BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

As ciclovias deram errado

Cena da série "Call the Midwife"
O senso comum da mobilidade urbana é que os investimentos e projetos devam ser destinados, sempre e em primeiro lugar, ao transporte público de massa. Isso é o que se repete nos seminários e fóruns por aí. Ninguém mais irá discordar, porque é consenso entre todos. Mas por que o poder público e seus gestores — palavra da moda — insistem em transportes que falham? Por que nos últimos anos vimos cidades abarrotadas de ciclovias e ciclofaixas que viraram elefantes brancos? Investir em ciclovias é mais barato e dá visibilidade (pensaram); transporte público, como metrô e BRT, demanda um custo elevado e o resultado é em longo prazo. Todos ficam invisíveis. 

(Seria mais fácil apontar aqui as soluções, e não as falhas. Entretanto, os erros persistem, os grandes centros agonizam, e ninguém quer pôr o dedo na ferida.)

Confesso que fui um entusiasta — e sem perceber o modismo — ao enxergar as bicicletas como meio de transporte urbano. Ou: uma ramificação, um agregado do transporte dentro das cidades. Meu torpor durou pouco e passou. Quando fui arrastado para dentro, e vendo a cidade nas suas entranhas, percebi que havia mais problemas diagnosticados por um urbanista debruçado sobre um mapa de papel. (Esses olhares que faltam aos técnicos da área.) 

Olhar a cidade tecnicamente é pensar em máquinas, soluções de engenharia e ficar só nisso. Às vezes, a cidade é acelerada, em outras vezes é mais lenta, sem aparente razão, porque, organicamente, ela pulsa; e essa respiração é, antes de tudo, social e fisiológico. E antes de qualquer receita que se dê, olhando seus arranha-céus com asfalto quente, ela já fervilha sem nenhuma ação do poder; como sinais claros das angústias, traumas, sofreguidão e carências da população que nela habita. Desigualdades, onde, de um lado, uma classe média alta vê as ciclovias como necessidades; enquanto, nas franjas da cidade, a pobreza se espalha com pessoas morrendo nos corredores de uma UBS. Esse olhar que é preciso ter sobre o tecido urbano.

Esses dias eu deparei com uma manchete no portal G1. A matéria dizia que algumas mães da classe média carioca não têm usado mais as chamadas cadeirinhas para crianças no automóvel. E isso tem um motivo. E não tem nada com a questão que elas resistem à lei, ou porque a estrovenga toma muito espaço. Elas até acham necessário o suporte. O que amedronta essas mães é a segurança de algo que não tem a ver com a segurança no trânsito. Vem de fora, à margem da vida que se trava na cidade.

Uma criança presa numa cadeirinha — pensam elas — seria mais difícil retirar de dentro do carro em caso de um assalto, por exemplo. Muitas até treinam seus filhos como proceder diante da violência que apavora a cidade. Pensar em modos de vida progressistas e avançados num país como o nosso é muito surreal e chega a ser utópico. É abnegar outros fatores e não levá-los em consideração. A violência urbana não pode ser desdenhada num pais com 60 mil assassinatos/ano. Não tem como mascarar os monstros urbanos por um projeto bonitinho de uma ciclovia à beira mar. O brasileiro, desde sempre, carece, e  por isso peleja, por coisas básicas para sobrevivência nas cidades: moradia, educação, saúde e segurança. O fator transporte vem em segundo plano.

Quando começou a surgir a moda das ciclovias e ciclofaixas, muitos adeptos achavam que era só construir que a população iria aderir. (Foi o que disseram os franceses a nós.) E logo, todos veriam as maravilhas de um mundo sobre duas rodas; depois exigiriam mais e mais ciclovias nas cidades. Pensando assim, saíram construindo muitas ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas por aí — um dia o ciclista irá aparecer. Tomou uma proporção gigante, que até as cidades menores adotaram a ideia. Com isso, foi-se empurrando os carros das ruas, subtraindo estacionamentos e prejudicando claramente a economia da cidade. Os ciclistas convocados se recusaram e tudo ficou reduzido a grupos de ativistas. A grande urbe tem fome e sede de outras necessidades. Inclusive de justiça.

Hoje, essas ciclovias estão só nas cabeças desses ativistas ciclochatos, como ficou claro durante o governo do PT em São Paulo. A população, na sua maioria, não só não aderiu como rechaçou muitas das que foram construídas, principalmente a da Avenida Paulista. O saldo ilusório do prefeito foi que ele não conseguiu se reeleger. Um dos motivos foi esse: dobrar-se de joelhos aos grupos minoritários e autoritários, que dominavam sua agenda diária, e depois ser esmagado nas urnas pela maioria que ele não ouviu. A população estava certa.

E por que as bicicletas não deram certo, sendo o Brasil um país tropical, abençoado por Deus? Como falei, há um choque de culturas, desigualdades, nos grandes centros do país; é difícil enxergar a olho nu o que é e o que não é prioritário na vida na urbe. Falta emprego, moradia, segurança, cidadania, cultura, educação, respeito, igualdade. Asseguro, pois, a maioria das pessoas iria preferir andar em transportes com segurança, conforto, preço justo e rápido. Bicicleta no Brasil é sinônimo de lazer. Não tem vocação para servir de transporte. Isso é desvario, e eu afirmo.

Também no Rio de Janeiro, a prefeitura abandonou o projeto de aluguel de bikes. Em pouco tempo de uso, os estacionamentos (bicicletários) foram destruídos, com muitas bicicletas quebradas e sem condições de uso.
Estamos falando de um país terceiro-mundista, que ainda não adquiriu maturidade e respeito aos bens públicos e privados. País onde a pichação virou rotina nos grandes centros. País onde o cidadão acorda de manhã já pensando em malandragem e como tirar proveito do outro. País onde a justiça faz, muitas vezes, injustiça ou demora a punir. Como ser civilizado, criando programas de aluguel de bicicletas assim? Em junho último, o jornal O Globo relatou o problema com aluguel de bicicletas na cidade do Rio de Janeiro:
“Mas não é só responsabilidade da empresa as dificuldades que os usuários estão enfrentando. A má educação também tem uma boa parcela de culpa já que, com frequência, o funcionamento do programa é interrompido devido a atos de vandalismo. Desde que a Tembici assumiu a operação do sistema, em maio, foram 260 bicicletas vandalizadas, cerca de 10% do total.”
Faz alguns anos fui a um desses seminários sobre bicicletas, ciclovias, etc. Com certa preguiça para ouvir o blá blá costumeiro. Já estava ficando enfadonho quando apareceu um holandês para falar (em bom português) sobre o plano cicloviário da cidade do Rio de Janeiro. O cara era engraçado, eloquente, mas sua fala desviava quando confrontava com a realidade do país e das cidades. Na verdade, os aspectos socioculturais não eram considerados. Bem, ele estava prestando consultoria e só poderia falar bem e confiar no programa que propunha.

A certa altura, ele disse que muitos problemas de transposição de bicicletas, que conflitam com grandes avenidas (Avenida Brasil, por exemplo), a solução seriam os túneis somente para bicicletas... Posicionei-me melhor na cadeira, dei uma fungada e quase levantei o braço. Depois, deixei que ele concluísse e fui embora sem fazer-lhe nenhum questionamento sobre seu brilhantismo. Eu não poderia estragar e a plateia iria me condenar por colocar óbices na sua fala tão convincente. Ele ganhou aplausos uníssonos.

No mesmo Rio, que ele falava, na praia de Botafogo, bem próximo à marina, tem um desses túneis para pedestres. A passagem atravessa sete pistas da Avenida das Nações Unidas, com 35 metros de extensão. Um dia, há muito tempo, fui atravessar por ali. Era um cheiro forte de cocô e urina impregnados no ar. (Saí de lá com ânsias de vômito.) Um dormitório de mendigos, onde o risco de assaltos, ataques e estupros era eminente. Por isso, ninguém o utilizava, e todos preferiam se arriscar atravessando as sete pistas ou andavam um pouco mais até o próximo semáforo.

Olhar sobre um mapa e não enxergar, do chão, do broto, a cidade que pulsa com suas desigualdades e problemas crônicos; onde pobreza e riqueza convivem juntos no mesmo quarteirão é fazer projetos que nunca irão sair do papel. Imagina construir mais túneis iguais a esse (!), sem antes tirar os mendigos, os drogados, trombadinhas, os marginais, os punguistas, a fome das ruas; depois, estamos falando de uma cidade cercada, sitiada por morros com toda violência oriunda do tráfico de drogas. Imagina só.

Não obstante, com esse modismo, iniciou-se também um comércio (antes não havia) de novos e caros modelos de bicicletas. E aí — estamos falando de Brasil — as bicicletas começaram a ter valor também no mercado negro. O roubo de bicicletas de luxo só aumentou. Um amigo relatou que no prédio onde ele mora, certo dia (à luz do sol), ladrões invadiram o prédio arrombando o portão da garagem e foram direto ao local onde ficavam as bicicletas. Levaram as que puderam com preferência àquelas que têm valor maior no mercado. Como elas não tem placa ou chassi são facilmente passadas para frente. 

Lá no Rio também parece que as piores histórias só existem lá, mas não é perseguição, não. São aquelas que me vêm à lembrança , em 2015,  um médico foi esfaqueado e depois veio a falecer quando um menor o abordou para roubar sua bicicleta, enquanto ele pedalava no entorno à Lagoa Rodrigo de FeitasClaro, o menor não foi punido, mas a família do médico ficará enlutada para sempre. Como tem-se dito nas redes sociais: é vida que segue.  A solução dada foi uma lei para proibir o porte de armas brancas. Inacreditável!

(Os verdadeiros ciclistas, que gastam para ter uma boa bicicleta, sem modismo e ativismo, pilotam por esporte, em grupos, e não andam em ciclovias. Eles pedalam por aí, em rotas e trilhas de terra. Tudo fora do convívio urbano.)

Mas, por que essa ressurreição das bicicletas como meio de transporte? Primeiro, porque na Europa ela voltou com força e é usada como acessório dos deslocamentos. Nem precisa dizer que, bem antes, eles investiram muito em transportes de massa, deixando as ruas menos densas de automóveis. (Não adianta trazer o modelo, se não trouxermos também as pessoas. Isso também é claro.) Depois, porque virou moda mesmo nas cidades brasileiras. Coisa de político populista em consoante com essa classe média alta, chique, descolada, hipster, vegana; essa turma que só vê maravilhas, arco-íris, vantagens e não enxerga os becos escuros e violentos da cidade em sua volta.

Não há demanda, hoje, que justifique os investimentos em ciclovias. As prefeituras adeptas escondem as estatísticas, os dados, os números para não ter que se explicar depois à opinião publica o porquê do empenho em algo que tem pouco ou nenhum uso. E não dá para afirmar que esse delírio (e tara) por bicicletas é coisa de governos do PT. Tem muitos gestores públicos, de outras legendas, ainda embarcando nesse modismo desmedido.

A bicicleta como transporte deu certo (e sem ciclovias) no passado, até a década de 1960. Quando as ruas ainda não eram dominadas pelos automóveis, as bicicletas eram o meio de transporte do jornaleiro, do leiteiro, do padeiro, do florista e da parteira. Na série inglesa "Call the Midwife" (está no Netflix), ambientada no subúrbio de Londres, no final da década de 1950, mostra as parteiras montadas em bicicletas indo atender à população carente. (Vale a pena assistir. Imperdível!) Ali, ainda sem as grandes aglomerações urbanas e o fomento da indústria automobilística (que tomou depois também o terceiro mundo), a bicicleta era o jeito fácil de locomover com a vida mais lenta e menos agitada. E depois sem a conversa chata desses ciclo-ativistas. 

Este é o país que precisamos considerar quando pensamos em soluções práticas de urbanismo. Um Brasil servido na bandeja da corrupção, cercado de violência por todos os lados; de instituições carcomidas e falidas; um país que teima em não dar certo como suas ciclovias. Por que será?

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

É possível viver sem trauma?

Luiz Felipe Pondé, filósofo, nos vídeos do seu canal do YouTube, começa quase sempre com uma pergunta. Eu também começo essa nova crônica com uma pergunta, que poderia se destrinchar em muitas outras: É possível viver sem traumas? Antes, a propósito da crônica anterior, que falo da mulher de 30 e 40 anos, estou me sentindo como um Roberto Carlos com suas músicas para as mulheres: uma para cada idade. A próxima crônica deverá ser para a mulher de 50. Voltando.

É possível um mundo sem traumas? Ou: é possível viver sem problemas e frustrações? Talvez numa galáxia distante, ou na eternidade, como cremos nós, os cristãos, sim. A vida abreviada de suas dores não pode ser considerada vivida; é um paraíso em outro lugar distante da Terra. E por que eu digo, invoco, isso? Vivemos num mundo tão autossuficiente, cheios de avanços tecnológicos, facilidades que já consideramos uma vida sem dores (tiraram o álcool do merthiolate) algo, sim, possível. Oras, uma vida, um mundo sem dor é para gente descolada. Que passa ao lado de um corpo caído na sarjeta, com as vísceras à mostra, e sai chupando seu Chicabon e assoviando ao mesmo tempo.

Em 2011, quando ainda recebíamos muita coisa por email, caiu um texto muito bom na minha caixa postal. O texto escrito pela jornalista Eliane Brum, "Meu filho não merece nada" (clique aqui), é uma carta a essa geração; um recado aos pais; um alerta a esse novo tempo e novo mundo. Seis anos depois, continua muito atual na minha memória e, pode ter certeza, continuará pelos próximos anos. Talvez fosse até desnecessária estas minhas palavras, mas há sempre algo a acrescentar. Num dos trechos, ela diz:

“Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode, significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.”

Dois anos atrás, ouvi um relato de uma mulher casada (com dois filhos e com os pés no chão), onde ela acusava seu irmão mais novo de vagabundo. E porque vagabundo? (Ela não disse, mas eu entendi assim.) Ele se encaixava perfeitamente nessa descrição, dessa geração que não sabe conviver com traumas, frustrações e desconforto; que acha que a vida é uma imensa Disneylândia, um parque temático onde a felicidade não é conquistada, mas um direito. E por isso, seu esforço diante da vida é mínimo. Ao menor destempero, ele se encolhe e corre para cama, na casa dos pais, é claro.

Ela me contou que seu irmão, aí na faixa dos 30 anos, não parava em emprego nenhum. E qual era o motivo? Ele não tinha qualificação para assumir o trabalho que lhe davam? Não! Ao contrário, ele era formado numa das maiores faculdades de engenharia do país, o ITA, aqui na minha cidade. O problema do rapagão era achar que as empresas que o contratavam, não estavam adaptadas ao seu estilo de trabalho, e tudo mais que ele tinha a oferecer (?). Isto é, a empresa não se enquadrava no seu perfil. Assim, ele ficava em casa (dos pais) à espera de alguma que viesse dizer: — Olha, fulano, diga o que você quer e melhoramos, para você vir trabalhar conosco.

Estamos falando dessa geração que não está acostumada a ter esforço, ou executar tarefas que não são do seu agrado. Então, ele volta correndo para casa dos pais, antes mesmo que alguém o mande fazer um serviço num país africano, quando ele queria mesmo era fazer um tour em Paris, às custas da empresa. Esse caso, do rapagão vagal, elucida bem que o problema não é o esforço dos pais, em colocar e formar os filhos numa das maiores escolas do país. O problema é como eles educaram esses seres para a vida.

Gosto de usar a analogia do sorvete (picolé) na praia. Toda criança, ali na faixa dos 5 anos, na praia, dá trabalho; ainda mais se a praia está cheia e com fortíssimas e altas ondas. Aí, os pais, ao invés de escolherem uma praia para criança (mais calma), preferem uma bem muvucada, pensando em si. Assim, não conseguem desgrudar os olhos da criança por um triz — criança cega, como se diz. Até o picolé, que está ali a cinco, dez metros de distância, a mãe levanta da cadeira para comprar. Penso que, se você fizer com que ele vá até o sorveteiro, com o dinheiro, e ele fizer sua escolha de sabor (tudo sobre seu olhar), você está dando a esse ser uma autonomia que ele ainda não tinha experimentado.

Qual o risco? Só o de não receber o troco correto. Parece pouco, mas isso é o que ele vai precisar o dia que sair da casa (se é que vai sair um dia): tomar à frente, decisões e se virar, mesmo com aqueles que ele não confia. Se ele escolher o picolé errado, não poderá fazer birra e se irritar com a mãe; a escolha foi dele. O sorveteiro foi embora, e a vida há momentos que fazemos escolhas erradas e não há mais tempo de reparar os erros. Não há garantia de sucesso e que tudo dará certo por nossas escolhas. Tudo começa aí. Construir uma vida também é conviver com os "nãos" que ela nos dá, por que nem tudo depende de nós.

Mas a coisa, da vida sem frustração, vem antes, acontecendo já na pré-escola. É crescente, a cada ano, o número de escolas (particulares e públicas) que têm abolido datas comemorativas como o dia dos pais e das mães. (Acho que já disse isso em uma crônica. Bem, não custa repetir.) Em lugar dessas datas, eles querem instituir o "Dia da família". (Vamos ver se o comércio irá gostar.)

E por que o dia da família? Como todos sabem, família virou uma palavra deturpada, vilipendiada e massificada nesses novos tempos. Tudo virou família. Um casal homossexual e um gato é uma família, por exemplo. Então, se no dia da família, na escola do seu filho, alguém aparecer com a avó, com o tio, o padrasto, a madrasta, o irmão mais velho, uma vizinha, um casal homossexual, etc., tudo está contextualizado. E aí nenhum aluno sofrerá bullying ou se sentirá traumatizado por não ter um pai ou uma mãe biológica. E aqui eu descrevo, e porque é necessário, como era na minha infância na escola. Lembro-me que na minha sala (deveria haver em outras), havia uma aluna que sempre levava a avó nos dias dos pais e das mães. E ninguém olhava aquela garota como uma coitada. Não éramos ensinados a nos compadecer, até porque nem sabíamos se havia dor dentro dela. E se havia, era só dela e para sentir sozinha. Dor é aquilo que se sentia no particular, sem que a sociedade tomasse partido. Se ela viveu com trauma depois? Garanto que não.

Há um desprezo também dessa geração pela morte. Neste mundo (cheio de tecnologias, avanços, curas, saúde e facilidades) é impossível, para essa geração, pensar que tudo um dia acaba, tem um fim, pelo menos no corpo. Assim, eles vão vivendo a vida sem freios, obstáculos e consequências. Um garoto de 13 anos, num desses jogos de internet, onde se joga online, suicidou-se em 2016; talvez sem saber até que morreria, ou que a morte era o fim, porque a punição para o perdedor era o enforcamento. Talvez ele achasse que houvesse mais jogo, ou que alguém o encontraria antes de dar o último suspiro e que não haveria dor. Ninguém lhe disse nada sobre morrer (no corpo). Depois os pais vêm dizer que não sabiam que o filho jogava esses games perigosos.

Também, desde a mais tenra idade, eles aprendem a odiar com facilidade. A frase "eu odeio" está sempre presente no vocabulário, mais do que "eu gosto". O que fica explicitado que eles gostem de poucas coisas e odeiem muito mais. Isso (gostar e odiar) pode ser qualquer coisa ou pessoa. Vai desde um sanduíche até uma música do tempo dos seus pais. Eles acham que tudo que está dentro do seu tempo e espaço é bom e por isso ele deve gostar. E muitas vezes o "odeio isso" é simplesmente para dizerem aos seus pais: "não me venham impor nada." O odiar para uma comida, por exemplo, pode ser aquele jiló que eles nunca sequer experimentaram. Muito diferente da minha geração, que não tinha essa coisa de odiar, sem experimentar. E assim, seus pais os libertam de dizer "não", até para aquilo que eles nem sequer provaram antes. Para odiar cigarro, eu tive que experimentar.

O relativismo moral, já dito por mim aqui neste Blog, tem link com essa conversa toda. Quando nada é proibido, porque tudo é ponto de vista, pronto!, estamos diante de fatos e posturas diversas, sem nenhum tipo de regra, punição, seja por parte dos pais ou mesmo da sociedade em volta. (Nota baixa não repete mais ninguém de ano.) Se um menino de 13 anos, por exemplo, começar a usar droga no sofá da sala, na frente dos pais, isso poderá ser contemporizado por essa visão; ainda mais se os pais forem um desses descolados progressistas. Eles poderão dizer: "melhor que ele fume aqui, na nossa frente, do que fumar escondido, na rua." Esse adolescente não se sente mais impedido de fazer nada dali em diante, dentro e fora de casa. Um mundo de possibilidades foi criado. Ele se sentirá dono desse mundo, cada vez mais.

Enquanto encerro essas linhas — alguns podem até dizer que não tenho paternidade para entender essa geração, ok! —, uma mãe está deitada, neste momento, no sofá da sala, com a TV ligada para paredes, e conectada numa conversa tola de WhatsApp com uma amiga. Enquanto isso, seu filho está no quarto no computador jogando numa rede online, sabe lá o quê. E depois ela (e ele) não entende quando seu filho começa a dar problemas fora de casa. A primeira coisa é o psicólogo, sem nenhuma mea culpa. Sempre eles (pais) vão dizer que os educaram direito, não absorvendo nada. Nem mesmo suas ausências e a referência sagrada de pai e de mãe.

Concluindo. Na próxima vez que seu filho quebrar a cara por fazer algo, sem ao menos consultar você, não lhe dê colo, ombro, compaixão, como está acostumado. Dê-lhe desprezo e uma bela lição de moral. Se ele não aprender com você, pode ter certeza que aprenderá com o punhal da vida. Os traumas, evitados pelos pais, virão em forma de uma dor maior e mais profunda. Muito maior será, se um dia ele sentir a falta que faz um pai ou uma mãe, que morreram num acidente de carro. Até para comprar um simples picolé na praia, ele não saberá se virar (exagero), até por que nem isso você deixou que ele aprendesse.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Trintona, solteira. E agora?


Imagina aquela mulher, entre 30 e 40 anos, que citei na crônica A taça de vinho (quase) vazia (clique aqui); que está na pegação por aí, como se diz; portando-se como antes só cabiam aos homens: desinteressada de relações e interessada somente em seu "eu" (umbigo) e desejos. Sim, ela existe e começa a ser maioria entre elas. Isso eu já disse. E agora, imagina outra, na mesma faixa etária, que mesmo estando nos ambientes de moda (baladas, bares e festas), ainda conserva, por tradição, um desejo de um modelo antigo de relação: namoro, casamento, filhos e família. É sobre ela que escrevo agora.

A escassez de homem do mercado, para essa mulher que está aí na faixa dos 30 a 40 anos, tem várias vertentes. Primeiro, tem muito veado ou genérico na praça. Segundo, os homens, hoje em dia, na faixa dos 40 anos (bom para ela), ainda moram com os pais. O cara já está na segunda pós e seus ganhos não condizem, muitas vezes, com seus gastos (a sociedade de mercado nunca ofereceu tantos produtos para se gastar com o mísero salário que se ganha). Melhor morar com a mamãe, que tem janta quentinha todos os dias e ainda o mima como se tivesse 15; muito melhor do que dividir um apê com um amigo bagunceiro, que só sabe fazer omelete e comer no Burger King. No final do mês, tem o salário limpinho e pode fazer prestações de um iPhone seven.

Depois, aquele que ganha mais e quer se emancipar (são raros), tem projetos individuais, como: estar sempre de carro novo; ter um apê próprio para levar não só essas de 30, mas as de 20; tem futebol society quase todos os dias; melhor tomar cervejas com amigos, do que ter que pagar a sua conta; filho nunca foi objetivo na vida (são muito caros); viagem para Europa é mais barata para um e tranquila, quando não tem uma mulher para encher seu saco querendo ir a lugares de compra, quando ele quer tomar cerveja australiana num pub. Enfim, ele está fugindo de compromissos longos, cobrados; passando bem longe da casa da sogra e dos almoços de domingo. Aí fica parecendo que você, mulher, vai às baladas em vão. É verdade. Vai, sim. Não tem homem!

Aí eu pergunto: Como penetrar nesse universo (quase misógino) e sair dali com seu homem zerinho, em suaves prestações? Difícil responder. Vivemos numa época muito controversa, confusa de relacionamentos. Com tantas facilidades em construir e desfazer tudo como num passe de mágica. Anti-sentimental e pró-imagem. Muito status e pouca vida. Muita tecnologia e poucas relações. Muito WhatsApp e poucos telefonemas. Eu diria até que vivemos um hiato, um vazio, um abismo ou uma transição de eras. O sentimento, o amor deixam de ter suas importâncias e o que vale é o sucesso, o corpo, a saúde, a imagem, o parecer, a felicidade, a longevidade, a grana, o prazer e o desfrute.

Mudar isso é como virar um tabuleiro inteiro, no meio do jogo. Essa mulher precisa aprender: homens amadurecem mais tarde. Não é como na década de 70, quando eles, com 30 anos, eram casados, já com três filhos. Homens com 40 anos, hoje, andam com boné de aba para trás, bermuda, regata e jogam vídeo game com seu sobrinho de 15. Só vão criar juízo e visão do mundo depois dos 50. E olha lá...

Por outro lado, essa mulher (sem terapia), por achar que a escassez é um problema que está com ela (não imagina que ele não quer compromisso), começa a se sentir rejeitada (se for bonita, mais ainda); vai querer ficar mais bela (do que já é), só para atrair esse cara. Gastos excessivos com cabeleireiros, manicures semanais, academia e plásticas (bumbum, seios, nariz, etc.). Está tudo misturado no seu subconsciente. (Ela pode até dizer que turbinou os peitos por ela mesma, mas não há explicação quando é algo do corpo que se quer consertar. É para ser visto de fora e não no espelho.) Mesmo assim, ele só a quer para uma noite, porque beleza cansa e só serve até ele gozar. Mesmo se você for bonita, não pense que tem o poder de escolha. Mulheres bonitas são péssimas para escolher homens. Sempre acabam nos braços de caras mais ricos, bonitos, adúlteros e cafajestes.

(Quando eu falo em escassez, é no sentido da raridade de um tipo de homem. Aquele que está pronto, homem feito, mas precisa de um empurrão ou algo que o impulsione para assumir um compromisso sério.)

Essas mulheres deveriam se mirar naquela da sua espécie, que está numa faixa mais acima (45 e 50 anos). Se estiver sozinha, é porque já foi casada, ou porque entrou nessa safra de escassez também, tudo com blasé. Menos ansiosa, mais paciente, sem aquele elã dos trinta; até por que, para ela, sobraram os filhos para cuidar, enquanto o ex-marido veleja em Ilhabela. Essa, que já passou pela crise dos 30 (de difícil namorado/parceiro), aprendeu, com os tropeços, que o homem não a quer da maneira que ela sempre achou que fosse.

Repare bem e se pergunte: Por que tem mulher feia, gorda, desajeitada e malvestida casada? A resposta é simples. É porque ela não tem muita frescura na escolha de homem. São tímidas e até passam despercebidas numa festa. Ela não olha a conta bancária do cara, seus olhos azuis, seu nariz italiano, seu Corolla, etc., mas enxerga muito além. Enxerga futuro, filhos, etc. E, principalmente, se ele tem disposição para uma vida a dois. Pronto! Depois, ela tem algo a mais que oferecer que sexo. Já dizia o velho Gikovate: as relações, hoje, são feitas de parcerias e não de amor-romântico (século XIX). Ela oferece parceria.

Homem feito não gosta de mulher burra. Bonita/burra só para se divertir na balada. No dia seguinte, ele vai jogar futebol com amigos e nem se lembra dela. Se ela não sabe discutir política (assunto do momento), oriente médio, livros, séries da Netflix, etc., esquece. Você tem que se parecer (e ser) interessante para ele. Sua beleza e atração é sua fala, seus argumentos, seus conhecimentos e tudo que possa se somar à vida dele. (Conhecer futebol não serve). Atributos como: cozinhar, servir, arrumar, decorar, educar devem ser instintivos. Não são acessórios. Fazem parte do conjunto daquele universo atrativo.

Tem um um ditado popular que diz que você tem que casar com quem você gosta de conversar, porque, na velhice, o que sobra é só a amizade. Eu acredito nisso.

Por fim, se você mulher trintona tradicional, ainda tem alguma esperança de um bom relacionamento, é melhor olhar mais para o lado. Quem sabe aquele carinha feio e magro do teu trabalho. Pode ser ele. Frequente mais supermercado do que baladas. Gaste mais tempo com livros e filmes do que com supinos, legpress e crossfit. Mais tempo em conhecimento do que com futilidades, shopping, sapatos, raves e música sertaneja. 

Olhando para esse nosso tempo (cheio de mutações e imprevisibilidade), talvez com 40 (ou mais) você, com paciência e sorte, encontre esse homem para o resto da sua vida. No silêncio da alma, na respiração serena de uma manhã. Depois, aprenda acender a churrasqueira e a manter sua cerveja na temperatura certa. E já vou avisando, ele tem barriga.

(Outra dica: "Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas" – Nelson Rodrigues)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017