BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Eu não tenho mais tempo para errar


Quando eu tinha 18 anos, fui levado pelo delírio de uns amigos a escalar a Pedra do Baú em São Bento do Sapucaí — SP, a 1950 metros de altura. Confesso que foi uma aventura perigosa tentar subir aquela “parede” sem nenhum equipamento de segurança; com mochila nas costas e se apoiando somente em escadas de ferro engastadas na pedra. Ah, só para apimentar mais a aventura, em alguns trechos não havia escada, tínhamos que segurar e pisar em pedras mesmo e...rezar. Que loucura! Não sei se fui intrépido ou fiz aquilo para não passar por medroso diante dos meus amigos, mas pus minha vida ali em resvalo com a morte, exatamente esta única que tenho. A despeito de não chegar até o topo, pois fui prudente comigo, descobri o meu limite. Até onde me permiti chegar ainda pude apreciar a bela paisagem da Serra da Mantiqueira, e isto já me bastou. Voltei feliz do passeio.

Nessa idade, muitos de nós homens, queremos desbravar o mundo, desgovernar as rotas que nos são dadas, navegar sem bússola e arriscar tudo; se atirando no vazio da escuridão só para sentir a emoção do salto, a adrenalina efervescente e pulsante em nossas veias. É a fase em que a vida se torna um verdadeiro bungee jump. Não temos medo de errar o passo adiante e cair no calabouço da dor e da angústia. Permitimos os primeiros pileques e andamos em bandos para chamar atenção. Mas chamar atenção de quem mesmo? Experimentamos todos os tipos de venenos e paixões. Apaixonamos sem saber sequer se os signos combinam — vê se pode isso! Paixões platônicas e não correspondidas. Lançamos o coração nas relações, como saltamos de cima da ponte para dentro das águas turvas de um rio, sem saber o que iremos encontrar no fundo. Subimos montanhas sem medo de pisarmos em pedras soltas. Ficamos vulneráveis às delícias da vida sem saber as consequências e o risco que corremos por colocar nossa vida na ponta de um trampolim ou nos ganchos do alto de uma montanha, onde só temos nossos pés para apoiar e as mãos para segurar a ponta de uma pedra. O céu é nosso limite.

Não posso negar que vivemos pequenas aventuras já na infância. Quando criança, nós só iremos aprender a andar, caindo; e caímos muitas vezes antes dos primeiros passos. Depois vamos só entender o que é o choque elétrico quando enfiamos o dedinho na tomada. Assim seguimos pela vida, caindo e levantando, desafiando o perigo em muitas vezes como forma de aprendizado; em outras como inconsequentes, colocando o coração à frente dos pés e da razão.

Vivendo esperanças, alegrias e decepções; sofrendo por fazer escolhas erradas e arriscar com os olhos vendados: como se dará o próximo passo ao abismo ou à felicidade eterna que se enseja. Profundamente mergulhamos em mar revolto sem perceber o perigo iminente. Até que depois de algumas costelas quebradas e corações partidos chega o dia em que uma luz se acende em nossas vidas; como um candeeiro iluminando o caminho. Seja por nós mesmos ou pelas mãos de nossos pais — sábios guardiões dos nossos passos — abriremos os olhos para novos horizontes. Haverá aqueles que não ouvirão as vozes de seus guias e guardiões e por isso terão de aprender sozinhos, apanhando mais um pouco.

Depois de algumas quedas e desenganos, recostamos nossas cabeças e nos recolhemos ao interior. Nessa conversa franca e sincera, decidimos, por fim, fincar nossos pés em terrenos firmes e férteis. Amadurecidos ou experientes, como queiram, não atrevemos mais escalar pedras íngremes em busca de felicidade e prazer, já não queremos a aridez de corações insensatos e desertos; apavoramos com certas aventuras e apontamos nossos objetivos naquilo que é mais palpável e em laços fortes que não desatam. Não queremos dar mais tempo para ficar provando o fel esperando que um dia se torne doce.

Num mesmo dia ouvi de duas mulheres — já vividas e maduras — a mesma frase: Eu não tenho mais tempo para errar! Num tom quase de desabafo, fiquei sem resposta do que ouvi. Como se a felicidade fosse uma carruagem passando à porta e não haveria mais outra chance de encontrá-la num lugar no futuro; o tempo é seu adversário — acreditam. Assim, não haverá mais chance de errar e pisar em pedras soltas pelo caminho ou tropeçar nelas. O tempo galopa com o vento e lá no fim há um pote de ouro que é preciso encontrar: a felicidade, o ápice, o paraíso enfim; e antes um precipício a nos desafiar e um labirinto por percorrer. Essa é a estrada, a de todos nós...

Entendo, para essa mulher que já passou pelos 30 anos, há outra preocupação com a cobrança que a sociedade lhe impõe, em especial sobre o tempo minguado que a natureza lhe reservou para maternidade. Como já ouvi de algumas delas: “nós temos prazo de validade”. E para muitas, a felicidade está associada ao modelo de vida tradicional: casar, ser mãe e constituir uma família. Elas se queixam de não ter mais tempo para se arriscar numa relação onde não há reciprocidade e objetivos iguais, pois a maioria dos homens ainda continua escalando suas montanhas.

O que querem estas mulheres? Elas, na verdade, não querem mais semear em terreno árido, onde não darão frutos, relacionamentos viciados; e esses também onde as pessoas se juntam para depois ficarem só consigo; cada um no seu mundo particular, puxando a corda para o seu lado. Juntas, mas caminhando em rumos opostos.

Gostaria de encontrar estas duas mulheres de novo e agora poder contar-lhes da minha escalada, dos meus limites, dos meus saltos e quedas. E com o pouco que aprendi na minha jornada, dizer: "coragem, coragem!" Não há culpas ou remorsos, pois à vida demos o melhor de nós. No lado desconhecido da pedra que se deseja escalar deve haver uma trilha na mata, um caminho mais seguro e menos íngreme; um caminho apontado por Deus, onde não há abandono e tristeza, mas um caminho...

Talvez demore mais para chegar, mas chegaremos mais seguros ao mesmo lugar. Se não houver, abriremos trincheiras com a mesma presteza que fizemos para sair do berço e andar. Direi também, que o tempo não é mais nosso inimigo, ele é o remédio com doses diárias para as feridas da alma; para amar e viver, ele é nosso aliado, pois nos deu as lições dos tombos que levamos. Vou errar ainda na minha caminhada, eu sei, quem sabe desvie por alguns atalhos incertos, mas sei que haverá tempo para voltar com retidão e começar tudo de novo.

E ainda restará outro tempo. O tempo para amar e contemplar o nascer do sol do alto de uma montanha.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2010.
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