BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

De volta ao quarto escuro

Algumas crônicas requerem coragem para escrever. Como se uma fratura da alma fosse se expor; um réu confesso de um crime que só você sabe, porque o assassino e o cadáver é você mesmo.

Bem, no caso, não se trata de um crime, mas de velhos segredos (de liquidificador), esconderijos de um poço fundo. Dessas coisas que empurramos para debaixo do tapete do tempo ou, como já disse em outra crônica, aquele quarto escuro no fundo de casa, onde amontoamos nossas memórias e tudo aquilo que negamos do passado: dores, vexames, vergonhas, pobreza, fome e mortes. Há sempre dores na memória prontas para serem reveladas. As dores da fome e da morte são doloridas de lembrar. Então, acobertamos.

Estava esses dias carregando meu Kindle (aparelho de ler livros digitais). Parei na espera do médico, abri, digitei a senha e comecei uma cronica de Nelson Rodrigues. Ele descrevia (confessava) exatamente sobre essas duas negações: fome e morte. Ninguém consegue falar sobre isso, quando tudo ainda está consigo. Só falamos quando já superamos a dor, ela já foi. E Nelson, corajoso, contou de uma infância, do dia que pediu água para beber num botequim. A água não era sua sede, mas sua fome. Era a primeira coisa que punha na boca naquele dia, já às 8h da noite. Dores de fome na infância.

Na mesma contextualização veio a sua lembrança a "Espanhola". Aquela gripe que fez, em 1918 (por todos os cantos por onde se olhava), um amontoado de defuntos. A morte que acostumamos já na infância, e dela aprendemos a não ter medo. Escreveu no final: — "A peste deixara nos sobreviventes, não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. A cidade estava cansada da morte". Coisas de um mundo que essa nova geração (do lado ocidental) não se assemelha e nem sabe que existiu. Somos apartados e poupados do convívio, da cara da morte. As crianças da classe média, que passam Nutella no pão, mais ainda.

Eu testemunhei a primeira morte, ainda de olhar pueril, com certo espanto e assombro. (Testemunhei, não, eu senti.) Ali pelos meus seis, sete anos. Era um menino paraplégico que havia morrido próximo de mim. Morava duas casas da minha. Primeiro, queria dizer que minha tia já havia perdido alguns filhos recém nascidos. E aquela cena de caixãozinho na sala, parecia comum. Como se a cada ano se esperasse um novo enterro para despachar. E lá ia o cortejo, a pé, para uma sepultura branca e singela, como tudo era na nossa vida.

Ouvia os adultos falarem de morte, e eu sempre no meu assombro sem manifestação. Eu era silencioso e complacente. Havia uma fala entalada em mim, sem nunca pronunciada. Ela teve uma filha, que me lembro, durou mais de um ano de vida. Acho que o que levou aquela priminha foi uma meningite. Não pude nem chorar, porque criança não entende muito de perda. A criança, em nós, imagina sempre algo confortável, como um anjo. Era um anjo erguido aos céus. Eu imaginava assim: não há dor quando se vê um anjo.

(O que me recolhe mais ainda para dentro do catolicismo, não é só o respeito aos meus pais que me deram sua religião, mas também esse encontro de vida e morte; de compreensão, na fé, que nada termina, mas, sim, se modifica, se amplia numa extensão de alma. Não há explicação racional.)

Volto ao caso do amiguinho — não vou dizer o nome. Era uma amizade de limites. Explico. Ele não podia fazer as coisas que eu fazia: correr atrás de pipa, pular corda, jogar bola, etc. Mas não havia queixa nos seus olhos; eu amava sua companhia e não enxergava nada nas suas limitações, não havia pena. E mesmo sentado na sua almofada xadrez verde, do quintal, ele "batia figurinhas", empinava suas pipas. Tinha habilidades com os dedos para fazê-las ganhar os céus com rapidez. Coisa que eu não tinha.

Havia, eu me lembro, um carrinho de madeira com rodas de borracha, que nós levávamos seu corpo miúdo para onde queríamos. Até para a escola ele ia no carrinho de madeira. Nas outras vezes era carregado no colo como um recém nascido e quando se sentava no chão, era sempre na almofada xadrez. Suas pernas eram finas, sem carne e o joelhos saltados, sobressalentes, só ossos.

Havia algo mais, suas pernas não se esticavam. Franzino, queixo fino, pequeno para os seus 12 anos, ele ia diminuindo quando as dores chegavam. Atrofiava e a dor vinha em compasso, apertando seus ossos. Uma vez teve uma crise. Primeiro, ele reclamou que o café com leite (era mais leite que café) estava com nata e sua mãe tirou com toda paciência. No dia que um médico foi chamado, eu fui para o corredor, dos fundos da casa, espiar da janela. Vi o médico apertar seus joelhos saltados para baixo. A perna não esticava, o joelho não obedecia. A doença estava se agravando.

Quando veio a notícia de sua morte, recebi resignado, sem choro, porque ninguém chorava naquela época. Era esperada sua hora e todos já haviam chorado por dentro, e muito antes. Alguém em casa ainda comentou:  "tiveram que empurrar seu joelho para fechar o caixão". O joelho não obedeceu nem depois da morte, era rígido. Pus a cabeça no portão, e vi pessoas se aglomerando na frente da sua casa. Não sai dali até que o cortejo partisse. A vida seguiu depois e eu guardei aquele menino no meu fundo quarto escuro, nas minhas memórias de dor e morte.

No dia seguinte (e nos outros) estávamos novamente na rua; nos carrinhos de rolimã, atrás das pipas, da bola, piões, cata ventos, balões e estrelas no céu. O vento no rosto e a camisa xadrez tampada com remendos, e calção de brim grosso. Esquecer quem partiu já era parte de nós. Quem nasce na pobreza, nunca escapará de um "não", de uma ferida aberta (sem Merthiolate), que não nos queixamos da ardência e sangramento. Mas, mesmo na escassez, a vida tem também o seu "sim". Sobreviver é o "sim" da miséria.  E, por acreditar que tudo passa, chegamos à vida adulta. Aprendi, desde então, a ter que aceitar a morte nos pequenos homens como eu era — 7 anos. Era destino, fatalidade. Nunca havia culpa. Por trás de muitas delas havia, sim, a pobreza. Se morre, porque, em muitas vezes, se é pobre.

Certa vez ouvi de uma pessoa (uma mulher) que, ter dinheiro e perder tudo é pior que nunca ter tido nada. Quando acostumamos a não ter nada, não nos importamos com as pequenas perdas. Ela falava de si e estava certa no seu modo de pensar. Aquele que é pobre não se compara a ninguém. Exceto a ele mesmo.

Olho, agora, as velhas fotografias, amareladas e o que chama atenção não são nossas feições (pai, mãe, irmãos, primos), mas as paredes que estavam atrás daquelas silhuetas. Vulneráveis paredes, sem reboco e muito menos tinta. Eram tijolos expostos, com argamassa de terra (sem cimento). Os tijolos de uma fome, uma fraqueza, num sinal crível de pobreza. Quanto mais tijolos vistos e terrenos cercados por taquaras amarradas, maior era a pobreza. Nossas fotografias não escondem nada. Radiografam uma memória: éramos pobres.

Se escapamos da morte na infância, devemos à sorte e não a prevenção e cuidados com vacinas e medicamentos. Um médico, um hospital eram coisas distantes da vida de quem morava periférico do mundo. Os pés descalços, o esgoto correndo pela rua de terra, a água de poço, a latrina, etc. Não havia medo de doenças e de nada. Mas havia algo bom: as balas, o bolinho de chuva, o pão doce com mortadela, o ki-suco, o café com leite e farinha de milho. Havia um olhar de esperança e de não se enxergar na pobreza. Ter a percepção de que algo lhe falta, dói mais. Eu não tive. Eu sonhava coisas pequenas de um mundo pequeno.

Certifico, por fim, não vi a fome, como Nelson, mas a quase fome me avizinhou como um trem fantasma. Quando, na memória, tocamos nossas dores e mortes, é como se palavras se desprendessem ao vento do nosso livro aberto. A voz entalada da infância, que agora se solta, além das cortinas e janelas da alma.  O quarto escuro é o velho passado, cansado de tanta dor, pobreza e morte. Agora escancarado, vasculhado na narrativa. O passado fenece quando falta coragem para tirá-lo da escuridão e expor no meio da rua, à luz do mundo.

"O que não se diz apodrece em nós" — Nelson Rodrigues.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Abril de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os donos do mundo e o show de Truman


Às vezes tenho a sensação que vivemos num engano coletivo, que todos estão numa vida e eu em outra. Questiono-me: será a vida uma grande ilusão e só alguns na realidade? E esses, prisioneiros de uma rede de mentiras sem fim, para si e para os outros? Como no "Show de Truman" e num Big Brother de multidões: malhando o corpo, discutindo tolices, para no final despedir-se da vida, com o riso falso de "foi bom estar aqui". (Há falsidade até na hora da morte.)

E sem mais tempo, no final, descobrirá que a vida não era nada daquilo que viveu. Que o céu não era de papel com nuvens de algodão, e o sol uma luz de feixe âmbar se movendo por controle remoto; e todos os despertados, que tentaram lhe contar a verdade, foram eliminados pelos donos do jogo. Você morrerá inocente, sem conhecer um naco da vida real.

Mas diferente de Truman, meu show é de um mundo verídico e na temperança; sem meias verdades, Faustão e a alienação do riso sem graça, da cara Casé. Enquanto todos me ignoram, eu vejo o mundo que dão às costas (em não querer se defrontar no espelho). Porque é mais fácil virar-se, mudar de canal, de assunto, do que encarar as noites e os dias: do fogo que arde, da fome que assombra, da ferida que se abre, da liberdade ceifada, da lágrima que cai sentida...

Esses (outros Truman) se veem num cenário de ilusões e de vida superficial, rasa e, cenograficamente, assistida por seus milhares de espectadores vazios e sem rumo. Alimentando quimeras temperadas por esperanças vãs. Pobre gente e os donos do seu mundo. 
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Março de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Escort XR-3

No carnaval de 2016 — já faz um ano —, saí por aí guiando meu carro sem destino. Talvez à procura de um restaurante que não me lembrasse folia e pudesse servir um prato rápido. As ruas, como em todos os carnavais da minha vida, estavam fúnebres, desertas, de asfalto quente como um Saara. Mas algo à minha frente me chamou atenção: um Escort XR-3 fumegando.

Aquela imagem ficou, como leite entornado no fogão: um Escort XR-3 pedindo arrego. Imaginei que chegaria em casa, sentaria à frente do computador, para escrever algo sobre aquela cena. Nada. Não vi uma palavra pingar nas teclas, mas a imagem estava lá, como a fumaça entrado pelo para-brisa. Agora, me recordei novamente daquele dia. Acho que era domingo.

Na minha juventude, quando ainda brincava o carnaval — naquele tempo se dizia "brincar" —, eram cinzas mesmo esses dias; cinzas de minha solidão. O carnaval é completa solidão que finda numa quarta-feira melancólica, de joelhos. Do meu porre, da mulher que não deu certo, da dor de cabeça, da boca amarga de tanta ressaca. Hoje, cai como um alívio esses dias; como se, sobre as asas, avistasse um céu azul no horizonte, depois da turbulência.

Não foram tantos, mas alguns carnavais. O confete entrando pelas narinas, o pisão no pé, uma paquera, um olhar, uma serpentina e uma dama. Mas houve aquele que fiquei atrás de uma "fadinha" as quatro noites, esperando que ela fosse me abraçar ao som de "Bandeira Branca". Nada. Nem um sorriso de canto de boca para esboçar. Completamente ignorado. Quando somos jovens, não somos nada. Talvez, um espermatozoide cabeçudo que balbucia e baba. Mais nada. Somos só uns bocós que vivem a imitar o que ouve por aí e os gestos que outros fazem. Eu era completamente um idiota.

E por falar em carnaval — já fazendo um parênteses —, não poderia passar essa crônica sem lembrar dessa sombra negra que paira sobre o século 21: o politicamente correto. Deparo, agora, com a manchete do "Estadão" dizendo que as músicas "Cabeleira do Zezé", "O teu cabelo não nega" e "Maria Sapatão" foram abolidas de alguns blocos de Carnaval no Rio de Janeiro. Entende, por que prefiro a solidão? Por que não me importaria se um meteoro se chocasse contra a Terra? Alguém ainda vai se matar disso e a família vai testemunhar: "foi o politicamente correto. Eu sei, ele tomou veneno por isso."

Voltando. Mas o que me desperta, hoje, nos carnavais, agora mais longe dos salões, é essa minha vontade de estar ausente, a não necessidade de ser alguém na multidão. Sou capaz, hoje, de suportar a deliciosa tortura de quatro noites em completo pensamento. Como se me retirasse para uma cabana nas montanhas. Os filmes, os livros, as crônicas, o café fresco, eis o meu deleite. Anonimamente, ainda me disfarço no sobe-desce do elevador. Mais nada.

A idade me trouxe isso: a minha mais fiel companhia. Dela eu não me desgrudo e não traio. Porque, por muitas vezes, e muitos lugares, o que tem me incomodado ultimamente é a burrice. A mais acachapante burrice. Aquela que ninguém se envergonha de espalhar por aí. Evito os lugares por causa da burrice pujante. Parece que em todo churrasco, festa, carnaval quem vem primeiro é o ser idiota. O primeiro a ser convidado é o que ri à toa. Aquele que é feliz "porque sim". (A felicidade, como a tristeza, não se admite brotar do nada, no oco. Só os tolos são felizes, já disse eu mesmo.)

Já estou no sétimo ano deste Blog. (Um pouco lento, diga-se, mas respirando.) Tento fazê-lo não morrer. Sempre sobra uma única palavra, um "adeus" para dizer na última hora. Eis-me sempre aqui, enquanto a TV está ligada para ninguém, sem ninguém ver. (Mas eu prefiro a música de companhia. Música e letra.). As palavras regurgitam, quando dá ânsia, contra a vontade da alma. Preciso que elas saem para olhar de cima, depois de anos, e dizer: "eu escrevi isso?"

Mas o que queria dizer é: nunca sofri tantas mudanças como nesses últimos anos da minha vida. Precisamente, nos últimos dez (2006 a 2016). A transição dos 50 anos? Talvez. Ah!, a maturidade, como esperei chegar... Meti de cabeça, joguei-me, fiz escolhas erradas, me arrependi do que fiz e depois me arrependi de ter arrependido. Fui escravo do amor, da mulher por quem chorei uma fronha, duas. Depois resignei, enxuguei, afastei e superei. O amor também tem dessas coisas: saber partir de cabeça erguida e aprender.

Algumas coisas deixei aqui, nas escritas, e não quero apagar. Sei que muitas coisas que escrevi, há seis, sete anos, já mudei de opinião — ainda bem! —, mas as deixo registrada, para balizar o dia a dia, decifrar códigos, e me dizer para onde estou indo. Tento evoluir, tirar conclusões de tudo e ir depurando no tempero da vida, nadando contra a maré, encarando a verdade. No pensamento político, nem se fala. Saí do ser idiota que me possuía como um demônio sem inferno.

Se for olhar para trás verá aqui muitas crônicas que, talvez, não escrevesse hoje. Amadureci depois delas; elas me amadureceram mais. E se tornar velho tem disso: tornar-se calmo, paciente com as ideias e com o mundo que não muda da noite para o dia. Fiz mestrado em ser cínico e cordial. E não tem algo mais cínico que ser cordial. Digo "bom dia" ao imbecil, ao idiota, ao esquerdopata. O fato é, descobri nesses últimos anos que há muita gente patinando (sem patins) no ringue do mundo, da sua clara ignorância. Caindo no seu próprio excremento.

Fui pesquisar um nome (hoje é mais fácil encontrar alguém, mesmo na insignificância), porque lembrei de uma história dos meus 12 anos. A alcunha é Rolf Victor Heur. Ninguém saberá de onde vem, se eu não contar a história. Em 1974, quando as labaredas consumiam o edifício Joelma, em São Paulo, as 1500 pessoas que trabalham no resgate  faziam o que podiam. Houve suicídios? Houve. O desespero levou muitas pessoas se atirarem do prédio em chamas. Aí entra a figura de um dos sobreviventes: Rolf.

Está aí um homem a se mirar. Ele, aos 54 anos, ficou 3 horas na marquise, esperando por socorro na maior calma, fumando. Na época, a reportagem da TV disse que ele se posicionou numa janela contra o vento; as línguas de fogo não chegaram nem lamber seu dorso. Depois que o resgate chegou, ele ainda se manteve calmo e só chorou quando já estava em solo.

A vida com maturidade é isso. Você na marquise de um edifício em chamas, contra o vento, fumando um cigarro tranquilamente; olhando os transeuntes, loucos, atônitos e com menor risco que você. Não se matar, não se drogar, não se jogar, mas esperar calmamente pelo resgate. Esperar a hora pela salvação das almas. Mesmo que suas mãos tremam, não pule. Contra o vento, contra o mundo, sem esperar por aplausos ou plateia.
 
O primeiro Escort XR-3 começou a circular no país ali pelo ano de 1985. Já são 32 anos. Como disse no início, vi um modelo na minha frente queimando óleo, e agora entendi aquilo tudo. Sou eu, vagarosamente, rangendo e fumegando por aí também. Resignei: um dia, será o fim de todos nós. Se ele pudesse dizer algo, talvez dissesse: "Já fui jovem, desejado e desfilei nos melhores salões de automóveis. Hoje eu tenho só experiência e a solidão das ruas vazias de carnavais". — Lá vai alguém de respeito — dirá um transeunte como eu.

Um dos médicos que frequento me disse que o corpo humano é como um carro usado, velho. Com o tempo as peças vão dando sinal de desgastes, que precisam ser trocadas. E completou, dizendo das chamadas doenças terminadas em "ite", como: dermatite, esofagite, gastrite, tendinite, pancreatite, etc. Na verdade, não são doenças, mas um sinal que você está envelhecendo, fumegando.

Mas isso (estar fumegando) não me incomoda tanto. Vamos nos acostumando com a ideia do envelhecimento. Escrevi certa ocasião: "Envelhecer é ir deixando o corpo para trás com toda sua juventude para tornar-se somente alma". Os carnavais não me assanham mais, nem as fadinhas. Sinto saudade, sim, dos passarinhos na janela, no pé de laranja no pequeno quintal; do meu quarto sem forro, onde eu e meus irmãos nos amontoávamos — a pobreza é saudade triste. Quando acordava no inverno, nas férias, eu pulava o muro para me esquentar numa fogueira que minha tia ateava no fundo do quintal. Naquela época, eu ouvia pardais e galos cantando. Eu ouvia estrelas.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Fevereiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O decote salvará o homem

Começo esse colóquio, lembrando de um episódio que me ocorreu, me acendendo um farol: que tempos são esses que nos trazem? Não! Não estou falando da política, da corrupção, mas do ser humano sobre todos os aspectos da vida social e de relacionamentos.

No inverno, as trupes não vão para praia, mas para a fazenda, para o campo, respirar ar puro e sentir o friozinho deleitoso. Foi numa desses encontros com amigos, num sitio, que fui passar um feriado. Aquela disposição geográfica, onde todo mundo dorme amontoado nos quartos, em camas beliche, homens e mulheres misturados.

Assim, dormiram eu e mais uma meia dúzia no mesmo quarto. Ao acordar pela manhã, como faço na minha casa, a primeira coisa foi estender os lençóis e dobrar os cobertores. Quando notei, na cama frontal, uma das minhas parceiras de quarto (já estava no café) deixou a cama desarrumada. (Talvez porque a fome fosse maior.) Fiz a gentileza — hoje se diz "mimo" —, então, de poupá-la do trabalho e arrumei a sua também. Quando ela entrou no quarto, eu estava prestes a receber um elogio, mas  ela disparou: "NOSSA! QUE ESTRESSE!" Engoli a seco e entalei.

Será que essa praga chamada politicamente correto está mudando mesmo as pessoas? As mulheres não estão percebendo mais o cavalheirismo, inerente e secular do homem? Será ofensa, um dia, um homem se oferecer para trocar o pneu do seu carro? Estão matando no homem a sua vontade de se sentir protetor, puro e simplesmente. A mulher precisa entender que, por mais capacidade que ela tenha de trocar a resistência do seu chuveiro, ele vai se sentir mal se ela fizer primeiro. Estou falando do homem, macho alfa. (Não tem homem? Um vizinho, um "marido de aluguel" dá conta.)

Vasculhei na memória e lembrei de um Fantástico que vi há uns anos atrás. (Não vejo mais nenhum.) Na ocasião, aquilo me passou meio despercebido, mas o tema não saiu da minha cabeça: "o sexo masculino vai acabar". Era verdade o que diziam, não estavam falando de um filme de ficção. Não consigo lembrar os reais motivos, mas hoje tenho percepção do que queriam com aquilo: jogar o homem provedor, viril, hétero na vala comum, no limbo. Em nome do quê? E para quê? Ainda não tenho certeza.

Preste atenção ao mundo que nos cerca. Não estão deixando nascer mais homens. O sujeito tem sido combatido desde a maternidade. O azar será se você nascer homem. (Falo aos que ainda não vieram ao mundo.) Ao pôr a cara para fora da calçada, seu machismo já está sendo combatido. E pelos próprios pais. A criança já não pode ter birras, valentias como homem e ser muito ladino — palavra exumada —, que já querem lhe dar uma boneca para brincar. Nem entro no mérito dessa pregação ordinária, que ninguém nasce homem ou mulher (pelo órgão sexual), mas tudo é uma construção social. Essa conversa cansa até gente deitada.

Numa entrevista à Tv Canção Nova, o excelente (e politicamente incorreto) Padre Paulo Ricardo, a quem me põe a rezar todos os dias, disse que estão acabando com os meninos. Por que menino não pode mais brincar de espada, de pistola, com armas? Brincadeira de menino era brincadeira de guerra, de luta. Disse: "ele é um guerreiro do bem. Ele tem que lutar do lado do bem... Você tira isso dos meninos, você educa mocinhas covardes." Exatamente o que está ocorrendo. E os pais estão indo por aí, sem pensar. Esse serzinho será, na vida, aquele que deverá ser protegido e não o protetor; nunca aquele que se atira para salvar a mulher.

Na série Downton Abbey, um personagem bastante marcante é o lacaio Thomas. Embora não pareça, à primeira vista, mas Thomas é gay. Isso fica muito sutil nos primeiros episódios. (Ele tenta até o autoflagelo para se "curar".) Mas a questão de Thomas era subir na hierarquia dos serviçais da família Crowley . Ele queria ser o mordomo. Com o estouro da primeira grande guerra, ele é recrutado para o front. Naquela época, de heroísmo, o homem sentia-se honrado em lutar pela pátria. E a guerra era uma forma de exalar bravura. Menos para Thomas. Ele estava na guerra, mas a guerra não estava nele. Ele pensava em Downton. Numa maneira de voltar para casa, ele, entrincheirado, acende um cigarro, levanta a mão e fica à vista do inimigo. É atingido por um disparo e tem a mão perfurada. Imediatamente é desligado do batalhão e volta para casa. Uma atitude covarde, no meio de tantos homens de guerra.

Se assim continuarmos (criar maricas e não homens), iremos ter escassez de homens no futuro. E as mulheres, como alertou o Fantástico, irão perder o  interesse por eles. Irão se enrolar e fornicar com outras da sua espécie — já está ocorrendo. Por que a mulher seria atraída, sexualmente, por  um ser igual a ela? Não que os opostos se atraem, digo daquilo que a mulher mais busca num homem: a virilidade, o apoio, os braços fortes, a proteção. Desde o paleolítico.

A revista SuperInteressante, a qual chamo de "Desinteressante", é marcada por reportagens polêmicas e sempre aquelas que contradizem a história, ou os tabus sociais. O costumeiro das suas capas é apologia à maconha, questionar as doutrinas cristãs e enaltecer outras religiões, como, por exemplo, o islamismo. Numa dessas reportagens fraudulentas e, diga-se, bem covardes, eles afirmaram que crianças (meninos) que se vestem de super-heróis vão se tornar crianças violentas. Claro que isso é uma piada. Fosse verossímil, eu estaria, hoje, chutando cachorro por aí. Tive a minha infância sobre meus cavalos imaginários, revolveres de madeira, correndo para lá e para cá, matando meus bandidos, também imaginários. Essa gente quer acabar com o guerreiro, o homem milenar. Só pode.

Calma. Ainda chegaremos ao clímax dessa doutrinação politicamente correta; que os heróis dos gibis, e hoje nas telas do cinema, serão proibidos, em nome do combate à violência que eles afirmam estimular. Será o fim do Batman, Superman, Homem Aranha, Homem de Ferro, etc.  Não teremos mais heróis. E, em terra sem heróis, triunfarão os vilões, ou, quiçá, ressuscitarão o velho Capitão Gay, do Jô Soares. Numa forma de ser doce com o mundo e não ferir o outro com sua espada de plástico.

O machismo, amaldiçoado pela #WomenMarch (um dia depois da posse de Donald Trump), é o inverso do que se prega pela grande mídia — homem que bate em mulher é um covarde e não machista. Todas as conquistas da mulher, no trabalho e civil, só se obteve no mundo ocidental. E essas má amadas estão brigando exatamente com esse mundo, dos homens. O mundo que as projetou. Ninguém dessas defende a mulher das leis muçulmanas, do Sharia. Hipocrisia é o que chamo.

Machismo é o estado natural do homem em proteger e preservar a mulher de quem quer deformá-la e transformá-la em outro homem: o feminismo. Uma mulher que cai nas garras do feminismo é como aquele que vai à cracolândia para experimentar droga. Quase sempre não tem volta. Quando volta, torna-se um macho mal acabado, usando um termo rodriguiano. Não estou aqui, como conservador, para salvar o mundo, mas proteger o mundo dos seus salvadores. E eles são loucos e sedentos.

E o bofetão? Ninguém mais dá e nem leva. Coisa de melodrama? O mundo politicamente correto não aceita o revide, o tapa na cara como resposta. Quando as palavras se esgotam, o bofetão era o remédio, aquilo que faz um ter pena do outro, se acariciar e se perdoar. Não se dá bofetão, só porque se odeia, mas, muitas vezes, porque se ama demais. No amor também nos ofendemos ("Atrás da Porta", de Francis Hime e Chico Buarque, deve ser lida, relida). Dali, e pós a mão cheia, tudo se acalma. Eles percebem (homem e mulher) que era a dor que precisavam sentir para exaurir. Era como nas novelas clássicas: bateu-levou. Depois, no final, se casavam. 

En passant, vi um documentário da Tv Animal, sobre a vida dos cães selvagens na África. Muito interessante como as coisas se comportam no reino animal (ou não somos parte dele?). A hierarquia da matilha é uma regra, respeitada pela força. Você tem o macho alfa e a fêmea alfa. Eles são os guardiões do grupo. A fêmea escava a toca onde seus filhotes nascerão, enquanto os outros vigiam o ambiente. Quando os filhotes nascem, a função dos demais, além de protegê-los, é buscar comida. E quem vai caçar? Os mais fortes, vigorosos, os mais preparados. Enquanto, no esconderijo, os filhotes, e aqueles que estão velhos e feridos, esperam pelo o alimento. Quando os caçadores chegam, o alimento é distribuído para todos, sem distinção.

Voltemos ao paleolítico, e veremos que o homem não punha a mulher para caçar. Ela, sem força física, seria uma presa fácil aos animais selvagens. Mulheres já brotaram dóceis e delicadas. Elas têm, exato, o instinto do cuidado, do zelo. E por isso, trazem os historiadores, ficavam protegidas em cavernas, cuidando da cria, à espera do alimento, do seu homem. Assim era, porque assim são ainda os cães selvagens africanos. A diferença é, o homem evoluiu em muitos aspectos, e os cães, não. Ainda continuam no modo antigo de sobrevivência.

"Estamos cegos, surdos e mudos para o óbvio", dizia Nelson Rodrigues. E a vida, ipsis litteris, é 24 horas calcada pelo óbvio do habitat, do meio ambiente. Os cretinos, interventores do mundo, querem mudar regras milenares, porque entojaram do cotidiano, da mesmice. Nelson também disse:
"A mulher pode ter qualquer idade. Não o homem. O homem não pode ter dezoito, ou quinze. Aos dezoito anos, não sabemos nem como diz 'bom dia' a uma mulher e não podemos fazê-la feliz, em hipótese nenhuma. Para o homem, o amor não é gênio, não é talento, e sim tempo, métier, sabedoria adquirida. Fiz as considerações acima para concluir: — o homem devia nascer com trinta anos feitos." 
Digo ao homem (depois dos 30 anos): não se perca em ter que ser politicamente correto com mundo que o persegue. Seja incorreto, seja um homem natural, com suas características biológicas, físicas e de instinto; abuse da sua condição. Debruce os olhares sobre as pernas, os decotes, se inspire e respire esse ar bom que vem da fêmea que lhe rodeia num mall de shopping; e que ela lhe traga seus desejos por inteiro.

Numa festa de mulheres lindas, o homem solteiro deverá ser apresentado aos decotes, antes de qualquer palavra. É sobre eles que ele depositará a sua fidelidade perpétua. O que atrai um homem é aquilo que é segredo, obscuro, transparente, invisível. Aquela ponta de auréola que desponta e ele tenta perceber com olhares lânguidos. Lá, depois dos seus 30 anos de vida conjugal, ela ainda irá lhe atiçar com suas luzes, como um luminoso que pisca sobre seu cólon.

Não sei que nome eu daria para a essa crônica. Pode ser "O decote", "Os peitos", "O cólon", ou qualquer coisa que me seduz e faz meus olhos hipnotizados, imantados por uma mulher. Então, põe aí: "O decote salvará o homem". Eu creio.

Se você, homem, conseguiu chegar ao final desta crônica, e pretende salvar a sua espécie, nunca deixe de cobiçar um bom decote, quando deparar com uma pecadora e linda mulher (cuidado com o silicone e outros disfarces). Sem receio de ser advertido por um bofetão; e sem pena nenhuma, nem dó da sua vítima.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Então virou moda


Virou moda ser "master chef", porque a TV mostrou. E depois comer mesmo feijão com arroz todo dia;
Virou moda tomar vinho e cerveja artesanal, e antes cheirar a boca da garrafa como se soubesse distinguir alguma coisa;
Virou moda cobrir o corpo de tatuagens que as rugas um dia deformarão;
Virou moda ver "the voice" na TV e não perceber o que falta  é criatividade, porque as músicas que eles cantam foram compostas há mais de 30 anos;
Virou moda ter cachorro, gato e tratá-los como se fossem filhos;
Virou moda brigar com o professor e poupar o filho pelas notas baixas;
Virou moda homem se vestir como mulher, e mulher se vestir para outra mulher;
Virou moda mudar o padrão de beleza, olhando agora para coisas feias e bregas;
Virou moda ouvir funk, sertanejo e achar que é bom e todo mundo gosta;
Virou moda ser fitness, pedalar, correr e ser burro;
Virou moda cuidar do corpo em detrimento à mente;
Virou moda tirar retrato de si, narcisamente falando;
Virou moda ser espiritualizado e não ser religioso;
Virou moda novela gay, beijo gay, ator gay, mundo gay;
Virou moda aceitar qualquer coisa além do gênero masculino e feminino;
Virou moda relativizar tudo, até a mais ululante verdade;
Virou moda não ler e ter opinião sobre tudo que não sabe;
Virou moda ser mimizento, ressentido e chato;
Virou moda maquiar a realidade por pura covardia;
Virou moda ser politicamente correto;
Virou moda a burrice sem rubro na face;
Virou moda ser ridículo e não saber o quanto é.
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2017