BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Yeh, yeh, yeh


Um dos trechos fortes e marcantes da música “The Boxer” – Paul Simon é o refrão onde não há letra, ele e Garfunkel cantam somente o “La-ia-lá” (lie-la-lie...). Este trecho é universal, não precisamos entender ou falar inglês para cantar. É onde conseguimos cantar com o disco sem medo de errar, fácil de guardar, fácil de cantar. Numa gravação de 1974, o “La-ia-lá” foi substituído por uma flauta zamponha do Grupo peruano Urubamba, lindíssima também.
Os Beatles usavam muito desse recurso. Tanto é verdade que na década de sessenta no Brasil se dizia que eles eram “os reis do iê, iê, iê”; título em português dado ao filme “A hard days night” de 1964. A expressão “iê, iê, iê” ficou imortalizada e marcou para nós brasileiros o estilo de música que eles faziam na época, que nada mais era que o tal de rock n`roll - com suas variações. A Jovem Guarda se utilizou muito desse estilo Beatles com versões em português das suas músicas. Ronnie Von (que não era da Jovem Guarda) gravou “Girl”; já Renato e seus Blue Caps abusaram, fizeram várias versões dos Beatles. Em 1966, o primeiro filme dos Trapalhões se chamava “Na onda do iê, iê, iê”. É claro que o tal do “iê, iê, iê” queria dizer um modo, um estilo de vida que começava a partir da música dos Beatles. Na raiz da expressão, a onomatopeia beatle surgiu com a música “She loves you”, cujo refrão diz: “She loves you yeh, yeh, yeh / She loves you yeh, yeh, yeh”. Em português, virou “iê, iê, iê”. Numa outra canção “Hey Jude” o “lá, lá, lá” é um convite a cantar junto no final da música: “lá, lá, lá, laia, lá Hey Jude...”. E todo mundo canta.
Este conversê todo surgiu ouvindo no trânsito a canção “Grão de Areia” de Arnaldo Antunes; percebi nitidamente esta proposta onomatopeia de não querer dizer nada num trecho da letra. Arnaldo também é mestre nisso: usar as palavras ocultas. Há momento na letra que não há mais nada o que dizer; nessa hora as palavras se fundem com a melodia. Parece que nada preencherá ou tudo será permitido dizer; é onde o Lá, rá, rá, rá ou lá, lá, lá entra; deixando a imaginação de quem ouve viajar num mundo que ele escolher, na palavra que lhe vier à cabeça.

Grão de Areia(Arnaldo Antunes)
Me deixe sim
Mas só se for
Pra ir ali
E pra voltar

Me deixe sim
Meu grão de amor
Mas nunca deixe
De me amar

Agora as noites são tão longas
No escuro eu penso em te encontrar
Me deixe só
Até a hora de voltar

Me esqueça sim
Pra não sofrer
Pra não chorar
Pra não sentir

Me esqueça sim
Que eu quero ver
Você tentar
Sem conseguir

A cama agora está tão fria
Ainda sinto seu calor
Me esqueça sim
Mas nunca esqueça o meu amor

É só você que vem
No meu cantar meu bem
É só pensar que vem
Lá ra ra rá

Me cobre mil telefonemas
Depois me cubra de paixão
Me pegue bem
Misture alma e coração.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2010.
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