BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O pecado mora ao lado


Sente a brisa do metrô. Não é uma delícia?

Quando pensei em escrever essas linhas, era pretenso que o texto fosse jocoso, cômico; pinçadas textuais como referência às comédias dos anos de 1950, protagonizadas e estreladas por Marilyn Monroe. Aos poucos, enquanto mergulhava em sua vida, aparecia mais e mais a sua verdadeira silhueta: medos, perturbações, insegurança, frustrações, vozes, dualidade e as buscas, sem remédio, para uma mente doentia. Percebi a seriedade que deveria tratar a pessoa, e, consequentemente, o mito que desejava descrever.

Já faz alguns meses ganhei de uma amiga o livro “1001 filmes para ver antes de morrer”. Para cinéfilos, um belo presente, um livro de consulta e profícuo. Se conseguir ver a metade dos filmes ali recomendados, já estarei satisfeito. O livro seria perfeito — minha amiga vai brigar comigo —, se não faltasse um filme. Cadê, senhor editor, “O pecado mora ao lado”? Você esqueceu! Você não gosta de Marilyn? Já sei! Como todas as outras mulheres feias e desprovidas de “sex appeal”, sua mulher o proibiu da recomendação do filme. Despeito, Marilyn ainda vive e continua causando com ou sem sua mulher. Mas, pode dizer que não há mais nada além de Marilyn naquela comediazinha sem tempero; aceito, afinal o que mais precisaria aparecer naquele filme do que a figura de um mito. E maravilhosamente linda.

Verdade mesmo, ele não se esqueceu dela, esqueceu só do filme. No livro, cita o filme “Quanto Mais Quente Melhor” — 1959, também estrelado por Marilyn, mas a cena ali foi roubada pela interpretação de Tony Curtis e Jack Lemmon fazendo papéis femininos. Mas, em “O pecado mora ao lado” (The seven year Itch) é todo de Marilyn. O título do filme é justificado pelo que ela representa: a encarnação do próprio pecado. Frequentemente flertamos com o pecado em nossa vida, mas abolimos a sua pregação e juramos não mais cometer (eu juro!). “O pecado é que dá tesão e não a liberdade sexual” — disse Luiz Felipe Pondé. Marilyn é sua própria encarnação na terra. Olhar, desejar, pensar em Marilyn é pecar mortalmente.

Revendo o filme — sempre com os olhos mais aguçados —, como não se lembrar daquela cena do vestido que se levanta na grelha de ventilação do metrô? (Sente a brisa do metrô. Não é uma delícia?) Qual meninão, ou homem feito, não tenha tocado o chão com suas babas naquelas pernas torneadas e a inocência da personagem tentando segurar a barra do vestido plissado? Ela nem precisou tirar a roupa, aquela cena bastou todas as outras provocantes já feitas no cinema. Seu marido na época, Joe DiMaggio, quase teve um ataque quando acompanhou-a no set de filmagem; com a cena sendo repetida mais de 15 vezes — mesmo sabendo que ela usava duas calcinhas, bem comportadas. O casamento se ruiu após esse dia, ela pediu o divórcio por não aceitar mais viver com um marido ciumento que a batia covardemente.

A cada repetição — e não me canso — de “O pecado mora ao lado”, um centímetro a mais de seu vestido se levanta naquela cena; Marilyn Monroe está cada vez melhor... Os argentinos dizem o mesmo de Gardel: “está cantando como nunca”; Marilyn está atuando, também, como nunca. É a figura do mito, vivo, presente, imortalizado em nossas memórias. No poema “Ulisses”, o poeta português Fernando Pessoa descreve: “O mito é o nada que é tudo / O mesmo sol que abre os céus / É um mito brilhante e mudo / O corpo de Deus, / vivo e desnudo”.

Os mitos atravessam os tempos, não morrem jamais. Eternizam como águas nas fontes, jorrando sem parar. Ela é daquelas mulheres que vieram ao mundo não para ser uma dona de casa, criar filhos, amar um só homem e viver anônima. Aterrissou aqui para ser estrela, deusa, bela, blonde, sensual, provocante, fonte infinita e inquieta de beleza... Suas curvas e silhuetas são injustas às demais obras humanas já desenhadas, provocando um sentimento ambíguo: se ama Marilyn, se odeia Marilyn — na mesma frase. Uma mulher arguta, que faz qualquer ser humano sair de sua compostura, até os sem pecados... E vão dizer que não precisa de talento para isso? A natureza a esculpiu como suas melhores obras de arte, na forma mais perfeita e generosa. Assim, como nas palavras que trago de Rubem Alves: “a alma não se cansa da beleza. A beleza é aquilo que faz o corpo tremer”. Em outro trecho completa: “tive vontade de chorar por causa da beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que ficou arrepiado: a beleza se fez carne”.

Marilyn é tudo que se pode se dizer de beleza na inquietude do ser. Um altar contemplativo. Desculpem-me as magras (modelo de beleza atual), mas ser Marilyn Monroe é essencial. Não há nela, a silhueta retocada com fotoshop, com lipoaspiração e plásticas antes dos clicks e filmes — truques muitos utilizados hoje em dia. É possível notar, em algumas cenas, que ela tem até uma barriguinha, bem sutil. É beleza mesmo, pura, sem as máscaras tecnológicas de hoje, que escondem até o umbigo.

Marilyn nasceu Norma Jeane. Ainda bebê, nos primeiros dias de vida, sua mãe Gladys Baker — sem condições psicológicas de criá-la — entregou-a a um casal de desconhecidos. Mãe e avó sofriam dos mesmos problemas. Contam que, sua avó fazia da gaveta da cômoda o seu berço. Infância sofrida por muitas perdas e lares arruinados. Depois da morte da avó, a vida da pequena Norma Jeane foi de casa em casa, até parar num orfanato. Durante um curto tempo, foi obrigada a viver com sua mãe; uma mulher esquizofrênica, psicótica e desequilibrada; tão doida — talvez mais — quanto o pai que nunca a conheceu. Certa vez na infância, num momento raro de lucidez, sua mãe lhe disse: morra na hora certa! (no auge). Ela obedeceu. Após ter vivido o seu último romance, com John Kennedy, o presidente dos EUA, Marilyn morreu em agosto de 1962, aos 36 anos de idade, de causa mortis ainda suspeita. Ele também morreu um ano depois em Dallas-Texas, por tiros disparados por Lee Oswald. Algum roteirista sádico poderia ter escrito que ele teve inveja do presidente garanhão. Eu também teria.

No verdadeiro roteiro da vida, que a levou do estrelato à morte, ela não soube lidar como os traumas da infância, com o sucesso galopante, a fama, o sexo, os calmantes para dormir e não dormir, o desejo dos homens por ela, seus casamentos e com a personagem que criaram para Norma Jeane; se vendo escravizada por ela até sua última gota de sangue. “Os homens não me veem, eles me olham” — disse ao seu psicanalista. Faltou-lhe o quê? O berço necessário da infância, a estrutura familiar, o preparo para uma carreira de sucesso, o amor das pessoas ao redor? Tudo, talvez, numa vida curta, onde a única coisa que lhe sobrou, foi beleza em torrente. Ela até tentou ser normal, mas sem sucesso, ela era Marilyn Monroe.

Depois do fim do casamento com Arthur Miller, desabafou: “tentei melhorar um pouco, e quando consigo, descubro que estou imitando eu mesma”. Pobre menina, ela só queria ter uma vida normal, casar, ser mãe, ter família... Tudo que não teve. Por muitas vezes, dizia invejar as pessoas de vida comum — se queixava à sua meia-irmã Berniece. Mas, foi tragada pela fama, levada pelo glamour; subjugada pela personagem que mais soube representar em sua vida: Marilyn Monroe. Nunca mais voltou a ser Norma Jeane. Longe das teorias conspiratórias, foi roubo de vida mesmo; digo, Marilyn Monroe, sequestrou, aniquilou, manteve em cativeiro e viciou Norma Jeane até sua morte. Ela tentou matar Marilyn da sua vida; quem morreu foi Norma Jeane. Não há outro fato histórico que prove o contrário.

Nesse ensaio com Marilyn, descobri, com seu hipnotizo que imanta meus olhares, o mais doce pecado. O que podemos fazer mais com uma taça de champanhe e um saco de batata chips? Pecar com Marilyn, é claro. (Não se preocupe. Está tudo bem. Um homem casado, ar-condicionado, champanhe e batata chips. É uma festa maravilhosa...). Descobri depois, na pele que cobria Norma Jeane, havia Marylin Monroe; e na sua tez todo pecado, que convida a maltratar e açoitar quem se deixa levar por sua beleza inquieta. Descobri, por fim — já numa forma de rendição —, que o pecado não mora mais ao lado; o pecado, agora mora dentro de mim.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.


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