BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Extinguere


“Depois de te perder. Te encontro, com certeza. Talvez num tempo da delicadeza. Onde não diremos nada. Nada aconteceu. E apenas seguirei, como um encantado ao lado teu.” (Chico Buarque)


Tudo o que destruímos não volta mais. Já pensaram nisso? As flores, os bichos, a floresta, as matas, os rios. Pois é, milhares de outras espécies raras ou não raras, hoje correm risco de desaparecer; e na grande maioria tudo pelo descuido e falta de zelo do próprio homem com o meio ambiente. Tudo que se extinguir da face da terra ficará somente na nossa lembrança, como num álbum de retrato amarelo e empoeirado. Passarão mil anos da nossa existência, sentiremos necessidade de alguma forma de tudo aquilo que era essencial ao equilíbrio das forças que mantém nosso planeta em pé; e agora não volta mais, pois não demos a eles a devida importância quando ainda viviam por aqui. Assim, ficarão extintos para sempre das nossas vidas. E nossas vidas mais fragilizadas do que nunca.

O cientista Carlos Nobre da Academia Brasileira da Ciência na sua brilhante palestra “Ainda é tempo”, falou sobre as questões ambientais, a Era Antropoceno, as mudanças climáticas e o papel do homem na preservação do planeta. Diante de tudo que expôs, com muita propriedade, diga-se de passagem, algo me chocou. Sobre a inevitabilidade da extinção de muitas espécies da fauna e flora; disse que três espécies desaparecem do planeta a cada hora. Do latim extinguere, não tinha me atentado para a força da palavra extinguir; que também quer dizer eliminar da existência. Nobre foi claro, quando as espécies são extintas, não haverá mais meios de reproduzi-las como antes, por modo algum. Elas simplesmente acabam para sempre, desaparecem. Aí, eu complemento que somente Deus, na Sua plenitude e grandeza, poderá trazer de volta aquilo que o homem não ajudou - na forma mais justa do uso dos recursos naturais – a preservar direta ou indiretamente, em detrimento às suas ambições e egoísmo sem trégua. Fiquei pensativo com esta conclusão e me voltei para as coisas que também nascem e devem ser cultivadas dentro de nós. Falo é claro, do amor.

Todas as vezes que alguém que amamos se vai, com o tempo, o amor ou o pouco que restou dele, vai se extinguindo dentro de nós, e todos os nossos sentidos e direções vão caminhando, fluindo para que ele nunca mais reine ali; vai desaparecer como um raio, um nevoeiro que se dissipa mar adentro. Matamos aquilo que não é conservado, cultivado e preservado. Como acontece na natureza, nunca mais aquele amor que não cuidamos será reproduzido dentro de nós. No coração há que se ter o cultivo, a preservação, do amor de quem dá e daquele que o recebe. Outros amores poderão nascer quando nova semente for lançada, mas aquele antigo e sem cuidado entrará em processo de extinção, e mais cedo ou mais tarde acabará. Isso quer dizer que, nunca mais seremos o mesmo para aquela pessoa e ela para nós. Também ficará como num álbum de retratos, somente recordações.

Chico Buarque, ao escrever a letra da canção “Todo Sentimento” —1987, revela um amor que se ausenta, que se propõe perder-se para dar um tempo de se reconstruir e renascer; como se o amor por aquela pessoa pudesse ressuscitar num outro tempo, aquele do momento da delicadeza. “Um tempo que refaz o que desfez / Que recolhe todo o sentimento / E bota no corpo uma outra vez”. Chico é soberbo em tudo que escreve.

Em outra de sua canção “Futuros Amantes” — 1993, o amor é colocado como um sentimento que não se apropria do ser, mas uma partícula solta no universo: sem tempo, sem espaço, sem pressa de acontecer. O amor numa visão arquétipa e sem fim. Um tesouro perdido, onde futuras gerações encontrarão e tentarão decifrar seus códigos; assim como hoje arqueólogos preservam ruínas de antigas cidades, tentando entender a origem da humanidade. Na letra de Chico, o Rio de Janeiro é uma cidade engolida pelas águas do mar, depois de uma grande catástrofe que devastou toda terra e seus habitantes. Os povos daquela nova civilização vão em busca da cidade perdida e seus mistérios, no fundo do mar. Encontram fragmentos de cartas e poemas (de amor). Ao descrever este amor — já que amores serão sempre amáveis —, ele sugere que mesmo as futuras gerações mais evoluídas poderão se amar com um amor que ele deixou para sua amada, um velho amor. Como assim dizer, o amor não morre, ele é guardado. Depois de encontrado se instala em outras pessoas. Mesmo que para isso passem milênios, milênios.

Na poesia, na literatura, nas letras das canções tudo é permitido “viajar”, ou como falamos em arquitetura: no papel se aceita tudo. Assim como o amor que se guarda por milênios para florescer em outro ser, ou aquele que é conservado em formol para se reconstruir no tempo da delicadeza. Tudo é poético e aceitável, mas o que vejo aí é, na verdade, a extinção do amor que se esfacelou por desmazelo. Não há como juntar mais os cacos ou ressurgir num futuro, sem ressentimentos. Se aquilo era o aconchego, admiração, o colo quente, a joia rara, a flor mais bela que cresceu dentro de nós, como deixar que se extinga assim?

Como já disse, um novo amor poderá nascer quando assim esvaziarmos o coração e permitimos; mas aquele velho, bem, este já morreu e não irá renascer com a luz de uma nova manhã. Às vezes, por uma simples palavra que se lança num instante de tempestade e desatino, tudo pode virar ruínas e colocar o amor na fogueira do tempo. Nunca mais sentiremos o cheiro e o perfume daquele que amávamos; olhares com admiração não farão mais gentilezas; não esperaremos mais por aquela pessoa com um coração batendo a mil por hora. Isso não existirá mais. Aprenderemos, sim! Pois, algo de bom vai ser extraído daquelas cinzas.

Aprenderemos com o passado, a conservar melhor aquele novo amor que iremos cruzar pelo caminho; conservar para que à mesa da alma nunca falte o alimento essencial: o amor. Para que num novo encontro, o amor seja conservado, cultivado e preservado, pois definitivamente aprendemos a dar importância só quando já não temos mais.

Talvez Carlos Nobre, cientista, não tenha pensado em extinção por este lado, mas eu pensei — olhando para dentro do homem. Digo também que existe a mesma gravidade da inevitabilidade da extinção a que se referiu o cientista, pois em ambos os lados há a presença dele (homem) como agente transformador de um ambiente: na alma e fora dela. Quando ele não preserva às espécies do ambiente onde vive, terá o mesmo descuido com relação também ao amor, no ambiente onde deveria reinar.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2010.
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