BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sinais e... Truco!

Segue abaixo um texto antigo, mas que não se perdeu com o tempo. Afinal, os sinais estão aí. Juntando sinais e truco pode-se dizer algo sobre a vida também. Nesta época, eu jogava muito truco, depois fui deixando de jogar até parar. Mas não perdi o jeito. É só chamar que eu vou.

Quem joga truco já ouviu muito isso: Truco! Seis! Nove! Doze! O truco é o jogo do gangolino, do blefe, dos sinais, da sorte e, do azar também. Popularmente é o maior jogo de cartas do Brasil. Digo isso porque não conheci ninguém que já não tenha jogado ou pelo menos tentado jogar truco. Minto, no Rio de Janeiro não se joga truco. Dizem por lá que é jogo de paulista. Na verdade, aqui em São Paulo, Minas, Mato Grosso e Goiás é costume se jogar truco em rodas de amigos e torneios. Claro que, de região para região há variações das regras. Aqui em São Paulo jogamos a regra do “ponto acima”.

Aprendi a jogar truco vendo meu pai jogar com seus amigos. Ali, ao lado da mesa eu ficava prestando atenção em tudo. Meu pai jogava quase todas as noites e sempre que o jogo não era em casa eu ia com ele, onde fosse. Achava divertido os desafios e blefes, embora não entendia muito. Naquele tempo se jogava a versão antiga ou como chamamos hoje de “manilha velha”. As cartas, por ordem de valor, são quatro de paus (zap), sete de copas, “As” de espada (espadilha) e sete de ouro (pica fumo). Hoje, jogar manilha velha não tem graça, s cartas facilmente ficam marcadas; ninguém joga mais, só os mais antigos.

Depois aprendi a jogar a regra do “ponto acima”. Muito mais difícil de jogar e mais difícil de “roubar”. O jogo dos gangolinos requer astúcia e perspicácia para ser um bom jogador e principalmente atentar aos sinais do parceiro. Você tem que conhecer muito bem os sinais do teu parceiro e ele os teus. O olhar fixo, a ligeireza e a malandragem evidenciam que jogar truco é muito mais no blefe do que na sorte das cartas que você tem nas mãos. Se tornando para muitos um vício. O dom de dar o sinal ao parceiro é tudo ou quase tudo no jogo de truco.

Fiquei muito tempo sem jogar. Para ser sincero, tive asco ao jogo. Quando fazia faculdade de Arquitetura era comum as mesas de jogatina entre um projeto e outro. Via muita gente deixando de estudar para jogar. Não que eu fosse um “caxias”, mas aquilo, todo dia me irritava. De lá para cá não joguei mais. Recentemente voltei a jogar, embora um tanto despretensioso, sem vontade nenhuma de alcançar o sucesso com medalhas e troféus; somente para passar o tempo, brincar e dar boas gargalhadas.

Num desses jogos aconteceu algo que me fez refletir a escrever estas linhas. Já na primeira partida, como de costume, ao receber as minhas 03 cartas olhei para o meu parceiro e dei um sinal. Como? Na hora me veio a vontade de encher as bochechas rapidamente para dizer que minhas cartas estavam horríveis. No sinal do truco, isso quer dizer o contrário e, ao contrario ele entendeu. Pensou ele, meu parceiro está cheio, entupido de cartas, tem “casal maior” na sua mão... Confiante no sinal, meu parceiro, se acomodou melhor na cadeira e disparou um truco, sem pestanejar. Do outro lado, nossos adversários levantaram e quase subiram em cima da mesa para gritar um sonoro SEIS!! Olhei para meu parceiro e fiquei sem entender nada, já que nada havia na minha mão. Fugimos rapidinho e passamos o baralho.

A pecha me serviu de lição e me chamou atenção a importância que devemos dar aos sinais, em tudo na vida. Vivemos a emitir e receber sinais pela vida inteira. Aprendemos desde o berço a ser usuário dos sinais. Observamos isso claramente quando uma criança é estimulada a pular no colo do pai, apenas pelos gestos e o sinais do olhar feliz do pai. Sem ter noção de distancia ou a altura, se jogam no espaço, sem medo e confiantes. Os surdos e mudos não se socializariam se não conhecessem os sinais de libra que usam constantemente, até para pedir comida. Ao guarda de trânsito colocamos nossa confiança e através de seus gestos e sinais nos orientamos. Assim, como meio substancial na vida humana, devemos acreditar nos sinais que o universo nos emana? Basta olharmos para o mundo que encontramos; a cada dia deparamos com manifestações na natureza, no meio ambiente e no comportamento do próprio homem. São os sinais do tempo, diriam, mas aqui não no sentido apocalíptico e, sim na pura verdade que há sinais demais no mundo para acreditarmos significativamente que mudanças vem em pencas; e tudo que emitimos devendo ter a absoluta credibilidade, o universo não se engana. No mundo que nós inventamos e mantemos, não vivemos sem estabelecer uma comunicação através dos sinais. Com Deus, fazemos o sinal da cruz. O sinais dos tempos, sinais dos corpos, sinais de trânsito... Tudo nos rege.

Depois do meu vexatório início, quer saber como terminou aquele dia do truco? Eu e meu parceiro ganhamos as 7 partidas seguintes, claro, com muita atenção aos sinais. Os mesmos sinais da vida.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 07/Agosto/2008.
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