BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Quando minha alma arrepiou


Geraldo Vandré - FIC - 29/09/1968
Devo confessar que nunca fui um bom speaker; não sei falar em público, ou aquilo que, talvez, eu dissesse bem melhor escrevendo. Até nos meus áudios de WhatsApp (risos) me acho horrível: voz e colocação. No entanto, às vezes, tento ser professoral nas minhas exposições. Acho que os professores (não doutrinadores) conseguem aprender muito com seus alunos também. Até por que alunos perguntam.

Já expliquei inúmeras vezes — agora com mais compreensão — os anos do regime militar que o país viveu. Cada vez que falo sobre o tema para alguém, parece que aprendo mais. Tudo ficou mais claro para mim. Tudo que eu lia nas entrelinhas (nas frases deixadas nos muros pela esquerda), agora se fecha dentro de um contexto. Com começo, meio e fim.

Estou lendo o livro do Professor Marco Antonio Villa (guardado na estante há tempos) "Ditadura à brasileira". Acho que merecia até um outro título: "O regime militar brasileiro". Afinal, vivemos, de fato, uma ditadura? Com essa pergunta quero iniciar essa conversa. 

Quando penso nesse período, volto à minha velha infância e tento lembrar de como éramos em casa. Vida pobre: um pai operário, uma mãe dona de casa, irmãos estudando em escola pública (como eu) e comendo o que era acessível: arroz, feijão, batata frita, ovo, carne moída, e café com leite misturado com farinha de milho. Nada mais que pudéssemos ter. Vida simples, mas sem faltar nada, nem mesmo o material escolar.

Mas e o Brasil? E a política? E a chamada ditadura? Éramos um país também miserável, pobre economicamente, mas de um povo trabalhador. Como interiorano, só fui me ater à palavra ditadura — e que eu fazia parte dela — ali pelos meus 17 anos (1979), quando veio toda aquela conversa de anistia ampla geral e irrestrita; e lembro da Elis cantando "O bêbado e o equilibrista", só isso. Antes disso, era tudo muito quieto dentro de mim, e sem muitas perguntas. Talvez eu fosse um alienado — palavra muita difundida nessa época —, porque não me julgava alguém cercado por barricadas e preso num mundo dominado por um ditador.

É isso que queria dizer. Ditadura tem que ver com o grande líder. O Brasil do regime militar (1964 a 1985) não teve um grande líder ditador. Ditaduras têm um cortador de cabeças, um escravizador, um partido dominante. Nós não tivemos. Vivíamos numa carestia, claro, mas éramos livres para estudar, trabalhar, ir à igreja, ter lazer. As pessoas podiam abrir seus negócios, ter patrimônios, sem dever nada para o governo que não fosse os impostos. Não havia um Estado centralizador e poderoso, o que caracteriza, de fato, uma ditadura. 

E os rebeldes? E a luta armada? E as torturas? Aí começa toda uma história, de um país paralelo, que a maior parcela da população desconhecia. Não só por que a notícia era censurada, mas porque era alheio às pessoas que só queriam trabalhar e tocar sua vida. Mesmo depois do AI-5 (1968), o governo permitia que você fizesse o que quisesse, estabelecendo um critério de censura moral nos meios de comunicação, que não fez mal a maioria das pessoas. Fez mal àqueles que enfrentavam o governo (sem conseguir convencer a população das suas causas). Noventa milhões que não deu a mínima para dez mil revolucionários. O governo só lutava — e aí está o ponto — contra aqueles que queriam derrubá-lo: grupos terroristas de luta armada. O restante da população estava pegando o trem na Central do Brasil.

Antes de 1964, o país vivia uma tensão, com o comunismo nas portas, pronto para entrar. O povo, naquela memorável "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", sentia e pedia os militares no poder. Era a força da igreja católica fazendo frente ao iminente comunismo. Os militares ouviram o clamor, entraram na briga e tomaram o poder num contragolpe, sem derramamento de sangue. Só a imposição e o bafo no cangote pôs todo mundo para correr. Um jornal da minha terra estampou no dia 1º de Abril de 1964: "Venceu a democracia".

Daquela esquerda derrotada, vejo três grupos separados. O primeiro, tão logo os militares entrarem, saiu correndo pela porta dos fundos, fugiu do país — os políticos. Um outro, correu para a clandestinidade a construir barricadas, organizar grupos terroristas em aparelhos também clandestinos — a chamada luta armada. E o terceiro grupo, se camuflou (como quem era isento), nas redações de jornais, revistas, universidades, meio artístico, cultural e — pasmem — na igreja católica. Quem influenciou a minha geração? O último grupo. Esse grupo propagou e difundiu a palavra ditadura (e todos os chavões), que perdura até hoje. O gramscismo sendo aplicado.

O fato fica evidenciado e claro. Tudo que se publicou no meio cultural, em forma de livros, peças de teatro, textos jornalísticos e na música popular brasileira, tinha a tinta de uma esquerda inconformada, irada, raivosa, tendo aqueles milicos atravessados na garganta. Um ódio que varou décadas. E esse ódio não era por que eles buscavam livrar o país dos militares e da ditadura, mas por que não conseguiram o seu intento: transformar o Brasil numa grande pátria comunista, tendo o proletariado como escudo e modelo.

Isso foi confirmado pelo jornalista Fernando Gabeira, em entrevista. E como todos sabem, Gabeira foi partícipe e atuante dessa esquerda, a da luta armada. Então, procure a palavra democracia na boca dessa gente, que nunca encontrará. Eles não lutavam por uma democracia, mas por uma ditadura; a pior e mais cruel ditadura de esquerda. E assim, seguindo a voz de Lênin (chame-os do que você é), a palavra ditadura ia colando nos ouvidos das pessoas, enquanto gozavam de liberdade, e o Maracanã lotava num FlaFlu, com 200 mil pessoas, sem nenhuma revolta ou briga. Era ditadura?

Já faz uns dois anos assisti um episódio reprisado da novela Dancin' Days (1978), e uma cena me chamou atenção. O personagem de Eduardo Tornaghi entra num restaurante segurando um livro. O livro, que identifiquei pela capa, era "As veias aberta da América Latina", escrito pelo escritor uruguaio e comunista Eduardo Galeano. Nesse mesmo ano, esse livro figurava na lista dos mais vendidos do país. Que ditadura militar (de direita) permitiria um livro comunista nas livrarias? Essa ditadura não existiu.

Li, ali pelos meus 20 anos, o livro "1968, o ano que não terminou" de Zuenir Ventura. Depois, "Batismo de Sangue" de  Frei Betto. Ambos livros narram a história do período militar, romanceada, de heróis e bandidos, contada sob um único ponto de vista: da esquerda. No livro de Frei Betto, por exemplo, logo no início você já se depara com a narrativa da morte de Carlos Marighella. (Você quase entra em lágrimas.) Anos mais tarde, fui descobrir que se tratava de um terrorista, assassino e cruel.

Em 1992, o novelista Gilberto Braga pôs no ar a minissérie "Anos Rebeldes". Mais uma vez vimos uma história contada só sob um único ponto de vista. Aqueles estudantes eram tratados como heróis que queriam livrar o país dos algozes militares. No mesmo instante que a minissérie ia ao ar, na vida real, o jovem Lindbergh Farias movimentava os estudantes contra o caçador de marajás, Collor, ao som de "Alegria Alegria".

Hoje, lembro do meu pai, e nunca ter ouvido dele que o governo militar era cruel e perseguia pessoas.

A verdade é: esse terceiro grupo influenciou as gerações seguintes. Com esse grupo aprendemos a odiar a burguesia, os milicos, a ditadura, a censura, o patrão, o capitalismo, os EUA. Ao mesmo tempo que exaltávamos a esquerda, o marxismo, Cuba, o socialismo soviético, os artistas engajados da MPB, Carlos Lamarca, Che Guevara, os sem terra, a reforma agrária, o sindicalismo, a classe operária e depois o PT.

Esse terceiro grupo colocou esses comunistas, derrotados de 64, novamente no cenário político, agora anistiados e sobre a via pavimentada da democracia. Fomos teleguiados por esse discurso de ética, moral, contra a burguesia e os milicos — ali já no limiar dos anos de 1970. E sobre os ombros trouxeram Lula, o operário nascido e criado no seio do povo, ao posto máximo do país.

Mais analítico, hoje vejo esse mundo, vacinado dessa doutrinação da esquerda que buscou se vitimizar (pós-64). Como também não vejo tão clara essa divisão extrema entre esquerda e direita. O que percebo são os traços fortes de uma sociedade que se separa em dois cenários; de um lado os conservadores e de outro os progressistas.

Como disse, vi meu pai criar muitos filhos sem dizer um pio contra o governo e praguejar contra o mundo, o capitalismo, etc.; ao mesmo tempo que lutava com todas suas forças para manter a estrutura familiar em pé. Então, me sinto hoje um cidadão amadurecido e conservador. Penso num mundo de sociedade de mercado acontecendo, um governo enxuto e menos intervencionista. Preservando a família, a religião e a propriedade privada. O Brasil, majoritariamente, é conservador, mas governado por progressistas; esses ainda ressentidos com 1964.

Penso ainda, todo progressista é um ser inquieto que, no ambiente político, deixa exposto toda sua ira com o mundo. Nada está bom. Utópico, carrega dentro de si revoltas íntimas e mal resolvidas que, para se livrar, deposita nas costas de um governo, da sociedade e do sistema econômico. Aos seus olhos, o mundo está errado e ele certo em querer revolucionar. E assim, quer trazer todos para dentro das suas crises, até aquele que está em paz de espírito. O mundo que ele quer mudar, eu só quero conservar e entender.

Caminhando para o encerramento (sei que são poucos linhas para descrever um período tão complicado da nossa recente história.), concluo.

No final da minissérie de Gilberto Braga, o casal antagônico, Maria Lúcia e João, tenta se acertar, depois que ele volta do exílio, ali por volta de 1979. Ainda descrente daquele amor, ela quer dar a ele uma chance, mas logo percebe que nada nele mudou. Ele continua com suas revoluções acumuladas e a luta armada na cabeça. Querendo consolá-la, já em tom de despedida, ele diz agora concordar com ela, quando, lá no Festival de 1968, ela dissera preferir "Sabiá" a "Caminhando". Ele reconhece, 11 anos depois, que ela estava certa: "Sabiá" era melhor. Mas eles não ficam juntos.

Está aí mais uma coisa que esse terceiro grupo também nos convenceu: a música deles. Nos fez aplaudir, emocionar. Eu colocaria uma dessas canções em cada braço para arrepiar os pelos. A esquerda conseguiu influenciar minha geração, porque tinha os intelectuais, os melhores atores, as melhores canções; sabia escolher palavras, construir frases, contar histórias; por um sentimentalismo e vitimismo de compadecer. Essa esquerda, que se apossou da cultura do país, soube mexer com a emoção e fazer toda essa geração (pós-64) sentir que nada poderia haver de melhor, atraindo todos a sua causa ideológica. Basta lembrar a campanha de Lula de 1989, o que mais havia era artista e intelectual engajado.

Os pelos dos braços continuarão arrepiando por muitas canções, mas agora sem esse sentimentalismo exacerbado, que controlo sem que me cerque. Agora posso dizer: nenhuma dessas canções conseguiu arrepiar mesmo foi a alma. E dela posso sentir, quando ouço e leio palavras que me encorajam, que agora me encontram compreendidas. Falo de liberdade, democracia, justiça, compaixão, amor, esperança e a busca incansável pela verdade. Aí minha alma arrepia.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Setembro de 2016
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