BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Mr. Barrow

Confesso, não sou daqueles que veem uma série até o fim. Assisto várias ao mesmo tempo, e algumas vou largando pelo caminho. Vi sim, até o fim, Mad Men e agora Downton Abbey. (Por essa declaração já deve ter percebido que sou um aficionado pelos dramas.) Para mim o que me prende são as histórias ou as histórias dentro da história. Verdadeiras ou fantasiosas.

Zerei por esses dias Downton Abbey — se me permitem vou usar a sigla DA. Não tive pressa em ver, até porque tudo é locupletado de muitos detalhes e paisagens lindas daquele início do século XX (Belle Époque). Os figurinos, então, são impecáveis. As cenas são minuciosamente pormenorizadas com posicionamentos de câmeras, personagens, silhuetas, luzes, etc.

DA é uma série que discorre sobre a vida de uma família aristocrata inglesa; uma família com seus dramas e suas vidas misturadas com as dos seus criados. Há personagens marcantes, como o mordomo Carson (Jim Carter), figura impoluta. Mas o que eu queria trazer aqui nessa conversa, e até para servir de comparação com as produções nacionais, é o personagem do lacaio (servil) Thomas Barrow (Rob James-collier), ou simplesmente Mr. Barrow.

Thomas Barrow é jovem, educado, cortês, de boa aparência, cabelo aparado com brilhantina, espinha ereta. Mas carrega no olhar um certo cinismo, uma certa maldade; ele vê a vida de soslaio. Logo nos primeiros episódios (acho que foi no segundo) o diretor Julian Felowes deixa escapar que Mr. Barrow é homossexual, quando ele tem um noite amorosa (e casual) com um visitante de DA. Mas a coisa ficou só nisso. Não teve mais beijos gay ou cenas para chamar atenção do público. (Marketing barato e previsível da tv brasileira.)

É difícil dizer ou definir Thomas Barrow durante a série. Ele tem altos e baixos com atitudes covardes e de coragem em outras épocas. ( O período da história é entre 1910 a 1925) Por vezes, era vil e depois mostrava bravura, quando, por exemplo, ele salva Lady Edith de um incêndio provocado por ela mesma na lareira do seu quarto. Durante a guerra, ele se acovarda e se fere propositalmente quando, entrincheirado,  acende um cigarro a metros do inimigo e tem a mão alvejada. Imediatamente ele é desligado e volta para DA.

O sonho de Thomas Barrow era o posto mais alto dos serviçais de DA. Ele queria a posição de Mr. Carson, ser mordomo da mansão. Mas como eu disse, os altos e baixos do personagem leva-o a ter crises existenciais. Como o auto flagelo, por achar sua condição sexual  algo pecaminoso (?), e só flagelo o "curaria"; e depois quando tentou um suicídio cortando os pulsos. Quando ele se vê esgotado em DA, procura emprego em outra mansão. Ele segue com boas referências, mas sente falta do calor, do aconchego de DA. No último capítulo, ele volta como mordomo para DA, quando Mr. Carson descobre uma doença que o faz tremer as mãos.

É perceptível. O personagem não tem nenhum perfil de herói e nem de bandido. Ele se esconde dentro de si, roendo suas angústias quando almeja algo melhor para vida. Não houve uma preocupação de torná-lo bom, sendo ele muita vezes mal na trama. Ele era uma pessoa como vemos por aí, nas ruas do século XXI: o desejo de subir dentro da empresa e ser respeitado. Tinha seus medos, aflições, dramas e uma sexualidade acobertada.

Eis onde eu queria chegar. Agora, imagina esse personagem numa trama brasileira, dessas feitas pela Globo. Ele seria empoderado, protagonista, virtuoso, herói; um modelo para uma nova sociedade que aceita os diversos tipos de comportamentos sexuais e gênero. Iria chamar atenção mais que os outros. Depois, iriam sobrecarregá-lo de cenas intimas, até que o público não se chocasse mais — nem as crianças. Tudo como se vê nas novelas e séries brasileiras da atualidade.

Como disse a criadora de Friends, Marta Kauffman: "A telenovela não vai ser o primeiro gênero de entretenimento, não vai funcionar mais. Todo mundo tem de pensar algo diferente a ser feito. As pessoas não veem mais TV como antes". Ela tem razão. Vivemos uma época de esvaziamento (sem conteúdo) dos melodramas. As novelas e séries nacionais só capitulam afim de carregar e levantar bandeiras progressistas: racismo, LGBT, ideologia de gênero, regime militar, poliamor, etc. Como agora, nos enxovalhando com a discussão de gênero. Numa sociedade majoritariamente heterossexual, isso é rechaçado. As pessoas querem ver a vida como ela é, como nas séries americanas e inglesas, onde as histórias são bem contadas, sem nenhum pretexto (pano de fundo) em doutrinar o público. Depois, o publico que está errado em não ver mais novelas.

A pergunta que deixo é: quem sustenta toda essa discussão? A quem interessa tudo isso? Tenho estudado a resposta, mas isso é assunto para outra crônica.
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / setembro de 2017

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A estagiária do calcanhar sujo

Este mês foi produtivo aqui no Blog, muitas crônicas. E ainda sobrou um espacinho para uma de Nelson Rodrigues. O nome original é "Os setenta anos de Gilberto Freyre" e está no livro "O Reacionário". Mas por que essa crônica, especialmente? Outro dia, uma seguidora do Facebook perguntou sobre a origem do termo "estagiária do calcanhar sujo". A expressão surgiu nesta crônica, de 1970. O mais interessante de Nelson é que ele continua atual, porque os calcanhares sujos continuam na nossa imprensa, diariamente.

Nem sei por onde começar. Digamos que. Eis a verdade: estou naquela situação de Carlos Drummond de Andrade ao oferecer seu livro a Marques Rebelo. Na dedicatória, escreve o poeta nacional: “A Marques Rebelo —sem palavras —Carlos Drummond de Andrade.” Ao que eu saiba, poesia é uma arte de palavras. E se um poeta não as tem, poderemos talvez chamá-lo de antipoeta. Na melhor das hipóteses: antipoeta.

Felizmente, o bom Carlos estava usando apenas um truque de sua prudência mineira. Não queria elogiar o romancista e o conseguiu. Eu diria que a minha situação é parecida: faltam-me palavras para começar esta crônica. Queria escrever sobre a socialização do homem. Digo mal. Não é bem do homem. O correto seria dizer asocialização do idiota.

Não sei se me entendem e tentarei explicar. Antigamente, o idiota era o primeiro a saber-se idiota; e babava fisicamente na gravata. Não andava, Como agora, em massas, unanimidades, maiorias, assembleias etc. etc. Do berço ao túmulo, ele assumia a sua irreversível miserabilidade de idiota. O mundo dependia de sete, oito, dez ou vinte individualidades, fortes, criadoras, sim, individualidades que pensavam por nós, sentiam por nós, decidiam por nós.

Embora minoritários, os melhores faziam o nosso mundo, inventavam a nossa realidade, ditavam os nossos valores. Até que ocorre o maior acontecimento do século XX que foi, exatamente, a socialização do idiota. Pela primeira vez o idiota se organizava. Ele sempre fora, como indivíduo, o grande impotente. Deixou de ser indivíduo. Impessoalizou-se; dissolveu-se no coletivo. Aqui no Rio, cinco autores fizeram uma única peça. Até o amor que, sempre, sempre, exigira a solidão do casal, o amor, dizia eu, precisou socializar-se também.

Há pouco, trezentos mil jovens se juntaram numa ilha inglesa. Trezentos mil jovens, 150 mil casais. Foi uma bacanal inédita na história humana. Um dos beatles casou-se. Queria fazer sua noite de núpcias na frente das câmaras e microfones. Não bastavam o noivo e a noiva. Era preciso que cinco, seis, sete milhões de telespectadores invadissem a intimidade do casal.

Ai daquele que, num desafio suicida, tenta individualizar-se. Vocês se lembram das greves estudantis da França. Os jovens idiotas viravam carros, arrancavam arrancavam paralelepípedos e incendiavam a Bolsa. E, então, o velho De Gaulle falou aos idiotas: “Eu sou a Revolução.” Que ele fosse a Revolução, era o de menos. O que realmente enfureceu o mundo foi o eu. Era alguém que queria ser alguém. Um dos maiores jornalistas franceses escreveu um furibundo artigo contra aquele espantoso orgulho. Aquele guerreiro, de esporas rutilantes e negro penacho, foi o último eu francês. Os outros franceses são massas, assembleias, comícios, maiorias.

E há o que se finge de idiota para sobreviver. Muitos não entendem por que professores, sociólogos, sacerdotes, cientistas —vivem a fazer rapapés, sim, humilhantes rapapés para os lorpas e os pascácios. Eis um mistério nada misterioso. Ou o sujeito bajula os idiotas ou não terá onde cair morto.

Por que é que estou dizendo tudo isso? Vejamos: outro dia, Gilberto Freyre completou setenta anos. Eu me lembrei de Hugo, Victor Hugo. No seu septuagésimo aniversário, a França parou. Toda Paris desfilou diante do poeta. Rosas, dálias, lírios, as flores mais inimagináveis foram atiradas a seus pés. Naturalmente que a maioria dos manifestantes eram os idiotas, não socializados, não organizados. Mas vejam o abismo que se cavou entre as duas épocas. Hoje, os idiotas, instalados em sua onipotência numérica, não concederiam ao grande homem um vago e reles bom-dia.

E assim Gilberto Freyre fez setenta anos debaixo de um silêncio brutal. Tive o cuidado de ler os jornais. Não vi uma linha. Minto. Vi num dos nossos jornais uma nota, espremida num canto de página. Quem a redigiu teve vergonha de elogiar um dos homens mais inteligentes do Brasil, em todos os tempos. Eis o que eu queria dizer: está em seríssima crise vital o país que não reconhece seus maiores homens.

Um companheiro ia passando e eu o chamei: “Olha aqui o que merece Gilberto Freyre.” O companheiro passou a vista e rosna este comentário; —“Por essas e outras é que o Amazonas tem menos população do que Madureira.”

Não é a primeira vez, nem será a última, em que falo de Gilberto Freyre e do seu exílio. Em nosso tempo, o Brasil tem sido o exílio do extraordinário artista. Os jornais não falam no seu nome, e vale a pena explicar, para os menos informados, esse mistério. A festiva infiltrou-se em toda a imprensa brasileira. Outro dia, passei num velho órgão. Enquanto esperava um colega, vi uma estagiária, dos seus 18, 19 anos, de sandália e calcanhar sujo. Estava lendo e titulando telegramas. Súbito, pega um dos telegramas, amassa-o e o atira na cesta. Diz para os lados: Gilberto Freyre não é autor que se cite.”

Aí está, num simples gesto e numa simples frase, a Operação Cesta. Os membros da festiva fazem uma vigilância feroz. Qualquer notícia que não convenha à esquerda vai para a cesta, sumariamente. sumariamente. Para o leitor, que nada sabe dos bastidores jornalísticos, pode parecer inverossímil o poder de uma estagiária de calcanhar sujo. Inverossimilhança nenhuma. Reparem como o editorial é uma coisa e o resto do jornal outra. A direção opina no editorial. O resto do jornal fica por conta da infiltração comunista.

No caso de Gilberto Freyre, as esquerdas têm-lhe ódio. Portanto, não se pinga uma palavra sobre a sua obra gigantesca. Falei no seu exílio na própria terra. E realmente ele é muito mais notícia lá fora. Escolham qualquer país europeu. Na Itália, França, Inglaterra, Alemanha, sua presença intelectual é muito mais poderosa do que aqui. Sim, o estrangeiro é muito mais sua casa do que o Brasil.

Isso só acontece num país que perdeu a sua consciência crítica. Bem sei que a “rebelião dos idiotas” é um fenômeno universal. Mas na Europa, nos Estados Unidos, todas reconhecem a dimensão mundial de sua figura. Ao saudá-lo, a Universidade de Sussex proclama que, depois de sua obra, o “Brasil tornou-se mais brasileiro”. Ao passo que, em nossa terra, as meninas de calcanhar sujo e os barbudos da festiva querem liquidá-lo pelo silêncio.

Tudo porque, na sua formidável solidão, não transige com as esquerdas. E, ao mesmo tempo, quantas mediocridades têm uma delirante cobertura promocional. Mas vejam: nos seus setenta anos, Gilberto Freyre fez uma obra para sempre. Daqui a cinco anos, os idiotas que hoje o negam ou, pior, que fingem esquecê-lo, vão desaparecer como se jamais tivessem existido. Daqui a duzentos anos, Gilberto Freyre estará cada vez mais vivo; e sua figura terá a tensão, a densidade, a atualidade da presença física.

Na minha juventude, os literatos patrícios perguntavam uns aos outros: —“Quando sai tua Guerra e paz?” E todos respondiam: “Estou caprichando.” Mas a Guerra e paz não saía. Eu só imaginava o escândalo que seria se, um dia, explodisse, no Brasil, uma súbita Guerra e paz. Até que, há pouco, fui ler todo o Gilberto Freyre. Li e reli. Fiz a enorme descoberta. Sua obra tem o movimento, a profundidade, a variedade do romance tolstoiano. 

O Globo, 28/ 3/ 1970

Postado por Antônio de Oliveira / agosto de 2017

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A fake news, o globalismo e Trump


No último dia 20 de janeiro, enquanto Donald Trump tomava posse do seu mandato à presidência dos EUA, um grupo de extremistas de esquerdas, financiados pelos mesmos bilionários que bancaram a campanha da democrata Hillary Clinton, quebrava e punha fogo na cidade de Washington DC. No mesmo instante, uma marcha de mulheres, em extensão mundial, era iniciada, contra um presidente legítimo. 

E o que fez Trump para merecer todo esse manifesto? (Mal havia tomado posse) Ele é mesmo um radical, um xenófobo, eugenista, racista, sexista, machista como lhe atribuíram? Não! Ele é só um bilionário republicano que se posicionou desde o início da sua campanha como combatente do status quo; contra o establishment montando pelos mesmos bilionários metacapitalistas, que botaram Obama na presidência e esperavam, com Hillary, continuar na construção de um projeto mundial de poder.

Naquele mesmo dia 20 de janeiro, a imprensa, ao qual Trump apelidou de “Fake News”, passava o olhar reticente pelas depredações e seus extremistas violentos, chamando-os somente de “manifestantes”, escondendo sua natureza da esquerda mainstream. O modus operandi dos Black Blocs de Washington DC era o mesmo do que vimos no Brasil (Movimento Passe Livre): jovens mascarados, fortemente armados com bombas e inconsequentes.

Para a imprensa de esquerda, tanto aqui como lá, não existe o extremismo de esquerda, mas a coisa tem nome quando surge de um lado onde a tinta não é de esquerda. Aí eles chamam, em tom raivoso, de: supremacia branca, extrema direita, neonazistas, neo-kkk, etc. Fato como aconteceu recentemente na cidade de Charlottesville, na Virgínia.

Depois desse episódio, na semana seguinte, quando uma van, dirigida por um terrorista, atropelou e matou 14 pessoas e feriu outras tantas num calçadão em Barcelona, a mesma imprensa foi cândida ao dizer, como sempre: “terrorista”. Sem alaridos, sem apontar sua origem, motivação e sem pedir seu fim. Isso fica bem claro quando, no dia do confronto nos EUA, o correspondente da Globo News, Guga Chacra, ao ser chamado para comentar já foi disparando, babando na gravata: supremacia branca, neonazistas, xenófobos, racistas, etc, e tudo que pudesse chamar. Claro, no final ele atribui a Trump o confronto. Já sobre as mortes em Barcelona, ele foi comedido e tênue com as palavras.

E por que tudo isso agora? Por que esse embate, esse separatismo, esses ataques exatamente quando um republicano como Trump assume o governo? Fácil você identificar. Primeiro, vamos lembrar que, durante o governo de Obama tais confrontos não aconteciam nos EUA — ninguém foi derrubar a estátua de um confederado. Quando um atentado terrorista acontecia — terroristas não negociam com nenhum dos lados —, o máximo que Obama fazia era chorar e dizer que era preciso desarmar a população, seguindo o caminho de ditadores históricos que conseguiram depois implantar suas ditaduras através do desarmamento da população — Chávez, por exemplo.

Logo depois do ataque à revista Charlie Hebdo, um manifesto (sem organização), surgiu em Paris, na França. No dia seguinte, lideres mundiais estavam em marcha contra o terror. Obama se omitiu e não compareceu. Nenhum veículo de imprensa, desses financiados pelo Globalismo, lamentou ou cobrou sua ausência.

Acredito, pois,  que essa guerra de desinformação (ação de suprimir uma informação, de minimizar o seu efeito) está só começando. A ressurreição de grupos extremistas como neonazistas e KKK e depois colar tudo isso em Trump, ainda terá muitos episódios. A força do governo Globalista, que mantém o domínio dentro do partido democrata, não desistirá de seu intento: colocar a opinião pública contra Trump e derrubá-lo. Mais e mais confrontos irão aparecer. A fake News não deixará de associar Trump a Hitler, assim como faz a revista brasileira IstoÉ, que vive montando imagens de Trump com Hitler.

Duas coisas, só para dar exemplo (e finalizar), que a Fake News não notícia e esconde do grande público: que a campanha eleitoral do bilionário Trump, ao governo dos EUA, foi quatro vezes menor — MENOR! — (e como recursos próprios) do que a da “mulher frágil e pobre” Hillary. Depois, eles também nunca irão dizer que, a KKK (grupo racista) teve seu berço dentro do partido democrata, a esquerda americana. Em qualquer confronto futuro, nunca irão dizer, também, por onde tudo começou. Só irão contar: Trump está metido nisso. Isso se chama desinformação, a farsa da informação.

A quem interessa e por que financia tudo isso mesmo?

Para entender melhor o que é Globalismo e Nova Ordem Mundial, pesquise:
Vídeo – Palestra do Prof. Olavo de Carvalho na OAB (2004). Disponível no You Tube;
Vídeo – Documentário da Agenda Marxista na América. Disponível no You Tube.
Livro – “A Corporação - A história secreta do Século XX e o início do governo mundial”, por Nicholas Hagger.
Texto – “O dono do mundo”, por Alexandre Borges (http://midiasemmascara.org/arquivos/o-dono-do-mundo/)

 © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

As ciclovias deram errado

Cena da série "Call the Midwife"
O senso comum da mobilidade urbana é que os investimentos e projetos devam ser destinados, sempre e em primeiro lugar, ao transporte público de massa. Isso é o que se repete nos seminários e fóruns por aí. Ninguém mais irá discordar, porque é consenso entre todos. Mas por que o poder público e seus gestores — palavra da moda — insistem em transportes que falham? Por que nos últimos anos vimos cidades abarrotadas de ciclovias e ciclofaixas que viraram elefantes brancos? Investir em ciclovias é mais barato e dá visibilidade (pensaram); transporte público, como metrô e BRT, demanda um custo elevado e o resultado é em longo prazo. Todos ficam invisíveis. 

(Seria mais fácil apontar aqui as soluções, e não as falhas. Entretanto, os erros persistem, os grandes centros agonizam, e ninguém quer pôr o dedo na ferida.)

Confesso que fui um entusiasta — e sem perceber o modismo — ao enxergar as bicicletas como meio de transporte urbano. Ou: uma ramificação, um agregado do transporte dentro das cidades. Meu torpor durou pouco e passou. Quando fui arrastado para dentro, e vendo a cidade nas suas entranhas, percebi que havia mais problemas diagnosticados por um urbanista debruçado sobre um mapa de papel. (Esses olhares que faltam aos técnicos da área.) 

Olhar a cidade tecnicamente é pensar em máquinas, soluções de engenharia e ficar só nisso. Às vezes, a cidade é acelerada, em outras vezes é mais lenta, sem aparente razão, porque, organicamente, ela pulsa; e essa respiração é, antes de tudo, social e fisiológico. E antes de qualquer receita que se dê, olhando seus arranha-céus com asfalto quente, ela já fervilha sem nenhuma ação do poder; como sinais claros das angústias, traumas, sofreguidão e carências da população que nela habita. Desigualdades, onde, de um lado, uma classe média alta vê as ciclovias como necessidades; enquanto, nas franjas da cidade, a pobreza se espalha com pessoas morrendo nos corredores de uma UBS. Esse olhar que é preciso ter sobre o tecido urbano.

Esses dias eu deparei com uma manchete no portal G1. A matéria dizia que algumas mães da classe média carioca não têm usado mais as chamadas cadeirinhas para crianças no automóvel. E isso tem um motivo. E não tem nada com a questão que elas resistem à lei, ou porque a estrovenga toma muito espaço. Elas até acham necessário o suporte. O que amedronta essas mães é a segurança de algo que não tem a ver com a segurança no trânsito. Vem de fora, à margem da vida que se trava na cidade.

Uma criança presa numa cadeirinha — pensam elas — seria mais difícil retirar de dentro do carro em caso de um assalto, por exemplo. Muitas até treinam seus filhos como proceder diante da violência que apavora a cidade. Pensar em modos de vida progressistas e avançados num país como o nosso é muito surreal e chega a ser utópico. É abnegar outros fatores e não levá-los em consideração. A violência urbana não pode ser desdenhada num pais com 60 mil assassinatos/ano. Não tem como mascarar os monstros urbanos por um projeto bonitinho de uma ciclovia à beira mar. O brasileiro, desde sempre, carece, e  por isso peleja, por coisas básicas para sobrevivência nas cidades: moradia, educação, saúde e segurança. O fator transporte vem em segundo plano.

Quando começou a surgir a moda das ciclovias e ciclofaixas, muitos adeptos achavam que era só construir que a população iria aderir. (Foi o que disseram os franceses a nós.) E logo, todos veriam as maravilhas de um mundo sobre duas rodas; depois exigiriam mais e mais ciclovias nas cidades. Pensando assim, saíram construindo muitas ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas por aí — um dia o ciclista irá aparecer. Tomou uma proporção gigante, que até as cidades menores adotaram a ideia. Com isso, foi-se empurrando os carros das ruas, subtraindo estacionamentos e prejudicando claramente a economia da cidade. Os ciclistas convocados se recusaram e tudo ficou reduzido a grupos de ativistas. A grande urbe tem fome e sede de outras necessidades. Inclusive de justiça.

Hoje, essas ciclovias estão só nas cabeças desses ativistas ciclochatos, como ficou claro durante o governo do PT em São Paulo. A população, na sua maioria, não só não aderiu como rechaçou muitas das que foram construídas, principalmente a da Avenida Paulista. O saldo ilusório do prefeito foi que ele não conseguiu se reeleger. Um dos motivos foi esse: dobrar-se de joelhos aos grupos minoritários e autoritários, que dominavam sua agenda diária, e depois ser esmagado nas urnas pela maioria que ele não ouviu. A população estava certa.

E por que as bicicletas não deram certo, sendo o Brasil um país tropical, abençoado por Deus? Como falei, há um choque de culturas, desigualdades, nos grandes centros do país; é difícil enxergar a olho nu o que é e o que não é prioritário na vida na urbe. Falta emprego, moradia, segurança, cidadania, cultura, educação, respeito, igualdade. Asseguro, pois, a maioria das pessoas iria preferir andar em transportes com segurança, conforto, preço justo e rápido. Bicicleta no Brasil é sinônimo de lazer. Não tem vocação para servir de transporte. Isso é desvario, e eu afirmo.

Também no Rio de Janeiro, a prefeitura abandonou o projeto de aluguel de bikes. Em pouco tempo de uso, os estacionamentos (bicicletários) foram destruídos, com muitas bicicletas quebradas e sem condições de uso.
Estamos falando de um país terceiro-mundista, que ainda não adquiriu maturidade e respeito aos bens públicos e privados. País onde a pichação virou rotina nos grandes centros. País onde o cidadão acorda de manhã já pensando em malandragem e como tirar proveito do outro. País onde a justiça faz, muitas vezes, injustiça ou demora a punir. Como ser civilizado, criando programas de aluguel de bicicletas assim? Em junho último, o jornal O Globo relatou o problema com aluguel de bicicletas na cidade do Rio de Janeiro:
“Mas não é só responsabilidade da empresa as dificuldades que os usuários estão enfrentando. A má educação também tem uma boa parcela de culpa já que, com frequência, o funcionamento do programa é interrompido devido a atos de vandalismo. Desde que a Tembici assumiu a operação do sistema, em maio, foram 260 bicicletas vandalizadas, cerca de 10% do total.”
Faz alguns anos fui a um desses seminários sobre bicicletas, ciclovias, etc. Com certa preguiça para ouvir o blá blá costumeiro. Já estava ficando enfadonho quando apareceu um holandês para falar (em bom português) sobre o plano cicloviário da cidade do Rio de Janeiro. O cara era engraçado, eloquente, mas sua fala desviava quando confrontava com a realidade do país e das cidades. Na verdade, os aspectos socioculturais não eram considerados. Bem, ele estava prestando consultoria e só poderia falar bem e confiar no programa que propunha.

A certa altura, ele disse que muitos problemas de transposição de bicicletas, que conflitam com grandes avenidas (Avenida Brasil, por exemplo), a solução seriam os túneis somente para bicicletas... Posicionei-me melhor na cadeira, dei uma fungada e quase levantei o braço. Depois, deixei que ele concluísse e fui embora sem fazer-lhe nenhum questionamento sobre seu brilhantismo. Eu não poderia estragar e a plateia iria me condenar por colocar óbices na sua fala tão convincente. Ele ganhou aplausos uníssonos.

No mesmo Rio, que ele falava, na praia de Botafogo, bem próximo à marina, tem um desses túneis para pedestres. A passagem atravessa sete pistas da Avenida das Nações Unidas, com 35 metros de extensão. Um dia, há muito tempo, fui atravessar por ali. Era um cheiro forte de cocô e urina impregnados no ar. (Saí de lá com ânsias de vômito.) Um dormitório de mendigos, onde o risco de assaltos, ataques e estupros era eminente. Por isso, ninguém o utilizava, e todos preferiam se arriscar atravessando as sete pistas ou andavam um pouco mais até o próximo semáforo.

Olhar sobre um mapa e não enxergar, do chão, do broto, a cidade que pulsa com suas desigualdades e problemas crônicos; onde pobreza e riqueza convivem juntos no mesmo quarteirão é fazer projetos que nunca irão sair do papel. Imagina construir mais túneis iguais a esse (!), sem antes tirar os mendigos, os drogados, trombadinhas, os marginais, os punguistas, a fome das ruas; depois, estamos falando de uma cidade cercada, sitiada por morros com toda violência oriunda do tráfico de drogas. Imagina só.

Não obstante, com esse modismo, iniciou-se também um comércio (antes não havia) de novos e caros modelos de bicicletas. E aí — estamos falando de Brasil — as bicicletas começaram a ter valor também no mercado negro. O roubo de bicicletas de luxo só aumentou. Um amigo relatou que no prédio onde ele mora, certo dia (à luz do sol), ladrões invadiram o prédio arrombando o portão da garagem e foram direto ao local onde ficavam as bicicletas. Levaram as que puderam com preferência àquelas que têm valor maior no mercado. Como elas não tem placa ou chassi são facilmente passadas para frente. 

Lá no Rio também parece que as piores histórias só existem lá, mas não é perseguição, não. São aquelas que me vêm à lembrança , em 2015,  um médico foi esfaqueado e depois veio a falecer quando um menor o abordou para roubar sua bicicleta, enquanto ele pedalava no entorno à Lagoa Rodrigo de FeitasClaro, o menor não foi punido, mas a família do médico ficará enlutada para sempre. Como tem-se dito nas redes sociais: é vida que segue.  A solução dada foi uma lei para proibir o porte de armas brancas. Inacreditável!

(Os verdadeiros ciclistas, que gastam para ter uma boa bicicleta, sem modismo e ativismo, pilotam por esporte, em grupos, e não andam em ciclovias. Eles pedalam por aí, em rotas e trilhas de terra. Tudo fora do convívio urbano.)

Mas, por que essa ressurreição das bicicletas como meio de transporte? Primeiro, porque na Europa ela voltou com força e é usada como acessório dos deslocamentos. Nem precisa dizer que, bem antes, eles investiram muito em transportes de massa, deixando as ruas menos densas de automóveis. (Não adianta trazer o modelo, se não trouxermos também as pessoas. Isso também é claro.) Depois, porque virou moda mesmo nas cidades brasileiras. Coisa de político populista em consoante com essa classe média alta, chique, descolada, hipster, vegana; essa turma que só vê maravilhas, arco-íris, vantagens e não enxerga os becos escuros e violentos da cidade em sua volta.

Não há demanda, hoje, que justifique os investimentos em ciclovias. As prefeituras adeptas escondem as estatísticas, os dados, os números para não ter que se explicar depois à opinião publica o porquê do empenho em algo que tem pouco ou nenhum uso. E não dá para afirmar que esse delírio (e tara) por bicicletas é coisa de governos do PT. Tem muitos gestores públicos, de outras legendas, ainda embarcando nesse modismo desmedido.

A bicicleta como transporte deu certo (e sem ciclovias) no passado, até a década de 1960. Quando as ruas ainda não eram dominadas pelos automóveis, as bicicletas eram o meio de transporte do jornaleiro, do leiteiro, do padeiro, do florista e da parteira. Na série inglesa "Call the Midwife" (está no Netflix), ambientada no subúrbio de Londres, no final da década de 1950, mostra as parteiras montadas em bicicletas indo atender à população carente. (Vale a pena assistir. Imperdível!) Ali, ainda sem as grandes aglomerações urbanas e o fomento da indústria automobilística (que tomou depois também o terceiro mundo), a bicicleta era o jeito fácil de locomover com a vida mais lenta e menos agitada. E depois sem a conversa chata desses ciclo-ativistas. 

Este é o país que precisamos considerar quando pensamos em soluções práticas de urbanismo. Um Brasil servido na bandeja da corrupção, cercado de violência por todos os lados; de instituições carcomidas e falidas; um país que teima em não dar certo como suas ciclovias. Por que será?

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017