BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O lixeiro, o escritor e a babá

Quando era criança, o menino Francisco Buarque de Hollanda não aceitava o fato do lixeiro fazer um serviço tão pesado e não ganhar mais que seu pai, que sustentava 7 filhos escrevendo à máquina, dentro de um escritório. Ele queria que sua babá — ele tinha uma — se casasse com o lixeiro, mas ele não ganhava suficiente para sustentar uma família. Foi o que ela se queixou.

Passados quase 70 anos, a sociedade não "evoluiu" para abolir o recolhimento de lixo de nossas vidas, tampouco fez o lixeiro ganhar mais que um escritor. O lixeiro continua tão útil quanto um escritor, um jornalista, um compositor de música ou um filósofo. (A babá, ao contrário, é um luxo social mesmo.) Cotidianamente, o lixeiro continua a passar em frente da casa onde ele mora, recolhendo suas garrafas vazias de vinho importado.

Durante sua trajetória de vida, aquele menino, que achava o mundo injusto, escolheu ser como seu pai: viver dentro do ar refrigerado compondo músicas e sustentando seus bens. Teve talento para criações e não para carregar peso nos ombros. Era um sonho, um desejo infantil, mas pesou em sua escolha de caminho (de mundo melhor e justo), o fato de ser pertencente a ele. Tudo muda (e faz sentido) quando o interessado e sacrificado somos nós.

A desvalorização, se podemos dizer assim, de uns em detrimento a outros é milenar e lógica na história da humanidade; o que fez, por milênios, o mundo ser mais escravista. O que também se diferencia pelos talentos e não por injustiça social. A uns foi dado o talento da ideia do que fazer com as pedras; a outros foi dada a força para carregá-las, transformando essas ideias em algo para o sustento da vida. E assim sempre será. 

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Utopia e realidade

O leitor, alguma vez, nas redes sociais, já deve ter deparado com uma foto de uma antiga (antiga?)  fita cassete e uma caneta esferográfica (dessas sextavadas) lado a lado. E um texto em seguida: "se você sabe a relação desses dois objetos, posso calcular a sua idade". E é verdade. Hoje, um espermatozoide cabeçudo, de 15 anos, não saberia mesmo dizer o que tem a ver uma coisa com a outra. Teria que ter vivido os anos 80, 70.

Confesso, pois, a primeira vez que deparei com a postagem me veio memórias — muitas coisas me dão saudade — daquele tempo mecânico, manual e nada digital: o disco riscava, o cassete enrolava no aparelho e a música não tocava. Até então, achava que só eu havia descoberto a técnica. Vou voltar no final do texto sobre essa época, porque me veio outras coisas interessantes agora.

Outro dia, depois de eu ter escrito numa postagem que índio no Brasil é vagabundo, fui chamado atenção, logo em seguida, por um colega músico. Ele disse: "E o Amor de índio, o Beto Guedes, o Clube da Esquina?". Desertei para não gerar a chamada treta, muito comum hoje nas discussões pelas redes sociais. Na verdade, ele queria me provocar: — já que você gosta das músicas, não pode tratar mal as ideias e inspirações de quem as cria. Dei de ombros e fingi que não li.

No tempo da fita cassete, não haveria tal provocação, discussãozinha — diminutivo de uma palavra que já nasceu grande — boba. Todo mundo se alimentava da mesma fonte. Éramos mais ingênuos em pensar que havia mesmo amor de índio; e era mais bonito pensar assim, mais poético, porque na nossa cabeça havia muito mais amor de índio que amor de homem branco.

A realidade é, os povos indígenas não cabem no mundo moderno. Índios não têm civilidade, são pedófilos, praticam infanticídios, degradam o seu habitat com caças predatórias. Na sua realidade, não vicem só de amor, só na cabeça dos poetas. O amor e a magia tem ambiente em mentalidades utópicas. O mundo precisa de um choque de realidade; a distopia, a desconstrução dos sonhos de nuvens de algodão; ou do poema concreto, que demonstre a fome, a miséria, a verdade da vida. Tudo que se revela, como toda ditadura que se esconde por trás de democracias.

Na era do Smartphone não temos direito à muitas licenças poéticas. Poucos são aqueles que hoje mandam poesias metrificadas pelo WhatsApp. Vai aquele "Bom dia" costumeiro às 7h e depois é um despejar de realidade. E eis aqui onde que quero pautar. O que ocorre ainda com algumas pessoas — depois irei falar desse grupo — é que elas vivem a doce ilusão de um mundo poético e utópico, quando a realidade nos sufoca diariamente.

Por que artistas, intelectuais, músicos de MPB insistem no apego à ideologias e pensamentos de esquerda? Por que ainda vivem como idólatras de ídolos sanguinários como Fidel, Guevara, Stalin, Mao? Por que vivem a pregar um mundo de iguais, sendo eles mesmo tão diferentes e arraigados às riquezas? Por que eles se escondem atrás da realidade de um país? Porque não querem enxergar que o "amor de índio" já não cabe no dia a dia de um país chafurdado em corrupção, com sistemas públicos não funcionando e com 14 milhões de desempregados? Não dá para fazer poesia. A realidade nos atropela. É só discurso, discurso. Nada mais.

O jornalista e cineasta Arnaldo Jabor escreveu em uma das suas crônicas, que a esquerda envelhecida de hoje, ainda se apoia nos seus discursos que polariza burguesia e proletariado, muito comum no anos de 1960, porque têm vergonha de mudar de opinião, lado ou simplesmente aceitar a chocante realidade. Se o fizerem, irão romper com seu passado e como ficarão com o público que os elevou? Muitos deles fizeram sua carreira em cima desse mote: — a ditadura me perseguiu. Pouco tiveram coragem de romper com o passado e pensar no pais do presente. Este mesmo país sob uma corrupção da esquerda que eles ajudaram a chegar no poder. Escreveu também Jabor:
"Que interstícios percorrem as ideias dentro de suas mentes, para negar tudo que está acontecendo hoje? Não conseguem fazer uma reles autocrítica de suas crenças. Mudar de ideia é considerado traição. É uma visão paranoica de que o país está tomado por “fascistas” que querem tirar o PT do poder."
A verdade — aqui pegando por onde Jabor disse —, a "intelectualidade" da esquerda (dos artistas ainda engajados em velhos pensamentos dos anos 1960) perdeu o timing; perdeu o momento de dizer "não" à água podre que corrói as entranhas do país. Eles não têm mais discursos e por isso cantam ainda, como Milton Nascimento, "Menestrel das Alagoas", lembrando aquela campanha de 1985 por Diretas Já. É hora de se recolher e contar suas memórias; ou virar um colunista atacando o câncer do PT, como fez Ferreira Gullar nos últimos anos de vida — ele já foi do PCB. Não pode ter vergonha do passado. Mas eles não têm coragem.

Agora, em pleno momento de torpor, da dramaturgia política, de um país que tenta encontrar seu rumo depois do impeachment de Dilma, eles (esses mesmos artistas) vêm pedir Diretas Já, como se o momento fosse só o de romper com um governo e reiniciar um outro. Mas esse outro, que eles propõem, é o mesmo que eles elegeram, corroendo os cofres da nação. Ou seja, nada pode mudar e, sim, continuar como antes.

Também é de penar, ver que, ao final de suas jornadas, com uma carreira artística vasta e rica, artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, terminem suas carreiras (todos na faixa dos 70 anos) de uma maneira melancólica e improdutiva. E tentam nos enfiar, como uma continuidade dos seus talentos, artistas como: Carlinhos e Mano Brown, Criolo, Emicida e Chico César. Todos da mesmo corrente utópica e ideológica. Muito diferente dos anos de 1960, as pessoas não os aceitam e nem consomem seus lixos musicais. Quem escuta é uma minoria.

A fita cassete enrolada por uma caneta esferográfica era a forma simplista de resolver um problema que a tecnologia da época não pensou. Tudo rudimentar, como apontar um lápis com a faca de cozinha. Mas tudo também de um tempo sem o policiamento do politicamente correto; quando as palavras eram soltas pelas bocas, sem uma patrulha por trás ou a vigília das redes sociais — ainda falam em censura durante o Regime Militar. Aqueles tempos, onde tais intelectuais ainda nos enganavam com seus discursos de mundo melhor, que hoje só demonstra que eles estavam mesmo atrás de dinheiro graúdo do Estado brasileiro.

A dor do brasileiro hoje é visceral; o país hoje clama é por justiça, segurança, educação, sobrevivência. Nada mais fisiológico. Acostumamos com tanta realidade, que as utopias, os amores de índio, as ideologias já não nos convencem mais como outrora.

Ninguém consome cultura sem antes ter comido o pão.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Desconstrução

Esta crônica não começou aqui, mas nasceu numa conversa de botequim. Onde se conversa de tudo; e hoje, mais do que nunca, o assunto que supera o futebol é a política.

E não podemos tocar na política sem lembrar dos intelectuais, artistas de hoje (e antes) engajados — palavra muito usada no anos de 1970 — à correntes ideológicas e únicas de esquerda. Não, eu não sou daqueles que preciso saber o que um desses artistas de MPB pensa para tecer meus comentários. A bem da verdade, muitos deles se aproveitam, ainda hoje, da política para existir, ou melhor, difundir sua obra. É o caso da Lei Rouanet, que foi criada sob pretexto de incentivo à cultura dos anônimos, mas virou contrapartida, moeda de troca, aos artistas conhecidos e consagrados defenderem o governo de esquerda, que hoje nos rege, dono da lei, e sob qualquer viés. Como se todos nós fôssemos guiados por eles.

Poderia lembrar de outros aqui, mas o mais engajado sorridente, e quem mais se aproveitou dos governos (militar e de esquerda) foi Chico Buarque. Se projetou no regime militar e se condecorou no governo Lula/Dilma, como mito e símbolo de resistência. Ninguém mais do que ele é, até hoje, aclamado pela imprensa e toda a militância de esquerda como aquele que combateu a "ditadura", com suas músicas e peças de teatro. Combateu? Vamos voltar um pouco no tempo, reler e avaliar parte de sua obra. Uma desconstrução do autor de Construção? Sim, pode ser.

É inegável que Chico tenha sido perseguido pela censura do Regime. Não que suas letras eram balas de canhão a ponto atrair a massa e derrubar o governo — como a música que fez Geraldo Vandré — , mas só porque eram escritas por ele. Ele se fez, e hoje ainda se vende no meio artístico, como símbolo de resistência ao governo militar. Para isso, ousou em algumas letras, criou um pseudônimo e reescreveu algumas letras, trocando palavras, para ter suas músicas liberadas e gravadas.

Em 53 anos de carreira, Chico Buarque compôs, segundo seu site oficial, 343 músicas letradas (às vezes a mesma música com letras diferentes). Dessas músicas, nenhuma delas foi censurada no início de sua carreira até ser reconhecido como artista, de 1964 a 1969. Mesmo após o AI-5 (Dezembro de 1968), ele estava livre para compor e cantar. Sabiá, por exemplo era uma espécie de canção do exílio. Sem problemas nenhum, foi cantada no festival da Globo. Sua música mais tocada naquele final dos anos de 1960, Roda Viva, não sofreu corte nenhum da censura.

Somente em 1970 — e aqui começa tudo —, ele teve a sua primeira música proibida pela censura federal. Apesar de Você foi lançada num compacto simples — meu irmão tem até hoje essa raridade —, que tinha do lado B Desalento. Logo depois, quando perceberam que o "Você" não era nenhuma amante, mulher, etc, os discos foram recolhidos das lojas e a divulgação proibida nos meios de radiodifusão, pelos órgãos de censura. Subliminarmente era uma queixa clara ao governo militar. Muitos a chamam de "Carta ao Médici" ou "Carta ao presidente". Nessa época ele já tinha voltado do seu auto-exílio, em Roma.

Se levarmos em conta o valor de uma música que ficou no imaginário popular, como uma música de protesto (e que marcou um período), podemos dizer que só Apesar de Você e Cálice (1973), foram reconhecidas depois como músicas, com teor de crítica à política, e que sofreram censura ao longo da sua carreira. Isso não representa nem 1% da sua obra musical. Depois, ambas foram gravadas no LP de 1978, ainda dentro do Regime Militar. Foi mais um chororô de ocasião, e como a esquerda sempre interpretou bem nesse papel: vitimização. Para repetir até exaurir: — olha, eles estão me perseguindo. Fui censurado.

Alguém pode argumentar: mas ele teve outras músicas de cunho político censuradas, como Milagre brasileiro, Vence na vida quem diz sim, Tanto mar, etc. Essas não contam? Sim, mas sem a mesma importância. E o que eu digo, são aquelas que, mesmo censuradas, ficaram popularizadas, e sempre aparecerem em destaque na sua obra. Inclusive, depois, foram regravadas por ele mesmo.

As suas músicas censuradas (em partes ou integral), pelos órgãos de repressão do governo militar, eram por simbolizar aspectos negativos da vida social, ou aquilo que afrontava a "moral e bons costumes" da época. Partido Alto, por exemplo, teve palavras trocadas, porque ofendia a própria raça, o brasileiro. Disse o censor, que a avaliou: "Se é engraçado ou uma infelicidade para o autor ter nascido no Brasil, país onde ele vive, e encontra esse povo generoso que lhe dá sustento comprando seus discos, e pagando-o regiamente nos seus shows, afirmo que ele está nos gozando. Opino pelo veto." Depois que substituiu algumas palavras na música, o censor ainda lhe deu outra descompostura: "Como  é que você, que fez uma música como Construção, agora vem com esta, falando de titica e saco cheio." A música foi gravada.

Dos seus discos, nenhum foi mais comentado que Calabar. E aqui abro um espaço para descrever como a censura proibiu a peça e o disco, simultaneamente. Em 1973, Chico Buarque estava com 29 anos, e escreveu músicas lindas para a peça. Depois dos ensaios e pronta para estreia, ele soube que a peça havia sido proibida. Calabar, o elogia da traição soou como uma espécie de resposta à morte do Capitão Lamarca, desertor/traidor do exército brasileiro, por se juntar ao grupo de guerrilha Vanguarda Popular Revolucionária (VPR); se refugiando, por fim, no sertão da Bahia, onde foi encontrado e morto. Os órgãos de censura ao perceberem no meio a palavra "traição", não pensaram duas vezes em proibir tudo.

Das 11 músicas, do disco Chico canta Calabar (depois virou somente Chico canta), muitas tiveram parte das letras substituídas, ou estrofes retiradas (Tire as mãos de mim) e uma música foi totalmente censurada: Vence na vida quem diz sim. A capa, onde aparecia a palavra "Calabar" pichada num muro, também foi censurada. Na parte interna, no encarte do disco, a foto de soldados fazendo piquenique sobre a bandeira do Brasil também foi censurada. Ou seja, não sobrou quase nada. Apesar de tudo, o disco, com canções escritas por Chico e Ruy Guerra, é um dos melhores de sua carreira. A letra de Vence na vida quem diz sim, na forma como foi entregue à censura federal (anexa à esta crônica), aparece o carimbo de "vetada". Na canção Tire as mãos de mim, a última estrofe não foi gravada. Dizia:
"Por três tostões
Ganhaste um par
Hoje está sós,
Eunuco e coxo
Tire as mãos de mim
Põe as mãos em mim
Vendeste um teu amigo
até o fim
Agora leva o troco"
(A estrofe foi subtraída e não foi gravada. Quando comprei o livro Chico Buarque Letra e Música, não veio com essa estrofe. Mandei um email ao editor que me respondeu que na próxima remessa seria corrigido.)

O período duro e repressivo não durou muito, talvez quatro ou cinco anos e só. Em 1976, Chico escreveu três letras para uma mesma música. Nas três versões da conhecida O que será, a frase "o que não tem governo nem nunca terá" não foi censurada e foi gravada assim. A música inicialmente foi composta para o filme Dona Flor e seus dois maridos.

Nessa época, Chico Buarque, e grande parte da chamada MPB (dos artistas engajados) eram aclamados e muito populares nos meus universitários (ainda são até hoje); do outro lado, a maioria da população ouvia mesmo era Antonio Carlos e Jocafi, Benito Di Paula, Originais do Samba, Secos e Molhados e Os Incríveis cantando Eu te amo meu Brasil. Para o meio politizado, se você não ouvia Chico e a MPB você era alienado. Mas quem se importava com isso, se a vida não era tão repressiva como eles diziam àqueles que não deviam nada ao governo?

Naqueles idos, pelos arredores e calabouços, se falava muito em prisões e torturas. Que artistas haviam sido presos e torturados, citando sempre Geraldo Vandré (?); e que nele fizeram uma lavagem cerebral, etc. (Pois é, somente ele carrega essa pecha da tortura. Ninguém mais. Por quê?) Logo após aquela noite, da sua memorável apresentação no Maracanãzinho, depois de ser ovacionado com Pra dizer que não falei de flores, Vandré foi sentindo o peso de sua música no meio dos militares e no início de 1969, já com o AI-5, ele sumiu. Ele arrumou um jeito e escapou pelas fronteiras do país e ninguém mais o viu. Naquela altura sua música já estava na boca do povo. Ele voltou em 1973 negando a prisão e que havia sido torturado. Nunca mais compôs como antes. Nas entrevistas recentes, ele, aos 81 anos, continua negando peremptoriamente que tenha sofrido qualquer tipo de tortura. Passados tantos anos, quem vai dizer o contrário? Por isso, a esquerda o abandonou. Ele não cabe mais na sua narrativa.

Agora, quem verdadeiramente sofreu tortura moral naquela época foi Wilson Simonal. O negão era como se diz hoje, marrento. Dono de uma voz irretocável, tinha personalidade, talento e um domínio total das grandes multidões. Meu limão, meu limoeiro virou hit no final dos anos de 1960. Era um showman. O que ele não estava nem aí, era com o que acontecia no país: do governo militar e aqueles que queriam derrubá-lo. Ele só queria cantar, andar nos seus carrões, se encher de dinheiro e ter as mulheres que queria. Foi acusado, por seus parceiros de música, de ser um informante do governo. (O que ninguém conseguiu provar até hoje.) Sua carreira acabou ali. Isso, sim, foi tortura. E ninguém, desses, veio lhe pedir desculpas, nem post mortem. Morreu anos mais tarde, alcoólatra, sem nunca conseguir provar sua inocência.

Outro dia, uma seguidora do meu Twitter se surpreendeu,  por eu ser arquiteto, e ter um pensamento tão conservador. (Os arquitetos são, na maioria, revolucionários de esquerda.) São outros tempos ou outros homens? Tempos de realidade e não de utopias (outra crônica). Por mais que a arquitetura tenha seu  broto e processo criativo numa visão utópica de mundo, mas a sua transformação é realidade que se toca, que se vê e se admira como poema concreto. Os sonhos são devotos, revigorantes, mas só o real encontro com a vida nos torna pessoas.

Assim, muitos outros também me questionam, porque passei a vida toda colecionando a obra do Chico Buarque (discos, livros, songbooks, DVDs) e hoje sou crítico. Bem, ao longo a vida a gente aprende muitas coisas. Uma delas é apartar o artista (e sua obra) da pessoa. Dizem que Chico Buarque vai lançar um novo disco em 2017. E dizem, até, que há uma música escrita para o Lula. Sempre esperei muito por seus discos chegarem às lojas. Hoje, nem tanto. Talvez, eu compre para continuar a coleção, mas não será com o mesmo entusiasmo quando comprei o LP "Chico Buarque 1978", ali nos meus 16 anos. Não será mesmo!

E para finalizar essa conversa, cheia de retrospectos, lembro da entrevista célebre do escritor Millôr Fernandes ao programa Roda Viva, da tv Cultura. Uma das perguntas, que veio de telespectadores, se referia da sua suposta briga com Chico Buarque. Millôr não quis polemizar, mas afirmou que não havia brigado, e alfinetou: "os defeitos de Chico Buarque se juntaram comigo. Defeitos que não tenho". E concluiu numa frase imortal: "Eu desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal".

(Você pode dizer que esta crônica é a desconstrução de um mito. É sim. No entanto, a pior das torturas, carregadas de censuras, não estão nos tempos da repressão, onde vinha com o carimbo "vetada", do censor que tinha rosto. A pior são as censuras em tempos de democracia, porque elas vêm da forma mais rasteira e velada.)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Junho de 2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Um abajur cor de carne

Ali, no início dos anos 80, havia tanta música boa tocando, que nós, jovens, rejeitávamos um punhado delas ou colocávamos na prateleira do desprezo por acharmos bregas. Assim, o que queríamos ouvir, comprávamos ou emprestávamos o disco; e as outras, aprendíamos a cantar, mesmo sem querer, porque as rádios não paravam de tocar. Ritchie era essa música que grudava nos ouvidos como goma de mascar.

O inglês Ritchie foi uma figura icônica dos anos 80. Ou: sem ele aqueles anos não teriam acontecido, musicalmente falando. Do seu famoso e álbum "Voo de coração", cinco músicas estiveram no hit parede entre 1983 e 1984. Suas apresentações eram constantes e obrigatórias nos programas de auditórios. Rosto fino, loiro, blusão de couro preto, usando óculos Wayfarer e aquele sorriso despontado pelos pontiagudos caninos (não era belo, mas mesmo assim, havia mil garotas a fim).

E o que era Ritchie para mim? Aquela música que ouvia por tabela: na discoteca, de passar pela rua na frente da loja de disco; e depois sustentava para os amigos que não gostava, porque iam me tachar de brega. Mentira!, gostava sim. Depois desses 34 anos (1983), ainda curto demais suas músicas. Está na minha playlist do pen drive. Sem nenhum rubro na face.

Mas ali, nos anos 80, havia uma outra coisa fascinante. Os discos vinis (bolachões) tinham capas bem elaboradas e encartes com as letras das músicas. As revistas para tocar violão também tinham as letras cifradas. Assim, ficava difícil confundir palavras, frases e cantar errado, como teve gente que passou a vida cantando "Trocando de biquíni sem parar" (Noite do Prazer - Brylho), quando a letra dizia "Tocando B.B. King sem parar". Nada tão mal. Só a confusão de um gênio do Blues com um vestuário feminino de praia. Repetiam o que ouviam sem reparar na letra. Eu, por ofício, sempre tive esse hábito de ler letras, os autores, o arranjador e os instrumentos que estavam presentes naquela música. Dificilmente cometia tal gafe.

Uma fórmula que todo letrista de música — poeta, por que não dizer? — tem em mente (ou não tem) é sentir nas palavras que vem, que elas, muitas vezes, vêm soltas e vão, em seguida, encontrar uma outra e outra... E não necessariamente essa fará junção com a primeira, ou será correspondente, dando sentido à frase: "De um quasar pulsando loa. Interestelar canoa. Leitos perfeitos, seus peitos direitos me olham assim. Fino menino, me inclino pro lado do sim. Rapte-me, adapte-me, capte-me, It's up to me coração". O uso de hipérboles, como "morrer de amor" ou "coração partido", são coisas corriqueiras na linguagem poética.

Eu não tinha dúvida nenhuma que, ao escrever "Menina Veneno", o letrista Bernardo Vilhena quis dizer que o abajur era cor de carne. Nós estávamos nos anos 80 e mais acostumados com essas colocações poéticas que não faz sentido. Qual é a cor da carne? Sei lá. Poderia ser "cor de caramelo", ou algo assim. Estava licenciado.

Não faz muito tempo, vi uma entrevista de Ritchie e ele disse que a letra foi escrita na sala (não lembro se era da sua casa). Mas eles foram construindo a letra com aquilo que viam no ambiente: cortina, escada, porta, abajur, lençol, cama, parede, etc. E assim nasceu Menina Veneno, como uma sombra, a silhueta do fantasma de uma mulher, dessas que atormentam a mente masculina.

Mas eis o que queria dizer. Eu, no Twitter, sigo algumas celebridades. Até para ver o que pensam. Faz pouco tempo comecei a seguir o Ritchie. Depois de algumas postagens, me apartei do assunto e perguntei a ele quem trocou a letra da sua música e inventou o "abajur cor de carmim". (Nas redes sociais já postaram inúmeras vezes a letra com "cor de carmim", e eu me cansei de reparar as pessoas do erro). Aguardei 12 horas para ele me responder: "Foi alguém que não sabe ler. ;)", escreveu de forma lacônica e direta. Exatamente aquilo que eu disse acima: as pessoas ouvem e saem reproduzindo, sem ler ou prestar atenção. Aquele hábito da época do Vinil: de ler as letras das músicas. Quem viveu os anos 80, sempre cantou como eu: "abajur cor de carne", sem se perguntar se havia sentido concreto. Há sentido e realidade em poemas? Tema para outra crônica.

— Então, diga aí Ritchie, cor de carne ou de carmim?


© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Junho de 2017

quarta-feira, 5 de abril de 2017

De volta ao quarto escuro

Algumas crônicas requerem coragem para escrever. Como se uma fratura da alma fosse se expor; um réu confesso de um crime que só você sabe, porque o assassino e o cadáver é você mesmo.

Bem, no caso, não se trata de um crime, mas de velhos segredos (de liquidificador), esconderijos de um poço fundo. Dessas coisas que empurramos para debaixo do tapete do tempo ou, como já disse em outra crônica, aquele quarto escuro no fundo de casa, onde amontoamos nossas memórias e tudo aquilo que negamos do passado: dores, vexames, vergonhas, pobreza, fome e mortes. Há sempre dores na memória prontas para serem reveladas. As dores da fome e da morte são doloridas de lembrar. Então, acobertamos.

Estava esses dias carregando meu Kindle (aparelho de ler livros digitais). Parei na espera do médico, abri, digitei a senha e comecei uma cronica de Nelson Rodrigues. Ele descrevia (confessava) exatamente sobre essas duas negações: fome e morte. Ninguém consegue falar sobre isso, quando tudo ainda está consigo. Só falamos quando já superamos a dor, ela já foi. E Nelson, corajoso, contou de uma infância, do dia que pediu água para beber num botequim. A água não era sua sede, mas sua fome. Era a primeira coisa que punha na boca naquele dia, já às 8h da noite. Dores de fome na infância.

Na mesma contextualização veio a sua lembrança a "Espanhola". Aquela gripe que fez, em 1918 (por todos os cantos por onde se olhava), um amontoado de defuntos. A morte que acostumamos já na infância, e dela aprendemos a não ter medo. Escreveu no final: — "A peste deixara nos sobreviventes, não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. A cidade estava cansada da morte". Coisas de um mundo que essa nova geração (do lado ocidental) não se assemelha e nem sabe que existiu. Somos apartados e poupados do convívio, da cara da morte. As crianças da classe média, que passam Nutella no pão, mais ainda.

Eu testemunhei a primeira morte, ainda de olhar pueril, com certo espanto e assombro. (Testemunhei, não, eu senti.) Ali pelos meus seis, sete anos. Era um menino paraplégico que havia morrido próximo de mim. Morava duas casas da minha. Primeiro, queria dizer que minha tia já havia perdido alguns filhos recém nascidos. E aquela cena de caixãozinho na sala, parecia comum. Como se a cada ano se esperasse um novo enterro para despachar. E lá ia o cortejo, a pé, para uma sepultura branca e singela, como tudo era na nossa vida.

Ouvia os adultos falarem de morte, e eu sempre no meu assombro sem manifestação. Eu era silencioso e complacente. Havia uma fala entalada em mim, sem nunca pronunciada. Ela teve uma filha, que me lembro, durou mais de um ano de vida. Acho que o que levou aquela priminha foi uma meningite. Não pude nem chorar, porque criança não entende muito de perda. A criança, em nós, imagina sempre algo confortável, como um anjo. Era um anjo erguido aos céus. Eu imaginava assim: não há dor quando se vê um anjo.

(O que me recolhe mais ainda para dentro do catolicismo, não é só o respeito aos meus pais que me deram sua religião, mas também esse encontro de vida e morte; de compreensão, na fé, que nada termina, mas, sim, se modifica, se amplia numa extensão de alma. Não há explicação racional.)

Volto ao caso do amiguinho — não vou dizer o nome. Era uma amizade de limites. Explico. Ele não podia fazer as coisas que eu fazia: correr atrás de pipa, pular corda, jogar bola, etc. Mas não havia queixa nos seus olhos; eu amava sua companhia e não enxergava nada nas suas limitações, não havia pena. E mesmo sentado na sua almofada xadrez verde, do quintal, ele "batia figurinhas", empinava suas pipas. Tinha habilidades com os dedos para fazê-las ganhar os céus com rapidez. Coisa que eu não tinha.

Havia, eu me lembro, um carrinho de madeira com rodas de borracha, que nós levávamos seu corpo miúdo para onde queríamos. Até para a escola ele ia no carrinho de madeira. Nas outras vezes era carregado no colo como um recém nascido e quando se sentava no chão, era sempre na almofada xadrez. Suas pernas eram finas, sem carne e o joelhos saltados, sobressalentes, só ossos.

Havia algo mais, suas pernas não se esticavam. Franzino, queixo fino, pequeno para os seus 12 anos, ele ia diminuindo quando as dores chegavam. Atrofiava e a dor vinha em compasso, apertando seus ossos. Uma vez teve uma crise. Primeiro, ele reclamou que o café com leite (era mais leite que café) estava com nata e sua mãe tirou com toda paciência. No dia que um médico foi chamado, eu fui para o corredor, dos fundos da casa, espiar da janela. Vi o médico apertar seus joelhos saltados para baixo. A perna não esticava, o joelho não obedecia. A doença estava se agravando.

Quando veio a notícia de sua morte, recebi resignado, sem choro, porque ninguém chorava naquela época. Era esperada sua hora e todos já haviam chorado por dentro, e muito antes. Alguém em casa ainda comentou:  "tiveram que empurrar seu joelho para fechar o caixão". O joelho não obedeceu nem depois da morte, era rígido. Pus a cabeça no portão, e vi pessoas se aglomerando na frente da sua casa. Não sai dali até que o cortejo partisse. A vida seguiu depois e eu guardei aquele menino no meu fundo quarto escuro, nas minhas memórias de dor e morte.

No dia seguinte (e nos outros) estávamos novamente na rua; nos carrinhos de rolimã, atrás das pipas, da bola, piões, cata ventos, balões e estrelas no céu. O vento no rosto e a camisa xadrez tampada com remendos, e calção de brim grosso. Esquecer quem partiu já era parte de nós. Quem nasce na pobreza, nunca escapará de um "não", de uma ferida aberta (sem Merthiolate), que não nos queixamos da ardência e sangramento. Mas, mesmo na escassez, a vida tem também o seu "sim". Sobreviver é o "sim" da miséria.  E, por acreditar que tudo passa, chegamos à vida adulta. Aprendi, desde então, a ter que aceitar a morte nos pequenos homens como eu era — 7 anos. Era destino, fatalidade. Nunca havia culpa. Por trás de muitas delas havia, sim, a pobreza. Se morre, porque, em muitas vezes, se é pobre.

Certa vez ouvi de uma pessoa (uma mulher) que, ter dinheiro e perder tudo é pior que nunca ter tido nada. Quando acostumamos a não ter nada, não nos importamos com as pequenas perdas. Ela falava de si e estava certa no seu modo de pensar. Aquele que é pobre não se compara a ninguém. Exceto a ele mesmo.

Olho, agora, as velhas fotografias, amareladas e o que chama atenção não são nossas feições (pai, mãe, irmãos, primos), mas as paredes que estavam atrás daquelas silhuetas. Vulneráveis paredes, sem reboco e muito menos tinta. Eram tijolos expostos, com argamassa de terra (sem cimento). Os tijolos de uma fome, uma fraqueza, num sinal crível de pobreza. Quanto mais tijolos vistos e terrenos cercados por taquaras amarradas, maior era a pobreza. Nossas fotografias não escondem nada. Radiografam uma memória: éramos pobres.

Se escapamos da morte na infância, devemos à sorte e não a prevenção e cuidados com vacinas e medicamentos. Um médico, um hospital eram coisas distantes da vida de quem morava periférico do mundo. Os pés descalços, o esgoto correndo pela rua de terra, a água de poço, a latrina, etc. Não havia medo de doenças e de nada. Mas havia algo bom: as balas, o bolinho de chuva, o pão doce com mortadela, o ki-suco, o café com leite e farinha de milho. Havia um olhar de esperança e de não se enxergar na pobreza. Ter a percepção de que algo lhe falta, dói mais. Eu não tive. Eu sonhava coisas pequenas de um mundo pequeno.

Certifico, por fim, não vi a fome, como Nelson, mas a quase fome me avizinhou como um trem fantasma. Quando, na memória, tocamos nossas dores e mortes, é como se palavras se desprendessem ao vento do nosso livro aberto. A voz entalada da infância, que agora se solta, além das cortinas e janelas da alma.  O quarto escuro é o velho passado, cansado de tanta dor, pobreza e morte. Agora escancarado, vasculhado na narrativa. O passado fenece quando falta coragem para tirá-lo da escuridão e expor no meio da rua, à luz do mundo.

"O que não se diz apodrece em nós" — Nelson Rodrigues.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Abril de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os donos do mundo e o show de Truman


Às vezes tenho a sensação que vivemos num engano coletivo, que todos estão numa vida e eu em outra. Questiono-me: será a vida uma grande ilusão e só alguns na realidade? E esses, prisioneiros de uma rede de mentiras sem fim, para si e para os outros? Como no "Show de Truman" e num Big Brother de multidões: malhando o corpo, discutindo tolices, para no final despedir-se da vida, com o riso falso de "foi bom estar aqui". (Há falsidade até na hora da morte.)

E sem mais tempo, no final, descobrirá que a vida não era nada daquilo que viveu. Que o céu não era de papel com nuvens de algodão, e o sol uma luz de feixe âmbar se movendo por controle remoto; e todos os despertados, que tentaram lhe contar a verdade, foram eliminados pelos donos do jogo. Você morrerá inocente, sem conhecer um naco da vida real.

Mas diferente de Truman, meu show é de um mundo verídico e na temperança; sem meias verdades, Faustão e a alienação do riso sem graça, da cara Casé. Enquanto todos me ignoram, eu vejo o mundo que dão às costas (em não querer se defrontar no espelho). Porque é mais fácil virar-se, mudar de canal, de assunto, do que encarar as noites e os dias: do fogo que arde, da fome que assombra, da ferida que se abre, da liberdade ceifada, da lágrima que cai sentida...

Esses (outros Truman) se veem num cenário de ilusões e de vida superficial, rasa e, cenograficamente, assistida por seus milhares de espectadores vazios e sem rumo. Alimentando quimeras temperadas por esperanças vãs. Pobre gente e os donos do seu mundo. 
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Março de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Escort XR-3

No carnaval de 2016 — já faz um ano —, saí por aí guiando meu carro sem destino. Talvez à procura de um restaurante que não me lembrasse folia e pudesse servir um prato rápido. As ruas, como em todos os carnavais da minha vida, estavam fúnebres, desertas, de asfalto quente como um Saara. Mas algo à minha frente me chamou atenção: um Escort XR-3 fumegando.

Aquela imagem ficou, como leite entornado no fogão: um Escort XR-3 pedindo arrego. Imaginei que chegaria em casa, sentaria à frente do computador, para escrever algo sobre aquela cena. Nada. Não vi uma palavra pingar nas teclas, mas a imagem estava lá, como a fumaça entrado pelo para-brisa. Agora, me recordei novamente daquele dia. Acho que era domingo.

Na minha juventude, quando ainda brincava o carnaval — naquele tempo se dizia "brincar" —, eram cinzas mesmo esses dias; cinzas de minha solidão. O carnaval é completa solidão que finda numa quarta-feira melancólica, de joelhos. Do meu porre, da mulher que não deu certo, da dor de cabeça, da boca amarga de tanta ressaca. Hoje, cai como um alívio esses dias; como se, sobre as asas, avistasse um céu azul no horizonte, depois da turbulência.

Não foram tantos, mas alguns carnavais. O confete entrando pelas narinas, o pisão no pé, uma paquera, um olhar, uma serpentina e uma dama. Mas houve aquele que fiquei atrás de uma "fadinha" as quatro noites, esperando que ela fosse me abraçar ao som de "Bandeira Branca". Nada. Nem um sorriso de canto de boca para esboçar. Completamente ignorado. Quando somos jovens, não somos nada. Talvez, um espermatozoide cabeçudo que balbucia e baba. Mais nada. Somos só uns bocós que vivem a imitar o que ouve por aí e os gestos que outros fazem. Eu era completamente um idiota.

E por falar em carnaval — já fazendo um parênteses —, não poderia passar essa crônica sem lembrar dessa sombra negra que paira sobre o século 21: o politicamente correto. Deparo, agora, com a manchete do "Estadão" dizendo que as músicas "Cabeleira do Zezé", "O teu cabelo não nega" e "Maria Sapatão" foram abolidas de alguns blocos de Carnaval no Rio de Janeiro. Entende, por que prefiro a solidão? Por que não me importaria se um meteoro se chocasse contra a Terra? Alguém ainda vai se matar disso e a família vai testemunhar: "foi o politicamente correto. Eu sei, ele tomou veneno por isso."

Voltando. Mas o que me desperta, hoje, nos carnavais, agora mais longe dos salões, é essa minha vontade de estar ausente, a não necessidade de ser alguém na multidão. Sou capaz, hoje, de suportar a deliciosa tortura de quatro noites em completo pensamento. Como se me retirasse para uma cabana nas montanhas. Os filmes, os livros, as crônicas, o café fresco, eis o meu deleite. Anonimamente, ainda me disfarço no sobe-desce do elevador. Mais nada.

A idade me trouxe isso: a minha mais fiel companhia. Dela eu não me desgrudo e não traio. Porque, por muitas vezes, e muitos lugares, o que tem me incomodado ultimamente é a burrice. A mais acachapante burrice. Aquela que ninguém se envergonha de espalhar por aí. Evito os lugares por causa da burrice pujante. Parece que em todo churrasco, festa, carnaval quem vem primeiro é o ser idiota. O primeiro a ser convidado é o que ri à toa. Aquele que é feliz "porque sim". (A felicidade, como a tristeza, não se admite brotar do nada, no oco. Só os tolos são felizes, já disse eu mesmo.)

Já estou no sétimo ano deste Blog. (Um pouco lento, diga-se, mas respirando.) Tento fazê-lo não morrer. Sempre sobra uma única palavra, um "adeus" para dizer na última hora. Eis-me sempre aqui, enquanto a TV está ligada para ninguém, sem ninguém ver. (Mas eu prefiro a música de companhia. Música e letra.). As palavras regurgitam, quando dá ânsia, contra a vontade da alma. Preciso que elas saem para olhar de cima, depois de anos, e dizer: "eu escrevi isso?"

Mas o que queria dizer é: nunca sofri tantas mudanças como nesses últimos anos da minha vida. Precisamente, nos últimos dez (2006 a 2016). A transição dos 50 anos? Talvez. Ah!, a maturidade, como esperei chegar... Meti de cabeça, joguei-me, fiz escolhas erradas, me arrependi do que fiz e depois me arrependi de ter arrependido. Fui escravo do amor, da mulher por quem chorei uma fronha, duas. Depois resignei, enxuguei, afastei e superei. O amor também tem dessas coisas: saber partir de cabeça erguida e aprender.

Algumas coisas deixei aqui, nas escritas, e não quero apagar. Sei que muitas coisas que escrevi, há seis, sete anos, já mudei de opinião — ainda bem! —, mas as deixo registrada, para balizar o dia a dia, decifrar códigos, e me dizer para onde estou indo. Tento evoluir, tirar conclusões de tudo e ir depurando no tempero da vida, nadando contra a maré, encarando a verdade. No pensamento político, nem se fala. Saí do ser idiota que me possuía como um demônio sem inferno.

Se for olhar para trás verá aqui muitas crônicas que, talvez, não escrevesse hoje. Amadureci depois delas; elas me amadureceram mais. E se tornar velho tem disso: tornar-se calmo, paciente com as ideias e com o mundo que não muda da noite para o dia. Fiz mestrado em ser cínico e cordial. E não tem algo mais cínico que ser cordial. Digo "bom dia" ao imbecil, ao idiota, ao esquerdopata. O fato é, descobri nesses últimos anos que há muita gente patinando (sem patins) no ringue do mundo, da sua clara ignorância. Caindo no seu próprio excremento.

Fui pesquisar um nome (hoje é mais fácil encontrar alguém, mesmo na insignificância), porque lembrei de uma história dos meus 12 anos. A alcunha é Rolf Victor Heur. Ninguém saberá de onde vem, se eu não contar a história. Em 1974, quando as labaredas consumiam o edifício Joelma, em São Paulo, as 1500 pessoas que trabalham no resgate  faziam o que podiam. Houve suicídios? Houve. O desespero levou muitas pessoas se atirarem do prédio em chamas. Aí entra a figura de um dos sobreviventes: Rolf.

Está aí um homem a se mirar. Ele, aos 54 anos, ficou 3 horas na marquise, esperando por socorro na maior calma, fumando. Na época, a reportagem da TV disse que ele se posicionou numa janela contra o vento; as línguas de fogo não chegaram nem lamber seu dorso. Depois que o resgate chegou, ele ainda se manteve calmo e só chorou quando já estava em solo.

A vida com maturidade é isso. Você na marquise de um edifício em chamas, contra o vento, fumando um cigarro tranquilamente; olhando os transeuntes, loucos, atônitos e com menor risco que você. Não se matar, não se drogar, não se jogar, mas esperar calmamente pelo resgate. Esperar a hora pela salvação das almas. Mesmo que suas mãos tremam, não pule. Contra o vento, contra o mundo, sem esperar por aplausos ou plateia.
 
O primeiro Escort XR-3 começou a circular no país ali pelo ano de 1985. Já são 32 anos. Como disse no início, vi um modelo na minha frente queimando óleo, e agora entendi aquilo tudo. Sou eu, vagarosamente, rangendo e fumegando por aí também. Resignei: um dia, será o fim de todos nós. Se ele pudesse dizer algo, talvez dissesse: "Já fui jovem, desejado e desfilei nos melhores salões de automóveis. Hoje eu tenho só experiência e a solidão das ruas vazias de carnavais". — Lá vai alguém de respeito — dirá um transeunte como eu.

Um dos médicos que frequento me disse que o corpo humano é como um carro usado, velho. Com o tempo as peças vão dando sinal de desgastes, que precisam ser trocadas. E completou, dizendo das chamadas doenças terminadas em "ite", como: dermatite, esofagite, gastrite, tendinite, pancreatite, etc. Na verdade, não são doenças, mas um sinal que você está envelhecendo, fumegando.

Mas isso (estar fumegando) não me incomoda tanto. Vamos nos acostumando com a ideia do envelhecimento. Escrevi certa ocasião: "Envelhecer é ir deixando o corpo para trás com toda sua juventude para tornar-se somente alma". Os carnavais não me assanham mais, nem as fadinhas. Sinto saudade, sim, dos passarinhos na janela, no pé de laranja no pequeno quintal; do meu quarto sem forro, onde eu e meus irmãos nos amontoávamos — a pobreza é saudade triste. Quando acordava no inverno, nas férias, eu pulava o muro para me esquentar numa fogueira que minha tia ateava no fundo do quintal. Naquela época, eu ouvia pardais e galos cantando. Eu ouvia estrelas.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Fevereiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O decote salvará o homem

Começo esse colóquio, lembrando de um episódio que me ocorreu, me acendendo um farol: que tempos são esses que nos trazem? Não! Não estou falando da política, da corrupção, mas do ser humano sobre todos os aspectos da vida social e de relacionamentos.

No inverno, as trupes não vão para praia, mas para a fazenda, para o campo, respirar ar puro e sentir o friozinho deleitoso. Foi numa desses encontros com amigos, num sitio, que fui passar um feriado. Aquela disposição geográfica, onde todo mundo dorme amontoado nos quartos, em camas beliche, homens e mulheres misturados.

Assim, dormiram eu e mais uma meia dúzia no mesmo quarto. Ao acordar pela manhã, como faço na minha casa, a primeira coisa foi estender os lençóis e dobrar os cobertores. Quando notei, na cama frontal, uma das minhas parceiras de quarto (já estava no café) deixou a cama desarrumada. (Talvez porque a fome fosse maior.) Fiz a gentileza — hoje se diz "mimo" —, então, de poupá-la do trabalho e arrumei a sua também. Quando ela entrou no quarto, eu estava prestes a receber um elogio, mas  ela disparou: "NOSSA! QUE ESTRESSE!" Engoli a seco e entalei.

Será que essa praga chamada politicamente correto está mudando mesmo as pessoas? As mulheres não estão percebendo mais o cavalheirismo, inerente e secular do homem? Será ofensa, um dia, um homem se oferecer para trocar o pneu do seu carro? Estão matando no homem a sua vontade de se sentir protetor, puro e simplesmente. A mulher precisa entender que, por mais capacidade que ela tenha de trocar a resistência do seu chuveiro, ele vai se sentir mal se ela fizer primeiro. Estou falando do homem, macho alfa. (Não tem homem? Um vizinho, um "marido de aluguel" dá conta.)

Vasculhei na memória e lembrei de um Fantástico que vi há uns anos atrás. (Não vejo mais nenhum.) Na ocasião, aquilo me passou meio despercebido, mas o tema não saiu da minha cabeça: "o sexo masculino vai acabar". Era verdade o que diziam, não estavam falando de um filme de ficção. Não consigo lembrar os reais motivos, mas hoje tenho percepção do que queriam com aquilo: jogar o homem provedor, viril, hétero na vala comum, no limbo. Em nome do quê? E para quê? Ainda não tenho certeza.

Preste atenção ao mundo que nos cerca. Não estão deixando nascer mais homens. O sujeito tem sido combatido desde a maternidade. O azar será se você nascer homem. (Falo aos que ainda não vieram ao mundo.) Ao pôr a cara para fora da calçada, seu machismo já está sendo combatido. E pelos próprios pais. A criança já não pode ter birras, valentias como homem e ser muito ladino — palavra exumada —, que já querem lhe dar uma boneca para brincar. Nem entro no mérito dessa pregação ordinária, que ninguém nasce homem ou mulher (pelo órgão sexual), mas tudo é uma construção social. Essa conversa cansa até gente deitada.

Numa entrevista à Tv Canção Nova, o excelente (e politicamente incorreto) Padre Paulo Ricardo, a quem me põe a rezar todos os dias, disse que estão acabando com os meninos. Por que menino não pode mais brincar de espada, de pistola, com armas? Brincadeira de menino era brincadeira de guerra, de luta. Disse: "ele é um guerreiro do bem. Ele tem que lutar do lado do bem... Você tira isso dos meninos, você educa mocinhas covardes." Exatamente o que está ocorrendo. E os pais estão indo por aí, sem pensar. Esse serzinho será, na vida, aquele que deverá ser protegido e não o protetor; nunca aquele que se atira para salvar a mulher.

Na série Downton Abbey, um personagem bastante marcante é o lacaio Thomas. Embora não pareça, à primeira vista, mas Thomas é gay. Isso fica muito sutil nos primeiros episódios. (Ele tenta até o autoflagelo para se "curar".) Mas a questão de Thomas era subir na hierarquia dos serviçais da família Crowley . Ele queria ser o mordomo. Com o estouro da primeira grande guerra, ele é recrutado para o front. Naquela época, de heroísmo, o homem sentia-se honrado em lutar pela pátria. E a guerra era uma forma de exalar bravura. Menos para Thomas. Ele estava na guerra, mas a guerra não estava nele. Ele pensava em Downton. Numa maneira de voltar para casa, ele, entrincheirado, acende um cigarro, levanta a mão e fica à vista do inimigo. É atingido por um disparo e tem a mão perfurada. Imediatamente é desligado do batalhão e volta para casa. Uma atitude covarde, no meio de tantos homens de guerra.

Se assim continuarmos (criar maricas e não homens), iremos ter escassez de homens no futuro. E as mulheres, como alertou o Fantástico, irão perder o  interesse por eles. Irão se enrolar e fornicar com outras da sua espécie — já está ocorrendo. Por que a mulher seria atraída, sexualmente, por  um ser igual a ela? Não que os opostos se atraem, digo daquilo que a mulher mais busca num homem: a virilidade, o apoio, os braços fortes, a proteção. Desde o paleolítico.

A revista SuperInteressante, a qual chamo de "Desinteressante", é marcada por reportagens polêmicas e sempre aquelas que contradizem a história, ou os tabus sociais. O costumeiro das suas capas é apologia à maconha, questionar as doutrinas cristãs e enaltecer outras religiões, como, por exemplo, o islamismo. Numa dessas reportagens fraudulentas e, diga-se, bem covardes, eles afirmaram que crianças (meninos) que se vestem de super-heróis vão se tornar crianças violentas. Claro que isso é uma piada. Fosse verossímil, eu estaria, hoje, chutando cachorro por aí. Tive a minha infância sobre meus cavalos imaginários, revolveres de madeira, correndo para lá e para cá, matando meus bandidos, também imaginários. Essa gente quer acabar com o guerreiro, o homem milenar. Só pode.

Calma. Ainda chegaremos ao clímax dessa doutrinação politicamente correta; que os heróis dos gibis, e hoje nas telas do cinema, serão proibidos, em nome do combate à violência que eles afirmam estimular. Será o fim do Batman, Superman, Homem Aranha, Homem de Ferro, etc.  Não teremos mais heróis. E, em terra sem heróis, triunfarão os vilões, ou, quiçá, ressuscitarão o velho Capitão Gay, do Jô Soares. Numa forma de ser doce com o mundo e não ferir o outro com sua espada de plástico.

O machismo, amaldiçoado pela #WomenMarch (um dia depois da posse de Donald Trump), é o inverso do que se prega pela grande mídia — homem que bate em mulher é um covarde e não machista. Todas as conquistas da mulher, no trabalho e civil, só se obteve no mundo ocidental. E essas má amadas estão brigando exatamente com esse mundo, dos homens. O mundo que as projetou. Ninguém dessas defende a mulher das leis muçulmanas, do Sharia. Hipocrisia é o que chamo.

Machismo é o estado natural do homem em proteger e preservar a mulher de quem quer deformá-la e transformá-la em outro homem: o feminismo. Uma mulher que cai nas garras do feminismo é como aquele que vai à cracolândia para experimentar droga. Quase sempre não tem volta. Quando volta, torna-se um macho mal acabado, usando um termo rodriguiano. Não estou aqui, como conservador, para salvar o mundo, mas proteger o mundo dos seus salvadores. E eles são loucos e sedentos.

E o bofetão? Ninguém mais dá e nem leva. Coisa de melodrama? O mundo politicamente correto não aceita o revide, o tapa na cara como resposta. Quando as palavras se esgotam, o bofetão era o remédio, aquilo que faz um ter pena do outro, se acariciar e se perdoar. Não se dá bofetão, só porque se odeia, mas, muitas vezes, porque se ama demais. No amor também nos ofendemos ("Atrás da Porta", de Francis Hime e Chico Buarque, deve ser lida, relida). Dali, e pós a mão cheia, tudo se acalma. Eles percebem (homem e mulher) que era a dor que precisavam sentir para exaurir. Era como nas novelas clássicas: bateu-levou. Depois, no final, se casavam. 

En passant, vi um documentário da Tv Animal, sobre a vida dos cães selvagens na África. Muito interessante como as coisas se comportam no reino animal (ou não somos parte dele?). A hierarquia da matilha é uma regra, respeitada pela força. Você tem o macho alfa e a fêmea alfa. Eles são os guardiões do grupo. A fêmea escava a toca onde seus filhotes nascerão, enquanto os outros vigiam o ambiente. Quando os filhotes nascem, a função dos demais, além de protegê-los, é buscar comida. E quem vai caçar? Os mais fortes, vigorosos, os mais preparados. Enquanto, no esconderijo, os filhotes, e aqueles que estão velhos e feridos, esperam pelo o alimento. Quando os caçadores chegam, o alimento é distribuído para todos, sem distinção.

Voltemos ao paleolítico, e veremos que o homem não punha a mulher para caçar. Ela, sem força física, seria uma presa fácil aos animais selvagens. Mulheres já brotaram dóceis e delicadas. Elas têm, exato, o instinto do cuidado, do zelo. E por isso, trazem os historiadores, ficavam protegidas em cavernas, cuidando da cria, à espera do alimento, do seu homem. Assim era, porque assim são ainda os cães selvagens africanos. A diferença é, o homem evoluiu em muitos aspectos, e os cães, não. Ainda continuam no modo antigo de sobrevivência.

"Estamos cegos, surdos e mudos para o óbvio", dizia Nelson Rodrigues. E a vida, ipsis litteris, é 24 horas calcada pelo óbvio do habitat, do meio ambiente. Os cretinos, interventores do mundo, querem mudar regras milenares, porque entojaram do cotidiano, da mesmice. Nelson também disse:
"A mulher pode ter qualquer idade. Não o homem. O homem não pode ter dezoito, ou quinze. Aos dezoito anos, não sabemos nem como diz 'bom dia' a uma mulher e não podemos fazê-la feliz, em hipótese nenhuma. Para o homem, o amor não é gênio, não é talento, e sim tempo, métier, sabedoria adquirida. Fiz as considerações acima para concluir: — o homem devia nascer com trinta anos feitos." 
Digo ao homem (depois dos 30 anos): não se perca em ter que ser politicamente correto com mundo que o persegue. Seja incorreto, seja um homem natural, com suas características biológicas, físicas e de instinto; abuse da sua condição. Debruce os olhares sobre as pernas, os decotes, se inspire e respire esse ar bom que vem da fêmea que lhe rodeia num mall de shopping; e que ela lhe traga seus desejos por inteiro.

Numa festa de mulheres lindas, o homem solteiro deverá ser apresentado aos decotes, antes de qualquer palavra. É sobre eles que ele depositará a sua fidelidade perpétua. O que atrai um homem é aquilo que é segredo, obscuro, transparente, invisível. Aquela ponta de auréola que desponta e ele tenta perceber com olhares lânguidos. Lá, depois dos seus 30 anos de vida conjugal, ela ainda irá lhe atiçar com suas luzes, como um luminoso que pisca sobre seu cólon.

Não sei que nome eu daria para a essa crônica. Pode ser "O decote", "Os peitos", "O cólon", ou qualquer coisa que me seduz e faz meus olhos hipnotizados, imantados por uma mulher. Então, põe aí: "O decote salvará o homem". Eu creio.

Se você, homem, conseguiu chegar ao final desta crônica, e pretende salvar a sua espécie, nunca deixe de cobiçar um bom decote, quando deparar com uma pecadora e linda mulher (cuidado com o silicone e outros disfarces). Sem receio de ser advertido por um bofetão; e sem pena nenhuma, nem dó da sua vítima.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Então virou moda


Virou moda ser "master chef", porque a TV mostrou. E depois comer mesmo feijão com arroz todo dia;
Virou moda tomar vinho e cerveja artesanal, e antes cheirar a boca da garrafa como se soubesse distinguir alguma coisa;
Virou moda cobrir o corpo de tatuagens que as rugas um dia deformarão;
Virou moda ver "the voice" na TV e não perceber o que falta  é criatividade, porque as músicas que eles cantam foram compostas há mais de 30 anos;
Virou moda ter cachorro, gato e tratá-los como se fossem filhos;
Virou moda brigar com o professor e poupar o filho pelas notas baixas;
Virou moda homem se vestir como mulher, e mulher se vestir para outra mulher;
Virou moda mudar o padrão de beleza, olhando agora para coisas feias e bregas;
Virou moda ouvir funk, sertanejo e achar que é bom e todo mundo gosta;
Virou moda ser fitness, pedalar, correr e ser burro;
Virou moda cuidar do corpo em detrimento à mente;
Virou moda tirar retrato de si, narcisamente falando;
Virou moda ser espiritualizado e não ser religioso;
Virou moda novela gay, beijo gay, ator gay, mundo gay;
Virou moda aceitar qualquer coisa além do gênero masculino e feminino;
Virou moda relativizar tudo, até a mais ululante verdade;
Virou moda não ler e ter opinião sobre tudo que não sabe;
Virou moda ser mimizento, ressentido e chato;
Virou moda maquiar a realidade por pura covardia;
Virou moda ser politicamente correto;
Virou moda a burrice sem rubro na face;
Virou moda ser ridículo e não saber o quanto é.
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2017