BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 8 de maio de 2012

Batman, again

Entusiasmei e decidi escrever uma nova crônica sobre Batman. Nova porque em 2008, fiz uma resenha do filme que tinha acabado de ver na época, o Cavaleiro das Trevas (leia abaixo). Nesse novo texto pretendo  deixar de lado o que vi em o Cavaleiro das Trevas e sua falta de afirmação como herói, para tocar no seu lado político; ou por que Gotham precisa tanto dele, mesmo que o tenha achado um tanto covarde e o povo não tenha feito dele um herói como ele é? Para falar a verdade, o povo sente-se pouco atraído por heróis, preferindo os vilões. O texto deve abordar sua realção com sua forma de fazer justiça, com seus violões, Gotham City, Comissário Gordon e os políticos. Aguardem!

Batman x Coringa

Fui ver Batman – O Cavaleiro das Trevas. No final do texto darei a nota para o filme. Antes gostaria de comentar as impressões que tive. Desde o primeiro longa das séries de Batman (Tim Burton -1989) com Michael Keaton ficou sempre aquela sensação de descontinuidade. Cada diretor tirou o seu Batman da cartola. Esse inclusive foi idealizado, ou como diriam, foi levado para as telas por que na ocasião havia saído a HQ de Frank Miller título homônimo “O Cavaleiro das Trevas”. Li o gibi, mas não me lembro bem da história. Era um Batman velho, meio deprê e aposentado. Descoberto pelo seu arqui-inimigo Coringa volta a lutar contra o mal e livrar Gotham City do crime. Nada diferente. Todas as versões posteriores sem Michael Keaton pouco me empolgaram. Achei muito grosseiro. Os dois primeiros foram os melhores, pois mostrava um super-heroi lúcido e viril.

O Cavaleiro das Trevas engana quem pensa que irá encontrar um super-herói que vai lavar nossa alma com suor e justiça, derrotando o inimigo e ainda beijando a mocinha no final. O Batman, de O Cavaleiro das Trevas é pouco eloquente. Nega sua existente, foge de si mesmo, quase um anti-herói. Talvez tenha sido realmente a sua verdadeira identidade. Ele usa a máscara para se esconder, já disse o próprio Coringa. Numa cena desse novo filme Bruce Wayne deixa o promotor Harvey assumir que é o Batman e sai quietinho. Numa outra sequência diz ao promotor que ele é essencial para Gotham pois conseguiu colocar a máfia na cadeia. Este é o Batman de O Cavaleiro das Trevas. Heath Ledger esteve genial no papel do Coringa, por sinal a figura mais centrada, mais firme e transparente da trama. Coringa foi genial, foi melhor que o próprio Batman. O conhecia mais que ele a si mesmo. Numa cena dispara para Batman que precisa dele e ele de Batman; e que Batman o completa. Sabe o que Batman disse? Nada. Calou-se como se dissesse: Você tem razão. No fim, Batman não consegue derrotar Coringa como deveria e é perseguido pela polícia. Os sobrinhos que nos acompanharam no cinema tiveram momentos de bocejos entre uma cena de ação e uns diálogos longos e incompreensíveis. É, deu para bocejar um pouco sim. No melhor de o Cavaleiro das Trevas, Coringa sabia o que queria. Queria o caos, anarquia. tragédia, a ponto de queimar uma pilha de dinheiro que havia roubado. Para Coringa o importante era causar, sem regras. Para Batman ficou a sensação de que não sabia a quem vencer: ao Coringa ou a si mesmo. "Why so serious?" (por que você está tão sério?), disse o Coringa.

Na vida real Heath Ledger (o Coringa) morreu em janeiro desse ano por overdose de remédios. No filme, Batman quase morre em si mesmo. Não foi dessa vez, quem sabe na próxima. Por enquanto está fugindo da polícia de Gotham City. A nota do filme? Seis. (2008).

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um bom lugar pra ler um livro

Em 2010, postei aqui uma crônica sobre atendimento público, suas invenções e particularidades em consonância com o mundo moderno, ou o “aguarde para ser atendido”.

Depois de uma maratona de telefonemas, consultas, cafezinho (com e sem leite), revistas “Caras”, salas de esperas, descobri o óbvio das adversidades cotidianas: unir o útil ao desagradável (tirando do caos o prazer); ou como poder desfrutar de um bom livro, para o infortúnio momento da espera, e sem ninguém para puxar conversa.

Fui ao médico para uma consulta de diagnóstico precoce ou preventivo, nada alarmante. Como de praxe, ele me solicitou exames. Fui atrás das autorizações (tem isso ainda),  para tirar qualquer suspeitas dos problemas ortopédicos, que a idade insiste em me dar de presente. O laboratório refutou a guia médica, disse que faltou um relatório mais minucioso... Bem, aí começou meu drama de um mês. Sai atrás, mas sem pressa de chegar; e depois de alguns telefonemas e retornos, me informaram que o médico havia tirado férias em lua de mel (em Paris, talvez) e só voltaria atender no final do mês – mais trinta dias. Minha impaciência e meu sangue começaram a emergir e ser percebida, quando sua secretária, para se livrar de um paciente chato, me apresentou como sugestão outro especialista, que ela também secretariava. Aceitei prontamente a sugestão, mesmo porque – pasmem! – a consulta era um “encaixe” na manhã seguinte.

Na sexta-feira pela manhã, passei no trabalho e segui para consulta. Detesto ser pontual, em meus compromissos costumo ser adiantado. Então, cheguei ao consultório trinta minutos antes, isso também, porque a chance de encontrar uma vaga na rua antes das oito da manhã era bem maior. E foi verdade, achei uma vaga 20 metros do edifício.

Cheguei à sala de espera (quase vazia) e num silêncio doentio (sem trocadilho). O único barulho era das atendentes que conversavam baixinho, assuntos particulares e riam uma com a outra — baixo para não chamar atenção. A TV ligada (sem som) parecia um outdoor de mensagens e nem o closed caption para ler o que dizia o noticiário. Sentei e esperei. Como senti que aquilo pudesse demorar, me angustiei, por esquecer dos óculos que carrego há um ano quando comecei a não ver mais de perto; por consequência, do livro que chegou pelo correio no dia anterior. Que falta me fez ali. Um bom lugar para ler um livro.

Folhei revistas vendo fotos nubladas, quando uma senhora apontou no elevador. Ouvia sua voz mesmo antes do elevador abrir as portas. “A felicidade é barulhenta”, li do autor do livro que deixei no carro. A mulher arrastava uma perna, e por isso era guiada por sua filha — presunção. Quando ela chegou ao balcão disparou a justificar do seu atraso, porque um carro havia incendiado nas imediações do shopping e ela teve que desviar o caminho; e a atendente com aquela cara e olhar de “e eu com isso...”. Por fim, sentaram-se as duas e a conversa prosseguiu em vozes altas, de irritar as moscas que já dormiam no teto.

Durante aquela longa espera, a mulher acompanhante, tirou o celular da bolsa umas três vezes. Pensei: àquela hora da manhã, deve estar acordando alguém... Na segunda vez foi para acordar alguém mesmo; ela ligou para avisar a pessoa que deveria ligar a TV, pois Luan Santana estava no programa da Ana Maria Braga... A velha senhora ao lado ainda comentou: “agora que ela pula da cama, mesmo!”. Mais alguns minutos de espera, ainda iria descobrir seus signos, o que comem, onde moram e mais coisas sobre a dupla barulhenta, mas fui chamado à consulta.

Voltei ao trabalho e peguei o telefone para marcar um dos exames que o médico — que não estava em lua de mel — me solicitou. Fiquei feliz que o exame poderia ser naquele dia, algumas horas. A atendente me indicou um laboratório dentro de um shopping da cidade, justificando que na matriz não havia vaga para estacionar — coisas da vida moderna.

Com a manhã já perdida por conta disso tudo, dirigi-me ao laboratório, sempre na minha impontualidade e agora com meus óculos e o livro.

Chegando lá, uma situação análoga: ar-condicionado, cafezinho de sachê (três tipos), poltronas confortáveis, senhas e espera (longa espera). Durante a demora pressentida, adiantei boa parte do livro. O exame de radiografia dos pés que caminho, durou menos de 05 minutos. Seria como esperar 50 minutos no embarque do aeroporto para um voo de 30 minutos de São Paulo à Curitiba. Peguei o protocolo da retirada dos exames e fui. Só notei as horas depois, já passava da 01 da tarde.

No caminho até o restaurante, veio à memória outra cena do dia anterior. Precisei ir à agência bancária onde tenho conta. Uma vez por mês me dirijo até lá. Para um atendimento “diferenciado”, subo ao setor “VIP”, das contas especiais. O mesmo ambiente: climatizado, cafezinho de três sabores, mulheres lindas, poltronas confortáveis, TV a cabo e muitos aposentados (supostamente com muito dinheiro em conta). Sentei confortavelmente numa das poltronas com a senha no colo e os olhos no painel. Um senhor “aposentado”, sentado ao meu lado, se virou para mim e disse: conforto, cafezinho, ar-condicionado, TV a cabo, mas o atendimento que é bom, nada! Faz 40 minutos que estou esperando para conversar com um gerente...”. Está aí outra dica. Agência bancária, outro bom lugar para ler um livro.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2012.