BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Era um garoto que como eu, amava os Beatles, mas não os Rolling Stones

Já virou vício, ouço alguma música dos Beatles e tento decifrar quem está cantando, se é Paul ou John; ainda há algumas confusões em suas vozes. Quando é George e Ringo, já é mais fácil; eles pouco contribuíram com suas vozes nas gravações. É um exercício, ou eu já passei da fase de dançar na minha cabeça com elas; já estou no estágio máximo de suas canções, tirando o sumo? Eu cansei de ouvir Beatles? Em hipótese alguma, eles continuam cantando na minha vida, no meu carro, no meu quarto, nos meus sonhos; e às vezes na minha cabeça. Sempre tem uma que não sai do dial da minha mente.

Na minha adolescência, eu não era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, como dizia aquela canção italiana. Quem ama Beatles não tem o mesmo sentimento pela música dos “Stones”; é o que penso e falo por mim. São sons diferentes de se ouvir. Eu sou beatlemaníaco. Jamais imaginaria, por exemplo, ver Paul vestido de beatle (naquele terno justinho) correndo no palco com seu contrabaixo Hofner e mostrando a língua para o publico. Era outra proposta. No mundo “Stones”, isso é o que faz seu público delirar. O fato que a história registrou - e ninguém poderá negar – foi a música que nasceu num canto do estúdio de gravação em 1963; Lennon e McCartney compuseram “I wanna be your man” e deram para Mick Jagger e sua banda gravarem seu primeiro sucesso. Foi a partir dessa contribuição dos Beatles que os Stones surgiram. De resto, já tentei ouvir, mas foi em vão, paro na primeira música, as outras parecem uma repetição, como bem lembrou uma vez um amigo.

Outro dia fui chamado atenção – sem nenhum peso de crítica, não me leve a mal – de ouvir “música de velho”. Como se me propusessem: largue mão disso e junte-se a nós, os contemporâneos e “jovens”, que ouvimos Lady Gaga, Amy Winehouse, João Bosco e Vinícius e Ivete Sangalo! Não me rendi, não desci o nível, mas justifiquei. Depois de um tempo, com o ouvido depurado por ouvir o som da guitarra do Pink Floyd, o teclado do Supertramp, o baixo de Paul, o violão folk de Simon, a harmônica de Bob Dylan e a batida “bossa nova” de João Gilberto, fica difícil me render ao modismo musical. Esses, que tentam me empurrar, sequer serão lembrados daqui a 10 anos. É tudo modismo mesmo e muitas vezes ruim!

Na minha infância, não fugi desse rótulo – de ouvir coisas do momento -, afinal, ouvíamos o que as rádios tocavam. Na minha época, era Sidney Magal, Odair José, Fernando Mendes e Perla. Não havia como não se contagiar com aquilo, vinha em enxurradas aos nossos ouvidos. E saia cantarolando por aí, até sem querer.

Descobri, porém, que poderia escolher minhas músicas (santa vitrola!), e na minha casa havia um bom acervo musical para isso. O disco Abbey Road dos Beatles (1970) quase furou. Ouvi muito Chico Buarque e já nos meus 18 anos fui apresentado à MPB mineira, ao som do violão folk de Paul Simon, Supertramp, Pink Floyd e James Taylor. Meus amigos da época, eram como eu, gostavam das mesmas músicas. Eu os ensinei a gostar de Chico; eles a gostar desses outros. Eram noites sem fim na esquina tocando violão e tomando vinho.

Naquela época, lembro-me de nos reunirmos em casa para ver um show que a tv exibiria numa noite de 1983. Era o memorável show do Central Park, com a volta da dupla Simon and Garfunkel (eles haviam parado?). Fiquei apaixonado pela música de Simon e a voz afinadíssima de seu parceiro. Eram 500mil vozes cantando junto com eles no Central Park. Nas rodas de violão era obrigatório tocar suas canções. Preferência? Acho que fiquei com “The bridge over troubled water”; era romântica e uma letra linda, falando de otimismo, amizade e amor. Foi também nesse tempo que meu amigo foi convidado a tocar violão num casamento. A música escolhida pelos noivos foi “Love of my life” do Queen, com direito a todos solos que Brian May fazia no seu violão ovation. Fiquei emocionado também naquele dia.

Das montanhas de Minas Gerais vinha um som maravilhoso também. Comecei ouvindo Milton e o disco Clube da Esquina, aquele que fez junto com o “menino” Lô Borges. “Por que se chamava moço também se chamava estrada / viagem de ventania /... e lá se vai mais um dia”. Nunca mais me esqueci de como se tocava esta música ao violão. Coinscidência ou não, os mineiros sempre foram apaixonados pelos Beatles.

Neste breve roteiro musical, tudo que ouvi e continuo ouvindo são canções contextualizadas na minha trilha sonora, com passagens memoráveis; de canções que ainda perpetuam em meus ouvidos, e como se fosse a primeira vez. Aos amigos próximos digo sempre, se Paul pudesse tocar piano na cerimônia do meu casamento, pediria que tocasse “The long and winding road”, é a mais apaixonante composição que dividiu com John.

Voltando àqueles que me julgam ultrapassado, não se preocupem com o que ouço. Quando ouço minhas músicas, não convido ninguém para ouvir comigo – é íntimo. Mas, não queira me tirar nunca da cabeça o solo inicial de “Day Dripper”; com a guitarra de George tocando só nos bordões, ao fundo a percussão do pandeiro de Ringo. Não sai mais de mim. Todo mundo na minha adolescência queria fazer igual, em qualquer violão na esquina, era Beatles. Como vou esquecer? Como vou mudar? Como gostar de Stones e do modismo? É a minha música, é música de velho sim, e com muito orgulho!

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.

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