BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O pulo do sapo



"O sapo não pula por boniteza, mas por precisão", já dizia Guimarães Rosa.

Estou numa fase da vida que não posso dar um passo sem ter que consultar minha dieta alimentar, ou melhor, reeducação alimentar. Tudo ainda num momento de adaptação. A idade vem e junto agravam ou aparecem as doenças. Principalmente aquelas invisíveis.

Para tanto, tenho dedicado parte da minha vida a uma alimentação mais saudável e outra ao exercício físico. Não adoro nem uma nem outra coisa. Faço por necessidade mesmo. Como barrinhas de cereais e castanhas do Pará sem paladar, mascando sem prazer. Vou bocejando e com preguiça para academia, pensando na cama, na TV, no livro, na crônica e na canja de galinha quentinha. Tenho preguiça até de atravessar a rua.

Quando chego, é claro que esqueço tudo e suo um bocado. Enquanto a aula não começa, fico me aquecendo nas pedaladas e olhando o entra e sai de pessoas. Em lugar de muita gente, não tem como não reparar. Quando vem a pergunta: o que quer essa gente? Será que é por precisão ou por boniteza, mesmo?

Enxergo mais longe que isso: o mundo virou um fashion day, uma passarela de anônimos em culto ao ego e ao corpo. Só perceber os selfies nas redes sociais, totalmente exibicionistas. Todo mundo (homem e mulher) quer ser lindo e ser invejado por outro menos lindo que ele. E muito menos não quer pensar em morte, achando que ela nunca chegará; todo mundo quer a fonte da juventude, com felicidade plena e eterna. E por isso nunca se pedalou tanto as bikes, nunca se fez tanto running e musculação. Aquilo que a gente via nas corridas de São Silvestre, uma vez por ano, passou a ser corriqueiro nas ruas da cidade. Todo mundo resolveu correr: ignorantes, inteligentes, empresários, motoboys, comerciantes, pobres e ricos. Virou moda ter saúde. Se você ainda fuma, não pense em fumar perto de gente assim. Você terá aulas de saúde com o dedo apontado.

Depois, indo para um ambiente mais radical, irá deparar com um vegetariano ou um vegano (não conhecia até pouco tempo essa palavra). Esses são mais chatos ainda. Há uma postagem no Facebook de uma mulher se gozando toda — há um vídeo junto à postagem —, porque sua filha, que gosta só de vacas no pasto, está cantando Milton Nascimento para uma plateia de vaquinhas no alto de um morro. É claro que ela acha que as vacas estão ali só porque sua filha é vegetariana e jamais comeria suas carnes. Ela deve pensar também que, eu e qualquer outro carnívoro que resolvesse cantar para as vaquinhas, elas não dariam a mínima atenção. E pior, tem gente que crê nisso.

Mas voltando à moda. É só perceber a quantidade de academias que se espalham nas cidades. Agora tem as ao ar livre, colocadas em praças públicas e na praia. Ninguém pode dizer que não faz exercício, por falta de dinheiro. É de graça, está na rua. Depois, outra coisa que surgiu é o tal de personal. Se você quer um educador físico só para você, que te atenda dentro do seu tempo, você pode contratar um.

Acesse a internet e encontrará inúmeros canais no YouTube com aulas de todos os tipos, para o aeróbico, para perder barriga e para formar os músculos. Também na internet irá deparar com as vendas de suplementos alimentares para quem pratica esporte. Na rua, lojas especializadas em corridas e bikes também estão em cada canto da cidade, vendendo todo tipo de equipamento e acessório.

Reflito: cada vez que as pessoas não acordam, ou demoram acordar para a realidade, porque estão só preocupadas com seu bem estar — o egoísmo e o individualismo são quase sinônimos —, os inimigos do mundo avançam, dão um passo a mais na sua destruição. Porque olhar para o abdômen sarado é um prazer, melhor que olhar o jornal e ver a corrupção corroendo as estruturas da nossa frágil democracia; já num estágio avançado de exportação de "profissionais" da área. Menos abdômen e mais livros, por favor!

Mas toda essa minha narrativa é para perguntar, aquilo que me veio enquanto pedalava na academia: o que querem essas pessoas para suas vidas? Eu tenho preguiça, como já disse, e sei que o exercício físico é por precisão e necessidade, mas acho que muitos ainda procuram e estão atrás de si mesmo: dentro do seu corpo, do seu músculo, do seu tônus. Eu estou em algum lugar de mim, onde? — procuram. As pessoas de hoje não sabem envelhecer, não querem a velhice. E se enganam olhando no espelho, de corpo inteiro.

Afirmo isso, porque outro dia conversando com uma esteticista — outra profissional dos novos tempos —, ela me contou que, numa clínica onde trabalhava, era corriqueiro o uso de botox em mulheres acima dos 50 anos. A qualquer sinal de linhas no rosto, elas corriam lá para corrigir. E aquele rosto ia ficando deformado de tanta aplicação. Hoje, o silicone e as aplicações de corretivos já ultrapassaram os limites da simples necessidade e entrou para o campo do exagero e do bizarro. Para muitos virou meio de retenção do tempo, como uma forma de "se amar".

Guardei as palavras. Minha antiga terapeuta me disse uma vez: cuide do corpo, da alma e da mente. Não adianta você focar só numa coisa, enquanto as outras duas partes estão doentes.

Quando eu era criança, e brincava no quintal da minha avó, eu tomava água numa talha de cerâmica que ficava sobre a pia. Com o rosto suado e salpicado de sardas, eu pegava a caneca  de alumínio e tentava alcançar a água — era alto para minha estatura. E quando não dava, subia na cadeira. Aquela água vinha da torneira, que vinha do cano galvanizado (enferrujado?) da rua, que vinha da estação de tratamento e sem nenhum filtro. Tomava por sede, porque ninguém se importava se continha germes ou bactérias. A evolução naquela época era o filtro de barro vermelho. Na minha e na casa da minha avó chegou alguns anos depois.

Hoje, até a água que tomamos deve vir em galões de fontes de águas cristalinas, em nome da saúde e de evitar doenças. Todo empresário empreendedor, que analisa mercado, entende isso perfeitamente: venda saúde, não venda cigarros mais! Ele está certo.

Com tudo isso, estamos cercando demais a vida do seu previsível fim e esquecendo de que ele é certo. Esquecendo de se saber, de se ver na alma; esquecendo de ser de verdade consigo e com os outros. Aprender a envelhecer é uma arte e deve ter seus cuidados e prazer. Pena que a maioria das pessoas por aí estão vazias de conhecimentos e verdades, mas cheias de botox no rosto. Vão chegar ao fim da vida não frequentando mais uma clínica de estética ou academia, mas um consultório de psicanálise: minha vida está acabando e ficando sem sentido, o que fiz durante os anos que vivi? A alma estará, assim como o corpo, em frangalhos.

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Abril de 2015
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