BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sábado, 5 de agosto de 2017

Nossos ídolos não são os mesmos

Começo escrevendo estas linhas no dia que o jogador, e ídolo brasileiro, Neymar foi transferido do Barcelona para o Paris Saint-Germain (PSG). A maior transação, em cifras, do futebol mundial — não cansa de repetir a crônica esportiva. O valor recebido pelo Barcelona foi de 222 milhões de euros (cerca de R$ 822 milhões).

Fiquei sabendo, logo de manhã, pelo rádio, que o "mlk" havia descido em Paris. Mais tarde, o site O Antagonista ironizou: "Na frente do seu hotel, um manifestante exibia um cartaz com a seguinte frase: 'O Qatar compra tudo. Jogadores e Jihad.' Bem-vindo a Paris, Neymar." O dono do time chama-se Nasser Ghanim Al-Khelaifi. Nem precisa dizer sua origem e de onde vem toda essa dinheirama.

Eu nem estava aí para o fato, mas um amigo futebolista me mandou um áudio — audião —, no WhatsApp, falando que a TV estava mostrando o momento da sua apresentação; e que ele estava mobilizando um pais, o mundo (exagero). E se é que tem alguém que presta neste país (Brasil) é Neymar — disse. Depois de ouvir o áudio, e antes de responder, me veio muitas coisas juntas. E aqui eu me pego na palavra "Ídolo". Quem é seu ídolo, Sr. cronista?

Já falei aqui neste Blog que, no Brasil, por falta de heróis de verdade (de guerra), idolatramos os do esporte, da música, da política, da TV, etc. E com ajuda da mídia, esses ídolos são transformados em heróis da noite para o dia. Como disse Nelson Rodrigues, em 1968: "Por isso, falo na solidão do Brasil. Não há perspectiva do grande enterro porque não há o grande homem para enterrar". Depois dessa frase, só me lembro do finado presidente (sem posse) Tancredo Neves, morto em 1985, às vésperas de se tornar o primeiro presidente do período "redemocrático" — com perdão das aspas — do Brasil. Depois, em 1994, Ayrton Senna, morto em uma prova automobilística.

Aí eu ponho a pergunta: Para quem corria Ayrton Senna? Ele corria pelo seu país, pela pátria de rodas? Ele corria por ele, pelo seu entusiasmo, gosto, talento e por muitas cifras de dinheiro, claro. Por mais ninguém. Morreu como morre um operário de construção que cai do andaime, no exercício do seu ofício. Não devíamos nada a ele e nem ele a nós. Tancredo foi uma comoção nacional pelo calvário que passou até o anúncio de sua morte. Os heróis nacionais não são heróis, que morrem em campos de batalhas, como vimos em guerras do passado. Aquilo que sempre digo: se temos paz em algum canto do mundo é porque foram conquistadas por grandes guerras. O antagonismo da vida, de  guerra e paz: esses são os heróis, os ídolos anônimos e sem rosto.

Na verdade, acho mesmo que os heróis deveriam morrer no anonimato e pobres, com uma bala na testa, porque não seriam heróis; e assim se preservam da desonra, da medalha, do nome de ruela. O heroísmo só cabe aos anônimos, aqueles que estão enterrados debaixo de nossos pés, para que possamos, hoje, passear à tarde numa praia ensolarada. Quantos já foram heróis e esquecidos? Depois, eles (grande mídia) deturpam tudo e transformam, mesmo, grandes assassinos da humanidade em ídolos de pano. Assim como Lênin, Stalin e Che.

Lembrei-me ainda, na conversa com meu amigo, que se olharmos para o mundo, veremos grandes figuras do show business vivendo suas vidas como pessoas comuns, no seus trajetos, no dia a dia. Como a foto, mostrada esses dias, de Paul McCartney dentro do metrô, supostamente em Londres; como também já vi um vídeo, onde o ator hollywoodiano Keanu Reeves, dentro do metrô, oferecendo seu lugar a uma mulher. São figuras reconhecidas e públicas, mas não se sentem superiores, divindades e nem heróis de sua nação.

Lá fora, no primeiro mundo, eles têm uma noção maior do que seja um ídolo e um herói. Porque tiveram muitos heróis em guerras travadas com seus vizinhos. Aqui, no Brasil, confundimos tudo. Tratamos tudo igual. Depois eles nos decepcionam, se mostram soberbos, como o cantor Roberto Carlos, que vive processando as pessoas que tentam tirar e publicar algo da sua vida. Diga-se de passagem, vida pública. Ele quer continuar ídolo, mas ser tratado como um ser intocável, celestial.

Roberto Carlos processou o autor da sua biografia. Proibiu o livro de circular, ameaçou.  Depois do episódio da biografia, ele processou também o deputado Tiririca por utilizar uma de suas músicas numa campanha política. (Deve haver outros casos, que não me lembro agora.) Tudo através de seus advogados, sem botar a cara. No final do ano, ele aparece na TV, canta aquelas mesmas canções, sorri, oferece música a Deus, às mulheres e distribui rosas ao som de Jesus Cristo. Tudo muito simétrico, calculado, igual e enfadonho ao mesmo tempo.

Esse cidadão é ídolo num país sem heróis, e por isso o avistamos, ao longe, como um cavaleiro vindo de uma batalha, com uma lança numa das mãos, quando sua música é gravada em outro idioma ou ganha um prêmio Grammy Latino. Confesso que gosto de algumas de suas músicas, mas, assim, como outros da música brasileira, só aprecio a obra e não a pessoa.

A arrogância não parou em Roberto Carlos. O manifesto dos artistas contra as biografias não autorizadas ganhou textos e mais textos em jornais. A produtora Paula Lavigne encabeçou um movimento de artistas, contra as biografias não autorizadas, chamado, à época (2013), de “Procure Saber”. Ela não só cuida da carreira de Caetano Veloso (ex-marido), mas de diversos nomes da música brasileira. A fórmula é fazer o dinheiro chegar até eles por vias mais rápidas. De Caetano ela disse em 2003:
“Hoje a gente tem quem cuide só da carreira internacional dele, na verdade é um império. E é justo que seja. Ele é um artista importante. Hoje o Caetano tem um patrimônio mais de dez vezes maior do que tinha. Vivemos bem. Somos ricos. Temos um apartamento maravilhoso na Vieira Souto, uma casa maravilhosa na Bahia e um apartamento incrível em Nova York. Minha ambição agora é manter isso que a gente já conseguiu”.
(Sentiu nojo? Eu também...)

Em 2015, O STF fez o que devia: liberou as biografias não autorizadas, para o coro dos descontentes. Por sorte, a grande parcela da sociedade brasileira já havia repudiado a atitude do bloqueio, de proibirem que algum anônimo escrevesse uma linha sobre suas vidas. O brasileiro está mudando e hoje não se deixa mais influenciar por entrevistas, lágrimas, ideias, campanhas, frases ditas por alguns desses artistas. O povo brasileiro não é mais o mesmo e já caminha por outros caminhos; se posiciona e opina. Tem procurado saber mais com aqueles que se portam como um farol em alto mar. E nossos ídolos não são mais os mesmos.

E por que eu digo isso de Roberto Carlos? O mesmo Paul McCartney, figura icônica, conhecida mundialmente, teve uma biografia publicada recentemente. Segundo um portal de notícias, o autor conta casos de um Paul humano: que se irrita, que briga, que xinga; e muito provavelmente deve lembrar também de suas experiências com drogas. O que fez o ex-beatle? Processou o sujeito, como Roberto Carlos? Não. Ele continua andando de metrô, a pé por aí, pelo primeiro mundo. Sem esconderijos e seguranças.

E Neymar? Também tem em si esse ar de soberba, de possuído por uma divindade. Faz seis anos (2011), o Santos foi jogar o torneio da final do mundial interclubes, no Japão. Neymar já era ídolo do Santos e nacional (sem ter ganhado nada lá fora). Uma semana antes do torneio, o time do Santos já havia desembarcado no Japão. Mas antes disso, caiu agora na lembrança outro fato. O menino Neymar, de férias em Santos, disputava uma partida de futevôlei na praia. A quadra desenhada por fitas na areia estava rodeada de fãs, de neymarzetes. Cada vez que a bola caia para fora da quadra, bem longe, elas entravam na quadra e agarravam o ídolo. Uma coisa bem rastaquera, digna de um país como o nosso.

Continuando. Na semana da chegada ao Japão, o Santos foi dar uma coletiva à imprensa, e um mundo de seguranças fazia um corredor para Neymar chegar e sair do local. O problema é que no Japão não havia ninguém querendo agarrá-lo. Achei aquilo brega, coisa de brasileiro que se sente superior. Dias mais tarde, depois de ter vencido o arquirrival Real Madrid por 3x2 (desculpa se errei o placar), o Barcelona chegava ao Japão, sem sirenes e alardes; e sem treino, os jogadores foram dispensados para sair com suas famílias e fazer um tour pela cidade. Também sem nenhum tipo de alarde e corredor de seguranças. Na final, entre Barcelona e Santos, o resultado foi o esperado: 4x0 para o time catalão, sem nenhum brilho do ídolo/herói brasileiro.

Em 2018, se o Brasil ganhar a Copa, com Neymar em campo, muito certo que a mídia irá dizer que ele foi o grande herói nacional. Mas ele nos livrará do quê? De uma invasão muçulmana? Acho que ele nunca leu um livro na vida; nunca se preocupou com nada, exceto os pés que lhe dão muito dinheiro. Ele não está errado; errado somos nós, que o colocamos num altar santificado, como bocós que somos.

Mas a possível vitória ainda não irá finalizar o ano de 2018. Ainda poderemos eleger um presidente da esquerda populista, como Lula (toc toc) e terminar o ano vendo Roberto Carlos, de terno branco, jogando rosas brancas às senhoras espevitadas, ao som de Jesus Cristo.

 © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017
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