BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

De volta ao quarto escuro

Algumas crônicas requerem coragem para escrever. Como se uma fratura da alma fosse se expor; um réu confesso de um crime que só você sabe, porque o assassino e o cadáver é você mesmo.

Bem, no caso, não se trata de um crime, mas de velhos segredos (de liquidificador), esconderijos de um poço fundo. Dessas coisas que empurramos para debaixo do tapete do tempo ou, como já disse em outra crônica, aquele quarto escuro no fundo de casa, onde amontoamos nossas memórias e tudo aquilo que negamos do passado: dores, vexames, vergonhas, pobreza, fome e mortes. Há sempre dores na memória prontas para serem reveladas. As dores da fome e da morte são doloridas de lembrar. Então, acobertamos.

Estava esses dias carregando meu Kindle (aparelho de ler livros digitais). Parei na espera do médico, abri, digitei a senha e comecei uma cronica de Nelson Rodrigues. Ele descrevia (confessava) exatamente sobre essas duas negações: fome e morte. Ninguém consegue falar sobre isso, quando tudo ainda está consigo. Só falamos quando já superamos a dor, ela já foi. E Nelson, corajoso, contou de uma infância, do dia que pediu água para beber num botequim. A água não era sua sede, mas sua fome. Era a primeira coisa que punha na boca naquele dia, já às 8h da noite. Dores de fome na infância.

Na mesma contextualização veio a sua lembrança a "Espanhola". Aquela gripe que fez, em 1918 (por todos os cantos por onde se olhava), um amontoado de defuntos. A morte que acostumamos já na infância, e dela aprendemos a não ter medo. Escreveu no final: — "A peste deixara nos sobreviventes, não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. A cidade estava cansada da morte". Coisas de um mundo que essa nova geração (do lado ocidental) não se assemelha e nem sabe que existiu. Somos apartados e poupados do convívio, da cara da morte. As crianças da classe média, que passam Nutella no pão, mais ainda.

Eu testemunhei a primeira morte, ainda de olhar pueril, com certo espanto e assombro. (Testemunhei, não, eu senti.) Ali pelos meus seis, sete anos. Era um menino paraplégico que havia morrido próximo de mim. Morava duas casas da minha. Primeiro, queria dizer que minha tia já havia perdido alguns filhos recém nascidos. E aquela cena de caixãozinho na sala, parecia comum. Como se a cada ano se esperasse um novo enterro para despachar. E lá ia o cortejo, a pé, para uma sepultura branca e singela, como tudo era na nossa vida.

Ouvia os adultos falarem de morte, e eu sempre no meu assombro sem manifestação. Eu era silencioso e complacente. Havia uma fala entalada em mim, sem nunca pronunciada. Ela teve uma filha, que me lembro, durou mais de um ano de vida. Acho que o que levou aquela priminha foi uma meningite. Não pude nem chorar, porque criança não entende muito de perda. A criança, em nós, imagina sempre algo confortável, como um anjo. Era um anjo erguido aos céus. Eu imaginava assim: não há dor quando se vê um anjo.

(O que me recolhe mais ainda para dentro do catolicismo, não é só o respeito aos meus pais que me deram sua religião, mas também esse encontro de vida e morte; de compreensão, na fé, que nada termina, mas, sim, se modifica, se amplia numa extensão de alma. Não há explicação racional.)

Volto ao caso do amiguinho — não vou dizer o nome. Era uma amizade de limites. Explico. Ele não podia fazer as coisas que eu fazia: correr atrás de pipa, pular corda, jogar bola, etc. Mas não havia queixa nos seus olhos; eu amava sua companhia e não enxergava nada nas suas limitações, não havia pena. E mesmo sentado na sua almofada xadrez verde, do quintal, ele "batia figurinhas", empinava suas pipas. Tinha habilidades com os dedos para fazê-las ganhar os céus com rapidez. Coisa que eu não tinha.

Havia, eu me lembro, um carrinho de madeira com rodas de borracha, que nós levávamos seu corpo miúdo para onde queríamos. Até para a escola ele ia no carrinho de madeira. Nas outras vezes era carregado no colo como um recém nascido e quando se sentava no chão, era sempre na almofada xadrez. Suas pernas eram finas, sem carne e o joelhos saltados, sobressalentes, só ossos.

Havia algo mais, suas pernas não se esticavam. Franzino, queixo fino, pequeno para os seus 12 anos, ele ia diminuindo quando as dores chegavam. Atrofiava e a dor vinha em compasso, apertando seus ossos. Uma vez teve uma crise. Primeiro, ele reclamou que o café com leite (era mais leite que café) estava com nata e sua mãe tirou com toda paciência. No dia que um médico foi chamado, eu fui para o corredor, dos fundos da casa, espiar da janela. Vi o médico apertar seus joelhos saltados para baixo. A perna não esticava, o joelho não obedecia. A doença estava se agravando.

Quando veio a notícia de sua morte, recebi resignado, sem choro, porque ninguém chorava naquela época. Era esperada sua hora e todos já haviam chorado por dentro, e muito antes. Alguém em casa ainda comentou:  "tiveram que empurrar seu joelho para fechar o caixão". O joelho não obedeceu nem depois da morte, era rígido. Pus a cabeça no portão, e vi pessoas se aglomerando na frente da sua casa. Não sai dali até que o cortejo partisse. A vida seguiu depois e eu guardei aquele menino no meu fundo quarto escuro, nas minhas memórias de dor e morte.

No dia seguinte (e nos outros) estávamos novamente na rua; nos carrinhos de rolimã, atrás das pipas, da bola, piões, cata ventos, balões e estrelas no céu. O vento no rosto e a camisa xadrez tampada com remendos, e calção de brim grosso. Esquecer quem partiu já era parte de nós. Quem nasce na pobreza, nunca escapará de um "não", de uma ferida aberta (sem Merthiolate), que não nos queixamos da ardência e sangramento. Mas, mesmo na escassez, a vida tem também o seu "sim". Sobreviver é o "sim" da miséria.  E, por acreditar que tudo passa, chegamos à vida adulta. Aprendi, desde então, a ter que aceitar a morte nos pequenos homens como eu era — 7 anos. Era destino, fatalidade. Nunca havia culpa. Por trás de muitas delas havia, sim, a pobreza. Se morre, porque, em muitas vezes, se é pobre.

Certa vez ouvi de uma pessoa (uma mulher) que, ter dinheiro e perder tudo é pior que nunca ter tido nada. Quando acostumamos a não ter nada, não nos importamos com as pequenas perdas. Ela falava de si e estava certa no seu modo de pensar. Aquele que é pobre não se compara a ninguém. Exceto a ele mesmo.

Olho, agora, as velhas fotografias, amareladas e o que chama atenção não são nossas feições (pai, mãe, irmãos, primos), mas as paredes que estavam atrás daquelas silhuetas. Vulneráveis paredes, sem reboco e muito menos tinta. Eram tijolos expostos, com argamassa de terra (sem cimento). Os tijolos de uma fome, uma fraqueza, num sinal crível de pobreza. Quanto mais tijolos vistos e terrenos cercados por taquaras amarradas, maior era a pobreza. Nossas fotografias não escondem nada. Radiografam uma memória: éramos pobres.

Se escapamos da morte na infância, devemos à sorte e não a prevenção e cuidados com vacinas e medicamentos. Um médico, um hospital eram coisas distantes da vida de quem morava periférico do mundo. Os pés descalços, o esgoto correndo pela rua de terra, a água de poço, a latrina, etc. Não havia medo de doenças e de nada. Mas havia algo bom: as balas, o bolinho de chuva, o pão doce com mortadela, o ki-suco, o café com leite e farinha de milho. Havia um olhar de esperança e de não se enxergar na pobreza. Ter a percepção de que algo lhe falta, dói mais. Eu não tive. Eu sonhava coisas pequenas de um mundo pequeno.

Certifico, por fim, não vi a fome, como Nelson, mas a quase fome me avizinhou como um trem fantasma. Quando, na memória, tocamos nossas dores e mortes, é como se palavras se desprendessem ao vento do nosso livro aberto. A voz entalada da infância, que agora se solta, além das cortinas e janelas da alma.  O quarto escuro é o velho passado, cansado de tanta dor, pobreza e morte. Agora escancarado, vasculhado na narrativa. O passado fenece quando falta coragem para tirá-lo da escuridão e expor no meio da rua, à luz do mundo.

"O que não se diz apodrece em nós" — Nelson Rodrigues.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Abril de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os donos do mundo e o show de Truman


Às vezes tenho a sensação que vivemos num engano coletivo, que todos estão numa vida e eu em outra. Questiono-me: será a vida uma grande ilusão e só alguns na realidade? E esses, prisioneiros de uma rede de mentiras sem fim, para si e para os outros? Como no "Show de Truman" e num Big Brother de multidões: malhando o corpo, discutindo tolices, para no final despedir-se da vida, com o riso falso de "foi bom estar aqui". (Há falsidade até na hora da morte.)

E sem mais tempo, no final, descobrirá que a vida não era nada daquilo que viveu. Que o céu não era de papel com nuvens de algodão, e o sol uma luz de feixe âmbar se movendo por controle remoto; e todos os despertados, que tentaram lhe contar a verdade, foram eliminados pelos donos do jogo. Você morrerá inocente, sem conhecer um naco da vida real.

Mas diferente de Truman, meu show é de um mundo verídico e na temperança; sem meias verdades, Faustão e a alienação do riso sem graça, da cara Casé. Enquanto todos me ignoram, eu vejo o mundo que dão às costas (em não querer se defrontar no espelho). Porque é mais fácil virar-se, mudar de canal, de assunto, do que encarar as noites e os dias: do fogo que arde, da fome que assombra, da ferida que se abre, da liberdade ceifada, da lágrima que cai sentida...

Esses (outros Truman) se veem num cenário de ilusões e de vida superficial, rasa e, cenograficamente, assistida por seus milhares de espectadores vazios e sem rumo. Alimentando quimeras temperadas por esperanças vãs. Pobre gente e os donos do seu mundo. 
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Março de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Escort XR-3

No carnaval de 2016 — já faz um ano —, saí por aí guiando meu carro sem destino. Talvez à procura de um restaurante que não me lembrasse folia e pudesse servir um prato rápido. As ruas, como em todos os carnavais da minha vida, estavam fúnebres, desertas, de asfalto quente como um Saara. Mas algo à minha frente me chamou atenção: um Escort XR-3 fumegando.

Aquela imagem ficou, como leite entornado no fogão: um Escort XR-3 pedindo arrego. Imaginei que chegaria em casa, sentaria à frente do computador, para escrever algo sobre aquela cena. Nada. Não vi uma palavra pingar nas teclas, mas a imagem estava lá, como a fumaça entrado pelo para-brisa. Agora, me recordei novamente daquele dia. Acho que era domingo.

Na minha juventude, quando ainda brincava o carnaval — naquele tempo se dizia "brincar" —, eram cinzas mesmo esses dias; cinzas de minha solidão. O carnaval é completa solidão que finda numa quarta-feira melancólica, de joelhos. Do meu porre, da mulher que não deu certo, da dor de cabeça, da boca amarga de tanta ressaca. Hoje, cai como um alívio esses dias; como se, sobre as asas, avistasse um céu azul no horizonte, depois da turbulência.

Não foram tantos, mas alguns carnavais. O confete entrando pelas narinas, o pisão no pé, uma paquera, um olhar, uma serpentina e uma dama. Mas houve aquele que fiquei atrás de uma "fadinha" as quatro noites, esperando que ela fosse me abraçar ao som de "Bandeira Branca". Nada. Nem um sorriso de canto de boca para esboçar. Completamente ignorado. Quando somos jovens, não somos nada. Talvez, um espermatozoide cabeçudo que balbucia e baba. Mais nada. Somos só uns bocós que vivem a imitar o que ouve por aí e os gestos que outros fazem. Eu era completamente um idiota.

E por falar em carnaval — já fazendo um parênteses —, não poderia passar essa crônica sem lembrar dessa sombra negra que paira sobre o século 21: o politicamente correto. Deparo, agora, com a manchete do "Estadão" dizendo que as músicas "Cabeleira do Zezé", "O teu cabelo não nega" e "Maria Sapatão" foram abolidas de alguns blocos de Carnaval no Rio de Janeiro. Entende, por que prefiro a solidão? Por que não me importaria se um meteoro se chocasse contra a Terra? Alguém ainda vai se matar disso e a família vai testemunhar: "foi o politicamente correto. Eu sei, ele tomou veneno por isso."

Voltando. Mas o que me desperta, hoje, nos carnavais, agora mais longe dos salões, é essa minha vontade de estar ausente, a não necessidade de ser alguém na multidão. Sou capaz, hoje, de suportar a deliciosa tortura de quatro noites em completo pensamento. Como se me retirasse para uma cabana nas montanhas. Os filmes, os livros, as crônicas, o café fresco, eis o meu deleite. Anonimamente, ainda me disfarço no sobe-desce do elevador. Mais nada.

A idade me trouxe isso: a minha mais fiel companhia. Dela eu não me desgrudo e não traio. Porque, por muitas vezes, e muitos lugares, o que tem me incomodado ultimamente é a burrice. A mais acachapante burrice. Aquela que ninguém se envergonha de espalhar por aí. Evito os lugares por causa da burrice pujante. Parece que em todo churrasco, festa, carnaval quem vem primeiro é o ser idiota. O primeiro a ser convidado é o que ri à toa. Aquele que é feliz "porque sim". (A felicidade, como a tristeza, não se admite brotar do nada, no oco. Só os tolos são felizes, já disse eu mesmo.)

Já estou no sétimo ano deste Blog. (Um pouco lento, diga-se, mas respirando.) Tento fazê-lo não morrer. Sempre sobra uma única palavra, um "adeus" para dizer na última hora. Eis-me sempre aqui, enquanto a TV está ligada para ninguém, sem ninguém ver. (Mas eu prefiro a música de companhia. Música e letra.). As palavras regurgitam, quando dá ânsia, contra a vontade da alma. Preciso que elas saem para olhar de cima, depois de anos, e dizer: "eu escrevi isso?"

Mas o que queria dizer é: nunca sofri tantas mudanças como nesses últimos anos da minha vida. Precisamente, nos últimos dez (2006 a 2016). A transição dos 50 anos? Talvez. Ah!, a maturidade, como esperei chegar... Meti de cabeça, joguei-me, fiz escolhas erradas, me arrependi do que fiz e depois me arrependi de ter arrependido. Fui escravo do amor, da mulher por quem chorei uma fronha, duas. Depois resignei, enxuguei, afastei e superei. O amor também tem dessas coisas: saber partir de cabeça erguida e aprender.

Algumas coisas deixei aqui, nas escritas, e não quero apagar. Sei que muitas coisas que escrevi, há seis, sete anos, já mudei de opinião — ainda bem! —, mas as deixo registrada, para balizar o dia a dia, decifrar códigos, e me dizer para onde estou indo. Tento evoluir, tirar conclusões de tudo e ir depurando no tempero da vida, nadando contra a maré, encarando a verdade. No pensamento político, nem se fala. Saí do ser idiota que me possuía como um demônio sem inferno.

Se for olhar para trás verá aqui muitas crônicas que, talvez, não escrevesse hoje. Amadureci depois delas; elas me amadureceram mais. E se tornar velho tem disso: tornar-se calmo, paciente com as ideias e com o mundo que não muda da noite para o dia. Fiz mestrado em ser cínico e cordial. E não tem algo mais cínico que ser cordial. Digo "bom dia" ao imbecil, ao idiota, ao esquerdopata. O fato é, descobri nesses últimos anos que há muita gente patinando (sem patins) no ringue do mundo, da sua clara ignorância. Caindo no seu próprio excremento.

Fui pesquisar um nome (hoje é mais fácil encontrar alguém, mesmo na insignificância), porque lembrei de uma história dos meus 12 anos. A alcunha é Rolf Victor Heur. Ninguém saberá de onde vem, se eu não contar a história. Em 1974, quando as labaredas consumiam o edifício Joelma, em São Paulo, as 1500 pessoas que trabalham no resgate  faziam o que podiam. Houve suicídios? Houve. O desespero levou muitas pessoas se atirarem do prédio em chamas. Aí entra a figura de um dos sobreviventes: Rolf.

Está aí um homem a se mirar. Ele, aos 54 anos, ficou 3 horas na marquise, esperando por socorro na maior calma, fumando. Na época, a reportagem da TV disse que ele se posicionou numa janela contra o vento; as línguas de fogo não chegaram nem lamber seu dorso. Depois que o resgate chegou, ele ainda se manteve calmo e só chorou quando já estava em solo.

A vida com maturidade é isso. Você na marquise de um edifício em chamas, contra o vento, fumando um cigarro tranquilamente; olhando os transeuntes, loucos, atônitos e com menor risco que você. Não se matar, não se drogar, não se jogar, mas esperar calmamente pelo resgate. Esperar a hora pela salvação das almas. Mesmo que suas mãos tremam, não pule. Contra o vento, contra o mundo, sem esperar por aplausos ou plateia.
 
O primeiro Escort XR-3 começou a circular no país ali pelo ano de 1985. Já são 32 anos. Como disse no início, vi um modelo na minha frente queimando óleo, e agora entendi aquilo tudo. Sou eu, vagarosamente, rangendo e fumegando por aí também. Resignei: um dia, será o fim de todos nós. Se ele pudesse dizer algo, talvez dissesse: "Já fui jovem, desejado e desfilei nos melhores salões de automóveis. Hoje eu tenho só experiência e a solidão das ruas vazias de carnavais". — Lá vai alguém de respeito — dirá um transeunte como eu.

Um dos médicos que frequento me disse que o corpo humano é como um carro usado, velho. Com o tempo as peças vão dando sinal de desgastes, que precisam ser trocadas. E completou, dizendo das chamadas doenças terminadas em "ite", como: dermatite, esofagite, gastrite, tendinite, pancreatite, etc. Na verdade, não são doenças, mas um sinal que você está envelhecendo, fumegando.

Mas isso (estar fumegando) não me incomoda tanto. Vamos nos acostumando com a ideia do envelhecimento. Escrevi certa ocasião: "Envelhecer é ir deixando o corpo para trás com toda sua juventude para tornar-se somente alma". Os carnavais não me assanham mais, nem as fadinhas. Sinto saudade, sim, dos passarinhos na janela, no pé de laranja no pequeno quintal; do meu quarto sem forro, onde eu e meus irmãos nos amontoávamos — a pobreza é saudade triste. Quando acordava no inverno, nas férias, eu pulava o muro para me esquentar numa fogueira que minha tia ateava no fundo do quintal. Naquela época, eu ouvia pardais e galos cantando. Eu ouvia estrelas.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Fevereiro de 2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O decote salvará o homem

Começo esse colóquio, lembrando de um episódio que me ocorreu, me acendendo um farol: que tempos são esses que nos trazem? Não! Não estou falando da política, da corrupção, mas do ser humano sobre todos os aspectos da vida social e de relacionamentos.

No inverno, as trupes não vão para praia, mas para a fazenda, para o campo, respirar ar puro e sentir o friozinho deleitoso. Foi numa desses encontros com amigos, num sitio, que fui passar um feriado. Aquela disposição geográfica, onde todo mundo dorme amontoado nos quartos, em camas beliche, homens e mulheres misturados.

Assim, dormiram eu e mais uma meia dúzia no mesmo quarto. Ao acordar pela manhã, como faço na minha casa, a primeira coisa foi estender os lençóis e dobrar os cobertores. Quando notei, na cama frontal, uma das minhas parceiras de quarto (já estava no café) deixou a cama desarrumada. (Talvez porque a fome fosse maior.) Fiz a gentileza — hoje se diz "mimo" —, então, de poupá-la do trabalho e arrumei a sua também. Quando ela entrou no quarto, eu estava prestes a receber um elogio, mas  ela disparou: "NOSSA! QUE ESTRESSE!" Engoli a seco e entalei.

Será que essa praga chamada politicamente correto está mudando mesmo as pessoas? As mulheres não estão percebendo mais o cavalheirismo, inerente e secular do homem? Será ofensa, um dia, um homem se oferecer para trocar o pneu do seu carro? Estão matando no homem a sua vontade de se sentir protetor, puro e simplesmente. A mulher precisa entender que, por mais capacidade que ela tenha de trocar a resistência do seu chuveiro, ele vai se sentir mal se ela fizer primeiro. Estou falando do homem, macho alfa. (Não tem homem? Um vizinho, um "marido de aluguel" dá conta.)

Vasculhei na memória e lembrei de um Fantástico que vi há uns anos atrás. (Não vejo mais nenhum.) Na ocasião, aquilo me passou meio despercebido, mas o tema não saiu da minha cabeça: "o sexo masculino vai acabar". Era verdade o que diziam, não estavam falando de um filme de ficção. Não consigo lembrar os reais motivos, mas hoje tenho percepção do que queriam com aquilo: jogar o homem provedor, viril, hétero na vala comum, no limbo. Em nome do quê? E para quê? Ainda não tenho certeza.

Preste atenção ao mundo que nos cerca. Não estão deixando nascer mais homens. O sujeito tem sido combatido desde a maternidade. O azar será se você nascer homem. (Falo aos que ainda não vieram ao mundo.) Ao pôr a cara para fora da calçada, seu machismo já está sendo combatido. E pelos próprios pais. A criança já não pode ter birras, valentias como homem e ser muito ladino — palavra exumada —, que já querem lhe dar uma boneca para brincar. Nem entro no mérito dessa pregação ordinária, que ninguém nasce homem ou mulher (pelo órgão sexual), mas tudo é uma construção social. Essa conversa cansa até gente deitada.

Numa entrevista à Tv Canção Nova, o excelente (e politicamente incorreto) Padre Paulo Ricardo, a quem me põe a rezar todos os dias, disse que estão acabando com os meninos. Por que menino não pode mais brincar de espada, de pistola, com armas? Brincadeira de menino era brincadeira de guerra, de luta. Disse: "ele é um guerreiro do bem. Ele tem que lutar do lado do bem... Você tira isso dos meninos, você educa mocinhas covardes." Exatamente o que está ocorrendo. E os pais estão indo por aí, sem pensar. Esse serzinho será, na vida, aquele que deverá ser protegido e não o protetor; nunca aquele que se atira para salvar a mulher.

Na série Downton Abbey, um personagem bastante marcante é o lacaio Thomas. Embora não pareça, à primeira vista, mas Thomas é gay. Isso fica muito sutil nos primeiros episódios. (Ele tenta até o autoflagelo para se "curar".) Mas a questão de Thomas era subir na hierarquia dos serviçais da família Crowley . Ele queria ser o mordomo. Com o estouro da primeira grande guerra, ele é recrutado para o front. Naquela época, de heroísmo, o homem sentia-se honrado em lutar pela pátria. E a guerra era uma forma de exalar bravura. Menos para Thomas. Ele estava na guerra, mas a guerra não estava nele. Ele pensava em Downton. Numa maneira de voltar para casa, ele, entrincheirado, acende um cigarro, levanta a mão e fica à vista do inimigo. É atingido por um disparo e tem a mão perfurada. Imediatamente é desligado do batalhão e volta para casa. Uma atitude covarde, no meio de tantos homens de guerra.

Se assim continuarmos (criar maricas e não homens), iremos ter escassez de homens no futuro. E as mulheres, como alertou o Fantástico, irão perder o  interesse por eles. Irão se enrolar e fornicar com outras da sua espécie — já está ocorrendo. Por que a mulher seria atraída, sexualmente, por  um ser igual a ela? Não que os opostos se atraem, digo daquilo que a mulher mais busca num homem: a virilidade, o apoio, os braços fortes, a proteção. Desde o paleolítico.

A revista SuperInteressante, a qual chamo de "Desinteressante", é marcada por reportagens polêmicas e sempre aquelas que contradizem a história, ou os tabus sociais. O costumeiro das suas capas é apologia à maconha, questionar as doutrinas cristãs e enaltecer outras religiões, como, por exemplo, o islamismo. Numa dessas reportagens fraudulentas e, diga-se, bem covardes, eles afirmaram que crianças (meninos) que se vestem de super-heróis vão se tornar crianças violentas. Claro que isso é uma piada. Fosse verossímil, eu estaria, hoje, chutando cachorro por aí. Tive a minha infância sobre meus cavalos imaginários, revolveres de madeira, correndo para lá e para cá, matando meus bandidos, também imaginários. Essa gente quer acabar com o guerreiro, o homem milenar. Só pode.

Calma. Ainda chegaremos ao clímax dessa doutrinação politicamente correta; que os heróis dos gibis, e hoje nas telas do cinema, serão proibidos, em nome do combate à violência que eles afirmam estimular. Será o fim do Batman, Superman, Homem Aranha, Homem de Ferro, etc.  Não teremos mais heróis. E, em terra sem heróis, triunfarão os vilões, ou, quiçá, ressuscitarão o velho Capitão Gay, do Jô Soares. Numa forma de ser doce com o mundo e não ferir o outro com sua espada de plástico.

O machismo, amaldiçoado pela #WomenMarch (um dia depois da posse de Donald Trump), é o inverso do que se prega pela grande mídia — homem que bate em mulher é um covarde e não machista. Todas as conquistas da mulher, no trabalho e civil, só se obteve no mundo ocidental. E essas má amadas estão brigando exatamente com esse mundo, dos homens. O mundo que as projetou. Ninguém dessas defende a mulher das leis muçulmanas, do Sharia. Hipocrisia é o que chamo.

Machismo é o estado natural do homem em proteger e preservar a mulher de quem quer deformá-la e transformá-la em outro homem: o feminismo. Uma mulher que cai nas garras do feminismo é como aquele que vai à cracolândia para experimentar droga. Quase sempre não tem volta. Quando volta, torna-se um macho mal acabado, usando um termo rodriguiano. Não estou aqui, como conservador, para salvar o mundo, mas proteger o mundo dos seus salvadores. E eles são loucos e sedentos.

E o bofetão? Ninguém mais dá e nem leva. Coisa de melodrama? O mundo politicamente correto não aceita o revide, o tapa na cara como resposta. Quando as palavras se esgotam, o bofetão era o remédio, aquilo que faz um ter pena do outro, se acariciar e se perdoar. Não se dá bofetão, só porque se odeia, mas, muitas vezes, porque se ama demais. No amor também nos ofendemos ("Atrás da Porta", de Francis Hime e Chico Buarque, deve ser lida, relida). Dali, e pós a mão cheia, tudo se acalma. Eles percebem (homem e mulher) que era a dor que precisavam sentir para exaurir. Era como nas novelas clássicas: bateu-levou. Depois, no final, se casavam. 

En passant, vi um documentário da Tv Animal, sobre a vida dos cães selvagens na África. Muito interessante como as coisas se comportam no reino animal (ou não somos parte dele?). A hierarquia da matilha é uma regra, respeitada pela força. Você tem o macho alfa e a fêmea alfa. Eles são os guardiões do grupo. A fêmea escava a toca onde seus filhotes nascerão, enquanto os outros vigiam o ambiente. Quando os filhotes nascem, a função dos demais, além de protegê-los, é buscar comida. E quem vai caçar? Os mais fortes, vigorosos, os mais preparados. Enquanto, no esconderijo, os filhotes, e aqueles que estão velhos e feridos, esperam pelo o alimento. Quando os caçadores chegam, o alimento é distribuído para todos, sem distinção.

Voltemos ao paleolítico, e veremos que o homem não punha a mulher para caçar. Ela, sem força física, seria uma presa fácil aos animais selvagens. Mulheres já brotaram dóceis e delicadas. Elas têm, exato, o instinto do cuidado, do zelo. E por isso, trazem os historiadores, ficavam protegidas em cavernas, cuidando da cria, à espera do alimento, do seu homem. Assim era, porque assim são ainda os cães selvagens africanos. A diferença é, o homem evoluiu em muitos aspectos, e os cães, não. Ainda continuam no modo antigo de sobrevivência.

"Estamos cegos, surdos e mudos para o óbvio", dizia Nelson Rodrigues. E a vida, ipsis litteris, é 24 horas calcada pelo óbvio do habitat, do meio ambiente. Os cretinos, interventores do mundo, querem mudar regras milenares, porque entojaram do cotidiano, da mesmice. Nelson também disse:
"A mulher pode ter qualquer idade. Não o homem. O homem não pode ter dezoito, ou quinze. Aos dezoito anos, não sabemos nem como diz 'bom dia' a uma mulher e não podemos fazê-la feliz, em hipótese nenhuma. Para o homem, o amor não é gênio, não é talento, e sim tempo, métier, sabedoria adquirida. Fiz as considerações acima para concluir: — o homem devia nascer com trinta anos feitos." 
Digo ao homem (depois dos 30 anos): não se perca em ter que ser politicamente correto com mundo que o persegue. Seja incorreto, seja um homem natural, com suas características biológicas, físicas e de instinto; abuse da sua condição. Debruce os olhares sobre as pernas, os decotes, se inspire e respire esse ar bom que vem da fêmea que lhe rodeia num mall de shopping; e que ela lhe traga seus desejos por inteiro.

Numa festa de mulheres lindas, o homem solteiro deverá ser apresentado aos decotes, antes de qualquer palavra. É sobre eles que ele depositará a sua fidelidade perpétua. O que atrai um homem é aquilo que é segredo, obscuro, transparente, invisível. Aquela ponta de auréola que desponta e ele tenta perceber com olhares lânguidos. Lá, depois dos seus 30 anos de vida conjugal, ela ainda irá lhe atiçar com suas luzes, como um luminoso que pisca sobre seu cólon.

Não sei que nome eu daria para a essa crônica. Pode ser "O decote", "Os peitos", "O cólon", ou qualquer coisa que me seduz e faz meus olhos hipnotizados, imantados por uma mulher. Então, põe aí: "O decote salvará o homem". Eu creio.

Se você, homem, conseguiu chegar ao final desta crônica, e pretende salvar a sua espécie, nunca deixe de cobiçar um bom decote, quando deparar com uma pecadora e linda mulher (cuidado com o silicone e outros disfarces). Sem receio de ser advertido por um bofetão; e sem pena nenhuma, nem dó da sua vítima.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Então virou moda


Virou moda ser "master chef", porque a TV mostrou. E depois comer mesmo feijão com arroz todo dia;
Virou moda tomar vinho e cerveja artesanal, e antes cheirar a boca da garrafa como se soubesse distinguir alguma coisa;
Virou moda cobrir o corpo de tatuagens que as rugas um dia deformarão;
Virou moda ver "the voice" na TV e não perceber o que falta  é criatividade, porque as músicas que eles cantam foram compostas há mais de 30 anos;
Virou moda ter cachorro, gato e tratá-los como se fossem filhos;
Virou moda brigar com o professor e poupar o filho pelas notas baixas;
Virou moda homem se vestir como mulher, e mulher se vestir para outra mulher;
Virou moda mudar o padrão de beleza, olhando agora para coisas feias e bregas;
Virou moda ouvir funk, sertanejo e achar que é bom e todo mundo gosta;
Virou moda ser fitness, pedalar, correr e ser burro;
Virou moda cuidar do corpo em detrimento à mente;
Virou moda tirar retrato de si, narcisamente falando;
Virou moda ser espiritualizado e não ser religioso;
Virou moda novela gay, beijo gay, ator gay, mundo gay;
Virou moda aceitar qualquer coisa além do gênero masculino e feminino;
Virou moda relativizar tudo, até a mais ululante verdade;
Virou moda não ler e ter opinião sobre tudo que não sabe;
Virou moda ser mimizento, ressentido e chato;
Virou moda maquiar a realidade por pura covardia;
Virou moda ser politicamente correto;
Virou moda a burrice sem rubro na face;
Virou moda ser ridículo e não saber o quanto é.
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Janeiro de 2017

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Assim na terra como no céu


Eu disse que estava escrevendo um texto sobre essa antítese que rege nossas vidas: o bem e o mal. O que chamo de guerra das guerras, porque seu fim nunca chega, é milenar, apocalíptico. Sempre houve e sempre haverá a medida de forças, como um cabo de guerra, que se puxa na polaridade da Terra. São essas as forças antagônicas de equilíbrio da existência da raça humana e toda natureza que a cerca. Porque essa é a nossa condição. Não há garantia um dia vamos dar certo nessa vida, e só uma delas sairá vitoriosa. Isso talvez seja o grande desafio de viver: a corda bamba no desfiladeiro do fim do mundo.

A guerra das guerras não se trava visível à luz do dia, nas trincheiras, por trás de barricadas, nos bombardeios aéreos. É uma guerra longa, silenciosa, lenta, no obscurantismo, nas trevas. A guerra que nunca termina é a batalha entre o bem contra o mal. Todos os dias, nos calabouços da mente humana ela se alimenta, e com a vida seguindo seu curso, numa sensação de “paz e amor”. O mundo nunca terá paz por completo. Esqueçam essa história de "mundo melhor".

Se olharmos para a Terra do espaço, veremos um sinal de fumaça aqui e ali, de explosões e ataques aéreos aos grupos terroristas islâmicos — o novo inimigo do Ocidente. Nada que possa alarmar a humanidade (?); nada que se compara às grandes guerras mundiais. O mundo, aparentemente, anda numa certa passividade, de gente boba nas redes sociais. Mas não é bem assim. Os longos anos da guerra fria nos ensinou que há outros tipos de batalhas. As piores são as silenciosas.

Não é muito difícil imaginar que muitas coisas que mantém a existência humana funcionam aos pares, como um universo paralelo onde tudo se equilibra: masculino e feminino, esquerda e direita, corpo e alma, amor e ódio, vida e morte. Como também a paradoxal covardia e coragem, céu e terra, côncavo e convexo. Nossos membros superiores e inferiores vieram aos pares; depois as narinas, os ouvidos, os olhos.  

O formato arredondado da Terra, e muito do que a ciência tem descoberto, mostra que o universo é um colosso simétrico, ou parece ser. O que equilibra tudo isso? Penso sobre essas forças antagônicas, que se complementam, e traçam uma linha imaginária que separa tudo em partes iguais, como uma laranja. 

Alguns pares nos foram negados. A cabeça, o órgão sexual, o coração, por exemplo. Talvez, se tivéssemos em pares (e opostos) não saberíamos como reagir em muitas situações. Assim, uma só boca para termos uma palavra só, fica bem claro. Com uma só perna, não caminharíamos tão longas distâncias e o equilíbrio seria mais difícil. Sem uma das mãos, não faríamos muitos serviços, como fazemos tento as duas; sem um dos ouvidos não alcançaríamos muitas notas musicais. 

Assim, como o chão que atrai nossos corpos e tudo que está sobre a terra. Newton entendeu essa lógica: se não saímos do chão como os pássaros é porque algo nos prende a ele: uma força gravitacional. Há uma força que nos faz estar em contato com o chão, e por isso não temos esse dom dos pássaros. (Se não tivessem asas, não seriam pássaros.) É uma lei de atração, de abstração, de sucção. Ação e reação.

A filosofia chinesa, o taoismo, definiu o conceito Yin-Yang como forças opostos e que se convergem para formar a vida e todo seu complemento. Yin representa o feminino e Yang o oposto, masculino. Assim, reconhecem que é a vida em todos os seus princípios.

Quando penso no bem e no mal, imagino que o mal nasceu antes. Ambos vieram do coração, da ira e da compaixão. Reconhecemos, lá na pré-história alguém teve sua fúria, por sobrevivência, exposta; o bem nasceu da compaixão, por um resposta a tudo. Nunca mais se separaram.

Não ser teimoso e achar que todos os seres vivos estão dispostos a praticar só o bem, e, portanto, só reconhecem o mal depois que a "sociedade" o condenou. Assim, seguindo essa cartilha esquerdista, ele atira para o lado do bandido, como forma de proteger. Nada disso me convence. O mal e o bem já vem como um combo, um kit de sobrevivência. Uma hora utilizamos um ou outro.

Estou lendo o livro "A Corporação", de Nicholas Hagger. E o que diz esse livro? Descreve um poder paralelo, além de nações e governos, que domina e controla o mundo sob os vários meios: políticos, Então, aquela história de donos do mundo, que dizem ser uma conspiração, é séria. Eles agem no obscurantismo, organizando sociedades secretas que envolvem uma parcela significativa da sociedade, como a imprensa mundial, por exemplo. Anônimos, eles comandam nossas vidas há mais de 100 anos. O fim disso? Difícil imaginar, pois se quisessem o bem da humanidade, estariam financiando a paz e não guerras.

Você pode achar que o mundo anda num estado de normalidade, e por isso não devemos criar alarmes e acender luzes de perigo. Nós vivemos, de fato, uma era de desprezo pela vida — a nossa e a alheia. Nunca o homem fez tanto pouco caso da vida, não estando em guerras de tanques – elas justificam o mal. As guerras travadas são internas. Pela autoestima, o narcisismo, se sentir feliz a todo tempo. Isso explica o porquê de muitos sentirem seu coração partido ao ver um cachorro na chuva e nada sentem quando um mendigo dorme ao relento. O desprezo é pelo humano.

Desprezamos a vida, porque tudo que nos cerca nos dá a falsa sensação que temos controle sobre ela e de tudo que pode vir no futuro. Não há controle de nada, só incapacidade cada vez maior de reagir ao mundo e de se sentir mais afetuoso. O bem e o mal se travam, embora tudo faz nos confundir, para que não saibamos definir mais, nem um nem outro. O que salvar primeiro no fim dos tempos, o corpo ou a alma? Tem gente que ainda tem essa dúvida.

O mundo é isso mesmo: um lugar de encontro de seres iguais que se estranham, de vez em quando. E que agora padece nesse gap que se tornou este século. De pessoas ressentidas, mal-amadas, fingidas, distantes e de afetos duvidosos. É preciso entender como as pontas se juntam lá no fim, como é aquilo que une tudo na vida. Como o bem e o mal, Deus e o demônio. E assim na terra como no céu.

(Desculpa se não consegui ser tão claro)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Dezembro de 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Quando minha alma arrepiou


Geraldo Vandré - FIC - 29/09/1968
Devo confessar que nunca fui um bom speaker; não sei falar em público, ou aquilo que, talvez, eu dissesse bem melhor escrevendo. Até nos meus áudios de WhatsApp (risos) me acho horrível: voz e colocação. No entanto, às vezes, tento ser professoral nas minhas exposições. Acho que os professores (não doutrinadores) conseguem aprender muito com seus alunos também. Até por que alunos perguntam.

Já expliquei inúmeras vezes — agora com mais compreensão — os anos do regime militar que o país viveu. Cada vez que falo sobre o tema para alguém, parece que aprendo mais. Tudo ficou mais claro para mim. Tudo que eu lia nas entrelinhas (nas frases deixadas nos muros pela esquerda), agora se fecha dentro de um contexto. Com começo, meio e fim.

Estou lendo o livro do Professor Marco Antonio Villa (guardado na estante há tempos) "Ditadura à brasileira". Acho que merecia até um outro título: "O regime militar brasileiro". Afinal, vivemos, de fato, uma ditadura? Com essa pergunta quero iniciar essa conversa. 

Quando penso nesse período, volto à minha velha infância e tento lembrar de como éramos em casa. Vida pobre: um pai operário, uma mãe dona de casa, irmãos estudando em escola pública (como eu) e comendo o que era acessível: arroz, feijão, batata frita, ovo, carne moída, e café com leite misturado com farinha de milho. Nada mais que pudéssemos ter. Vida simples, mas sem faltar nada, nem mesmo o material escolar.

Mas e o Brasil? E a política? E a chamada ditadura? Éramos um país também miserável, pobre economicamente, mas de um povo trabalhador. Como interiorano, só fui me ater à palavra ditadura — e que eu fazia parte dela — ali pelos meus 17 anos (1979), quando veio toda aquela conversa de anistia ampla geral e irrestrita; e lembro da Elis cantando "O bêbado e o equilibrista", só isso. Antes disso, era tudo muito quieto dentro de mim, e sem muitas perguntas. Talvez eu fosse um alienado — palavra muita difundida nessa época —, porque não me julgava alguém cercado por barricadas e preso num mundo dominado por um ditador.

É isso que queria dizer. Ditadura tem que ver com o grande líder. O Brasil do regime militar (1964 a 1985) não teve um grande líder ditador. Ditaduras têm um cortador de cabeças, um escravizador, um partido dominante. Nós não tivemos. Vivíamos numa carestia, claro, mas éramos livres para estudar, trabalhar, ir à igreja, ter lazer. As pessoas podiam abrir seus negócios, ter patrimônios, sem dever nada para o governo que não fosse os impostos. Não havia um Estado centralizador e poderoso, o que caracteriza, de fato, uma ditadura. 

E os rebeldes? E a luta armada? E as torturas? Aí começa toda uma história, de um país paralelo, que a maior parcela da população desconhecia. Não só por que a notícia era censurada, mas porque era alheio às pessoas que só queriam trabalhar e tocar sua vida. Mesmo depois do AI-5 (1968), o governo permitia que você fizesse o que quisesse, estabelecendo um critério de censura moral nos meios de comunicação, que não fez mal a maioria das pessoas. Fez mal àqueles que enfrentavam o governo (sem conseguir convencer a população das suas causas). Noventa milhões que não deu a mínima para dez mil revolucionários. O governo só lutava — e aí está o ponto — contra aqueles que queriam derrubá-lo: grupos terroristas de luta armada. O restante da população estava pegando o trem na Central do Brasil.

Antes de 1964, o país vivia uma tensão, com o comunismo nas portas, pronto para entrar. O povo, naquela memorável "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", sentia e pedia os militares no poder. Era a força da igreja católica fazendo frente ao iminente comunismo. Os militares ouviram o clamor, entraram na briga e tomaram o poder num contragolpe, sem derramamento de sangue. Só a imposição e o bafo no cangote pôs todo mundo para correr. Um jornal da minha terra estampou no dia 1º de Abril de 1964: "Venceu a democracia".

Daquela esquerda derrotada, vejo três grupos separados. O primeiro, tão logo os militares entrarem, saiu correndo pela porta dos fundos, fugiu do país — os políticos. Um outro, correu para a clandestinidade a construir barricadas, organizar grupos terroristas em aparelhos clandestinos — a chamada luta armada. E o terceiro grupo, se camuflou (como quem era isento), nas redações de jornais, revistas, universidades, meio artístico, cultural e — pasmem — na igreja católica. Quem influenciou a minha geração? O último grupo. Esse grupo propagou e difundiu a palavra ditadura (e todos os chavões) que perduram até hoje. O gramscismo sendo aplicado.

O fato fica evidenciado e claro. Tudo que se publicou no meio cultural, em forma de livros, peças de teatro, textos jornalísticos e na música popular brasileira, tinha a tinta de uma esquerda inconformada, irada, raivosa, tendo aqueles milicos atravessados na garganta. Um ódio que varou décadas. E esse ódio não era por que eles buscavam livrar o país dos militares e da ditadura, mas por que não conseguiram o seu intento: transformar o Brasil numa grande pátria comunista, tendo o proletariado como escudo e modelo.

Isso foi confirmado pelo jornalista Fernando Gabeira, em entrevista. E como todos sabem, Gabeira foi partícipe e atuante dessa esquerda, a da luta armada. Então, procure a palavra democracia na boca dessa gente, que nunca encontrará. Eles não lutavam por uma democracia, mas por uma ditadura; a pior e mais cruel ditadura de esquerda. E assim, seguindo a voz de Lênin (chame-os do que você é), a palavra ditadura ia colando nos ouvidos das pessoas, enquanto gozavam de liberdade, e o Maracanã lotava num FlaFlu, com 200 mil pessoas, sem nenhuma revolta ou briga. Era ditadura?

Já faz uns dois anos assisti um episódio reprisado da novela Dancin' Days (1978), e uma cena me chamou atenção. O personagem de Eduardo Tornaghi entra num restaurante segurando um livro. O livro, que identifiquei pela capa, era "As veias aberta da América Latina", escrito pelo escritor uruguaio e comunista Eduardo Galeano. Nesse mesmo ano, esse livro figurava na lista dos mais vendidos do país. Que ditadura militar (de direita) permitiria um livro comunista nas livrarias? Essa ditadura não existiu.

Li, ali pelos meus 20 anos, o livro "1968, o ano que não terminou" de Zuenir Ventura. Depois, "Batismo de Sangue" de  Frei Betto. Ambos livros narram a história do período militar, romanceada, de heróis e bandidos, contada sob um único ponto de vista: da esquerda. No livro de Frei Betto, por exemplo, logo no início você já se depara com a narrativa da morte de Carlos Marighella. (Você quase entra em lágrimas.) Anos mais tarde, fui descobrir que se tratava de um terrorista, assassino e cruel.

Em 1992, o novelista Gilberto Braga pôs no ar a minissérie "Anos Rebeldes". Mais uma vez vimos uma história contada só sob um único ponto de vista. Aqueles estudantes eram tratados como heróis que queriam livrar o país dos algozes militares. No mesmo instante que a minissérie ia ao ar, na vida real, o jovem Lindbergh Farias movimentava os estudantes contra o caçador de marajás, Collor, ao som de "Alegria Alegria".

Hoje, lembro do meu pai, e nunca ter ouvido dele que o governo militar era cruel e perseguia pessoas.

A verdade é: esse terceiro grupo influenciou as gerações seguintes. Com esse grupo aprendemos a odiar a burguesia, os milicos, a ditadura, a censura, o patrão, o capitalismo, os EUA. Ao mesmo tempo que exaltávamos a esquerda, o marxismo, Cuba, o socialismo soviético, os artistas engajados da MPB, Carlos Lamarca, Che Guevara, os sem terra, a reforma agrária, o sindicalismo, a classe operária e depois o PT.

Esse terceiro grupo colocou esses comunistas, derrotados de 64, novamente no cenário político, agora anistiados e sobre a via pavimentada da democracia. Fomos teleguiados por esse discurso de ética, moral, contra a burguesia e os milicos — ali já no limiar dos anos de 1970. E sobre os ombros trouxeram Lula, o operário nascido e criado no seio do povo, ao posto máximo do país.

Mais analítico, hoje vejo esse mundo, vacinado dessa doutrinação da esquerda que buscou se vitimizar (pós-64). Como também não vejo tão clara essa divisão extrema entre esquerda e direita. O que percebo são os traços fortes de uma sociedade que se separa em dois cenários; de um lado os conservadores e de outro os progressistas.

Como disse, vi meu pai criar muitos filhos sem dizer um pio contra o governo e praguejar contra o mundo, o capitalismo, etc.; ao mesmo tempo que lutava com todas suas forças para manter a estrutura familiar em pé. Então, me sinto hoje um cidadão amadurecido e conservador. Penso num mundo de sociedade de mercado acontecendo, um governo enxuto e menos intervencionista. Preservando a família, a religião e a propriedade privada. O Brasil, majoritariamente, é conservador, mas governado por progressistas; esses ainda ressentidos com 1964.

Penso ainda, todo progressista é um ser inquieto que, no ambiente político, deixa exposto toda sua ira com o mundo. Nada está bom. Utópico, carrega dentro de si revoltas íntimas e mal resolvidas que, para se livrar, deposita nas costas de um governo, da sociedade e do sistema econômico. Aos seus olhos, o mundo está errado e ele certo em querer revolucionar. E assim, quer trazer todos para dentro das suas crises, até aquele que está em paz de espírito. O mundo que ele quer mudar, eu só quero conservar e entender.

Caminhando para o encerramento (sei que são poucos linhas para descrever um período tão complicado da nossa recente história.), concluo.

No final da minissérie de Gilberto Braga, o casal antagônico, Maria Lúcia e João, tenta se acertar, depois que ele volta do exílio, ali por volta de 1979. Ainda descrente daquele amor, ela quer dar a ele uma chance, mas logo percebe que nada nele mudou. Ele continua com suas revoluções acumuladas e a luta armada na cabeça. Querendo consolá-la, já em tom de despedida, ele diz agora concordar com ela, quando, lá no Festival de 1968, ela dissera preferir "Sabiá" a "Caminhando". Ele reconhece, 11 anos depois, que ela estava certa: "Sabiá" era melhor. Mas eles não ficam juntos.

Está aí mais uma coisa que esse terceiro grupo também nos convenceu: a música deles. Nos fez aplaudir, emocionar. Eu colocaria uma dessas canções em cada braço para arrepiar os pelos. A esquerda conseguiu influenciar minha geração, porque tinha os intelectuais, os melhores atores, as melhores canções; sabia escolher palavras, construir frases, contar histórias; por um sentimentalismo e vitimismo de compadecer. Essa esquerda, que se apossou da cultura do país, soube mexer com a emoção e fazer toda essa geração (pós-64) sentir que nada poderia haver de melhor, atraindo todos a sua causa ideológica. Basta lembrar a campanha de Lula de 1989, o que mais havia era artista e intelectual engajado.

Os pelos dos braços continuarão arrepiando por muitas canções, mas agora sem esse sentimentalismo exacerbado, que controlo sem que me cerque. Agora posso dizer: nenhuma dessas canções conseguiu arrepiar mesmo foi a alma. E dela posso sentir, quando ouço e leio palavras que me encorajam, que agora me encontram compreendidas. Falo de liberdade, democracia, justiça, compaixão, amor, esperança e a busca incansável pela verdade. Aí minha alma arrepia.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Setembro de 2016