.

Quando saio à rua com a camisa do meu time, sempre alguém irá dizer algo, ou me chamar somente de “o palmeirense”. Gosto disso. Aproxima, trás a conversa, cria-se intimidade, cria-se amizade... Não tenho essa paixão desvairada, e quando é para falar mal eu falo, até por qual eu torço. Teimo ainda, as famílias deveriam ser formadas por membros com torcidas opostas. A discussão no futebol deve existir num ambiente saudável, sem brigas de arquibancadas com fraturas expostas. Abomino as brigas e louvo o futebol com discussão de pontos de vista.

Religião
No campo da religião, não há o que discutir. Todas têm razão. Faça uma experiência, se você entrar em algum templo - que nunca foi -, sairá de lá convencido que aquela é a melhor doutrina a seguir, o melhor lugar para frequentar. Nos novos templos, não te deixarão sair sem esse convencimento. Eles irão recebê-lo com sorriso na porta, como se você estivesse entrando numa agência bancária. É uma disputa por fiéis, e porque não, também por poder. Deus é a maior moeda que reina no mundo. Todo mundo quer vendê-lo à sua maneira, até porque não é visto por aí dando explicação de Sua existência, embora todo mundo busque para suportar sua própria cruz. Em troca dessas graças, provará sua fé, em muitos casos, com seu dinheiro.

Tenho amigos de outras religiões, ou que seguem algumas doutrinas. Resumidamente, cristãos e espíritas. Algo contra? Nenhum. Há gente boa em qualquer religião; há gente boa sem religião nenhuma também. A religião não é o termômetro que mede a bondade ou a maldade humana. Há gente fazendo coisas absurdas em nome de Deus; como o traficante que lia a Bíblia e empunhava um fuzil em outra mão, quando dava entrevista à jornalista. E dizia: eu sou cristão, leio a Bíblia.

Na linha do extremismo, temos o islamismo muçulmano, pouco conhecido por nós ocidentais, mas já vimos fazer barbaridades por sua causa, sua fé. O que dizer deles? Estão fundamentados em culturas que não chegam até nós. Respeito sem tocar.

Eu tenho a minha – Católica Apostólica Romana – e não fico tentando convencer ninguém ter aulas de vida com padres é melhor do que pastores ou rabinos. Para mim é uma questão, antes de tudo, de respeito à minha formação, à memória de meus pais, às tradições dos cultos que aprendi com eles e seus antepassados. Em ter que confrontar com certas regras dentro da igreja, procuro extrair o que é bom. Gosto de ir à missa, preferencialmente aos domingos pela manhã. Sinto-me bem, vendo a igreja naquela comoção de oração e cânticos sem fim. Deus está ali, não tenho dúvida.

Houve o tempo que as missas eram chatas, com padres velhos que falam coisas que não entendíamos. Os ponteiros do relógio demoravam a rodar. Hoje as missas melhoraram no aspecto de tratamento aos fiéis, com acolhida. Mais conforto, padres modernos e que estão nas redes sociais, sorridentes. Missas, cultos, reuniões e Deus; com humor, graça, devoção e fé.

Mulher
Uma amiga polarizou uma discussão comigo (pra que discutir com madame?). Quem é mais bonita, Jennifer Aniston ou Angelina Jolie? Coincidência ou não, uma esteve e outra está nos braços do mesmo homem. Ele poderia dizer melhor do que nós. Bem, ela teimou em Angelina e disse que Brad fez a melhor escolha. Pode ser verdade, mas até onde posso extrair (com os olhos), parece-me que Angelina tem uma beleza estática, retilínea, opaca; uma pintura de quadro, de uma Monalisa do século XXI. Apesar de ser linda, acho um tanto aplacada. Já em Jennifer, eu vejo aquela coisa da beleza em movimento, graciosa e cheia de charme. Se for mal-humorada ou não, não posso dizer. Só a vejo em suas comédias; e ela só afaga meus olhares.

A beleza e seu padrão são universais, como podemos ver no concurso de Miss Universo. Não existe beleza diferente, em países diferentes, hemisfério diferentes, regiões diferentes, continentes diferentes... O padrão de beleza é mesmo universal. E a beleza está na mulher e com a mulher. O concurso de Mister Universo não tem o mesmo peso do Miss Universo. Por quê? Tanto os homens quanto as mulheres preferem o padrão de beleza feminino. Ou, alguém já viu um bando de mulheres se reunindo em casa, com cerveja e petiscos, para ver Mister Universo? Acho que as TVs nem transmitem. Homem não discute sobre homens belos. Por que ele vai ater-se, se ele pode apreciar obras mais bonitas, as mulheres?

Agora, não há "beleza interior", porque beleza está no olhar. Segundo o dicionário Larousse: Be-le-za, sf (belo+eza)1 Qualidade do que é belo, conforme um ideal estético. 2 Harmonia, perfeição de formas. 3 Mulher bela, sedutora. Aquilo que adoça os olhos. Não vemos (com os olhos) o coração; sentimos com o coração, o coração. Portanto, não existe beleza interior. Beleza é aquilo que se vê; não o que se sente.

Outro exemplo, quando olhamos uma flor linda no jardim; iremos admirá-la por sua beleza e não pelo que tem em sua seiva. A beleza é a primeira coisa que nos chama atenção. Se há num jardim, uma rosa linda e uma touceira de alcachofra, ninguém prestará atenção na "beleza interior" da alcachofra (que faz bem à saúde); iremos olhar primeiro a flor que está ao seu lado... Não existe beleza interior nas pessoas; existe a bondade, o que também não deixa de ser uma atração. Beleza não é sinônimo de bondade, embora alguns dicionários ainda tratem tudo na mesma etimologia.

Acrescento à beleza, charme e bom-humor (já escrevi em outro texto). Uma mulher bonita deve ter o andar bonito, com charme e elegância; seus olhos (azuis, negros, castanhos, verdes esmeralda...) devem olhar com sedução e resplandecer; ao se expressar, deve falar e sorrir com a mesma boca, como se ouvisse a piada mais engraçada do mundo. Quando fazia ensaios de cenas para seu último filme - não terminou - "Something's Got to Give", Marilyn Monroe andava pelo set e ria com gargalhadas para a câmera; sem motivo aparente, apenas porque era focada e nada do que expressava serviria ao filme. Era só um teste de câmera. Era seu momento de luz e esplendor.

No conjunto da beleza, formará um grande ser humano, se além de tudo isso, tiver a bondade em seu coração, a "beleza interior". Tem algo mais para discutir?

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2011.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Discussões sem fim

“Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra que discutir com Madame”

Por duas semanas seguidas, o Professor e filósofo Luiz Felipe Pondé repetiu o tema em sua crônica semanal no Jornal Folha de São Paulo. Qual era o tema? A beleza. Alguém, a quem chamou de “corretinhos”, o pautou na semana anterior, não anuindo sobre o que disse. Pondé tem uma escrita que aprecio. Ele escreve com o dicionário da lógica ao lado. Coincidência ou não, escrevi sobre a beleza também e volto escrever de novo.

Há discussões que são homéricas e podem parecer que não levam a lugar algum. Mas não deixa de ser prazeroso discutir certos tabus. Há pontos de vistas diversos. É só ler os comentários, sobre qualquer assunto, das pessoas nas redes sociais e noticiários na internet e verá os diversos pontos de vista. Poderá até mudar sua opinião em frações de segundo.

O Facebook criou uma ferramenta interessante que é o “curtir”. Se você gostou do que o amigo escreveu ou postou, você clica “curtir”- com o polegar para cima. Já o “não curtir” não existe. Claro que não deve existir. Se você não gostou, não precisa dizer, é só desprezar, ainda mais porque irá entrar em quintal alheio.

Meu próximo texto que deixarei aqui no Blog (com área para comentários) vai tratar de três assuntos polêmicos: futebol, religião e mulher. Claro, sob a visão deste escriba e de nenhum outro. Uns poderão dizer “curti”, outros poderão me mostrar o polegar para baixo. Fazer o quê? Ainda não consigo ser unanimidade. Sexta-feira neste Blog: Futebol, religião, mulher...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2011.

domingo, 16 de outubro de 2011

Com quem será?


Não existe lugar melhor para levantar assuntos polêmicos do que uma mesa de bar. Ali se deixam opinar; não existe censura ou repressão, e muitas vezes há choros — com revelações surpreendentes. Um verdadeiro divã para psicanalista; e nem precisa de uns goles a mais, as palavras brotam por si só.

Outro dia, numas dessas conversas de botequim, quando falávamos sobre educação e criação de filhos (havia pessoas conhecedoras do assunto), veio a mim uma questão que expus. Por que virou costume em festas de aniversários, além do “parabéns a você”, cantarem o constrangido hino “com quem será”? Digo que é constrangedor, porque os puxadores se esquecem de que estamos ali para homenagear, celebrar e não constranger alguém. Se for mulher ou homem, casado ou solteiro, adulto ou criança; não importa, será escarnecido. Ou, pagará o mico. Para muitos, não passa de uma brincadeira, mas nem sempre é assim. No caso da criança, é uma forma de bullying (intimidação). Por que não?

Quando era criança, nas festas infantis, havia tão somente o “parabéns a você” seguido de um grito uníssono do “pra fulana nada? Tudo! Então como é que é. É pique, é pique, é pique é pique. É hora, é hora... Rachi bum, fulana, fulana!” Pronto, o aniversariante era homenageado, saudado, ovacionado; e não constrangido no dia do seu aniversário.

Quando chegou a era do “com quem será” — não me pergunte quem criou essa tolice —, presenciei algumas festas infantis. A criança, roxa de raiva ao ouvir aquilo, escondeu-se embaixo da mesa; houve casos onde ela saiu correndo, procurando um buraco para se enfiar; em muitos, ela fazia sinal negativo com o dedo; com gargalhadas dos convidados, inclusive dos pais. Isto é penoso demais, é coação. Não só isso, mas a incitação à precocidade, de aos 10 anos de idade, ter que cumprir aquilo que ainda não está no seu script: corresponder-se sentimentalmente e sexualmente com a garotinha que está na ponta da mesa. É pior que o despejo de ovos na cabeça no portão do colégio.

Até os meus 12 anos, ainda tinha hábitos infantis, como empinar pipas, futebol de rua, carrinhos, esconde-esconde, pega-pega; brincadeiras verdadeiramente infantis. Não era cobrado por ser adulto. Mesmo quando entrei definitivamente na adolescência – com um pequeno trauma de deixar a infância, como muitos – fui respeitoso com esse processo. Somente nos meus 15 anos, eu comecei a interessar por alguma menina. Disse interessar, isso não quer dizer que a abordei ou a encostei na parede tentando arrebatar-lhe um beijo. Além do que era tímido.

Psicanalistas irão dizer que a sexualidade já está no ser humano nos primeiros dias de vida. A sexualidade e não o sexo, diga-se de passagem. Como a necessidade de se alimentar ao levar os dedos à boca; são descobertas. Mas estimular o sexo, pulando etapas, poderá gerar um choque na formação do indivíduo. Não sou estudioso, mas é o que penso. Abomino essa precocidade.

Faz um ano li nos noticiários, que o governo brasileiro, não sei precisar qual ministério, queria disponibilizar nas instituições públicas de ensino, máquinas para distribuição gratuita de preservativos. Recentemente, vi que a ideia absurda, ainda está em pauta. Como já disse a amigos, mais uma vez o governo quer entrar em nossas casas para dizer como devemos educar nossos filhos, na vida sexual também.

Poderão alegar o crescente número de adolescentes grávidas. Mas isso não é a melhor maneira de diminuir o risco; sim, pode ter o efeito contrário, estimular o sexo numa idade onde não existe o preparo. Volto ao que já venho afirmando, a família deve sim orientar e educar nesse tema; pais (casados ou divorciados) devem educar seus filhos nas questões e tabus sobre sexo.

Imagina uma máquina dessas na frente de um pré-adolescente, ali nos seus 12 anos de idade. Ele ficará constrangido em ter que apertar o botão da máquina na frente da plateia de amigos. Se apertar, ficará constrangido por ficar com o envelope guardado na mochila por muito tempo; irá querer usar, ou será intimidado por outros a ter que usar. O mesmo ocorrerá com as meninas. No fim, as escolas virarão um atalho obscuro ao sexo precoce e sem limite. Com permissão.

Depois dessa infeliz atitude, não ficarei surpreso, se obrigarem as escolas a terem salas para tratarem necessidades sexuais dos alunos; com luz ambiente e música para relaxar. Isso é pior que “com quem será” nas festas infantis. E haverá pais que ainda acharão graça, como fazem vendo seus filhos sendo constrangidos em frente ao bolo de aniversário.

O sexo, assim como o amor, deverá ser aflorado naturalmente em qualquer indivíduo, como um sol que raia o dia em meio à escuridão. Sem o intrometimento e a imposição das vozes de um “com quem será”. É preciso respeitar as crianças e a infância.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Misoginia


Foi instantâneo. Ontem, quando entramos num restaurante, ao deparar com a mesa ao lado, com pelo menos uns oito homens (só eles), lembrei-me de um texto, publicado no jornal Folha de São Paulo em 2005, da escritora Danuza Leão. Eu não sabia o que significava Misoginia (sf (miso1+gino+ia1) Med Antipatia, aversão mórbida às mulheres. Antôn: filoginia.). Quando vi a cena, comentei com uma amiga. Depois fui encontrar o texto, segue abaixo:

Na semana passada fui jantar com um amigo num restaurante elegante do Rio, e tivemos que esperar no bar até que vagasse uma mesa. Fiquei, então, prestando atenção: havia três mesas redondas, cada uma delas com seis homens. Seis; todos bonitos, elegantes, alguns famosos e cobiçados , nenhum gay.
Um jantar de seis, num lugar em que é preciso reservar mesa, não se combina meia hora antes, tipo "está fazendo o quê? Vamos comer alguma coisa por aí?".
Não. Um jantar de seis é organizado com alguma antecedência, vários telefonemas são dados para saber se todos estão livres, se estão de acordo quanto ao local, marcam a hora, um deles telefona para fazer a reserva -é uma produção, praticamente.
Eu e meu amigo tomamos dois drinques no bar, com toda a calma; quando vagou uma mesa, nos sentamos, houve o momento -longo- de escolher o vinho, pedimos uma entrada, o prato principal, sobremesa, depois veio o café, a conta, e fomos embora. As mesas continuavam animadíssimas, os rapazes conversando e bebendo. Voltei para casa pensando no assunto e fui ao dicionário buscar a palavra na qual estava pensando, para ver se ela estava certa: estava. Existe um tipo de homem que prefere a companhia de amigos a estar com uma mulher; são os chamados misóginos.
Segundo o dicionário, misógino é aquele que tem aversão a mulher. Talvez aversão seja um exagero, mas que eles -nem todos, nem todos- estão preferindo sair entre eles, viajar entre eles, conversar entre eles, sem uma só mulher por perto, é um fato incontestável. Como tenho muitos amigos homens, comecei a fazer uma pesquisa básica para saber o que está acontecendo e obtive vários tipos de resposta; algumas bastante francas, outras nem tanto assim.
Um deles se assustou e disse que não é seu caso; que tem várias amigas e adora sair com elas. Amigas, tipo amigonas. Com elas podem falar do que querem, não são censurados se fizerem um comentário sobre a gata da mesa ao lado, se disserem que não têm paciência para namorar.
Outros foram mais claros: quando saem para jantar, tipo três casais, as mulheres implicam entre si, uma diz que a outra estava dando bola, que aquele decote é coisa de piranha; na ida para casa vão falando mal das duas outras, que o casal tal não está tão bem assim, e a ladainha vai até a hora de dormir. Fora, é claro, a complicação na hora de escolher o que comer: isso engorda, sobremesa nem pensar, beber nem por hipótese, pois têm ginástica na manhã seguinte. Por tudo isso, preferem sair com os amigos. Alguns disseram que viajar com mulher nem pensar, que elas só pensam em comprar e que não têm assunto. Já quando estão entre eles, a conversa rola solta, e às vezes falam até de mulher -mas do jeito que eles gostam.
Enquanto isso, elas estão em casa, sem ter o que fazer, repetindo o mesmo refrão "não tem homem na praça". Ter tem, só que eles preferem sair sem elas. Durma-se com um barulho desses.
Lembro de um tempo em que os homens faziam qualquer coisa para sair com uma mulher e diziam galanteios nas mesas de bar, no mínimo para chegar onde queriam: na cama. Se não conseguissem, continuavam tentando, com a mesma ou com outra, e achavam um prazer estar com uma mulher; um prazer acima de todos os outros.
Pobres das mulheres de hoje em dia. As mais modernas, quando estão sozinhas, saem em grupo, mas só têm um assunto: homem. E ficam olhando para as mesas em volta para ver se pinta um olhar, uma paquera, uma possibilidade qualquer. Mas há séculos um homem não manda um torpedo para a mulher da outra mesa; e se algum mandar -e colar- que tudo aconteça rápido, de preferência sem muita conversa.
Por isso, minha amiga, antes de se apaixonar de novo, repare bem se seu objeto de desejo curte estar com uma mulher ou se passa a vida em turmas de homens.
Porque se ele for um misógino, você pode até se casar, o casamento pode até durar, mas estará condenada a passar a vida com uma aliança no dedo mas, a maior parte do tempo, só.

Danuza Leão , publicado na Folha de São Paulo em 30/10/2005.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

As feias e as belas

Uma das constatações mais verdadeiras é a falsa amizade entre duas mulheres... Pronto! Lá vem um exército de feministas me apontar: você é um machista! Nada disso, sempre acreditei e continuo. Claro que falo daquelas grudentas, siamesas. Já disse isso, várias vezes, a elas mesmas, e nenhuma me contestou ou colocou um “ops!” sobre esta observação. Algumas até reforçaram a tese; outras se calaram e olharam de esguelha, a lembrar-se (com ódio) de alguma falsa amizade que vivenciaram.

Na época da faculdade, eu e um amigo, fazíamos apostas para ver quanto tempo duraria uma amizade entre duas inseparáveis criaturas do sexo feminino. Toda vez que uma declarava amor eterno à outra, nossos olhares se procuravam por trás das cabeças, para um risinho disfarçado e incontido. Na maioria das vezes, aquela paixão de super amiga pra cá, queridinha pra lá, durava até uma delas se interessar por alguém - por um homem - que a outra também se declinava. Ou simplesmente, quando uma não concordava com o ponto de vista da outra; ou por inveja da beleza, dos sapatos, do vestido, dos brincos, das outras amizades. Ia se arrefecendo, sem ressentimento; e tudo se transformava num simples “oi”, quando se cruzavam pelo corredor.

Iremos nos defrontar, com alguns casos de amigas que, surrupiaram parceiros de outra suposta amiga. Acontecem ainda. O mesmo não ocorre, na mesma frequência, com os homens. O código da ética masculino não deixa chegar nesse ponto. Homens são mais corporativos; eles preservam-se mais nas amizades, deixando a coisa não entrar em total intimidade. Baseiam o rito da amizade, em conversas sobre futebol, corridas, trabalho, jogos de sinuca... Um homem não vai dar em cima de outra mulher, que esteja no vácuo de um amigo próximo (isto não é uma regra, e tem suas exceções). Homens também não vão conversar, em mesas de bar, sobre suas intimidades com uma mulher, que já virou parceira, companheira. Eles irão contar, muito pouco, se for uma “ficante”, ou sobre um sexo eventual com algum objeto de desejo. Eles não se interessam por ficar falando sobre intimidades.

O mesmo não ocorre com as mulheres. Ela irá contar como foi a última noite com o marido, ou namorado. E conta em detalhes para suas amigas. Depois de vender o seu parceiro às amigas, não quer que elas passem a olhar o rapaz, sem pensar nas suas performances, que ela mesma descreveu. Está a um passo para um desfecho com brigas de puxar cabelos e unhadas acima da cintura. Quase sempre, quando isso ocorre, perderá a amiga e o parceiro.

A amizade grudenta entre duas mulheres não é tão duradoura, porque elas vivem em concorrência; disputa em ser a mais bem aceita nos ambientes que frequentam e por holofotes, quem brilha mais. Não me julguem por querer chutar a canela de alguém, há diferenças antagônicas entre os sexos. Homens e mulheres vieram de galáxias distintas, já disseram alguns escritores da área comportamental. Mulheres com defeitos e homens também. Homens travam lutas e disputas iguais, principalmente em ambientes de trabalho.

Já ouvimos dizer por aí que, mulheres não se vestem para agradar o parceiro e sim para ser observada (invejada) por outra mulher. Algumas concordaram nesta tese também. Um homem – nem todos – não irá reparar no cabelo, nas unhas, nos sapatos, no vestido... Ele resumirá o conjunto todo em: você está linda! Pronto, acabou. Já a outra, esta irá medi-la de cima embaixo, dividindo-a em partes; e mesma a mais bonita, irá observar o que a outra não tem de si que a torne tão atraente.

- Sou mais bela! - Dirá ao espelho do banheiro feminino.

Em seu poema “Receita de mulher”, Vinícius de Moraes causou furor, quando afirmou logo na primeira frase:
“As muito feias que me perdoem / Mas beleza é fundamental”.
Segue depois, em sua receita, numa repetição exaustiva de “É preciso”; como um desejo ansioso, incólume da mulher ideal, com predicados de santa no altar. Destaco outro:
“Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras / É como um rio sem pontes. Indispensável”
Talvez, uma mulher nunca saiba que, um homem irá observar se tem ou não saboneteiras. Parece tosco para elas, mas esse olhar é o masculino e não da amiga invejosa; como ter pés e mãos delicadas. Alvos, impecáveis e banhados em sândalo; sem marcas, calosidades; perfumados com ervas aromáticas (Pés e mãos devem conter elementos góticos. Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos). Isto não quer dizer que tenham, necessariamente, esmalte e cutículas em dia; mas têm que ter a delicadeza alva. Já vi pés lindos sem ornamentos, somente a tez alva, quase transparente.

Nessa receita do poetinha, com tantos ingredientes, faltou dizer com que tempero. Ou seja, o melhor da receita ficou fora; o tempero final é o que dá sabor em tudo. Entenda tempero, como humor e simpatia.

Sob essa ótica da beleza feminina, uma notícia repercutiu por esses dias. A ministra Iriny Lopes, titular da pasta da Secretaria de Políticas para as Mulheres, entrou com pedido junto ao Conar — órgão que regula a publicidade nos veículos de comunicação —, solicitando a retirada do ar de uma série de comerciais sobre lingerie, protagonizados por Gisele Bündchen. Num dos filmes que vi, Gisele usa uma lingerie preta e termina com a frase “Você é brasileira, use seu charme. Hope, bonita por natureza”. O que há de apelativo no filme? O que há de ofensa à mulher? Nada! O que incomodou a ministra foi a beleza de Gisele, só pode ser! Talvez, a ministra — que já não cabe na receita de Vinícius — sentiu-se ofendida por alguém ganhar dinheiro trabalhando, por causa da sua beleza; já Gisele é uma receita farta, com ingrediente que sobeja até Vinícius. Em porções exageradas, como um extravagante banquete de mulher. E não lhe faltam saboneteiras.

Nada de errado com os não-belos. Os belos tiram proveito, como os feios também podem tirar de sua aparência. Podemos enumerar personagens de filmes e séries, onde os que chamam atenção são os feios. Os personagens Shrek e Fiona, são ogros e feios demais para atrair tanto público aos cinemas, e atraem. O que há com eles? Apesar de tudo, são engraçados e simpáticos. A beleza pode estar incutida nas pessoas. Há luzes que emanam delas; a forma assimétrica de um rosto será ofuscada pelo brilho dos olhos. É claro, há aqueles que são completos: belos e charmosos.

A senhora ministra deve ter sido daquelas que, durante a faculdade, desfez suas amizades grudentas, por disputas e discórdias; por ter alguma amiga que atraia mais atenção para si. Despeito? Sei lá. Volto ao poeta, me perdoe, senhora ministra, porque beleza continua sendo fundamental.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2011.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Praquí, pracá, pralá...cadeira, cadeira, cadeira...

O Blog anda preguiçoso, eu sei. Os temas são muitos, infinitos. Saio nas caminhadas e vem sempre algo novo para trazer aqui; às vezes, alguém vem me dizer: olha este tema, sai uma crônica... Sai sim, claro que sai. O próximo texto que escrevo “As feias e as belas”, é um tanto polêmico. Algumas mulheres vão me chamar de machista (odiar), eu sei. Saibam que não é meu objetivo, mas para chegar ao assunto, ser belo ou não, vou ter que por o dedo na ferida, com algumas teses que tenho. Podem ser bobagens, mas elas existem em nossas vidas. Homens e mulheres são de galáxias diferentes, com suas diferenças na forma de encarar a vida. Nenhuma novidade.

Fiquei indignado – como muitos brasileiros - quando a ministra Iriny Lopes, titular da pasta da Secretaria de Políticas para as Mulheres, pediu para retirar uma propaganda do ar por suposta ofensa às mulheres. A estrela do filme é nada mais nada menos que o ícone da beleza brasileira, a modelo Gisele Bündchen.

Em seu Blog, o jornalista Reinaldo Azevedo, comparou a cena com Gisele – de lingerie – com a cena protagonizada pela cantora colombiana Shakira no Rock in Rio; estariam na mesma situação: uma mulher linda e insinuante. Nada mais.

Da apresentação de Shakira, a cena que mais me chamou atenção foi a que tenta ensinar algumas brasileiras, que escolheu da platéia, a dançar descadeirando, ou como ela chamou “Praquí, pracá, pralá...cadeira, cadeira, cadeira...e vai, e vai, e vai, e vai...”. Hum, foi a melhor cena do Rock in Rio. A ministra, poderia achar aquilo também um afronta à mulher; insinuante, incitante, provocante aos homens. Mas não disse nada. As pobres coitadas, Gisele e Shakira, sofrem do mesmo mal: beleza e talento. Isso incomoda.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / abril de 2011.