BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Veículos mais modernos; ruas nem tanto


Henry Ford (1863-1947) — fundador da Ford Motor Company — foi o grande visionário da indústria automobilística; o primeiro empreendedor a fabricar automóveis em série. Ele achava que o consumismo era a chave para humanidade. Numa de suas célebres frases, disse: "o dinheiro é a coisa mais inútil do mundo; não estou interessado nele, mas sim no que posso fazer pelo mundo com ele".

Nunca a indústria automobilística despejou tantos veículos novos nas ruas das cidades brasileiras, como nos últimos anos; nunca o usuário/consumidor comprou tanto, ou trocou tanto de veículo, como nos últimos anos. Economia estabilizada e crédito fácil, um convite irrecusável. Sair do “velhinho” e poder ter um zero quilômetro, agora é sonho possível.

Parece que só vemos vantagens nessa progressão, nessa nova era; onde os veículos, definitivamente, tomaram conta dos espaços das ruas; onde uma nova classe social surge: o consumidor compulsivo. As cidades acanhadas, despreparadas e sem planejamento, ainda suportam aos problemas diários — isso é fato —, mas com ninguém se movendo da cadeira. E com tudo isso, o futuro que se projeta não é o melhor. Falo adiante.

Primeiro vamos aos automóveis. Há no mercado uma quantidade infinita de marcas e modelos; populares e de luxo; nacionais e importados. Estão muito mais seguros que na década de 80, para comparar. Atendem a todo tipo de conforto e segurança aos motoristas e passageiros. Cintos de três pontos para todos; encosto de cabeça em todos os lugares; air bag para todos os lados; freios ABS; bancos e direções ajustáveis na vertical também; GPS no painel; ar-condicionado e direção hidráulica.

Olhando por esse ângulo, vemos que as indústrias evoluíram muito nos últimos anos e isso também é um chamariz para o comprador. Os automóveis nos dão status de poder, ascensão social e ostentação. Ficamos mais felizes com eles. Quem não tinha um, passou a ter; quem possuía um, agora tem dois, ou tem um melhor... Andar de automóvel é o meio de transporte mais eficiente e confortável para quem pode ter. Ninguém ousará dizer o contrário.

Se a indústria dos veículos está no sentido vertical da modernidade e segurança, o mesmo não se pode dizer das vias por onde circulam. Os municípios, onde existe corpo técnico para cuidar das vias, ainda há um pensamento ultrapassado no modo de enxergar o sistema viário, no que se concerne à mobilidade e acessibilidade, em comunhão com a vida na urbe. A visão é caolha e retrógrada. Como venho dizendo, isso não pode ser relevante à vida de morar na cidade. Antes de tudo, vem o viver a cidade, habitar a cidade; vem o ser feliz na cidade. Os deslocamentos são consequências ao modo de vida que buscamos. Por onde passam, os veículos estão abrindo mais faixas e espremendo as construções; em meio a eles está o sujeito a pé; esse que escolheu o meio de transporte mais primitivo para se deslocar. E os técnicos ainda querendo espremê-lo mais contra o muro.

Nos seminários e fóruns de transporte e trânsito (já fui a vários), a retórica é sempre a mesma; fala-se em mobilidade, acessibilidade, calçadas seguras, ciclovias, transportes públicos e a repugnância aos automóveis que entopem as ruas e poluem. Parece que todos enxergaram o futuro, ou reinventaram a roda. Mas, quando voltam para suas cidades — nas ações de planejamento das obras, ou naquilo que deveria mudar —, tudo continua na mesma. Continua-se em tratar com galhardia os veículos (que hoje são mais seguros) dando-lhes mais fluidez na pista; em detrimento à segurança de quem está vulnerável e desprotegido na calçada; esquece-se também de preservar parte das vias para outros meios de transporte, com um objetivo claro: devolver a qualidade que se perdeu no tempo.

Quanto mais faixa para tráfego de veículos se abre, mais veículos irão aparecer. É a lógica do trânsito das cidades. Isso não tem fim. Ou teremos a cidade só para circular e não para habitar? O “quanto mais, mais” serviria — numa forma mais segura, qualitativa e acessível — se pensasse assim para as calçadas e ciclovias também. As calçadas captam ainda a grande massa que trafega nos centros urbanos. Depois vem o transporte público. Há dados sobre isso. Os discursos são cidadãos, mas a prática nem um pouco.

Detesto algumas frases feitas. Esta é uma delas: “esse é o preço do progresso...”. Como urbanista devo abominar essa teoria torta.

A cidade de São Paulo — já na UTI — é um mau exemplo de como não se deve cuidar do transporte e trânsito, onde a engenharia de tráfego já não tem mais eficiência. A frota, estimada em 7 milhões de veículos, cresceu 40% em uma década — com as ruas agonizando. O projeto do metrô está atrasado pelo menos uns 30 anos. E quantas obras paliativas nesse tempo foram feitas para minimizar os impactos? Quanto de dinheiro público se investiu em tais obras, para durarem até o primeiro engarrafamento?

O relator do Código de Trânsito Brasileiro poderia ter grifado o artigo primeiro. Ou, muito dos que pensam nessa coisa diariamente — só consultam os artigos das infrações —, deveriam voltar-se para o que diz esse artigo: “§ 1º Considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas...”. Eu grifei. Sendo movimentação de pessoas, por que não zelar dos que andam a pé nas calçadas? Por que não cuidar, ampliar, sinalizar os espaços das calçadas? Tudo que está para fora do lote privado, faz parte da via — é público. Calçada faz parte da via; e a via é de responsabilidade do órgão de trânsito. Está nesse código também.

Em quase todos os municípios do Brasil, a construção e manutenção das calçadas não ficam na conta das Prefeituras; é de responsabilidade do morador ou proprietário do imóvel. Isso não funciona — todos sabem, mas a prática é teimosa. Em contrapartida, com o crescimento absurdo da frota de veículos nos grandes centros, as calçadas estão minguando, ficando obsoletas esburacadas e intransitáveis. Os municípios e seu corpo técnico deveriam assumir a responsabilidade de construir, ampliar, conservar e sinalizar o caminho dos pedestres também. Dentro de um automóvel, seus ocupantes estão bem mais seguros que o cidadão que anda a pé. Por culpa dos órgãos públicos, quem anda a pé ou de bicicleta estão mais sujeitos aos acidentes que o ocupante de veículos. As estatísticas mostram que mais se morre no trânsito por atropelamento. Quem está cuidando disso?

Na minha cidade, desde 2007, há uma Lei em vigor, se atentando às calçadas. Fora a cidade que está aí — onde há calçadas que não terão mais conserto, já morreram —, a questão se volta ao espírito da “calçada segura” que se pode fazer, mas isso não alcançou as almas necessárias, e está muito longe do cidadão comum. Com a devida vênia, não vemos calçadas sendo construídas de forma acessível. E quando ela se contrapõe às entradas e saídas de veículos, são interrompidas para passagem desses (pensamento primitivo). E não é o que diz a Lei! Como já falei aos colegas, a Lei deveria mudar para Lei da “Calçada Acessível”; assim, quem sabe, haveria mais entendimento o que seja transitar sobre um piso livre de barreiras; onde eu e qualquer pessoa, dentro do seu grau de dificuldade de locomoção, consigamos trafegar por esforço próprio. Simples.

Gostaria de falar só desses conceitos, mas há uns números bons para simplificar essa tese. Uma pessoa trafegando a pé na rua, em passo de passeio, ocupa 0,86m² (Neufert, Ernst); esta mesma pessoa, solitariamente dentro de um automóvel, irá ocupar 11,00m² do sistema viário. E não precisa da física para provar que, ninguém irá conseguir colocar 12 pessoas dentro de um automóvel. Para o transporte público de massa — o ônibus padrão —, considera-se 42,00m² dessa ocupação; esse irá transportar o mesmo número de passageiros sentados, que sua área. Rapidez, conforto e menos poluição do ar. A foto acima do texto, que recolhi da internet, ilustra o que seja essa ocupação das vias pelas pessoas nos diferentes tipos de modais de transportes.

Se diminuirmos os espaços das vias para os automóveis com prioridade às calçadas, ciclovias e transporte público será uma alavanca propulsora para uma mudança de conceito e quebra de uma regra viciada. Devolver ao cidadão, a cidade que vive. Em consequência, as indústrias passarão a fabricar automóveis com dimensões reduzidas, para o máximo 02 ocupantes — os smart cars. Como já ocorre em alguns países europeus. Veículos de carga também poderão ser menores. Na outra ponta, para os grandes deslocamentos, os governantes iriam colocar os seus projetos de transporte de massa nas ruas, funcionando. Mais calçadas; mais ciclovias; mais transporte de massa e automóveis menores em quantidade e tamanho. E assim voltar a respirar a vida na urbe.

Outro dia alguém me perguntou: se você defende tanto esse seu ponto de vista, por que você anda de automóvel? Não sou nenhum ativista levantando bandeira; sou um urbanista teorizando conceitos. Neste momento que escrevo essas linhas, é óbvio, ando porque não tem nada mais seguro, confiável, confortável, eficiente, prático, rápido (ainda) para se deslocar. Nem é pelo status. O dia que adotarem políticas claras de transportes na minha cidade; transferindo todos esses itens para um transporte de massa; ainda, dificultar o tráfego de automóveis e valorizar outros modais, fatalmente deixarei o automóvel na garagem, como muitos também farão. Por encontrar facilidade e dificuldade na mesma conjunção.

Os brasileiros que vão à Europa, acham chique poder se deslocar em Paris por metrô; acham maravilhoso poder alugar uma bike e sair pedalando; ficam felizes sentar em cadeiras na calçada dos bistrôs, para tomar um café e ler jornal. Outro mundo? Não, apenas mudança de método. As cidades europeias, seculares, não foram projetadas para automóveis. No entanto, menos densas, seus governantes foram buscar outros caminhos e soluções. Em Paris, a cada 400 metros tem-se uma estação de metrô.


Mapa das linhas de metrô de Paris

Para a realidade brasileira, o senso comum, daqueles que cuidam da área técnica e os gestores públicos, é as ruas sejam construídas para os automóveis em prioridade, sem ater-se com o restante que circula por elas. Vale lembrar, no sistema viário, uma pessoa dentro de um veículo moderno e novo, está mais seguro — e por isso comete mais abusos — do que a pessoa que caminha pela calçada. Essa está totalmente desprotegida e continuará, pois o senso comum herdado é do conceito: rua para o automóvel e automóvel para a rua.

A indústria automobilística, a indústria do petróleo, a especulação imobiliária; são muitas as forças ocultas  interessadas em ganhar com o caos urbano. Esses tomaram as cidades das mãos do poder público; tudo em troca do progresso (urgh!). Do outro lado, o morador/consumidor é voraz e débil. Em tudo está o dinheiro, que Ford dizia ser inútil e não interessar. O resultado é uma qualidade de vida descendo ladeira.

Ford foi um inovador em fabricar automóveis em série, pensando na humanidade. Queria o bem das pessoas. Nunca imaginou que o futuro reservaria muitos enleios: das cidades, das ruas, da urbanização sem planejamento, da emissão de gases, do meio ambiente, dos congestionamentos... Não imaginou os caminhos e rumos tortos que seu invento alcançaria. Ele sabia muito dos automóveis, pena que não entendia nada de ruas.

Quando penso em ir à praia no verão e imagino as estradas lotadas, com as cidades praianas mais ainda, reflito: como deveria ser bom o tempo das carruagens, a praia parecia mais perto, de tão gostoso que era viver.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2012.
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