BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Os donos do mundo e o show de Truman


Às vezes tenho a sensação que vivemos num engano coletivo, que todos estão numa vida e eu em outra. Questiono-me: será a vida uma grande ilusão e só alguns na realidade? E esses, prisioneiros de uma rede de mentiras sem fim, para si e para os outros? Como no "Show de Truman" e num Big Brother de multidões: malhando o corpo, discutindo tolices, para no final despedir-se da vida, com o riso falso de "foi bom estar aqui". (Há falsidade até na hora da morte.)

E sem mais tempo, no final, descobrirá que a vida não era nada daquilo que viveu. Que o céu não era de papel com nuvens de algodão, e o sol uma luz de feixe âmbar se movendo por controle remoto; e todos os despertados, que tentaram lhe contar a verdade, foram eliminados pelos donos do jogo. Você morrerá inocente, sem conhecer um naco da vida real.

Mas diferente de Truman, meu show é de um mundo verídico e na temperança; sem meias verdades, Faustão e a alienação do riso sem graça, da cara Casé. Enquanto todos me ignoram, eu vejo o mundo que dão às costas (em não querer se defrontar no espelho). Porque é mais fácil virar-se, mudar de canal, de assunto, do que encarar as noites e os dias: do fogo que arde, da fome que assombra, da ferida que se abre, da liberdade ceifada, da lágrima que cai sentida...

Esses (outros Truman) se veem num cenário de ilusões e de vida superficial, rasa e, cenograficamente, assistida por seus milhares de espectadores vazios e sem rumo. Alimentando quimeras temperadas por esperanças vãs. Pobre gente e os donos do seu mundo. 
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Março de 2017
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