BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Você já aprendeu a descascar laranja?


Gostaria de compartilhar com vocês a bela crônica escrita pelo meu mano Zeca. Esta crônica está no portal www.cronistas.com.br. Como já se tornou público, acho que o autor não se importaria de publicá-la novamente aqui. Vale a pena ler pelo conteúdo e liçoes de vida nas suas palavras.

Ei Ricardo, você já aprendeu a descascar laranja?

Dias desses estava eu lendo a crônica do Zé Ricardo sobre a descoberta que seu filho, fictício espero, fez dos antigos brinquedos dele, Ricardo. E comecei a pensar sobre as diferenças entre nossas infâncias, em especial dos nossos brinquedos. A minha geração, restrita é claro, ao mundo mais próximo que nos cerca, foi a última que teve o feliz privilegio de fabricar seus próprios brinquedos. Restrinjo essa observação ao mundo mais próximo de mim porque numa extensão maior a industrialização atingiu as pessoas em épocas diferentes. Da mesma forma que na época da minha infância já havia em muitos lugares crianças brincando exclusivamente com brinquedos industrializados, certamente hoje ainda há, em muitas partes do mundo, crianças fabricando seus próprios brinquedos. Eu mesmo, já ganhava brinquedos de loja no Natal, mas somente nessa época. E esses brinquedos duravam no máximo um mês; tempo mais que suficiente porque o interesse por eles, como em qualquer criança de qualquer época, não durava mais que 15 dias. O resto do ano nós mesmos fabricávamos nossos brinquedos. A matéria prima era a encontrada no dia a dia sendo a mais versátil um pedaço de ripa de madeira que podia se transformar num revolver ou num carro, ou mesmo num caminhão. A ferramenta principal era a faca de cozinha de nossas mães que nos intervalos entre as refeições se transformava de simples cortador de carnes e legumes em um cinzel digno de um Michelangelo, esculpindo madeiras e pontas de dedo. Ainda hoje, por conta dos golpes de faca que nem sempre atingia o alvo desejado, conservo com muito orgulho as cicatrizes e a ponta do dedo indicador direito assimétrica. Sendo eu canhoto, quem sofria esses golpes eram os dedos da mão direita. E de nossas hábeis mãos saiam pipas, peões, revólveres, carrinhos; estes bastantes toscos, é verdade, mas muito bem ornamentados pela nossa imaginação. Ah, sim, tinha também o cinto feito de embalagem de cigarro e que não servia para nada, mas era gostoso de fazer. O encanto da coisa era que de cada um deles nós conhecíamos, por assim dizer, a alma. Dê um brinquedo a qualquer criança e certamente, depois de um exame superficial, depois de explorar os limites do brinquedo, o passo seguinte será descobrir o que é que tem dentro do brinquedo. Nós sabíamos. Nossos brinquedos não eram feitos somente de madeira toscamente lavrada, de papel, de linha de costura ou mesmo de restos de folha de plástico. Sim, já havia material plástico, embora não na variedade que existe hoje. Em nossos brinquedos havia também o sangue de nossas mãos, havia o suor das longas horas esmerilhando a ponta do pião no cimento da calçada, havia a nossa criatividade em encontrar maneiras de, com tão pouco recurso, fazer algo que pelo menos se parecesse com o objeto desejado. O prazer que o brinquedo proporcionava depois de pronto era tão efêmero quanto o de qualquer outro; porém o prazer começava antes: iniciava-se na sua concepção e se prolongava pela sua execução. E nessas fases o prazer que sentíamos era, guardadas as proporções, o mesmo que sentiram um Miguelangelo, um Cellini, um Rodin. Assim já dizia Monsier de Montaigne: "... não há prazer conhecido cuja própria procura em si já não constitua uma satisfação. Ela liga-se ao objetivo visado e contribui muito para o resultado de que participa essencialmente. A felicidade e a bem-aventurança da virtude enchem-lhe as dependências e os caminhos desde o portão de entrada até os muros que lhe cercam os domínios". Bonito isso, não é não? Bonito e muito sábio. Todo mundo, especialmente cronistas, deveria ler Montaigne. È muito melhor, muito melhor mesmo, que Paulo Coelho. E não dá câncer. De todos os brinquedos o mais simples de fabricar era a pipa. Um pedaço de bambu, matéria prima relativamente fácil de se encontrar na época, para as varetas, papel de seda, que na falta era substituído por folha de jornal mesmo, grude de farinha de trigo e linha surrupiada da costura de nossa mãe. Tinha alguns de nós que comprava pipa pronta de outros ou comprava varetas prontas no armazém. Eu nunca admiti tal heresia. No máximo eu permitia que alguém participasse da fabricação das minhas. E o mais sofisticado de todos era a carretilha para enrolar linha da pipa. Ah, a carretilha. A única que consegui fazer era muito tosca perto da que alguns dos meninos tinham, encomendada por seus pais a algum marceneiro. Ao mesmo tempo que olhava com inveja essas carretilhas bem elaboradas, sentia por elas um certo desprezo por saber que não tinha sido feito pelo menino. A mesma inveja e o mesmo desprezo que senti pela figurinha carimbada do Mazolla que o pai de um garoto comprou para ele. Que graça tinha? Gloria mesmo seria comprar a bala, que se jogava fora tão ruim era o gosto, e encontrar o troféu dentro. Creio que muitos de vocês não entendem bem do que estou falando. Nem o que é uma carretilha de soltar pipa nem quem foi Mazolla. Perguntem a seus pais ou avós. Certamente, as cicatrizes nos dedos foram plenamente compensadas pelo prazer de ver algo idealizado por nós tornar-se algo real, como qualquer artista. E como recompensa adicional adquirimos certo talento em manusear objetos, ferramentas. Habilidade que foi negada aos meus filhos porque minha esposa, devo confessar que com a minha conivência, zelosa de seu dever de mãe de proteger seus rebentos, nunca permitiu que nenhum deles chegasse sequer perto de uma afiada faca de cozinha. A laranja era já entregue bem descascada a eles. E é por isso que até hoje eles não sabem descascar uma laranja.
Ei Ricardo você já aprendeu...?

José Maria de Oliveira, 56 anos, Engenheiro Mecânico - Natal/RN.
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