BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A taça de vinho (quase) vazia



Meu domingo à tarde, com o sol ardendo lá fora, é aqui dentro. Aqui dentro de casa, deste escritório, dentro de mim e na frente desta tela. Esqueça o churrasco, os amigos, a conversa fiada. Quando venho para cá (para este Blog) é por que o caldo entornou; é por que há muitas frases soltas, vírgulas e et-ceteras no caminho — um divã de palavras. (O et-cetera de "Crônicas" são as batalhas que não se esgotam.) Pode o mundo ruir, mas as questões nunca. Sempre caberá uma pergunta derradeira no fim do mundo: Por que acabou?

Bem, não sei por onde começar, o que me incomoda desde quando saí caminhando da igreja, mas vamos lá.
 
Se o leitor atual revirar aqui no Blog, vai encontrar o texto Eu não tenho mais tempo para errar, onde eu abordo sobre essa inquietude que acomete as mulheres, de querer formar uma família, ao mesmo tempo que a fertilidade vai escorrendo por entre os dedos. Era uma preocupação da ocasião. Então, volto a questionar essa mulher caminhando para o amadurecimento (entre os 30 e 40 anos).

Foi esses dias, fiquei entalado pela saliva, depois de me ater numa conversa de botequim com mulheres nessa faixa etária. Descobri que, elas já não pensam tanto assim sobre essa vida partilhada e família constituída como regra social. Elas já buscam outras causas (focos), que não sabem bem o que são, mas é para lá que querem ir. Como entender isso? Estou tentando.

Então, inquiri: — Você quer casar e ter filhos? E a resposta veio negativa. Encontrar alguém, sim, com quem possa passar umas horas, viajar, fazer sexo, mas nada de ter responsabilidades com filhos e outras preocupações. Decifrei algo mais: ela, ao que me parece, nem deseja desfrutar do mesmo teto. E ainda fez uma auto pergunta: — "Será que precisamos mesmo encontrar alguém?" Algo traga essa mulher para um lado escuro da vida. Ela não sabe, porque desconhece essas forças do mundo que a embaraça e transporta seus olhos para outros desejos.

Para muitas delas, um homem do lado — sem muitos traumas do passado, claro — é o suficiente; aí pode complementar com um cachorrinho, ou um gato e já basta. Nada que dê muito trabalho. Depois, ela é uma mulher fitness, que pedala, corre, sai com as amigas (cazamigas), faz pós, faz selfie no face, ri muito, faz serão, etc. Uma mulher sem tempo para banalidades e coisas ultrapassadas como carregar uma barriga por nove meses. Em consequência, a celulite que isso gera. Deus me livre!

O que tem mudado esse comportamento? O que faz essa mulher jovem escolher o caminho da academia ao do altar e maternidade? Por que ela não tem mais medo do pejorativo "solteirona"? Talvez estejamos mesmo passando por esse período, como uma sombra que paira sobre um mundo já sem afeto, de alegria triste e tudo que a expulsa para fora desse modelo social. Pode ir embora ou ficar por longo tempo.

O relativismo moral, muito presente em nossas vidas, minimizou o pecado, a tragédia, o rubro da face, a culpa; não há certo ou errado, bem ou mal, belo e ridículo; porque tudo virou ponto de vista — uma quebra de regras seculares. Essas coisas que nos deixam mais light e não nos implicam mais com nada — a cabeça erguida, sem culpa, diante do ato mais vexatório. A verdade foi arrancada do mundo pelo ponto de vista de um idiota. Quem lhes tirou o sonho do vestido de noiva? E do buquê? E da lua de mel?

Li uma entrevista do psiquiatra Augusto Cury, onde ele afirma que temos uma geração triste e depressiva. Ele fala desses novos seres que ainda estão dentro de casa, dando trabalho aos pais. Mas posso dizer que, a geração da tristeza-sem-razão é contagiante, está em nós, adultos. O mundo anda triste, sem razão:
"Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Essa geração precisa de muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa se lembrar de que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, se encantar com astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não são rápidos como as redes sociais."
Ninguém quer lutas muito pesadas e cruzes para carregar. Todos fogem dos problemas com medo de não dar conta. Desejam viver o superficial da vida, evitando tropeços, arranhões e quedas. Um filho que chora, um marido que trai, uma casa para cuidar, uma conta bancária no limite do cheque especial? — Estou fugindo disso! — pensa essa nova mulher.

E não digo que há um dedo do sexo masculino nisso (nessa mudança de pensamento). Há sim. Desde que o sexo ficou fácil, o amor ficou difícil. A frase que já li por aí é, sim, verdadeira. O jogo de sedução do homem é agora também o dela. Elas se jogaram na vida.

O jornalista Arnaldo Jabor disse numa entrevista que, nos anos 1960, para você comer uma mulher que estava afim, não era assim tão fácil. Você tinha que ter pensamentos revolucionários, ser marxista, de esquerda (ou dizer que era), demonstrar um certo ar de rebelde sem causa, etc. Hoje a coisa mudou. O homem não precisa muito esforço para seu intento, basta que tenha um pouco de dinheiro e ostente algo que não tem; depois que esteja no lugar certo, na hora certa e disponível. Então, você quer dizer que ficou chato ao mesmo tempo que ficou fácil? Sim, o sexo casual banalizou o desejo pelo sexo oposto. É muita oferta com pouca qualidade. Mas quem quer qualidade?

Uma coisa que me vem agora é, depois que o Estado brasileiro resolveu interferir na condução da família, impondo a  tal lei da palmada junto com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), os pais perderam a autonomia para criar filhos ao seu modo. Em consequência, essas solteiras passaram a enxergar um estorvo e aí desistiram do desejo. A impressão clara é que, o governo petista, que nos guiou por 13 anos, trabalhou contra o modelo de família. Com isso, a família passou ser qualquer união entre pessoas, mesmo que dure uma semana. Eles conseguiram nos atingir.

Faço um novo parênteses, para lembrar um trecho de um texto de Luiz Felipe Pondé, publicado na Folha de São Paulo, onde ele fala de pessoas críticas (muito comum nos dias de hoje) e como elas estão destruindo o desejo:
"Outro fetiche é o da revolução. Toda pessoa crítica faz uma revolução por fim de semana. Mas, entre todas, a mais ridícula é a revolução sexual, aquela que matou o desejo e o afeto entre homens e mulheres. Quando, no futuro, estudarem nossa época, perceberão que, entre as baixas causadas pela gente crítica, estarão o afeto e o desejo. Nunca ambos foram tão falados e tão combatidos a pauladas. Afogados na banalidade das quantidades."
A morte do desejo e o afeto, é isso, só pode ser isso que está acontecendo. Quanto mais nos tornamos amantes da nosso umbigo (amar a si mesmo), mais deixamos de ter desejos e afetos. O que vamos concluir lá na frente, que não precisamos de ninguém, nos bastamos. Sem percepção e mais contato dos sentimentos que estão indo embora do mundo. Quando o sexo tornou-se um assunto político e saiu da cama, banalizou e virou discurso de tribuna, e não mais o desejo de um pelo outro.

Tudo vem para embaraçar, criar nuvens de fumaça onde tudo parece ser tão simples. Como ensinar, por exemplo, seus filhos que há outros gêneros além do masculino e feminino? E que ele pode ser o que quiser (homem ou mulher); e se ele demonstrar seu machismo por aí vai sofrer represálias. Os portais de notícia — leia a UOL e saberá — vivem trazendo temas polêmicos (pelo menos eles acham), para uma sociedade, majoritariamente conservadora, discutir. Levam pau nas redes sociais. Ninguém quer saber se há homens transando com homens, mesmo não se achando gays por isso — o que eles chamam de HSH. Quem eles querem atingir com isso? Tirar pessoas do armário, talvez.

Como que a humanidade passou milhares de anos, sem saber, e só agora esses jornalistas bonzinhos vêm nos trazer esses novos arranjos? Essa gente pensa que o mundo começou nos anos 1960, só pode. Depois, eles mudam os termos para dizer que há algo novo e bom que só nos "fará crescer como seres humanos". Falo do tal "poliamor" (entre aspas), uma prática que estão dando manchete como uma nova roupagem ao que já chamávamos antes de suruba, ou poligamia.

Esses progressistas são os contribuintes desse mundo, que dizem ser melhor; eles estão dando um fim no desejo, no afeto, no interesse singelo e milenar entre homens e mulheres. O que essa gente quer para o mundo? Eu não sei, porque eu sempre pensei em preservar o que eles querem mudar. É uma luta eterna.

Neste momento (caminhando para o encerramento desta crônica), no arrebol desta tarde, essa balzaquiana, de quem eu falo, está numa festa com amigos, bebendo, fazendo selfies, sem muita preocupação que amanhã é segunda-feira, e ela terá um dia hard pela frente. (E essa não é a vida?) Mas, nada que uma boa aula de bike no fim do dia não renove. Depois, ela vai para casa comer o que tem na geladeira e ficar de pernas para o ar no WhatsApp.

E este cinquentão está aqui, pensando nela. Sob um pavor, que esse mesmo mundo que a tragou, também com ele está flertando: venha, venha... Percepções e sintomas de quem tem como única companhia, aqui e agora, a solidão de escritor — eles são sempre solitários — e junto uma taça de vinho quase vazia. Acabou. Por que acabou?

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Setembro de 2016
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