BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Eu quero uma casa no campo



Foi Zé Rodrix quem compôs “Casa no Campo”. Ele faleceu em 2009 aos 61 anos de idade. Durante sua carreira, cheia de altos e baixos, foi: cantor, compositor, produtor, arranjador, saxofonista, publicitário e escritor. E no final da vida, ainda lhe sobrou tempo para por os pés na estrada, e junto com velhos parceiros Sá e Guarabira, reviver alguns dos seus rocks rurais fazendo shows pelo país.

A canção que marcou sua carreira foi composta em parceria com Tavito e ganhou o Festival de Música de Juiz de Fora — 1971, pouco depois Elis Regina deu alma e tornou-a conhecida nacionalmente. Faz algum tempo fiquei sabendo que “Casa no Campo” era o hit da juventude daquele início de anos setenta, pós Woodstock; o hino da galera hippie — um movimento de contracultura que propunha viver em uma sociedade alternativa e comunitária; em comunhão com a natureza, desapegada de tudo e longe do convívio urbano. Aquela geração queria esse refúgio, esse retiro espiritual para o avesso do mundo. Justificando a asserção de plantar amigos, discos, livros e nada mais. Nada mais e ponto final.

Naqueles idos, do outro lado do mundo a Guerra do Vietnã ainda corria em trincheiras abertas; o Brasil vivia debaixo de um governo de regime militar; ensaiava-se uma nova ordem na música com o fim dos Beatles. Enfim, havia tantos mais motivos para se refugiar numa casinha de pau a pique e sapé. Acredito que, Rodrix morreu sem viver o sonho daquela casa, ou melhor, precisou pelejar para ganhar o seu pão, sobrevivendo à metrópole com seus arranha-céus; e pouco lhe restou para viver num lugar onde pudesse ficar como queria: do tamanho da sua paz.

Todas as manhãs eu abro meu jornal virtual — não saio de casa sem pelo menos ler algumas notícias —, há muitas desgraças e poucas coisas boas para lhes contar. É corriqueiro, não muda. Às vezes me pego pensando como virar este mundo ao avesso, digo, como chamar atenção das pessoas que, pelo jeito, não se sentem responsáveis por nada. Ainda não aprendemos a viver, lutamos contra nós mesmos; e não há outra raça para competir conosco em igualdade. Por que então? Precisamos de um homem novo, um arquétipo novo da raça? O mundo de 2010 ainda continua a fabricar suas guerras estranhas e sem propósito; o Brasil — agora da democracia — vive sob o estigma da corrupção, das torturas ideológicas e das desigualdades sociais; por fim, ninguém mais veio substituir os Beatles na música. Como naqueles anos, temos tantos outros ou mais motivos para se refugiar e querer a paz, a nossa paz interior. Ou então — já que não conseguimos vencer o mal do mundo —, de maneira radical, nos retiramos daqui, como sugeriu o físico Stephen Hawking em declaração recente.

Os hippies, da mesma forma que se espalharam também sumiram do planeta, e ninguém apareceu de novo organizando festivais de rock sob a batuta do lema “paz e amor”. Nada mudou, ou tudo mudou e agora para pior; muito perdemos em moralidade e no sentido do respeito à vida e ao próximo. Agora querem também incendiar a casinha que desenho para um dia morar. Não deixarei. Quero minha casa no campo: aconchegante, sem infiltrações, sem goteiras, de forte alicerce sobre rocha, e no extremo norte da minha paz.

Em alguns hectares do meu pensamento ela se constrói. Eu também quero uma casa no campo. Ela será modesta com poucas divisões e volumetria singular: um alpendre generoso para acomodar cadeiras de balanço, ganchos para redes e ladeado por samambaias e avencas. A sala com pé-direito duplo e lareira; a cozinha com fogão à lenha; aposentos com esquadrias com vista para um gramado e montanhas como seu pano de fundo. Um ambiente para “jogos radicais” como sinuca e futebol de botão. Um lago para pescaria de final de tarde; uma horta para colher folhas tão necessárias à saúde; um pomar de frutas cítricas; um rio raso de águas cristalinas e de três margens correndo no quintal. Por fim, uma lua colada no céu (cancerianos não vivem sem). Ah! Também terei a companhia de um casal de cães labradores e um jipe “Willis” para um “off road”, em busca de cachoeiras e paraísos exóticos. Uma vida simples com meus amigos, discos, livros e nada mais.

São inúmeras as histórias de pessoas que largaram tudo, ou quase tudo, e foram em busca do seu refúgio. É o caso do ator Walmor Chagas que há anos mora num sítio em Guaratinguetá e de lá só sai para um trabalho que vale a pena. Imagino que muita gente já tenha vivido a fase de querer uma casinha no campo. Eu tenho sempre esta vontade, vivo tendo. Esconder-me do mundo, de tudo e de todos. Sem vizinhos, sem trânsito, sem reuniões de trabalho. Não porque não gosto das pessoas; não porque quero ser um hippie e odeio o mundo onde vivo, mas porque às vezes há que se desistir para recomeçar num outro ponto qualquer da vida; é o melhor para a sobrevivência, um trem que chegou ao fim da linha, precisa agora mudar de trilhos. Irei mudar o que há em mim, fora do meu corpo fica difícil competir.

A casa agora em meu peito é um abrigo de sonhos, um sol que desponta com suas janelas abertas para a alma, e vem com a aurora; e o coração meu quarto refúgio — de segredo, mistérios e amores guardados. Do lado de lá passo a vida e o tempo que me resta, que me cabe. Vivida e longe das mãos dos que torturam e esmigalham o amor em troca de rancores e riquezas fúteis — eu quero minha casa no campo. Não quero mais carregar o mundo sobre os ombros, como já teimei. Agora estou a caminho, a minha estrada é de luz, de exuberantes flores, mas com pesada cruz, a minha. Serei efêmero? Não importa, a casinha no campo é um sonho. Caminho até ela. A face rubra do sol, os pés empoeirados e as pedras que me atormentam. Logo chegarei até ela — há tempo. Renunciarei orgulhos, tristezas, decepções e mágoas pelo caminho. Regarei os jardins dos corações insensatos com sorrisos e esperança. Colhendo frutos e seguindo os passos justos. Um andarilho dentro de mim caminha sem parar. Que inveja fará ao peregrino de Santiago? Haverá dias que virão tristezas, eu sei, mas resistirei em seu propósito. Quero encontrar minha casa antes do arrebol, antes da minha morte, antes da minha próxima dor.

Plantarei comigo todos os amores que vivi. Do baú, os retratos que guardei de histórias passadas. De nossas risadas e beijos ao luar. Da brisa da infância tão distraída. O presépio da noite de natal. A bola de futebol. As laranjas do quintal e o primeiro uniforme escolar. Quero levar você, nesga saudade, com suas cartas de amor e as canções que nos fez chorar. Sua doçura e tudo que ficou no meu paladar. Não serão objetos de adornos as iras e mágoas. Tenha certeza, sob minha guarida não haverá revoltas. Nas paredes, quero afrescos dos seus olhos para as tardes que tiver que suspirar de amor. Do nascer ao pôr-do-sol irei pensar que o amor nunca morreu, o tempo adiou para ser eterno como será a vida na minha casa no campo. Deixa-me construir agora...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Agosto de 2010.

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sábado, 21 de agosto de 2010

Teletema


Hoje acordei com esta música na cabeça. Ela é uma das jóias raras do final da década de 60. Fui me ater aos seus autores, Antônio Adolfo e o letrista Tibério Gaspar, descobri que andaram pelos festivais daquela época. Em 1969 colocaram a canção "Juliana" em segundo lugar no IV FIC - Festival Interancional da Canção, perdendo só para "Cantiga por Luciana" de Paulinho Tapajós e Edmundo Souto. No ano seguinte eles ganhariam o festival com BR-3. Eu só não entendo porque "Teletema" não tenha feito parte daqueles festivais. Depois a canção foi parar na trilha de uma novela. "Teletema" teve várias gravações na voz de Regininha, Evinha, Paula Toller, Luiza Possi e Ivo Pessoa.
Uma grande sacada da letra de Tibério está no fim de três frases musicais, onde ele interrompe a palavra - junto com a frase musical - para continuar na frase seguinte: Só + Corro = Socorro; Fim + Dando = Findando e; Além + Brando = Lembrando. Este recurso já foi utilizado por Caetano Veloso também. Genial!
Segundo os créditos do video abaixo, a voz é de Regininha e ao piano Marcos Valle.



Teletema
(Antônio Adolfo e Tibério Gaspar)

Rumo
Estrada turva
Sou despedida
Por entre
Lenços brancos
De partida
Em cada curva
Sem ter você
Vou mais só
Corro
Rompendo laços
Abraços, beijos
Em cada passo
É você quem vejo
No tele-espaço
Pousado
Em cores no além
Brando
Corpo celeste
Meta-metade
Meu santuário
Minha eternidade
Iluminando
O meu caminho
E findando a incerteza
Tão passageira
Nós viveremos
Uma vida inteira
Eternamente
Somente os dois
Mais ninguém
Eu vou de sol a sol
Desfeito em cor
Refeito em som
Perfeito em tanto amor

Postado por Antônio - Agosto/2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Ufa!

A expressão não seria melhor: "Ufa!". Estou terminando o próximo texto que ficou engavetado pelo menos uns três meses. Tirava, olhava, escrevia e guardava. Comecei e terminei outros e este não ia adiante. Agora creio que a ideia já esteja totalmente formada, as palavras condensadas e o recado passado. Nem sempre os temas fluem, às vezes eles precisam de um empurrão quem vem de dentro ou de fora. Este teve vários empurrões.
Parti do tema de uma canção para  me aprofundar em "Eu quero uma casa no campo". Trata-se de uma resenha do nosso cancioneiro, com uma pitada de lirismo. Por ter alguns leitores que estão gostando das escritas - alguns revelados de maneira pessoal - aí você começa a ficar meio chato consigo mesmo. Por vezes fica o receio que o recado não seja dado,  falte conteúdo ou que ninguém se interesse pelo assunto.
Não obstante, também não uso da força da memória, faço porque curto fazer isso. É um exercício diário que também contribui para colocar os pensamentos e a vida nos trilhos. Quando as palavras vêm, são avalanches, que chegam até me tirar o sono; como ocorreu em "Balões Cristalizados", que nasceu da noite para o dia. Em outros, elas já não brotam com tanta facilidade. Há que se provocar.
Mais uns dias e deixarei postado aqui este texto inédito. Será o mês de Agosto? Então, venha logo Setembro com sua primavera e seus brotos de flores.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Frio e a inteligência emocional

Aproveitei o fim de semana frio para pôr alguns pensamentos em dia. O cobertor, o café, o aconchego, e as boas palavras fizeram meu corpo e minha alma mais quente, como há muito não havia sentido. Bem, as previsões já haviam avisado que a temperatura no sudeste iria cair, até por isso cancelei o jogo do Palmeiras com os sobrinhos. É muito amor ao time sentar numa arquibancada gelada e ver a noite chegar e esfriar mais ainda. Pena, pois o time finalmente ganhou.

Também aproveitei para rever e refletir um pouco mais sobre uma palestra do psicanalista Flávio Gikovate. Como falei, não sou psicólogo e não quero ficar pautando este ou aquele psicanalista pela corrente que dominam ou seguem: junguiana ou freudiana. Sei lá eu. Só sei que o que fala me interessa e recomendo que lêem mais sobre suas obras e publicações. Gikovate tem uma linguagem fácil e seus assuntos são contemporâneos, pois dizem respeito ao convívio das pessoas nas relações e elas com suas vidas.

Muito do que disse nesta palestra sobre inteligência emocional — ou maturidade — vai de encontro com ao mundo que nós vivemos e pessoas que deparamos pela vida. Quando assisti pela primeira vez esta palestra, a pessoa ao meu lado não lhe deu muita importância; talvez se prestasse atenção teria sido melhor nas suas escolhas. O analfabeto emocional é aquele que se esvaziou dos sentimentos e não evoluiu o dom de amadurecer para as emoções. Não quero me prolongar, pois isto vai ser conteúdo de outra conversa aqui no blog. Vou me arriscar a falar sobre educação.

domingo, 8 de agosto de 2010

Maestro Soberano

Astrud Gilberto e Tom Jobim
Os meninos e meninas de hoje não sabem, mas o artista da música brasileira mais consagrado e respeitado no cenário internacional não é Ivete Sangalo. Bem, devo ter frustrado alguns leitores e outros deixarão de ler até o final. Lamento, mas ainda é — e continuará sendo por muito tempo — Antonio Carlos Jobim, ou simplesmente Tom Jobim. Seu prestígio no cenário musical rompeu fronteiras e não há lugar no mundo onde não se conheça uma de suas composições. Poderia falar muito dele, passar horas escrevendo sobre suas obras e passagens da sua vida que conheço, mas tentarei ser preciso nas boas lembranças que deixou.

Há um episódio que vivi num aniversário de um menino de 10 anos — presumo a idade — quando veio sua mãe toda entusiasmada me dizer que o garoto sabia cantar muitas canções da moda (estas que tocam no rádio); depois dele ter cantado algumas, eu perguntei se sabia cantar algo de Tom Jobim, ele me disse que não conhecia, nem sabia quem era. Quando cantarolei um trecho de “Garota de Ipanema”, ele me disse sorrindo: “conheço, esta eu conheço”.

Tom faleceu em dezembro de 1994 aos 67 anos, poderia ter ficado mais um pouquinho por aqui, feito mais músicas e gravado outros discos, mas sua lira fechou a partitura sobre o piano e partiu. Ele ainda nos deixou um acervo de músicas belíssimas que já ficaram para a eternidade. Junto com seu principal parceiro Vinícius de Moraes, Tom compôs suas melhores obras e talvez as mais conhecidas do grande público. Cito duas: “Chega de Saudade” — 1958 — foi o marco do início da Bossa Nova quando João Gilberto inventou ao violão a tal batida “bossa nova”, a primeira gravação foi na voz de Elizeth Cardoso no disco “Canção do amor demais”; depois veio “Garota de Ipanema” — 1962, esta canção o tornou de fato conhecido internacionalmente, com gravações em vários idiomas. Tal qual o menino citado acima, quem nunca ouviu esta canção, mesmo desconhecendo seus autores?

Na sua trajetória nos EUA, quando tentaram associar a Bossa Nova ao jazz, a cantora baiana Astrud Gilberto gravou quase tudo de Tom em inglês. Naquele início da década de sessenta, uma de suas canções foi parar também nas paradas britânicas, era “Desafinado” parceria com Newton Mendonça. Pude comprovar isso quando assistia um dos filmes da Antologia do Beatles, uma das cenas mostra a música “Love me do” chegando às paradas em 17º lugar e logo acima — em 11º lugar — aparece “Desafinado”. Até congelei a imagem para me certificar, era verdade. Em meados de 1964, no auge dos seus 24 anos, Astrud Gilberto, naquela época casada com João Gilberto, colocou “ The Girl from in Ipanema” em 5º lugar na Billboard — a parada da música americana: “Tall and tanned and young and lovely / the girl from Ipanema goes walking / and when she passes / he smiles / but she doesn't see / no she doesn't see /she just doesn't see...”. Ao mesmo tempo, seu álbum gravado com o saxofonista Stan Getz era o álbum de jazz mais vendido nos EUA. Astrud caiu no gosto americano com a aquela voz suave e seu rostinho hollywoodiano bem ao estilo Audrey Hepburn. Depois do fim do casamento, sua carreira seguiu por lá gravando outros discos em inglês e de puríssima Bossa Nova e Tom Jobim.

Uma das passagens da carreira de Tom que merece registrar é o encontro com Frank Sinatra. Em 1967 ele recebeu um telefonema de Frank Sinatra dizendo que queria gravar algumas de suas canções. O disco “Albert Francis Sinatra & Antonio Carlos Jobim” foi gravando naquele ano. O curioso é que este disco só perdeu em vendas nos EUA para “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Hoje só consegui encontrar pelo site de vendas Amazon.com. É triste ter que imaginar que no Brasil não se encontre um disco como este: uma preciosidade. Depois da gravação, Sinatra e Tom se tornaram amigos, e naquele mesmo ano Sinatra o convidou para participar de um especial que estava gravando para a rede de televisão NBC. Aquele encontro foi memorável. A organização não deixou que Tom tocasse piano (seu instrumento preferido), pois achava que músico latino só tocava violão, mesmo assim Tom não hesitou e empunhou seu violão para acompanhar Sinatra, inclusive num dueto em “Garota de Ipanema”. Antes, Tom já havia se apresentando nos EUA no Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova York em 1962. O sucesso internacional não parou por aí, a cantora americana Ella Fitzgerald gravou suas músicas; o parceiro de Paul Simon, Art Garfunkel também gravou “Corcovado” e “Águas de março”.

Depois de sua morte lhe quiseram render muitas homenagens, como uma forma de não deixá-lo cair no esquecimento, mas a melhor homenagem seria se as rádios tocassem Tom Jobim diariamente. Hoje Tom virou nome do aeroporto internacional do Rio, antes Galeão. Um dia ouvi de um amigo coronel da aeronáutica que o aeroporto merecia o nome de um oficial da aeronáutica e não de Tom Jobim. Calei-me , mas fiquei pensando se algum desses oficiais já havia feito uma canção para o Rio como “Samba do Avião”- 1962: “Minha alma canta / Vejo o Rio de Janeiro / Estou morrendo de Saudade...”. Acertou quem deu o nome: Aeroporto internacional Tom Jobim. Tom merecia esta e muitas outras homenagens. Reconhecedor, bem que o carioca tentou outra homenagem ao mudar o nome da Av. Vieira Souto para Av. Antonio Carlos Jobim, assim seria encontrada pela Rua Vinicius de Moraes no bairro de Ipanema — onde tudo começou. Eu estava no Rio à época quando o caso virou polêmica. A família Vieira Souto questionou na justiça e a Prefeitura teve de recuar, retirar a placa e voltar a Vieira Souto ao seu lugar. A cidade de São Paulo não soube homenageá-lo, colocou seu nome em um túnel. Quanta insensatez — fazendo alusão a uma de suas músicas —, Tom era contemplador e defensor da natureza, conhecedor do canto dos pássaros e não havia nada de concreto armado na sua alma. Mas pior foi na minha cidade quando soube que um loteamento popular virou “conjunto habitacional Tom Jobim”. Tenho certeza que quem deu este nome só conheceu sua carreira até a faculdade de arquitetura e urbanismo.

Chico Buarque tinha por ele mais que admiração e isso foi antes mesmo da primeira parceria em “Retrato em Branco e Preto” — 1967. Eles foram compadres, parceiros musicais e amigos de muitos drinks. Nesta época, Chico ainda deu uma contribuição na construção de “Wave”, é dele o primeiro verso: “Vou te contar...”; depois Tom fez o resto: “os olhos já não podem ver...” No ano seguinte, Tom & Chico selaram de vez a parceria ao concorrer e ganhar o III Festival Internacional da Canção – FIC com a belíssima “Sabiá”. Antes de morrer ou partir, Tom foi bem homenageado, aí sim, por Chico Buarque em uma de suas canções. Chico havia acabado de compor “Paratodos” – 1993. Num dos versos dedicados a ele, diz: “Meu maestro soberano foi Antonio Brasileiro / Foi Antonio Brasileiro que soprou esta toada / Que cobri de redondilhas...”. Chico chamou Tom para ouvir, mas ele já estava cansado e já sem paciência de tanta música na sua cabeça que pouco lhe deu atenção, revelou Chico.

Promessa cumprida. As reverências a Tom Jobim que faço nesta modesta crônica, esmiúçam em partes o carinho e outras em forma de agradecimento: obrigado ao maestro soberano. Agora, chega de saudade.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / agosto de 2010.


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Comento: Este video não é um clipe, acredito que tenha sido extraído de um longa - não tenho esta informação -, mas o rostinho de Astrud é ou não de Audrey Hepburn?

sábado, 7 de agosto de 2010

O filho que quero ter

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O filho que quero ter
(Toquinho e Vinícius de Moraes)

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem
De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem
Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter

Postado por Antônio - Agosto/2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sonho Real

A década de 80 foi marcada por várias descobertas na minha vida. Foi a época da efervescência na música pop no Brasil, com o surgimento de várias bandas nacionais que até hoje estão na estrada, e agora fazendo a cabeça desta geração. Foi naqueles anos, que também deixei cair nos meus ouvidos belas canções que, por descuido, depois ficaram marcadas para sempre em mim.

Quando Lô Borges lançou o disco “Sonho Real”- 1984, eu já conhecia sua obra pelos violões que eram tocados no nosso Clube da Esquina – bem pertinho de casa. Foi lá que ouvi pela primeira vez “Vento de Maio”, “Girassol da cor dos seus cabelos” entre outras. Quanto foi lançado o disco, fui à loja Multison na Rua Sete de Setembro e gastei alguns cruzeiros para ter meu primeiro disco de Lô. Depois que pus a primeira vez na agulha , não saiu mais da vitrola.

Lembro que de manhã, antes de sair para o trabalho – naquela época eu era caixa de banco - eu tomava café ouvindo “Sonho Real”. Tenho o CD remasterizado junto com outros de Lô, mas guardo com carinho o vinil de "Sonho Real" até hoje, quase sem arranhões.

O disco trás obras lindas como “Tempestade”, “Nenhum Mistério” – esta também gravada por Simone – e “Sonho Real”, a minha preferida. Esta composição de Lô e Ronaldo Bastos foi gravada com arranjo e regência de Toninho Horta. No arranjo, além da orquestra de cordas, há arpejos de harpa e gaita; sem contar de um solo inconfundível da guitarra do próprio Toninho Horta. Esta canção entrou definitivamente para minha vida. Não cabem outras recordações, não retiro lembranças de nenhuma paixão que vivi naqueles anos. Ela por si só já me faz suspirar. Hoje reparto com vocês um sonho verdadeiramente real.


SONHO REAL

(Lô Borges / Ronaldo Bastos)
A primeira vista
A paixão não tem defesa
Tem de ser um grande artista
Pra querer se segurar
Faz tremer a perna
Faz a bela virar fera
Quando alguém que a gente espera
Quer se chegar
Só de pensar
Já me faz mais feliz
Nem bem o amor começa
Eu já quero bis
Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .
Ilusão tão boa
Quanto o astral de uma pessoa
Chega junto, roça a pele
E já quer se enroscar
Lê seu pensamento
Paralisa seu momento
Ao se encostar
Sonho real
Faz surpresa pra mim
E trança o meu destino com alguem assim
Chega e instala a beleza
No mesmo momento. . .
Vem andar comigo
Numa beira de estrada
Desse lado ensolarado
Que eu achei pra caminhar
Vem meu anjo torto
Abusar do meu conforto
Ser meu bem em cada porto
Que eu ancorar
Felicidade pode estar pelo sim
Às vezes do seu lado
Tem alguém afins
Chega e instala a beleza
Momento de sonho real...


Publicado por Antônio - Agosto/2010