BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Avenida pôr-do-sol



Na década de oitenta, e até meados dos anos noventa - assim como hoje -, aos domingos não havia muita opção de lazer na cidade. Ou quase nada. No domingo, era um cinema aqui, uma sorveteria ali e os clubes com seus parques aquáticos lotados no verão. De resto, mais nada.

Na extrema carência do que fazer, a juventude de São José freqüentava todos os domingos a Avenida pôr-do-sol – a praia joseense. Não havia um cidadão que conhecesse as avenidas Anchieta e Borba Gato, todos conheciam todo aquele trecho de frente para o Banhado, como Avenida pôr-do-sol. Os passeios, os encontros, as paqueras, os risos, desfiles, os shows eram ao pôr-do-sol do Banhado. Nossa aventura de domingo à tarde, era reunir os amigos, pegar a bike, o buzão e ir para lá encontrar com outras tribos e ficar contemplando o descortinar do dia, vendo o sol se apagar atrás da serra da mantiqueira.

Os shows da cidade aconteciam por lá também. No palco desfilavam: Marcos Flexa, Grupo revoada, Margareth Machado e outros artistas locais. O palco era sempre montado na Av. Borba Gato (a debaixo), e nós ficávamos sentados no gramado do talude que dividia as vias. Tempo bom.

Por que acabou, eu não sei. Será que crescemos e a geração seguinte trocou o pôr-do-sol do Banhado pelo messenger? Acredito que não. A verdade é que, nada acontecerá se não houver o estímulo. Esta geração – chamada de Y - vive em shoppings entupindo seus corredores e fazendo barulho, com seus celulares e notebooks. Poderia ir para lá, e ver o lindo pôr-do-sol que temos ainda.

Certa vez, ouvi de um colega de trabalho que, São José cresceu de costas para o Rio Paraíba. Não tinha me atentado a isso. Ninguém quis evocar a cidade a se voltar e contemplar o rio que corta todo seu tecido urbano. Que falta de atenção! Digo isso, agora como urbanista. Poucos são aqueles que têm memória em lembrar que o rio era navegável; suas águas caudalosas e mais limpas. Hoje, é quase uma paisagem morta, coberta por aguapés. Estamos deixando de contemplar e preservar nossas riquezas naturais. O Banhado corre o risco de ir junto nesse bojo.

Assim, como muitas cidades no mundo todo, no Rio de Janeiro, a Praia de Copacabana e o Aterro do Flamengo têm uma das pistas fechadas todos os domingos, e não pense que é para dar melhor fluidez do transito. São fechadas para virar lazer da população. E olha, estamos falando de uma cidade cujas opções de lazer são inúmeras, inclusive praias em abundância.

A pergunta é: Por que não voltar a Avenida pôr-do-sol? Naquela época a avenida tinha predominância de residências e poderia até causar mais incômodo; hoje tem mais comércio e serviços e muitos deles nem abrem aos domingos. Os eventos, como ação juventude, ruas de lazer, shows poderiam ser levados para lá, com a paisagem do banhado ao fundo, cheios de notebooks e celulares nos ouvidos.

Espero que a Avenida o pôr-do-sol volte logo; e esta juventude de hoje, possa viver aquela bela paisagem do banhado como nos dias felizes da minha juventude. Minha geração a respeitou e deixou lá, incólume.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.
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