BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sábado, 25 de junho de 2011

Conversa de sábado — Surpresa!

A encomenda não chegou, mas o gostoso, o mais doce é a espera, quanto tudo nos surpreende. O lado bom da surpresa é nos despertar do mal-estar e nos pôr de volta à vida — em forma de resgate. Hoje o mundo virtual — das compras online — nos dá esta satisfação. Compras pela internet são assim: você compra e paga, depois espera chegar, até exaurir a paciência do porteiro do seu prédio de tanto perguntar: chegou algo para mim? Antes, quando um disco novo saia, íamos à loja e comprávamos; a curiosidade e a surpresa acabavam até chegarmos em casa abrirmos a embalagem e pôr na agulha para tocar. Foi assim quando adquiri meus discos, nos tempos dos long playing. Hoje, atormentamos ao porteiro tarde da noite, até ele, impaciente, dizer: "Senhor, nesta hora não entrega mais SEDEX...". Vamos dormir na incompletude, e botando a culpa no pobre.

Gosto de surpreender com coisas e notícias boas (quem dá notícia ruim é o Zé velório). Quem tem esta prática, se delicia com os olhos de quem recebe. Não precisa haver troca; tudo já foi retribuído no olhar que brilhou ao ver a caixa de presente, ou a faixa de pano estirada na esquina da casa dela, ou por ler um simples e-mail. E o melhor do mundo é quando tudo vem, aparentemente, do nada; digo, sem data de aniversário, ou nenhuma data comemorativa; simplesmente pelo gesto, ou porque precisava dizer aquelas doces palavras. Conheço pessoas que gostam mais de dar do que receber presentes.

Cesta de café da manhã é algo que já recebi. Gostei muito. Primeiro, porque estava apaixonado e depois porque curto uma mesa com café, sem hora para levantar dali. Mas, já tive outra surpresa que recebi mal. Uma vez recebi um buquê de flores. Quem deu fez com boa intenção e paixão, mas minha cara não negou que não gostei. Ela até se irritou e com razão. Eu era imaturo, por não saber que seu gesto foi grandioso; e ela não era obrigada a saber que muitos homens se sentem desconfortáveis, ou diminuídos na sua masculinidade, quando recebem flores. Homens nem têm jeito com flores. Mas, para mim, naquele momento, era: homens não recebem flores. Fui grosseiro na cara, depois me arrependi. Se ela me desse uma bola de futebol, iria gostar mais, com certeza. Depois, pensei: acho que gosto mais de surpreender do que ser surpreendido.

Para os consumistas, vai uma dica: é melhor fugir das compras online e principalmente das compras coletivas. Ponha tais e-mails para cair diretamente na lixeira. Surpreender a si mesmo, às vezes vicia. Surpreenda, então, quem você ama. Assim, poderá fazer nas vezes quando o amor te sufocar.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2010.
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