BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A noite que não terminou

Ao lado do grupo MPB-4, Chico Buarque defende "Roda Viva" na final do festival de 1967, exibido pela TV Record; a canção ficou em terceiro lugar

Estreia amanhã (30/07) em circuito nacional - menos nas cidades interioranas como a minha - o filme "Uma noite em 67". Reproduzo abaixo trecho da matéria que o jornal Folha de São Paulo trás hoje em seu Caderno Ilustrada, com comentários sobre o filme. De fato, é um filme para ver, rever e ter em DVD; para guardar como documentário. Vale a pena. Este Festival foi o divisor de águas e marcou o início de uma nova era na nossa música popular. De lá para cá não fizemos mais tantos artistas de alto nível assim. Uma pena.

(Folha de São Paulo 29/07/2010)
Longa refaz história da MPB a partir da grande final do festival de 1967; arquivos e entrevistas revelam bastidores e acertam contas com o passado.
ANA PAULA SOUSA
MARCUS PRETO
DE SÃO PAULO

É impossível esquecer aquela noite. Ao mesmo tempo, como é difícil recordá-la.
A final do 3º Festival da Música Popular Brasileira, exibida pela Record em 21 de outubro de 1967, ficou congelada na memória do público como um momento único.
Para seus protagonistas, porém, se foi alegria, foi também perturbação. É isso que revela, quatro décadas mais tarde, "Uma Noite em 67", documentário de Renato Terra e Ricardo Calil, crítico de cinema da Folha.
Por meio dos arquivos da TV Record e de depoimentos de quem estava lá, o filme revê um momento que iria se provar fundamental para a forma que assumiria, a partir dali, a música brasileira.
Há Chico Buarque ("Roda Viva"), Caetano Veloso ("Alegria, Alegria"), Gilberto Gil ("Domingo no Parque") e Roberto Carlos ("Maria, Carnaval e Cinzas") a defender suas canções. E há todos eles a rememorar aquela noite.
"Eu era um fantasma no palco", diz Gil, que caiu de cama, em pânico, horas antes da apresentação.

INTIMIDADE
É desses reencontros profundos com o passado que se constitui o filme. Fica claro que os diretores sabiam que muitos, como Caetano e Gil, tiveram suas falas sobre aquela noite banalizadas, tamanha a quantidade de entrevistas dadas a respeito.
Tinham também em mente que outros, como Chico e Roberto, dificilmente baixariam a guarda. "Era fundamental criar uma cumplicidade. Nós nos preparamos muitos e tentamos ser delicados, respeitosos", diz Calil.
Com isso, arrancaram de cada um momentos de graça, emoção e intimidade, como raras vezes se veem na tela.
"Ao ver o filme, assustei-me mais com suas revelações do que em me ver naquela agonia de não poder mostrar uma música", diz Sergio Ricardo que, impedido pelo público de cantar "Beto Bom de Bola", atirou a viola à plateia. O filme traz à luz a cena inteira, e não apenas a explosão. "Me sinto de alma lavada."
Há também um quê de acerto de contas no que sente Marília Medalha, que cantou, com Edu Lobo, "Ponteio", a grande vencedora da disputa de jovens gigantes.
"Fui espoliada após o festival, não só por pessoas da música, mas também por artistas do universo teatral", diz. "Com o AI-5 [1968], o negócio piorou muito. Num show com Vinicius [de Moraes], fui proibida de cantar "Ponteio". Não descobri se era por causa da música ou por saberem que tinha vínculos com presos políticos", diz.
A entrevista com Medalha, como dezenas de outras - entre elas as de Ferreira Gullar, Chico Anysio, Arnaldo Batista, Martinho da Vila-, ficou fora do corte final do filme. Estarão todos no DVD.
A opção de concentrar-se nas cinco primeiras classificadas faz com que cada canção seja vista de ponta a ponta. Por meio dessas imagens, o espectador não só conhece os maiores artistas da MPB quando jovens, como também visita os primórdios da TV. Ali, o cigarro em cena era tão natural quanto o jovem Chico, com 23 anos, apresentar-se de smoking.

Chico revela mágoa com fama de "velho"

Em depoimentos para o documentário "Uma Noite em 67", ícones da MPB revivem as marcas deixadas pelo festival
Edu Lobo liga Tropicália a "roupas diferentes"; Gil diz ter sido levado ao movimento por insistência de Caetano.
De imediato, o maior impacto do documentário "Uma Noite em 67" está nas imagens de acervo da TV Record -as sequências completas de Chico, Caetano, Gil, Mutantes, Roberto, Sérgio, Edu e Marília defendendo suas canções.
Mas, colocadas em contraponto ao material histórico, são as entrevistas feitas especialmente para o filme -recentes, portanto- as responsáveis pelas grandes revelações sobre os personagens.
"O tropicalismo foi a fase agônica da minha vida musical", conta Gil. Para fazer todos os rompimentos -musicais e até pessoais- necessários à criação do movimento precisou que Caetano o puxasse pelas mãos, ele diz.
Edu Lobo, por sua vez, deixa claro que, 43 anos depois, não mudou muito o modo como entende o tropicalismo. Para ele, toda a revolução liderada por Caetano e Gil a partir daquela noite "girou mais em torno da atitude no palco e das roupas diferentes do que da música".
As tais roupas que Edu cita, usadas sobretudo pelos Mutantes e pelos Beat Boys -as bandas de rock que acompanharam Gil e Caetano em seus números-, foram introduzidas nos festivais a partir daquele ano.
Era praxe, até ali, que artistas se apresentassem na TV vestindo smoking.
Revendo sua aparição naquela noite -de smoking-, Chico Buarque diz que, então, não sabia que aquelas mudanças nos figurinos aconteceriam. Ou melhor: sabia, mas tinha esquecido.
Entre risadas, conta que estava sob efeito de álcool quando Caetano lhe falara, tempos antes da primeira eliminatória, sobre a ideia das roupas. Por isso, não chegou a registrar a informação.
Mas o clima da entrevista sai da anedota quando o autor de "Roda Viva" revela ter se sentido "muito sozinho" naquele período.
Pelo contraste com a estética pop tropicalista, percebeu estar imediatamente identificado como "o velho", "o conservador" -tanto em música quanto em atitude.
"É duro ser chamado de velho, ainda mais quando você tem 23 anos", afirma Chico no filme.
Provocado pelos diretores, Caetano concorda. "Era natural que ele se sentisse assim." Até aquela noite, Chico mantinha o posto de unanimidade nacional e nunca havia encontrado qualquer restrição. Foi a primeira vez.
Na manhã do dia seguinte, nenhum deles seria o mesmo. Nem ele, nem o Brasil. (APS E MP)

Militante revê no filme sua "atuação" como fã

NINA LEMOS
COLUNISTA DA FOLHA
"Quando as pessoas vaiavam, estavam vaiando a ditadura, e não as músicas."
A jornalista e militante Rose Nogueira, 65, explica isso enquanto assiste a "Uma Noite em 67" pela primeira vez. Quer dizer, pela segunda, já que ela estava presente no festival onde foi lançado o Tropicalismo, Chico cantou "Roda Viva" e Sérgio Ricardo quebrou um violão.
Ela era uma das moças "de tiara no cabelo, que já vinha com uma peruca" que adoravam Sérgio Ricardo e, claro, achavam Chico Buarque lindo. Rose tinha 20 anos na época. E continua achando Chico "lindo e com uma capacidade de construir poesia como ninguém".
Na tal noite de 67, ela ficou na parte de trás do auditório. E, ao ver o filme, relembra de tudo. "Olha o Sérgio Ricardo pedindo calma. Lembro exatamente disso. E nessa hora em que ele jogou o violão, nossa, fiquei em choque."
Apesar de achar Sérgio Ricardo "um charme", Rose torcia para "Roda Viva". "Está vendo ali? Eu era uma daquelas moças cantando "roda mundo, roda pião"."
A jornalista torcia para Chico em todos os festivais. Mas até hoje se emociona com "Alegria, Alegria".
"Que coisa maravilhosa. Essa hora em que todo mundo grita "eu vou" é emocionante. As pessoas estavam dizendo que não iam desistir. E o Caetano estava lutando com a poesia."
Ela acha que nem Caetano (e nem ninguém no Brasil) fez músicas tão bonitas depois "porque a ditadura veio e acabou com tudo".
As músicas podem não ter melhorado na opinião de Rose. Mas a aparência... "O Caetano era horroroso. Foi melhorando com o tempo. Desculpe, Caetano, mas você hoje é mais bonito."
"O Caetano também foi preso?", pergunta a cozinheira da casa. "Todo mundo foi preso." Até Rose, que um ano depois foi detida e torturada no presídio Tiradentes, onde permaneceu por oito meses. "Depois desse festival tudo mudou."

Brasil se revela por inteiro nos bastidores do festival

Diretores captam um país entre as marcas da província e as antenas da metrópole
JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

A última noite do Festival de Música Popular Brasileira de 1967 foi um desses raros momentos que condensam e catalisam as forças vivas de toda uma cultura.
Estavam ali não apenas artistas extraordinários em seu apogeu criativo, mas um caldeirão de elementos díspares numa rara e irrepetível sinergia: o berimbau e a guitarra elétrica, a poesia de vanguarda e o ti-ti-ti das revistas de fofoca, as marcas da província e as antenas da metrópole, o pop e a roça.
Diante desse evento singular, a virtude maior dos diretores Renato Terra e Ricardo Calil foi a de preservar uma certa modéstia e um escrupuloso respeito a todos os protagonistas e coadjuvantes da noite memorável.
O documentário busca transportar o espectador de hoje àquele ambiente sem intervir esteticamente, sem interpor interpretações políticas ou sociológicas, sem, em suma, "perfumar a flor", como diria o poeta João Cabral de Melo Neto.
Todos os depoentes são testemunhas presenciais e todos têm o que dizer. Por vezes ligeiramente contraditórios entre si, esses depoimentos ajudam a iluminar o acontecimento por vários ângulos e a construir os seus sentidos.
PROVÍNCIA X MUNDO
Mas o ponto mais forte do filme são as cenas de bastidores do festival, as entrevistas antes e depois das apresentações, em que transparece, nas perguntas dos repórteres e nas respostas dos artistas Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mutantes, um alegre descompasso entre uma televisão familiar, provinciana, herdeira do rádio, e uma música revolucionária, sintonizada com o mundo.
Tudo ali diz muito sobre uma época: as roupas, os penteados, a gíria, o humor. O país se revela inteiro em cada fotograma.
Lamentou-se já a ausência de uma fala da cantora Marília Medalha, intérprete da vencedora "Ponteio". Outros testemunhos poderiam ser enriquecedores: de Nana Caymmi, Hermeto Pascoal, Rita Lee. A lista seria interminável, e o filme também.
Material não falta para outros documentários, para extras de DVD ou para uma série de TV, que talvez seja o destino mais adequado para esse tipo de documentário mais jornalístico do que propriamente cinematográfico.
Mas o filme "Uma Noite em 67", por sua força compacta e seu caráter de celebração, vai bem, muito bem na tela grande.

UMA NOITE EM 67
DIREÇÃO Ricardo Calil e Renato Terra
ONDE estreia amanhã no Frei Caneca Unibanco Arteplex, Espaço Unibanco Augusta e circuito
CLASSIFICAÇÃO livre
AVALIAÇÃO bom

Antonio - julho / 2010.

sábado, 24 de julho de 2010

Vem cá Luiza

Sou um ouvinte de música resistente a coisas novas. Vira e mexe minha vitrola toca sempre os mesmos clássicos, os meus escolhidos. Conservador no gosto musical, temo também pela minha fidelidade posta à prova. Temo perder a minha identidade musical e sair do tom ou do Tom. Desculpa, mas sou assim. Bem, como nunca há unanimidade em tudo, às vezes acontece de aparecer alguém que me faz parar para ouvir e apreciar. Não que procure, mas surge do nada. Você vai resistindo aí acaba se envolvendo.
Em 1978, naquele programa de fim de ano pela Tv Bandeirante, Chico Buarque anunciou que uma cantora nova estava surgindo na MPB. Era Zizi Possi. Naquela apresentação ela cantou em dueto com Chico sua nova canção “Pedaço de mim”; aquela canção que tem uma das frases mais fortes de Chico: “A saudade é o revez de um parto / A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.” É só pesquisar para ver que a gravação tem arranjo, solo de voz de Milton Nascimento e um bandolim tocado por Beto Guedes. Zizi não poderia ter começado melhor. Sua carreira depois dali, só decolou. Faz pouco tempo descobri que teve uma filha, que cresceu e hoje segue os mesmos passos.
A filha de Zizi, Luiza, tem algo encantador. Sua voz é doce, ela também compõe e tem um repertório vasto com músicas lindas como “Paisagem”. Influência ou não da mãe, ela - diferente de Maria Rita -,  tem voz própria. Não se preocupou em parecer ou cantar como a mãe – criou o seu público com sua voz.
Neste vídeo, extraído do DVD de Flávio Venturini “Não se apague esta noite”, além de soltar a  voz precisa que tem, espalha também graciosidade. A canção “Beija-flor” uma das mais lindas do repertório de Venturini, ganhou nova roupagem neste dueto com ela. Quando ouvi/assisti, fiquei repetindo várias vezes depois.
Tenho visto Luiza também pelas redes sociais na internet. Suas inserções no twitter são de uma artista que parece muito próxima, tem carinho e respeita o seu público. Sucesso, talento e vida longa na nossa nova MPB, esta é Luiza Possi.
Prometo que falarei de Tom Jobim também outro dia, eu ainda continuo fiel.

Antonio / julho 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Julho

Queridos leitores (as):
Segue um poeminha novo pra aquecer este inverno. E falando nisso, pena que Roberto não canta mais uma das suas melhores canções: "...quero que você me aqueça neste inverno / e que tudo mais vá pro inferno". Li num livro que ele fez esta música pra uma namorada que o pai mandou morar no EUA, com o objetivo afastá-la dele (Roberto), pois não queria aquele namoro. Aí veio a canção.

Julho

Ainda que tardio
Julho, ela veio
Guardei palavras
Em meu coração
Corro atrás da lua
Vejo o tempo da janela
Ela veio me aquecer
Corro atrás do sol
Guardei canções
Julho, ela veio cantar
Na tua pele nua
Na cortina do tempo
Julho, ela me segue
Com seus olhos
Neblina de manhã
Rogo-te amor
Rogo-te paz
Remendo estes versos
E deixo este julho
Adormecer na espera
Um álbum de recordações
Até a nossa primavera

© Antônio / julho de 2010.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Passione


Em 2008, um crime chocou o país. Durante 04 dias um rapaz de classe média de 22 anos manteve em cativeiro e sobre a mira de um revolver outra jovem, Eloá Pimentel de 15 anos. Depois de várias tentativas de negociações, numa operação frustrada, a polícia resolveu estourar o cativeiro — sem querer julgar o modus operandi da ação —, no mesmo instante Lindemberg deu dois disparos em direção à Eloá; a quem tinha uma paixão platônica e por quem foi negada tal reciprocidade. Eloá faleceu depois no hospital e ele foi parar numa penitenciária onde ainda aguarda por julgamento.

O que havia de mal na vida e no passado daquele jovem atirador? Nada, ele era uma pessoa comum, descobrindo a vida, com seus sonhos, seus desafios e prazeres; mas, por trás daquele cenário de horror, havia sim um sentimento envolvido, algo maior que tudo que ele podia dominar dentro de si e por isso se deixou entorpecer. Quando cair em si, irá perceber que pôs fim também à sua própria vida.

Faz alguns dias outro crime aconteceu na minha cidade, pelos mesmos motivos: paixão. Um jovem de 25 anos matou e esfacelou a ex-namorada e seu algoz; dias depois, ao se entregar numa delegacia confessou friamente que primeiro havia matado o rapaz e depois a matou porque ela foi testemunha ocular e o motivo era ciúmes dela, de quem foi namorado. Tudo friamente.

Em ambos os casos, não havia motivo para tanta crueldade: tirar a vida de alguém. Ou havia? Difícil dizer não estando na pele, mas o desprezo foi determinante nestes casos; e depois a intolerância e não aceitação por derrotas. A justiça interpreta estes crimes como sendo passionais, hediondo, por motivação fútil. Não sou jurista para analisar os meandros que seguirão até o desfecho, mesmo porque a justiça dever ser fria e cautelosa.

Contudo, quero por em questão esse sentimento, muitas vezes doente, que é a paixão; e que para muitos há uma confusão com outro chamado Amor. Lindemberg não tinha amor por Eloá, senão não a teria matado. O que fez praticar aquele crime foi sua paixão obcecada e naquele momento não correspondida. A paixão muitas vezes é possessiva, não concede tréguas e não aceita o “não” como resposta. Aquilo que se sente não pode ser desprezado e pisoteado pelo outro. Penso que, o ato de matar o ser “amado” é um desejo (obscuro) também que junto com ele se vá o sentimento que o aprisiona.

Se procurarmos, iremos encontrar inúmeros casos análogos, de consequência também trágica. Na literatura e na dramaturgia essas histórias tidas como histórias de amor já foram contadas, como em Tristão e Isolda ou na celebre obra shakespeariana de Romeu e Julieta (1591/1595). Aquele drama, sugere que a morte daquele jovem casal foi porque o sentimento de um pelo outro era maior que todas as intrigas e diferenças familiares, e nem a morte os iria separar. Se houvesse o aceite das famílias e se casassem, criassem filhos, talvez compreendessem mais as condições do mundo e não iriam se matar quando um ou outro morresse por morte natural. Na verdade, eles responderam com a própria vida os “nãos” que ela os impôs. Quem de nós um dia já não pôs a ponta da língua em algum veneno da paixão? Eles beberam.

O que me chama atenção nessas tragédias passionais são seus personagens: sempre jovens. Na imaturidade não sabem lidar com as derrotas e decepções. Como já havia dito em outro texto, essa fase da vida é onde mais nos atiramos nos precipícios e mais nos permitimos arriscar. Numa outra tese, asseguro também que, quando ficamos mais velhos e maduros, nos voltamos mais para nosso interior: tomamos remédios para doenças invisíveis, nos precavemos mais por sair à noite ao relento, procuramos alimentos mais saudáveis para o corpo e deixamos outros vícios. Assim, também cuidamos mais dos nossos sentimentos e por isso nos apaixonamos menos, sofremos menos desse “mal” ou aprendemos mais com a vida, como queira. Procuramos viver relações mais maduras, onde o bem partilhado é um sentimento livre, sem pressa e sem cobrança; onde a maior discussão com quem nos relacionamos é sobre qual o melhor filme de Almodóvar ou o melhor poema de Drummond. Nada mais a se preocupar ou se questionar.

Amor e paixão — muitos escritores, filósofos, pensadores já deram suas explicações colocando cada coisa no seu lugar. Serei simplista no meu modo de ver, direi que um é água e outro vinho, e transformar uma coisa na outra é o grande mistério. Transformar a água da paixão no vinho bom do amor é o passo seguro que iremos dar para uma relação com caminhar feliz. Na verdade, a maioria das relações fica somente na água da paixão e seca por aí. Há um escritor que disse que a paixão é mistura de um amor de intensidade máxima com um enorme medo. Possessão, obsessão, ciúmes, descontrole, medo são ingredientes que não cabem na receita do amor; esses são os piores temperos de quem se apaixona; e por tudo isto irá sofrer. Ninguém sofre por amor; sofremos por medo. O amor nos quer seguro, confortável e aconchegante no seu colo; ele também requer paz e harmonia para se permitir.

No poema do português Fernando Pessoa, anotado agora na minha agenda, diz: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?” Os poetas falam melhor por nós.

Um exemplo concreto do que ouvi sobre o amor veio também numa forma simples de um homem casado que um dia me contou algo que guardei comigo. De maneira natural e sem qualquer problema conjugal ou familiar, disse: “... o único amor que acredito é do de um pai para um filho e vice-versa”. Explicou: “Quando um filho morre, jamais iremos a um orfanato adotar outro, ou vamos procurar nossa esposa para 'encomendar' outro em substituição aquele. Quando um filho morre nosso amor vai junto, ele vira saudade eterna...”. Fiquei com essa analogia por anos e aqui partilho com todos. De fato, essa é uma bela explicação de amor. Simples, mas verdadeira.

Na relação que se acaba, o difícil é “virar esta página” — como sugere quem está de fora. Nesta hora a palavra é serenidade. Este é o segredo para sairmos sem arranhões. Sempre quando alguém vem me pedir socorro, a primeira coisa que me vem é: serenidade. Só quem não tem não sabe a importância dessa palavra nos dias de hoje. Quem tem serenidade tem paz, esperança, paciência, e espera o amor... Tudo que precisamos para passar as tormentas. Temei, apanhei, cai e me ergui, por fim aprendi a contar até dez e ser sereno. Já contei até mil também, é bom ser assim, pois não brigamos mais com o mundo e com ninguém. As pessoas serenas são mais fáceis de você lidar e decidem melhor. São boas ouvintes e quando falam colocam as palavras no seu devido lugar. Aprenderam por terem o coração e a mente decidindo juntos; ele agora apaziguado bate no seu ritmo, no ritmo de Deus.

Da paixão, como conhecemos e como muitas vezes fomos tomados, nos reservamos agora o direito de viver e deixar viver; respirar seus aromas sem o entorpecimento da insensatez. E dela, somente as palavras doces sejam guardadas como numa linda história de amor: “Direis que aquela luz não é da manhã... ainda não amanheceu. Foi o rouxinol e não a cotovia que vos gritou no ouvido. De noite, canta pousado naquela romãzeira. Acredita meu amor, foi o rouxinol...” (*).

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2010.
(*) William Shakespeare – Romeo and Juliet – Ato III - Cena V

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Benvinda




O que mais me agrada nas músicas de Chico Buarque de Hollanda? Difícil dizer, poderia falar de várias, mas hoje vou compartilhar esta música do início de sua carreira (ele tinha 24 anos). Faz algum tempo descobri a grande sacada de “Benvinda”, sim, exatamente como ele escreveu: “Benvinda”, não é “Bem-vinda” (adj. saudação). Chico escreveu esta música para uma de suas mulheres, e não falou nada disso para ninguém. Até meu corretor de texto do Word quis corrigi-la. Imagina! Chico brincou com as palavras mais uma vez. A letra permite que você use as palavras nos dois contextos. Qualquer uma que se usar dará sentido: a saudação e a musa.
Esta apresentação, das mais memoráveis do acervo da nossa MPB, foi no IV Festival da Record de 1968. Chico de paletó listrado ladeado pelos competentes “meninos” do MPB-4, quem toca violão ao lado é Toquinho. Chico faturou o terceiro lugar. Ahhhhhh, infelizmente eu não pude estar lá.

BENVINDA
(Chico Buarque de Hollanda - 1968)

Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente
Que há lugar na minha mesa
Pode ser que você venha
Por mero favor
Ou venha coberta de amor
Seja lá como for
Venha sorrindo, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que o luar está chamando
Que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho

Cheio de anseios e esperança
Comunico a toda a gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha
Morar por aqui
Ou venha pra se despedir
Não faz mal
Pode vir até mentindo, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que o meu pinho está chorando
Que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho

Venha iluminar meu quarto escuro
Venha entrando como o ar puro
Todo novo da manhã
Venha minha estrela madrugada
Venha minha namorada
Venha amada
Venha urgente
Venha irmã
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que essa aurora está custando
Que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho

Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha
Um carinho para dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar
Que é tempo ainda, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Ah, que bom que você veio
Que você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Benvinda
No meu coração.


@publicado por Antonio

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Era Felipe Melo - o silêncio das vuvuzelas



Pronto, acabou mais uma Copa para nós. Recolham as bandeiras, guardem as camisas no armário, calem as vuvuzelas e voltem à rotina e só daqui a 04 anos. Como em de 2006, saímos nas quartas de final. Desta vez o nosso judas e culpado foi Felipe Melo; ele é o Roberto Carlos de 2010, embora não tenha “ajeitado o meião” na hora do gol, mas foi incompetente em “ajeitar” uma bola para dentro das nossas redes, ou como se diz em Portugal: fez um auto-gol. Para completar entrou covardemente com as travas da chuteira na coxa do holandês Robben e foi expulso. Depois na entrevista, com os olhos secos, disse que não foi maldoso – havia mais de 30 câmeras para registrarem a cena. Durante o jogo, se salvou quando teve um lampejo de Gerson ao dar o passe para Robinho marcar o único gol do Brasil, mas no minuto seguinte voltou a ser o que é: Felipe Melo.

Sempre assim, depois dos fracassos procuramos os culpados. Depois de tantos elogios durante a Copa de 1982 e com o gol que marcou contra os Argentinos, Junior foi o culpado por não marcar Rossi no último gol da Itália; antes Cerezo havia sido culpado por cruzar uma bola na nossa defesa na presença do próprio. Mesmo quando jogamos como verdadeiros artistas, como em 1982, também deixamos cair um pouco de tinta no quadro e manchamos a tela, estragamos tudo. Futebol é feito dos seus detalhes e um erro pode custar anos de preparação.

Foi lembrado por um cronista que, futebol de Copa é atípico, jogamos uma competição onde temos que provar que somos os melhores naquele mês, talvez no mês seguinte não consigamos praticar o mesmo futebol e não alcançamos o mesmo êxito. Não há como dizer que houve progressão de um time ou outro e muitas vezes nem sempre os melhores ganham; muito diferente de um campeonato brasileiro, por exemplo. Os alemães sabem muito bem disso. Salvo esta Copa, sempre tiveram um futebol sem brilho, mas com eficiência para jogar sete jogos.

As lições dessa Copa ficaram patentes e lembraremos no futuro como o fim da Era Felipe Melo, creio. Não querendo crucificá-lo pela derrota, mas seu nome será lembrado, pois o mais desinformado torcedor sabia do mal que ele poderia nos causar pelo seu futebol de pouco talento e seu destempero emocional. Somente seu treinador não via isso. Dessas lições tiro algumas.

Não adianta aquartelar jogadores e colocarem debaixo das Leis Dunguianas. Isso não resolveu e nunca irá fazer ganharmos títulos, pelo contrário, preservando e restringindo demais o ambiente deixa o jogador inseguro e depois não tem reação nos momentos de adversidades, com o placar adverso. Faltou passar aos jogadores na concentração o filme “Desafiando gigantes” - 2006, uma bela obra e com bons exemplos de como ganhar uma competição.

A segunda lição importante a lembrar para 2014 é que a Copa sendo uma competição curta de sete jogos, há que se convocarem quem está melhor no momento e não que é nosso amigo, digo, amigo do treinador, fiel a ele. Balela. A Alemanha levou os seus “meninos da vila”: Özil e Müller, ambos com 20 anos de idade e nunca jogaram uma Copa. Müller foi convocado na partida do time para a África do Sul, ele veio para substituir o maestro do time Ballack. Tem sido um dos melhores da Copa. Portanto, para 2014 rasguem esta regra.
Outra lição é que ao se trabalhar um time para uma competição deve-se também entender como está o estado psicológico de cada jogador e tentar colocar todos num mesmo padrão de autocontrole. Na partida contra a Holanda houve um momento em que Robinho é flagrado aos berros com um jogador holandês. O quê fez o holandês ao receber os gritos de Robinho? Manteve-se na sua posição, calmo, não entrou no clima do brasileiro. Assim ajudou o seu time a virar o placar. Após o segundo gol era nítida a frustração dos jogadores, pareciam sem reação.

Por ultimo, nós precisamos deixar de pensar que somos ainda os melhores do mundo, e que não devemos nos preocupar com quem enverga a camisa adversária. Do outro lado também há bons jogadores e por isso devem ser respeitados e marcados, assim como eles marcam os nossos jogadores principais. No jogo contra a Holanda era premissa ter que marcar o Robben (11) e o Sneijder (10). A tática dunguiana ignorou os dois jogadores e eles decidiram.

Em 1968, quando o Maracanãzinho em pé gritava “é marmelada, é marmelada”, por não aceitar que a música de Vandré não estava na final daquele festival, ele foi ao microfone e disse: “A vida não se resume em festivais”. É isso aí, eu também digo: “A vida não se resume em Copa do mundo”. Que a Era Felipe Melo seja sepultada e com ela este futebol pragmático; de quebra que vão também essas malditas vuvuzelas, passem logo esses anos e até 2014. Bola para frente.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2010.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A rua onde você morava


A cidade de Liverpool foi parar no centro do mundo quando aqueles quatro garotos — na época ainda não tão cabeludos — resolveram se juntar para compor e tocar suas músicas; e anos depois serem consagrados como a melhor banda de todos os tempos. Eles saíram de lá para serem eternos em nossas vidas, na minha inclusive. Os Beatles também retribuíram com amor à cidade tudo que Liverpool lhes proporcionou. Canções brotaram em seus discos e cultuaram pessoas e lugares que ninguém jamais imaginou existirem. Lugares e caminhos por onde andaram

John Lennon escreveu na letra da canção “In my life”: “há lugares dos quais vou me lembrar por toda a minha vida...”. Já “Eleanor Rigby”, composta por Paul, ganhou uma estátua em Liverpool. A dúvida é: aquela velha senhora solitária existiu ou foi mais uma ficção imaginada na cabeça de Paul? Aquela cidade ficou definitivamente marcada para sempre na vida dos quatro e depois em nós, que, apesar de nunca termos vividos lá, ficamos herdeiros desse saudosismo, das suas memórias. Eu ainda não a conheço, mas antes ir para minha casinha no campo, vou andar por lá...

Alameda Penny Lane é uma estreita rua de Liverpool, com pouco mais de 11 metros de largura e quase 800 de extensão; localizada no subúrbio da cidade, com comércio tipicamente local, misturado entre residências de tijolos à vista com janelões tipo “bay-window”. A magia é que Penny Lane se tornou a via pública mais famosa do mundo, pois nenhuma outra ganhou versos numa canção e ficou imortalizada nos quatro cantos do planeta. O que ela tem de especial? Nada, aparentemente, mas tem um sabor doce de apego, amor e de boas lembranças de um lugar. Foi lá que Paul McCartney bebeu da fonte e descreveu em seus versos o amor por sua terra natal. Paul extraiu dela sua essência, o sumo na rigidez do seu tapete de pedra: um barbeiro chamado Bioletti, um banqueiro, um bombeiro e uma enfermeira; todos vivendo embaixo de um céu azul suburbano — assim diz a canção de Paul. John Lennon contou depois que Penny Lane não é uma rua, sim um bairro distrital e lá morou numa rua chamada Newcastle Road. Depois concluiu: “só eu morei em Penny Lane”.

Como num museu a céu aberto, há muitas visitações hoje em Penny Lane; contam que, os turistas roubavam as placas da rua para levar como suvenir. A Prefeitura não se cansava de substituí-las sempre que alguém cometia o "bom" delito. De um tempo para cá as placas foram substituídas por pinturas nos muros e nas fachadas: PENNY LANE L18. O sonho não acabou — nunca acabará — e Penny Lane será eterno ponto de partida da trajetória dos Beatles e de um amor que para sempre queremos lembrar.

Olho para dentro de mim e não tenho uma rua para chamar de Penny Lane. Todos nós temos uma rua para chamar de sua, como adotamos uma árvore, um bicho, ou um amor de infância. Lamento. Tento imaginar se a rua onde nasci e vivi merecia uma canção ou um poema. Não consigo ver algo que me chame a voltar nela com versos ricos. Nunca houve barbeiros, bombeiros morando lá, nem houve comércios e muito menos casas com janelas bay-window; mas havia algo parecido: estava embaixo de um céu azul suburbano também. Suas casas pouco mudaram e seus moradores também. Nem é minha intenção de torná-la famosa. Minha rua sempre foi modesta e hoje continua lá com seus paralelepípedos seculares — espero nunca serem trocados pelo asfalto que pune as brincadeiras de rua; a resistência daquele pavimento de pedra preserva ainda a característica de bairrismo e localidade.

Ainda lembro-me dela com seu leito de terra, jogávamos futebol e também brincávamos de queimadas — permitindo assim que meninas também brincassem. Havia passagem de carros de boi de quando em vez, algo tão incomum nos dias de hoje. Ali também era o trajeto das procissões de fé daquele povo. Fora isso não tem mais nada a contar; nem quem morava lá era tão importante assim. Havia sim, uma velha senhora que vivia sozinha numa casa de quintal imenso, e tinha como companhia muitos cachorros e outras criações como marrecos e patos. Minha rua não tinha o aspecto urbano e o romantismo de Penny Lane e Paul também nunca passou por lá.

Nas viagens que faço das minhas memórias, tento buscar e vejo agora a rua onde você morava. Talvez seja ela Penny Lane no meu imaginário; aquela que queria ter meu coração partido em mil poemas. A ela dedicaria uma canção se inspiração me viesse ardente no peito: sairiam notas em versos lindos de recordações, como em Penny Lane. Por muitos sonhos, nunca estive lá também, mas meu coração passa por ela quando em mim derrama sua saudade. Neste momento ela está aqui ao meu lado querendo viver, não vou deixá-la partir de mim. Quero chorar com ela, mesmo sem você. Sentir porções de saudade é bom, mas sentirei só dos momentos que vivi ao seu lado, naquela rua. Prometo, serão breves palavras.

Era uma alameda também suburbana, de pouca extensão, uma suave ladeira de piso de pedras brilhantes, com árvores frutíferas na calçada e casas simples sem arquiteto (simples com cadeiras na calçada...); janelas ornadas de flores com suas moças debruçadas, e nos outonos: que a vida nunca passe tão depressa... Das poucas casas, você morava na maior da rua: térrea e esparramada num terreno de quintal longínquo, como eternos campos de morangos. Do outro lado da rua, morava uma senhora que fazia doces caseiros e estendia roupas cantando madrigais que ouvia do coral da igreja; ela abrigava também sua filha, aquela que era sua melhor amiga da rua. Subiam correndo a pequena ladeira de pés descalços, pulando fogueiras de São João e amarelinhas; as brincadeiras de rua eram sua predileção até anoitecer. Na chuva, você se deliciava com o rio que corria no meio-fio. Entre sua casa e o muro, era o sol, que vergonhosamente se escondia nos fins de tarde de inverno; à noite, as estrelas se amontoavam no céu e cintilavam os telhados terra cota; e não muito longe o repicar dos sinos da matriz que despertavam os fiéis nas manhãs de domingo. É assim que meu coração me traz à rua onde você morava. E agora conduzem também os seus olhos de volta aos meus: doces lembranças.

Esta é a sua Penny Lane, a que imaginei e guardei para você no dia do seu aniversário. A sua canção. Uma rua inteira, sem saída, sem medida, sem cidade, sem rancor, sem mágoa, sem tristeza e sem fim; onde o amor habita infinito, como céus azuis e que continua a sua casa no subúrbio da minha alma. Estará para sempre nos meus ouvidos, nos meus olhos — como em Penny Lane.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2010.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Penny Lane em meus olhos


Escrever neste clima de Copa é complicado. Vira e mexe você lembra das vuvuzelas, da jabulani que bateu caprichosamente na trave no chute de Cristiano, no gol de “manga de camisa” de Luis, da cara de poucos amigos de Dunga... O barato é que isso me contagia. Lembro da minha primeira Copa, eu fui comprar cigarros no intervalo de Brasil 1 x 0 Inglaterra. Claro, fui comprar para o meu primo, eu era ainda um fedelho esperto. O que mais me chocou foi ver as ruas desertas, aí eu me perguntava: Onde está todo mundo?
Agora estou escrevendo algo sobre certa rua chamada Penny Lane. Ela foi inspiração de Paul McCartney e onde eles talvez tenham se encontrado pela primeira vez. Sempre é bom lembrar: a primeira Copa, a primeira vez, o primeiro encontro, o primeiro amor. E tudo nunca mais esqueceremos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Filhotes da Ditadura


Faço um parêntese nos textos líricos e poéticos, para trazer à reflexão um assunto que também faz parte da vida de todos nós: o momento da política nacional. Ando pela rua e vejo um clima totalmente ufanista, reluzente em verde e amarelo; são brasileiros com suas caras pintadas e soltando a voz com a mão elevada peito: sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor! Há explicação, vivemos mais uma Copa do Mundo e o Brasil está lá, mais uma vez, representado pelos seus bravos soldados. De quatro em quatro anos ressuscitamos este “amor” à pátria – o que muitos dizem ser a pátria de chuteiras. Como um amante do futebol, torço sempre pelo Brasil, é claro. Mas lamento que as bandeiras brasileiras sejam retiradas das sacadas dos edifícios e outras pequenas das antenas dos automóveis assim que termina a Copa. Uma pena que esse amor seja efêmero e não contagie também a nação em ocasiões onde somos chamados às decisões políticas. Somos patriotas nas competições esportivas e não somos nenhum pouco em outras disputas por: esclarecimentos, transparência, cobranças, reivindicações e justiça social. Neste ponto, abstemos dos assuntos e procuramos outro com menos incômodo e chateação.

Como tenho falado nas rodas de conversa, em política partidária, não me posiciono para lado algum: nem Arena e nem MDB, nem democrata e nem republicano. Já tentei viver essa tolice. Agora prefiro ser do partido que John Lennon sonhou em “Imagine”: “imagine all the people / sharing all the world...” Assim também penso que, o melhor indivíduo politizado – e eu estou caminhando para isso – é aquele que pensa e decide livremente, colocando seus pensamentos no terreno onde reina a justiça, a ética, a lógica, o bom senso, e sob a luz dos fatos. Isso mesmo, pensar e decidir com minhas próprias convicções. Não acredito em partido político e digo que, eles existem somente para juntar bandos de um lado e de outro como numa partida de futebol da penitenciária; respeito sim, a natureza de quem (indivíduo) constrói sua biografia com dignidade e se utiliza da política, como meio para construir uma nação melhor e mais justa para todos. Já sei, vão dizer: agulha no palheiro. É difícil, pois encontraremos poucos assim, mas ainda sonho com isso. Nós precisamos ser melhores na decência (extraindo de um dos livros de Lya Luft – Múltipla Escolha) e não em escolha partidária. É o que falta. Se ao menos eles tivessem mais decência e ética...

Num desses momentos do passado da política nacional, o então candidato à Presidência da República Leonel Brizola, apregoou a Fernando Collor – seu adversário nas eleições de 1989 - o título de “Filhote da Ditadura”. Filhote quer dizer cria animal e também pode ser também entendido como indivíduo protegido (Larousse). Isso virou deboche, foi lembrado e servido na bandeja em outros cenários e eleições posteriores; e há quem realmente acredite que só a Fernando Collor cai bem este título. Não vou perder tempo em falar dele (ou delle), afinal sua reputação e biografia estão mais que maculadas pela herança que deixou do seu passado político. Já pagou por isso com o impedimento por alguns anos na “geladeira” e longe do exercício de cargos públicos. Também sei que, como na lenda do escorpião, ele sempre seguirá a sua natureza e no momento que lhe convir dará a picada, com seu veneno mortal, até mesmo no dorso de quem o ajudou atravessar a tempestade. É a natureza da política que herdou e agora pactua com os que estão no poder.

Depois de refletir e acompanhar os andaimes da política nacional, pedirei licença para discordar, ou colocar um “ops” nas palavras do falecido Governador. Vejo como os únicos herdeiros e filhotes da ditadura, essa gente que hoje se empoleirou no poder e ali querem perpetuar - a qualquer preço. Bravateiros, corruptos, eles chegaram lá e agora só têm um objetivo: um verdadeiro plano de poder por muitos anos com enriquecimento pelo capital alheio. Chamo-os de filhotes da ditadura, pois eles não existiriam sem ela. A ditadura os tornou visíveis, os tirou dos calabouços e os criou como verdadeiros heróis que nunca foram. Agora, se apropriam de tudo, inclusive da história do país. Não! O Brasil não tem história, eles começaram construir a partir de 2003. É o que pregam. O Brasil pós-golpe de 64 viveu debaixo de um regime militar – diga-se de passagem: um mal necessário. Epa! Necessário, pois no final demos mais importância à liberdade de expressão e aprendemos um pouco do que seja democracia. Eles agora vivem do passado, adulam a ditadura para serem reconduzidos ao presente como verdadeiros defensores da moral e da ética que nunca tiveram. Mas quem diz quem são eles? Ah! São eles mesmos. Atribuem só a si os méritos por vivermos a democracia que o país alcançou. O Brasil iria caminhar para uma democracia, quisesse ou não esta gente. Não quero entrar aqui no mérito de outro posicionamento: se de esquerda, de direita ou centro – isso pouco importa à nação e ao cidadão decente -, se seguidores de Che Guevara e da linha castrista de Cuba. A verdade é que, nenhum desses também viveu para ver a humanidade melhor. Eram carniceiros e adoravam amontoar cadáveres.

Espalhados por aí, há os que o sustentam e defendem esses ditames e esse modo egoísta de governar (para si). Na política rasteira, o que há hoje é um grupo serviçal entranhado nos corredores das universidades, nos meios de comunicação, ONG´s e sindicatos afins; são os que preparam palanques, defendem e multiplicam as ideias, essas que lhes plantaram; são instrumentos manipulados de um partido político, e servem a ele. Esse, por outro lado, lhes impuseram ordens para que pensem como deseja, com suas teorias conspiratórias e espalhando o ódio (ao inimigo). Esses bandeiristas, não são livres para pensar, são serviçais de partidos e rezam sua cartilha, mesmo que toda pregação seja contrária aos seus próprios princípios: morais, religiosos e de caráter. Depois, com o tempo, até se esquecem de quem são e perdendo a própria identidade.

Não sei onde isso tudo irá chegar e se realmente temos que passar por este período letárgico. Espero que não dure muito, já estou cansado. Com tanta reverência e flerte às ditaduras pelo mundo, inclusive na América Latina, não me surpreendo se um dia vermos novamente o país debaixo de outro regime de ditadura, agora orquestrado por eles. O Brasil terá que pagar para ver e seu povo muito mais. Quando iremos poder soltar a voz? Quando iremos viver o verde amarelo em amor e respeito à pátria amada sem o ufanismo de Copa do mundo? Quando teremos um país menos torcedor e mais politizado?

Enquanto esses dias não chegam, eles continuarão enaltecendo o passado de “filhotes” que são e surrupiando nossos sonhos na calada da noite; já o futuro, vai sendo costurado na escuridão, sem a certeza do verde e amarelo que tanto nos orgulha. É isso, a pocilga está sendo cercada em seu próprio intelecto. Agora, alimentem os porcos.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2010.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

É só aguardar...


O futuro chegou! Sim, e com ele novas tecnologias, novas ferramentas - tudo para facilitar nossas vidas. São tantas novidades que não conseguimos nos atualizar. Tudo ficou mais rápido. Afinal, mundo globalizado não pode haver perda de tempo: internet, cartão magnético, celular, chip, ipod, iphone, Google earth, GPS, TV a cabo, tudo deixou o universo mais ligeiro e melhor. Será? Vai chegar o dia em que vão mexer no movimento de rotação da terra para termos dias mais curtos ou mais longos, conforme o gosto e o tempo que se quer dar a vida. É só esperar para ver.

No atendimento ao público, por exemplo, houve avanços e inovações. Hoje já vemos coisas do gênero: área vip, camarote vip, estacionamento vip, caixa preferencial, convênio particular, sala de espera, personalité, SAC e outros. E as frases que você já acostumou a ouvir? “só um minutinho”, “aguarde na linha para ser atendido”, “já vai começar”, “tecle 9 para voltar ao menu...”, “não vai doer”, “já vai passar”, “desculpe-me”, “é só aguardar”.
Pegando por esta linha, já perceberam como anda a saúde no Brasil? Não, não estou falando do SUS, estou falando do pago mesmo; aquele de convênio particular com mensalidades altíssimas que você opta por acomodações diferenciadas e tem tratamentos diferenciados também para a mesma doença. Se você começar a imaginar vai ver como é comum a seguinte situação no nosso cotidiano:
Um casal de classe média levando a filha menor para um atendimento de emergência num hospital particular. A criança só tomou 11 gotas de rivotril. Descuidos dos pais? Sei lá. Sabe aquela coisa: remédio + criança, atração fatal? A criança começou a ter náuseas e vômitos, os pais saem em socorro para o melhor hospital, afinal, tem um convênio particular. Ao chegar ao pronto atendimento, já com gente saindo pelo “ladrão”, são recebidos prontamente por um homem de farda que você nunca sabe qual a sua função, se é vigia, se é recepcionista ou o escambal. Pelo sorriso e gentileza, você vê logo de cara que o atendimento será rápido, pois sua filha está mal. Então o homem orienta:
- Por favor retire a senha ali, depois é só aguardar.
No canto há uma maquininha, onde você aperta um botão e retira uma senha. O número é 68 e no painel logo a frente da recepção eles vêem 59. Como são 03 atendentes, vai ser rápido, afinal o atendimento é particular. Bom, o jeito é ter aquela velha paciência, acalmar a criança e como diz o “vigia”, é só aguardar. Quando finalmente o painel pisca o número 68 indicando o guichê n.º 3. Sentam-se esperando. A atendente não desgruda o olhar da tela do monitor. Claro, tudo para facilitar e agilizar o processo. Tudo muito rápido. Sem olhar para os dois, a atendente diz:
- Só um minutinho.
Levanta e se dirige até o guichê ao lado e começa apontar para a tela do monitor da atendente vizinha como se tivesse ensinando algo que ela não sabe. Depois volta e olhando agora para sua tela diz:
- Por favor, senhor, os documentos.
O pai entrega seus documentos e já sai consultando ali mesmo com a moça:
- Sabe, nossa filha tomou um medicamento...
A atendente nem presta atenção e começa a preencher o cadastro. Sim! Um cadastro mesmo, porque ficha de entrada não se pergunta nome do pai, da mãe, dos avôs, escolaridade (a criança ainda não foi alfabetizada), e-mail, endereço, CEP e por último a pergunta fatal:
- Qual o convênio?
- UNIMED.
- Desculpe-me Senhor, mas aqui neste setor não atendemos este convênio.
- Ah é? – responde o pai.
- O senhor deve se dirigir ao segundo andar; primeira porta a sua direita.
- Tá bom, o.k.
Quando o pai vai saindo com a mãe e a filha no colo a atendente interrompe:
- Senhor, o elevador está em manutenção, à escada é ao lado.
Quando já estão saindo, vem o homem de farda:
- O senhor é o dono veículo estacionado na frente do hospital?
- Sou sim – responde o pai assustado.
- Bem, Senhor, ali não é permitido estacionar. O senhor deverá retirar o veículo. Na rua de trás há vagas.
- Tudo bem, estou indo...
O pai deixa a criança com a mãe e sai correndo tirar o veículo.
A mãe sobe a escada com a criança no colo. É só um lance de escada.
No segundo andar aparenta ser melhor: poucas pessoas e com melhores acomodações na espera, havia até lugar para sentar. Atendimento VIP. O “cadastro” não é tão longo assim, não perguntam nem os nomes dos avós paternos. Alguns minutinhos depois a atendente entrega a senha de atendimento do médico e diz:
- Agora é só aguardar.
Realmente só há duas crianças na fila do plantão da pediatria. Tudo no mesmo andar, sem precisar descer a maldita escada. Vamos lá, calculando dez minutos para cada consulta, daqui a vinte minutos está tudo resolvido.
Neste tempo chega o marido com a camisa molhada e suando em bicas. Não se sabe se foi pela escada que enfrentou, se foi para encontrar uma vaga na rua ou se foi por causa das duas situações.
Trinta minutos depois aparece o número no painel. Finalmente. O médico abre a porta com aquele sorriso e já sai brincando com a criança:
- Olá minha princesinha, que houve com você?
A criança não dá a mínima para o médico e se esconde no ombro da mãe.
Quando o pai vai adiantar o assunto da consulta toca um celular. Era o do médico. Ele diz:
- Só um minutinho.
Era sua mulher do outro lado da linha, acertando os últimos detalhes da sua viagem para um congresso de pediatria no final de semana em Salvador. Alguns minutinhos depois desliga:
- Desculpe-me, era minha mulher. Vamos lá, o que houve com a princesinha?
O pai, já impaciente, dispara a falar. Antes mesmo que concluísse o médico diz:
- Vamos examinar?
Pega a menina no colo, deita numa maca, põe o estetoscópio no peitinho da criança, abaixa as pálpebras, olha a língua e conclui:
- Olha, ela não tem nada, acredito que foi só um susto.
A mãe que entrou muda, com olhar de surpresa, continuou a não dizer nada.
O pai, então:
- Ah é, não tem nada? Só um susto?
O médico:
- Sim, vão prá casa e façam um chazinho de camomila prá ela e coloque-a prá dormir. Amanhã ela já estará melhor. É só aguardar.
Saem do consultório mais aliviados ao saber que nada havia com a “princesinha”, mas com certo desconforto.
A criança já dormia no colo da mãe e não se queixava mais. Sem dizer uma palavra vão embora.
Quando estão passando pelo portão de pedestre que dá acesso à rua, ouvem uma voz chamando:
- Senhor! Senhor!
Era o vigia/recepcionista segurando um papel vindo em direção ao casal.
- O Senhor esqueceu.
- Esqueceu o quê? – indaga o pai, já irritado.
- O senhor esqueceu de preencher o formulário de avaliação do atendimento e sugestões.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2008.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Yeh, yeh, yeh


Um dos trechos fortes e marcantes da música “The Boxer” – Paul Simon é o refrão onde não há letra, ele e Garfunkel cantam somente o “La-ia-lá” (lie-la-lie...). Este trecho é universal, não precisamos entender ou falar inglês para cantar. É onde conseguimos cantar com o disco sem medo de errar, fácil de guardar, fácil de cantar. Numa gravação de 1974, o “La-ia-lá” foi substituído por uma flauta zamponha do Grupo peruano Urubamba, lindíssima também.
Os Beatles usavam muito desse recurso. Tanto é verdade que na década de sessenta no Brasil se dizia que eles eram “os reis do iê, iê, iê”; título em português dado ao filme “A hard days night” de 1964. A expressão “iê, iê, iê” ficou imortalizada e marcou para nós brasileiros o estilo de música que eles faziam na época, que nada mais era que o tal de rock n`roll - com suas variações. A Jovem Guarda se utilizou muito desse estilo Beatles com versões em português das suas músicas. Ronnie Von (que não era da Jovem Guarda) gravou “Girl”; já Renato e seus Blue Caps abusaram, fizeram várias versões dos Beatles. Em 1966, o primeiro filme dos Trapalhões se chamava “Na onda do iê, iê, iê”. É claro que o tal do “iê, iê, iê” queria dizer um modo, um estilo de vida que começava a partir da música dos Beatles. Na raiz da expressão, a onomatopeia beatle surgiu com a música “She loves you”, cujo refrão diz: “She loves you yeh, yeh, yeh / She loves you yeh, yeh, yeh”. Em português, virou “iê, iê, iê”. Numa outra canção “Hey Jude” o “lá, lá, lá” é um convite a cantar junto no final da música: “lá, lá, lá, laia, lá Hey Jude...”. E todo mundo canta.
Este conversê todo surgiu ouvindo no trânsito a canção “Grão de Areia” de Arnaldo Antunes; percebi nitidamente esta proposta onomatopeia de não querer dizer nada num trecho da letra. Arnaldo também é mestre nisso: usar as palavras ocultas. Há momento na letra que não há mais nada o que dizer; nessa hora as palavras se fundem com a melodia. Parece que nada preencherá ou tudo será permitido dizer; é onde o Lá, rá, rá, rá ou lá, lá, lá entra; deixando a imaginação de quem ouve viajar num mundo que ele escolher, na palavra que lhe vier à cabeça.

Grão de Areia(Arnaldo Antunes)
Me deixe sim
Mas só se for
Pra ir ali
E pra voltar

Me deixe sim
Meu grão de amor
Mas nunca deixe
De me amar

Agora as noites são tão longas
No escuro eu penso em te encontrar
Me deixe só
Até a hora de voltar

Me esqueça sim
Pra não sofrer
Pra não chorar
Pra não sentir

Me esqueça sim
Que eu quero ver
Você tentar
Sem conseguir

A cama agora está tão fria
Ainda sinto seu calor
Me esqueça sim
Mas nunca esqueça o meu amor

É só você que vem
No meu cantar meu bem
É só pensar que vem
Lá ra ra rá

Me cobre mil telefonemas
Depois me cubra de paixão
Me pegue bem
Misture alma e coração.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2010.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Balões Cristalizados


Meu professor da FAU — Faculdade de Arquitetura e Urbanismo — dizia que crianças e adultos têm diferentes percepções em escalas de grandeza. O que ele quis dizer com isso? O que é grande para uma criança, já não tem a mesma dimensão para um adulto. Minha avó paterna — seguindo os velhos hábitos da vida que trazia do campo — todos os anos plantava milho em seu quintal. Depois que fazia sua pequena colheita, aquele quintal virava um campinho de futebol para nós. Na minha cabeça e para meu corpo tudo era imensurável. Hoje, presumo que mal daria para estacionar uns três automóveis.

Quando ficamos adultos, além de perdemos essa escala, que também vem com a imaginação, deixamos outras riquezas para trás. Já repararam que tudo que uma criança faz é serelepe, correndo? É energia pura que depois perdemos com a velhice. Criança é assim: você pede alguma coisa e ela sai correndo disputando corrida uma com a outra ou com ela mesma. E quando há prêmios, corre mais ainda. Depois que ficamos adultos, junto com o peso das pernas e a indolência, tudo se torna mais lento.

Outra riqueza que perdemos quando deixamos a infância é a capacidade de olhar para o céu, enxergar coisas que só crianças veem. Eu via muitas coisas no céu, durante o dia e à noite, muito além das estrelas. Não importava onde estivesse: debruçado na janela, estirado na grama, andando na calçada ou no meio da rua. Eu não tirava os olhos do céu. Ou eram astros, ou eram pipas, ou eram balões.

Depois da exaustão das peladas da rua de paralelepípedos, ficávamos esparramados na calçada com a cabeça sobre a bola, mirando o céu a procura de algo. Em poucos minutos os olhares eram arrebatados. Quais desenhos as nuvens podiam formar? Víamos cavalo-marinho, elefantes, girafas, homens gigantes e, às vezes, se via Deus também; e sempre com aquela cara de bravo. Havia outra visão maluca: à noite, a lua cheia era um ventre de uma mulher com feto. O Cruzeiro do Sul, a Via láctea, as Três Marias, tudo virava desafio. Em que ponto do céu estará hoje? Já os pontos cardeais e a linha do equador, esses eu nunca vi... Ah! Apontar estrelas com o dedo fazia surgir verrugas; às vezes eu apontava, mas recolhia rapidinho.

Akira era um japonês sem rosto, ou aquele que tinha a feição das pipas que fabricava. Uns diziam que tinha 15 anos, outros lhe davam menos. Eu nunca o vi, só sabia que morava a uns dois quarteirões da minha casa. O melhor e mais famoso fabricante de pipas era um fantasma, mas era olhar para o céu eu identificava as suas. Eram pipas majestosas, soberbas, coloridas e bonitas. Quando não havia "caçadas", elas reinavam sozinhas no céu, soberanas aguardando uma peleja; quase que paralisadas, flutuando com sua rabiola gigante parecendo calda de cometa. Eu gostava mesmo era quando ele derrotava seus adversários usando sua mais exuberante invenção: o chicote. Era uma linha com cerol que se estendia além da rabiola. Quando ele partia para cima, nunca perdia uma caçadinha.

Nessas temporadas de pipas eu vivia pela rua. Não sabia fazer uma pipa sequer e às vezes que teimei, saiam pensas e feias. Assim como Hassan, eu sabia mesmo era correr atrás delas quando as linhas eram cortadas. Sob sol ardente, eu corria, corria até rosar e salpicar as bochechas de sardas — essas que no banho eu esfregava para tirar de tanta vergonha que me causavam. Nas minhas contas não me lembro de quantas pipas “cacei” por aí. Acho que foram poucas, em outras eu era contemplado pela sorte quando elas enroscavam no pé de laranjeira no fundo do nosso quintal. Essas vinham de graça, pois não custava a correria e nem as sardas do rosto.

Entrava o mês de junho eu ficava à noite mirando o céu. Agora eram os balões. Quatro ou cinco por noites me acendiam. Balões e estrelas. Havia balões de diversos formatos e ciências: diamante, charuto, pião, caixa e mexerica — que eu me lembro. No caminho até a quermesse da igreja meus olhos não desgarravam do céu, o que me causavam alguns tropeções. Quantos discos voadores devem ter me confundidos e eu nem percebi.

Diferente das pipas, fabricar balões era mais penoso; requisitava mais habilidade e prática. Eu sabia a técnica de tanto observar e dava minha contribuição como um verdadeiro AFB — Auxiliar na Fabricação de Balões. Meus irmãos mais velhos e primos é que eram os verdadeiros artesãos. Balões não se mediam por tamanho, mas sim pelas quantidades de folhas de seda que cabiam. Havia os de dezesseis, vinte quatro folhas e até mais. Sempre em números pares. As folhas de seda eram coloridas e coladas com cola espessa para não deixar o ar quente vazar. A arte final era fazer a mecha de fogo — aquilo que iria fazer o balcão ganhar os céus; e isso custava alguns retalhos de estopa, parafina e querosene. Depois de enrolada, com a parafina semeada no tecido, a estopa era amarrada com arame e embebida no querosene. A mecha ia à boca do balão. Pronto, agora era descer até o quintal e viver.

Lembro do meu último balão. Foi numa noite que havia jogo do Brasil da TV. Quando o jogo acabou e já passava da meia noite, fomos para o quintal. Minha missão naquela operação de lançamento foi segurar uma das pontas. Depois do fogo ateado esperamos o balão inflar. A parafina derretendo, soltava um cheiro e a cor azul de de pingos de fogo que caiam no chão. Ao meu primo mais velho foi dada a incumbência de fazê-lo subir. Ele apoiou levemente a boca do balão com as mãos e com pequenos impulsos para cima lançou até ganhar força e começar a subir. O ar quente dentro do balão e o vento completaram seu esforço. Naquela noite foi lindo, ele subiu, subiu e seguiu sentido leste até desaparecer nas nuvens e não conseguir ver mais. Ficamos felizes. Mais tarde, já debaixo do cobertor, fiquei pensando onde estaria agora o balão, a que altura já chegou? Na minha cabeça os balões não caiam; depois de alcançar a atmosfera terrestre eles cristalizavam.

Já faz alguns anos, os noticiários têm alarmado que fabricar, transportar e soltar balões é crime, pois os balões quando caem provocam queimadas em pastos, plantações e canaviais; e nas áreas urbanas caem sobre casas e até nas linhas de alta tensão. Então, eu te suplico, meu caro leitor: não solte balões! Faça como eu, guarde-os na memória.

Na minha cabeça eles ainda só sobem e não caem, nunca!; e nem incendeiam plantações. São milhares pelo céu da minha infância; nas escalas de grandezas que guardo do meu universo criança e diante dos meus olhos serão como noites sem fim... Balões não caem como estrelas cadentes, eles cristalizam no céu e viram estrelas de cor âmbar; aquelas que dizem ser planetas. Neste ano, quando junho chegar, vou me estirar na relva e mirar para o céu à noite toda, procurando estrelas e balões perdidos; e quando meus olhos forem atraídos para o leste eu verei meu velho balão. Ele estará lá, cristalizado.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2010.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Crônicas e bolinho caipira

É inegável, o melhor bolinho caipira está aqui no Vale do Paraíba, minto, nunca apareceu outro igual, ou melhor. Para ser bem preciso o mais saboroso está em São José, no Bairro de Santana, na casa da minha mãe. Eu posso dizer. Nunca pesquisei, mas creio que a receita é centenária e vem atravessando gerações até nossos dias. É claro que houve inovações, onde se substitui a carne por queijo ou lingüiça calabresa. Ainda bem que essas iguarias não perdem o sabor nunca, vão passando de mãe para filha, de filha para neta... Sempre mulheres.
Sei que hoje a cidade espichou e já tem automóvel demais nas ruas, mas ainda conserva este ar interiorano, das festas de junho regadas a bolinho caipira, quentão e quadrilha. Ainda nos permitimos viver tudo isso; ainda conseguimos olhar o céu à noite e ver algumas estrelas.
Pegando esta toada, este escrevinhador – aprendiz das palavras -, está preparando a próxima crônica para o Blog. Batizei-a de “Balões Cristalizados”. É uma volta ao passado, com estrelas cadentes, infância, pipas e balões. Só não diz nada sobre bolinho caipira, mas o cheiro... hummm.

Antonio.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Eu não tenho mais tempo para errar


Quando eu tinha 18 anos, fui levado pelo delírio de uns amigos a escalar a Pedra do Baú em São Bento do Sapucaí — SP, a 1950 metros de altura. Confesso que foi uma aventura perigosa tentar subir aquela “parede” sem nenhum equipamento de segurança; com mochila nas costas e se apoiando somente em escadas de ferro engastadas na pedra. Ah, só para apimentar mais a aventura, em alguns trechos não havia escada, tínhamos que segurar e pisar em pedras mesmo e...rezar. Que loucura! Não sei se fui intrépido ou fiz aquilo para não passar por medroso diante dos meus amigos, mas pus minha vida ali em resvalo com a morte, exatamente esta única que tenho. A despeito de não chegar até o topo, pois fui prudente comigo, descobri o meu limite. Até onde me permiti chegar ainda pude apreciar a bela paisagem da Serra da Mantiqueira, e isto já me bastou. Voltei feliz do passeio.

Nessa idade, muitos de nós homens, queremos desbravar o mundo, desgovernar as rotas que nos são dadas, navegar sem bússola e arriscar tudo; se atirando no vazio da escuridão só para sentir a emoção do salto, a adrenalina efervescente e pulsante em nossas veias. É a fase em que a vida se torna um verdadeiro bungee jump. Não temos medo de errar o passo adiante e cair no calabouço da dor e da angústia. Permitimos os primeiros pileques e andamos em bandos para chamar atenção. Mas chamar atenção de quem mesmo? Experimentamos todos os tipos de venenos e paixões. Apaixonamos sem saber sequer se os signos combinam — vê se pode isso! Paixões platônicas e não correspondidas. Lançamos o coração nas relações, como saltamos de cima da ponte para dentro das águas turvas de um rio, sem saber o que iremos encontrar no fundo. Subimos montanhas sem medo de pisarmos em pedras soltas. Ficamos vulneráveis às delícias da vida sem saber as consequências e o risco que corremos por colocar nossa vida na ponta de um trampolim ou nos ganchos do alto de uma montanha, onde só temos nossos pés para apoiar e as mãos para segurar a ponta de uma pedra. O céu é nosso limite.

Não posso negar que vivemos pequenas aventuras já na infância. Quando criança, nós só iremos aprender a andar, caindo; e caímos muitas vezes antes dos primeiros passos. Depois vamos só entender o que é o choque elétrico quando enfiamos o dedinho na tomada. Assim seguimos pela vida, caindo e levantando, desafiando o perigo em muitas vezes como forma de aprendizado; em outras como inconsequentes, colocando o coração à frente dos pés e da razão.

Vivendo esperanças, alegrias e decepções; sofrendo por fazer escolhas erradas e arriscar com os olhos vendados: como se dará o próximo passo ao abismo ou à felicidade eterna que se enseja. Profundamente mergulhamos em mar revolto sem perceber o perigo iminente. Até que depois de algumas costelas quebradas e corações partidos chega o dia em que uma luz se acende em nossas vidas; como um candeeiro iluminando o caminho. Seja por nós mesmos ou pelas mãos de nossos pais — sábios guardiões dos nossos passos — abriremos os olhos para novos horizontes. Haverá aqueles que não ouvirão as vozes de seus guias e guardiões e por isso terão de aprender sozinhos, apanhando mais um pouco.

Depois de algumas quedas e desenganos, recostamos nossas cabeças e nos recolhemos ao interior. Nessa conversa franca e sincera, decidimos, por fim, fincar nossos pés em terrenos firmes e férteis. Amadurecidos ou experientes, como queiram, não atrevemos mais escalar pedras íngremes em busca de felicidade e prazer, já não queremos a aridez de corações insensatos e desertos; apavoramos com certas aventuras e apontamos nossos objetivos naquilo que é mais palpável e em laços fortes que não desatam. Não queremos dar mais tempo para ficar provando o fel esperando que um dia se torne doce.

Num mesmo dia ouvi de duas mulheres — já vividas e maduras — a mesma frase: Eu não tenho mais tempo para errar! Num tom quase de desabafo, fiquei sem resposta do que ouvi. Como se a felicidade fosse uma carruagem passando à porta e não haveria mais outra chance de encontrá-la num lugar no futuro; o tempo é seu adversário — acreditam. Assim, não haverá mais chance de errar e pisar em pedras soltas pelo caminho ou tropeçar nelas. O tempo galopa com o vento e lá no fim há um pote de ouro que é preciso encontrar: a felicidade, o ápice, o paraíso enfim; e antes um precipício a nos desafiar e um labirinto por percorrer. Essa é a estrada, a de todos nós...

Entendo, para essa mulher que já passou pelos 30 anos, há outra preocupação com a cobrança que a sociedade lhe impõe, em especial sobre o tempo minguado que a natureza lhe reservou para maternidade. Como já ouvi de algumas delas: “nós temos prazo de validade”. E para muitas, a felicidade está associada ao modelo de vida tradicional: casar, ser mãe e constituir uma família. Elas se queixam de não ter mais tempo para se arriscar numa relação onde não há reciprocidade e objetivos iguais, pois a maioria dos homens ainda continua escalando suas montanhas.

O que querem estas mulheres? Elas, na verdade, não querem mais semear em terreno árido, onde não darão frutos, relacionamentos viciados; e esses também onde as pessoas se juntam para depois ficarem só consigo; cada um no seu mundo particular, puxando a corda para o seu lado. Juntas, mas caminhando em rumos opostos.

Gostaria de encontrar estas duas mulheres de novo e agora poder contar-lhes da minha escalada, dos meus limites, dos meus saltos e quedas. E com o pouco que aprendi na minha jornada, dizer: "coragem, coragem!" Não há culpas ou remorsos, pois à vida demos o melhor de nós. No lado desconhecido da pedra que se deseja escalar deve haver uma trilha na mata, um caminho mais seguro e menos íngreme; um caminho apontado por Deus, onde não há abandono e tristeza, mas um caminho...

Talvez demore mais para chegar, mas chegaremos mais seguros ao mesmo lugar. Se não houver, abriremos trincheiras com a mesma presteza que fizemos para sair do berço e andar. Direi também, que o tempo não é mais nosso inimigo, ele é o remédio com doses diárias para as feridas da alma; para amar e viver, ele é nosso aliado, pois nos deu as lições dos tombos que levamos. Vou errar ainda na minha caminhada, eu sei, quem sabe desvie por alguns atalhos incertos, mas sei que haverá tempo para voltar com retidão e começar tudo de novo.

E ainda restará outro tempo. O tempo para amar e contemplar o nascer do sol do alto de uma montanha.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2010.

O álbum impossível


SE OS nomes de Kanga Akale, Cha Jong-Hyok e Martin Skrtel não dizem nada para você, sorte sua. Pelo que leio na internet, esses jogadores de futebol estão tirando o sono de quem coleciona o álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Pertencem ao ranking dos mais difíceis de achar.
Ocorre que nada parece ser muito difícil hoje em dia. Graças à internet, os aficionados podem trocar figurinhas, comprar álbuns já completos, marcar reuniões, reclamar da situação ou vangloriar-se de seus feitos. "Ja completei 2 albumn to no tersero" [sic], informa um menino de 13 anos num blog dedicado ao tema. É pouca coisa, diante de um paulistano de 44 anos que já completou quatro álbuns e pretende chegar a dez cheios. Antes do início da Copa, naturalmente.
Todos correm contra o tempo. Houve alarme em Bauru: durante quase uma semana, interrompeu-se o fornecimento às bancas de jornal. A editora Panini, como toda poderosa empresa multinacional que se preze (a sede é na Itália), "calou-se" diante do problema, denunciam os críticos.
Surgem cotações no mercado negro, já houve um assalto espetacular e os furtos, como no meu tempo, devem ser comuns em qualquer recreio de escola. Mas é claro que, em comparação com as figurinhas de quando eu era criança, muita coisa mudou.
Este álbum de 2010 é globalizado. Não está escrito em português. A seleção da Grécia atende por Hellas, o nome que tem de fato na língua de Homero, e a histórica Sérvia é Srbija para os colecionadores. O que não constitui desculpa, é claro, para os erros de português que se multiplicam nas páginas da internet sobre o assunto.
A não ser que eu esteja muito destreinado, essas figurinhas autocolantes não facilitam a vida de quem quer ganhá-las jogando bafo. Em compensação, é um grande progresso não depender mais da velha cola branca, para nada dizer da mistura de farinha e água ou da impraticável goma arábica, da marca Camelo, que deixava minhas páginas com a consistência de uma bala de cevada -outra coisa da infância que não me traz saudades.
Não há de ser simplesmente por saudade da infância, em todo caso, que tantos marmanjos (até mesmo, devo dizer, na redação de um importante jornal paulistano) entregam-se à febre das figurinhas. Não se trata de uma doença retroativa e, sim, antecipatória. Já é a torcida pelo título mundial o que se concretiza na luta pelo álbum completinho. Importa dominar, ter ao alcance dos dedos o conjunto dos adversários possíveis.
Num arroubo de alma que só se poderia chamar de ibérico, há torcedores que fazem questão de colar de cabeça para baixo as figurinhas do selecionado argentino.
Completar o álbum é vencer todo acaso e incerteza. Obtida a vitória, começa-se outro, assim como a conquista do tetra não tira a vontade de chegar ao penta, ao hexa, que sei eu. Irremediavelmente antiquado, volto a estranhar essa necessidade (no tocante às figurinhas, porque, em matéria de futebol, prefiro ficar calado).
Nunca pensei, quando era criança, que fosse possível completar um álbum. Corria mesmo a desconfiança de que algumas figurinhas nunca tinham sido impressas. O melhor e mais precário álbum que já tive se chamava "Olé" e era desatualizadíssimo. Reunia, como todo bom time de futebol de botão, pernas-de-pau já aposentados, cenas de campeonatos peremptos e ídolos de bigodinho que, nos meus verdes anos de calça boca-de-sino e cabelo "black-power", já haviam sido esquecidos pelas multidões.
O desajuste, é verdade, mantém-se agora, mas com sinal contrário. Jogadores que supostamente participariam da Copa deste ano foram cortados, contundiram-se, e o álbum já deixou de retratar o tempo presente.
Todo colecionador, assim, corre em vão rumo ao futuro, para realizá-lo apenas como um testemunho do passado. Desfiz-me dos meus antigos álbuns de figurinhas. Se pudesse reabri-los, sem dúvida gostaria de novamente verificar que ficaram incompletos.
Ainda espero que, numa banca de jornal perdida no fim do mundo, possa achar num pacotinho aquele Mengálvio, aquele Dino Sani que me faltavam para completar a coleção. A coleção? Melhor dizer: a página. Para que o álbum, com suas lacunas irritantes e figurinhas impossíveis, não se feche jamais.

Marcelo Coelho - Folha de São Paulo - 19/05/2010