BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eu queria poder voar


Na mitologia grega, foi Ícaro quem saiu de uma prisão voando com asas de cera. Mas, durante seu voo desobedeceu a seu pai Décalo. Ele recomendou que não chegasse próximo ao sol para não derreter as asas. Inebriado pela sensação de liberdade e poder, Ícaro subiu mais alto que podia até o sol derreter suas asas de cera e cair no mar.

São lendas e histórias que nossos antepassados nos trazem, mas na sutileza, com algum conteúdo para nossa vida. A liberdade alcançada, a desobediência e a queda. A carta de navegação que não se segue. Quanto nos vale a liberdade? A que altura podemos chegar? Qual o nosso limite? Afinal, seres humanos não voam. E se nos dessem asas próprias, teríamos essa sapiência dos pássaros?

Somos da terra, nascemos primatas, bípedes e para ter os dois pés fincados no chão. Voar é coisa para passarinho; esses voam, respeitando as leis e o sentido da liberdade conferida. Esses seres livres, aparecem como bons presságios da natureza, trazendo a boa nova, carregando esperanças em suas asas, que o sol não derreterá nunca. Aprendamos com os penados. Sem limites para nossos voos, mas com prudência e obediência a quem nos deu asas.

Peter Pan era um menino que nunca precisou de asas para voar; ele pensava, desejava e voava; se jogava no espaço sem medo, depois dava rasantes pelo céu e dormia no ar - em colchão de nuvem. Nunca ninguém lhe dissesse que não poderia fazer aquilo. Mas seu lado maduro vivia a bater na janela de Wendy. Ela resistia ao menino e seus convites para voar. Ela queria crescer; ele voava porque não queria crescer. Se virasse adulto, iria parar de voar; iria parar de ver lugares, mundos e visitar terras do nunca; iria parar de imaginar coisas de criança. Homem que para de voar deixa de ser criança, deixa de sonhar.

Escritores, poetas, cineastas, pintores, arquitetos, heróis de desenho animado... São outros tantos que se permitem voar. Num voo, muitas vezes, solitário e calmo, sem alarde e transformações; livre das prisões, contestações e imposições dos limites; de ventos no rosto e olhares sobre a cidade, sobre a vida. Nas asas do imaginário. Que graça tem o avião? E o para-quedas, o helicóptero? O voo é do homem só, que parte do chão sozinho, sem nenhum apetrecho, sem asas; somente pelo sonho, que em si reservou, e tudo que o leva a cobrir montanhas e rios. Na alma leve, que eleva seu corpo nas alturas.

Um dia de manhã, sem inspiração, liguei o computador e a primeira frase que li foi: “Queria saber voar...”. Foi como uma oração, um mantra que desceu sobre mim. Passei o dia todo pensando naquela frase curta. Pensei que somente em mim havia aquela incompletude. Pensei se antes de saber, eu tinha que poder — ter asas — depois seguir o aprendizado do voo. Por fim, senti um alívio, havia alguém para compartilhar essa desilusão, que me segue pelos dias.

Uma vontade reprimida, que pensei somente eu guardar. Não li algo tão curto, bonito e prazeroso de sonhar: sentir o coração pulsar nas alturas — 10 mil pés. Quantos de nós já não tivemos este anseio, sair voando por aí, deixando tudo que nos aflige lá no chão. Assim como Ícaro, se libertar das correntes, das prisões que temos aqui dentro: “Romper a incabível prisão. Voar num limite improvável Tocar o inacessível chão”. Dar asas a si é poder se libertar e viver sem medo da queda livre. Por que quem se permite, não terá as asas quebradas, ou irá voar só com uma das asas. Voar nada mais é que o nosso pensamento. E sempre com esta certeza: o que importa não é a comida, a busca, a riqueza, mas o voo.

Por que voar é bom? Tira-nos da angústia cotidiana; tira-nos do lugar da dor e nos transporta longe, para o reino da alegria; faz-nos esquecer dos adultos que somos; faz-nos enxergar tudo de um ângulo onde temos mais clareza e compreensão; faz-nos viajar em nós; traz-nos de volta aos lugares de onde fomos felizes; faz-nos voltar no tempo para reparar e abreviar nossa dor; aproxima-nos das pessoas que amávamos à distância; faz-nos chegar mais perto de Deus. Por isso e muito mais que voar é bom.

Se outra vida, eu tiver por graça, quero ser um passeriforme, uma gaivota, uma águia; assim poderei voar; alimentando-me das sementes das folhas, ser feliz e livre com minhas asas que o sol não derreterá jamais.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / dezembro de 2011.
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