BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O homem que amava velórios

Com o avanço tecnológico, novas profissões estão surgindo no mercado de trabalho; outras vão desaparecendo, se tornando obsoletas; e outras são esquisitas mesmo. Nunca mais veremos telegrafista, datilógrafo, engraxate, bedel, sacristão, leiteiro, barbeiro (de navalha), vendedor de enciclopédia, pianista de filme mudo e fotógrafo lambe-lambe. Por outro lado, o que anda em moda é o personal: trainer, computer, designer, fashion, style e tem até a bizarrice do “marido de aluguel”. Coisas da vida moderna. O que falar de treinador de baleias? Como seria um anúncio da Sea World para contratar tal profissional? Há no mercado?

Na minha cidade, há um homem franzino e pequeno que tem uma profissão excêntrica. Faz anos, desde que o único cinema da cidade era no centro, as opções de lazer eram escassas e não havia mais nada a se fazer, todo mundo baixava lá. A coisa piorava quando eram os grandes filmes da época, os campeões de bilheteria: ET- O extraterrestre, Exterminador do futuro, Grease – Nos tempos da brilhantina... Havia filas intermináveis, dobrando quarteirões. Bem, aí entrava o homem franzino. Ele era quem organizava as filas. Sim, sua profissão era essa: organizador de filas em locais de eventos. Como eu adoro criar siglas, diria que ele era um profissional OFLE. Quando não estava na porta do cinema, estava nos eventos esportivos e até em portas de igrejas, sempre como seu uniforme marrom e um apito pendurado no peito. Uma vez, estava num desses eventos e ouvi alguém gritar: ô linguiça, sai daí! Pensei, depois, será por uma frustração, por nunca ter sido um policial ou um segurança? Bem recente, vi que ele ainda não se aposentou; passava perto de uma igreja e ele estava lá – já de cabelos grisalhos – organizando a saída do estacionamento. Creio nunca ter sido remunerado por isso, faz tudo por prazer mesmo e em troca de algumas gorjetas para sobreviver.

Numa dessas conversas fiadas de fim de tarde, um amigo me contou que em sua cidade, em Minas Gerais, havia um homem que tinha também uma profissão, no mínimo, esquisita. Ele anunciava o obituário e organizava toda logística dos velórios da cidade. Quando Zé Teodoro (Zé velório) ligava para alguém, a pessoa do outro lado tremia e arrepiava até o último fio de cabelo: lá vem notícia ruim... Não havia velório sem ele. Deveria ser um prazer dar a notícia em primeira mão. Imagino também que, tivesse por zelo,  o cadastro de todos os velhinhos da cidade, como assim dizer: para adiantar seu trabalho...

Zé velório era um obituário ambulante — o senhor morte. Divertia-se com a dor das pessoas, ou lhe sobrava compaixão num momento de tristeza? Sabe lá. Não importa, ele figurava presente em todos. Afinal, quem iria se preocupar com que roupa o finado seria enterrado? Quem iria preparar a logística (café, bolinho de chuva, pão de queijo e assentos) para os velantes? E os arranjos de flores? Quem haveria de colar o cartaz anunciando a hora do enterro? E o padre, quem iria chamar para fazer a reza? E o choro — quando necessário —, quem iria puxar o choro? Seu trabalho era árduo, mas proficiente.

Revirando seu lado psíquico, talvez ele tivesse outra compreensão que os demais não tinham pela morte. Em conformação, ele já a esperasse num canto qualquer da vida e por isso a tratava com intimidade e blasé, mas com os olhos zelosos para os que ficavam. Era a coisa mais certa que poderia acreditar; pois sim, enterrem os mortos; é o que nos resta, pois a vida é uma viagem sem volta — pensava.

Hoje nos grandes centros, os serviços funerários, já cuidam de grande parte de tudo isso. Até velório acompanhado pela internet é possível; o que se justifica, quando os parentes estão distantes e o finado precisa ser enterrado logo. Na dor pela perda de um ente, é difícil encontrar quem temha cabeça, no momento, para pensar nessas preocupações todas. Numa cidade pequena, onde o serviço funerário, só existe para vender urnas, não é de se surpreender que existam pessoas com o perfil profissional de Zé velório. Ele inventou o personal death.

Depois dessa conversa, não tive mais notícias de Zé velório, se já faleceu ou se continua ainda gozando de boa saúde e “trabalhando”. Se já partiu, fica a dúvida: quem organizou seu próprio funeral? Será que foi anunciado no serviço de som da praça central? Será que teve café com pão de queijo e bolinho de chuva? Será que deixou em testamento como desejaria que fosse? Vai saber. Ele deve ter deixado seu legado, presumo. Filhos costumam seguir as profissões dos pais. Algumas cidades, Brasil adentro, ainda conservam certas tradições regionais; o progresso ainda não chegou por lá.

Mas, não quero nunca imaginar, se um dia meu telefone tocar e do outro lado da linha ouvir uma voz lúgubre: Alô, aqui é o Zé Teodoro! Eu caio duro no chão.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.
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