BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 30 de março de 2011

A família feliz

Alguém já viu os carros com adesivos de família feliz? Claro que sim. Virou moda usar adesivos alusivos com bonequinhos, para apresentar sua família. E vale tudo, até dizer a profissão e que se tem gato, cachorro e peixe no aquário. Há uma infinidade de formas, tamanhos, preto e branco, coloridos. Em síntese, são pessoas sentindo orgulho de dizer como são suas famílias; uma maneira rápida de conhecer uma família e até seu estado de espírito. Penso mais, é um resgate de algo que parecia perdido. Eu não tenho no meu automóvel, mas acho bem legal quem aderiu à moda. Para ser sincero, não gosto de adesivos, só deixo o do óleo à vista, para não me esquecer da troca.

Vi numa emissora de TV local, uma reportagem, onde a polícia recomenda que as pessoas não usem os tais adesivos; alegando que assim ficam expostos (a família), vulneráveis e se tornam presas fáceis de bandidos. Confesso que não me convenci da assertiva, quando ouvi a capitão da polícia militar dando entrevista. Até hoje, não ouvi notícias que alguém, ou alguma família, tenha sido sequestrada ou violentada porque o bandido chegou até ela pelos tais adesivos. Pura balela. No mundo de 2011, as maiores exposições que fazemos de nós mesmos estão nas redes sociais espalhadas pelo universo virtual. Colamos fotos, anunciamos negócios, festas, ostentamos e dizemos que estamos felizes. Dificilmente alguém irá usar uma rede social para dizer que ficou pobre e que não tem dinheiro. Vivemos a era das exposições exacerbadas e do parecer, como já disse em outra crônica. Bandidos, quando querem, também abrem páginas na internet para facilitar o seu trabalho.

Nesta coisa de retratos de família, tenho saudade dos tempos em que os fotógrafos (lambe-lambe) batiam de porta em porta oferecendo para fazer o retrato da família (em branco e preto). Aquilo virava um quadro e ia parar na melhor parede da casa – até amarelar pelo tempo. Orgulho e honra dos valores familiares – assim creio. Sempre o patriarca em pé ao lado da mulher e os filhos sentados em cadeiras. Conheço uma família, que mora nos EUA há anos; um dia me mostrou o álbum de fotografia da igreja que frequentava, lá na cidade onde moravam. Como os católicos nos EUA estão em número menor, é fácil conhecer cada membro da igreja e fazer álbum. O álbum não era individual, era da família, com os nomes e o endereço no rodapé. Achei bem legal. Assim, todos ficam sabendo quais são as famílias que frequentam aquela igreja e o pároco; depois podem se conhecer e marcar encontros se quiserem.

Enfim, chegamos no tempo, pela ordem da polícia, onde não é bom ficarmos dizendo de onde viemos, a família que temos e de quem gostamos. Os bichos de estimação, cachorros, gatos, papagaios e peixinhos de aquário; tudo ficou perigoso mostrar. Se tivermos filhos pequenos, então, nem pensar! Diante dessa tal proteção, faremos o quê? Vamos nos entrincheirar em nossas casas cercadas de grades, muros altos e aparatos de segurança? Cadê as brincadeiras de rua? Cadê a boa vizinhança? Cadê retratos de família na sala? Cadê a liberdade? Até quando ficaremos refém desse mundo?

Se algum meliante seguir alguém na rua, com certeza, não será pelo adesivo de sua família, mas talvez, pelo modelo e ano do veículo que ostenta. Portanto, continue usando os adesivos. Não há nada de mal em querer mostrar sua família, até para bandidos.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2011
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