BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

ESPELHOS NOS OLHOS OCEÂNICOS

Debruçado na tarde, lanço a mais triste rede aos teus olhos oceânicos.
Nela se estende e arde na mais alta fogueira minha solidão que gira os braços como um náufrago.
Faço rubros sinais a teus olhos ausentes que ondulam, como à beira de um farol, o oceano.
Guardas apenas trevas, fêmea longínqua e minha.
De teu olhar emerge às vezes o litoral do espanto.
Debruçado na tarde lanço a mais triste rede a esse mar que sacode os teus olhos oceânicos.
A noite galopa em sua égua sombria esparramando azuis espigas pelo campo.
Os pássaros noturnos bicam as primeiras estrelas que cintilam como minha alma quando te amo.
Debruçado na tarde lanço na rede o meu coração, tentando atingir o seu, através de teus olhos oceânicos.
(Pablo Neruda)
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