BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O diário (atualizado) de Bridget Jones


Na virada do milênio, muitas pessoas esperavam por uma grande catástrofe mundial. Outros mais conspiradores e apocalípticos, o fim dos tempos. Os celulares (ainda sem internet) ficaram mais lentos. Ligações eram impossíveis de se completar na noite de 1999 para 2000. Eu estava na praia com amigos e a única coisa que me lembro, naquela noite, foi que, na minha cidade uma grande tempestade alagou uma das principais vias, um córrego transbordou e muitas pessoas ficaram ilhadas. Fora isso, parecia uma passagem de um ano para o outro, como se deita e se levanta. Nada além de champanhes e cervejas para comemorar.

O tempo galopou. Já estamos em 2019. Lá se foram 20 anos do bug do milênio que não houve. Nada parece ter acontecido de especial, não é? Mas não se engane, algo aconteceu, sim. Não foi nenhuma catástrofe, terremoto, tsunami, cataclisma, ou outro fenômeno na natureza que mudou nossas vidas. Não tivemos guerras entre nações. O que avançou, de forma galopante, foi algo que parecia inofensivo, à primeira vista. O advento e crescimento da internet, e suas ramificações, mudaram muito, sim, nossas vidas. Bridget Jones, por exemplo.

Fui ver O Diário de Bridget Jones no cinema, em 2001. Nada a acrescentar naquela comédia romântica, onde a protagonista (Renée Zellweger) era uma atrapalhada e insegura balzaquiana querendo encontrar seu grande amor — sem perfil no Tinder. Saímos do cinema e fomos beber chope sem comentar nada sobre o filme. (À parte, a trilha sonora, que já virou favorita na minha playlist do Spotify.)

Em 2001, aquela figura feminina, britânica (ainda como a deixamos em 1999), não era nada diferente do que se via aqui, nos trópicos. Bridget era a perfeita caricatura daquela mulher insegura que tentava se firmar num romance, já com o peso dos seus 33 anos anos, se sentindo gorda e velha demais para a maternidade e o amor. Ela queria algo que fosse durável, não só sentir, mas ouvir palavras, porque era insegura demais para olhares e gestos. Era uma eterna romântica, vivendo entre dois amores platônicos. E quando eles se manifestaram, ela se perguntou: — Será comigo?

Ao que surte, ela também não precisava de coisas materiais. Ela era uma jovem jornalista rechonchudinha que havia se emancipado, morando num apartamento de fazer inveja a qualquer um, abrindo mão do aconchego da casa dos pais. Ela queria se sentir uma mulher de verdade, emancipada e livre. Quando se recolhia, vinha o vazio da tv ligada (sem atenção), o cigarro e ao fundo All by myself. E nada mais casual que uma funcionária se interessar pelo seu chefe, embora ele a visse só como mais uma mulher que ele não levou para cama, ainda.

Bridget não queria sexo, mas o amor, o homem perfeito e para sempre. Nada piegas àqueles anos, porque era disso que nutriam os corações: amor e o encontro da felicidade. Com todo mundo achando a coisa mais normal do mundo e uma história como de muitas outras garotas da época. — Bridget Jones é minha história de vida. Muitas devem ter pensado nisso. Mas e hoje, como seria uma história de Bridget Jones? Seu estereótipo estaria ultrapassado?

A Bridget Jones, 30 anos de idade, hoje, não teria diário. Ela tem mesmo um stories no Instagram alimentado diariamente com fotos dos seus melhores momentos. Nada de lamúrias, reclamações de estar só. A vida tem que ser mostrada como a vislumbramos, com fotos filtradas em posições que demonstrem um corpo exuberante. Mesmo que tudo esteja dando errado (indo para outro caminho), o importante é a foto na praia onde só mostrem os pés e o mar ao fundo com uma frase de autoajuda para ilustrar o momento. O que importa é se ver como inspiração, curtida ou mesmo invejada por seguidores.

E como se repetem por aí "você precisa se amar". O verbo amar é algo para si e não para repartir com alguém (com Daniel ou Mark). O psicanalista Gikovate (1943-2016) discordava disso. Ele dizia que amar só se conjuga quando há outra pessoa na sua frente, o que se sente por alguém, e intransitivo na raiz. Ninguém é capaz de amar a si próprio, embora já vimos muitas notícias de pessoas que, recentemente, tenham se casado consigo mesma. Uma coisa de endoidecer e cada vez mais comum neste século.

Quando se ama necessariamente se ama alguém. Amar "a si próprio" é só a elevação da autoestima a um estado de prazer e completude. Bridget Jones de 2019 é uma solteirona que não se importa com a condenação do destino: solteirona. Ela olha para os lados e as amigas estão na mesma situação. Olha para outro e vê homens imaturos com 40 anos, morando com os pais, quando não muito, homens de geleia e sem objetivos. Então, ela já não se incomoda mais com nada. Seu WhatsApp bomba a toda hora com amigas mandando nudes e piadas de relacionamentos.

Indo mais para o extremismo, há aquelas que encontraram refúgio no feminismo (fincou raiz neste século). Eis um lugar seguro para se justificar: achar o mundo masculino desnecessário, porque todos os homens mentem; todos os homens são machistas; todos os homens não prestam. Então, é melhor ficar só e ter uma relação fortuita para não enferrujar.

O mundo moderno, visto pela tela de um smartphone, criou a desculpa para o vexame. Ninguém se sente mais inseguro quando se tem uma resposta adequada no Google para suas questões e quedas. Junte-se a isso as inspirações, como, por exemplo, numa cidade do Canadá uma jovem que decidiu viajar o mundo com 20 dólares. Viramos — e Bridget, consequentemente — refém da nossa própria desordem emocional e uma vida cada vez mais virtual no modo de se partilhar. Onde os afetos são substituídos por pets, barras de chocolates e curtidas. A dor, em total controle, nos mantém num estado de coma. Enquanto as filas aumentam nos consultórios de psicanálise.

Quando, ainda no século passado, todos pareciam caminhar para o mesmo lado, porque era evidente e óbvia a vida; hoje, vislumbram e experimentam sentidos antagônicos, opostos, numa sociedade cada vez mais verificada por pautas e discussões em redes sociais. Com o surgimento de diversos outros comportamentos que pareciam superados desde que os sapiens habitaram o planeta, há 70 mil anos. A natureza humana, a biologia e as formas mais tradicionais de comportamento e vida já não servem mais. É preciso lacrar, quebrando regras e paradoxos; é justificável enfrentar o protagonismo para se sentir mais inserido.

Todo dia é um enfrentamento em desconstrução às narrativas que perfuram à lógica. E como já disse alguém por aí: a internet deu voz ao imbecil.

A história de Bridget Jones ainda teve outras duas sequências. Uma em 2004 e outra mais recente em 2016, quando nossa frívola heroína já está com 43 anos e ainda solteira. A acrescentar, uma cena me chamou atenção nesse — espero — último episódio. Bridget ao descobrir que está grávida, sai à procura do pai. Um novo affair ou sua eterna paixão Mark Darcy (Colin Firth)? Quem será o pai da criança?

Na cena que sua bolsa se rompe, Mark a leva à um hospital carregando-a, parte do trecho, no colo. No caminho, eles têm que passar por uma passeata feminista. Nesse ponto, a história da solteirona se encontra (e cruza) com a de uma nova geração de mulheres. Essas que acham homens desnecessários e por isso protagonizam manifestações, desafiando velhos estereótipos e de culto à beleza. É melhor parar por aqui. Bridget não cabe mais nesse mundo.

Um mundo cada vez mais virtual, idiota e limpinho. Onde as pessoas estão preocupadas com canudinhos plástico e alguém inventou um pegador de pizza para não ter que sujar suas mãos. E eu nem falei dos anos de 1980. Quanta saudade...

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / junho de 2019