BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O fim da infância


Quando a AIDS surgiu no mundo, acendeu um sinal de alerta na cabeça das pessoas: era preciso pôr um freio em certos comportamentos, como assim dizer, além das fronteiras da normalidade da vida. A doença  do comportamento veio para estancar um estado de libertinagem, de sexo sem cuidados e o uso indiscriminado de drogas injetáveis. Tudo só para o meu prazer (sem consequências). Quando acordaram, descobriram, sim, que haviam consequências, e graves.

É possível ver ali pelo final dos anos 1980, artistas, políticos, e todo meio jornalístico falando no assunto, com muito espanto e olhar de assombro. E todo mundo se fechando mais dentro dos seus relacionamentos, das suas casas, suas vidas, da família e deixando de frequentar grupos de drogados, garotas de programas e festas de orgia. O medo da doença tomou conta do cotidiano. Em pouco tempo, ela saía dos grupos de risco e já se espalhava em outros ambientes comuns. Daquela época para os dias de hoje, o que não mudou, foi: AIDS mata!

A chegada de coquetéis de controle da doença veio como um alento às pessoas que ainda se permitiam viver perigosamente, trocando parceiros e seringas: por ofício ou por prazer. Junto com essa sensação de alívio, aplacou-se um relaxamento, retornando os velhos hábitos de se transar sem preservativos, de transar muitos com muitos; depois o uso de seringas compartilhadas em ambientes de viciados. Conclusão, o simples fato de haver um remédio de protelação da vida, fez com que todo mundo esquecesse e regredisse, imaginando que estava tudo bem e a tormenta havia passado.

Quando imaginávamos que aquele freio psicológico havia sido entendido pela sociedade — pessoas e o sangue em suas veias são transportes de doenças —, que as famílias iriam ser resgatadas, que as drogas iriam sumir, tudo volta com outra feição. Não é preciso dizer que a AIDS voltou ameaçar a sociedade e principalmente no Brasil. Nos hemocentros ainda se têm todo um cuidado, mas o comportamento das pessoas nas ruas, não. E hoje, o grupo onde ela mais aparece, continua sendo os novos homossexuais. Jovens que não viveram aquele período do medo. Eles desconhecem o perigo e se arriscam.


E por que essa longa introdução? Para dizer que estamos perdendo a percepção das coisas, do tato, do olhar sobre o mundo que habitamos; estamos perdendo o jeito de viver a vida com os cuidados que ela exige. Estamos numa era da permissividade, do abuso inconsequente (com ou sem camisinha). Viva a liberdade de ser o que quer e da forma que quiser (muito além da revolução cultural dos anos de 1960). Se for criança ou adulto, não há regra que separe as gerações daquilo que, por liberdade e escolha, lhe é permitido fazer. Hoje, os contaminados do HIV já não se escondem, com vergonha e medo, como na década de 1980. Eles agora espalham a doença em seringas contaminadas dentro de coletivos, como ocorreu no nordeste do país.

Também hoje, as poucas pessoas mais esclarecidas estão pensando muito em pôr filhos no mundo, sem antes preparar o mundo para eles. (Eles sentem esse termômetro de um mundo infectado de outros males). Outros, porém, acham que terão seus filhos eternamente debaixo de suas asas, e eles estarão imunes aos contágios que a vida lhes trouxer. Ledo engano. Falo isso, porque lembrei de um colega de trabalho que, antes da filha nascer, já dizia em qual colégio ela iria estudar, pensando em livrá-la de ambientes nocivos. Só esqueceu que ela um dia vai sair de lá. Que esse seu lado protetor não depende dele. Uma hora o mundo irá se encarregar de cuidar do seu rebento.

Um jovem funkeiro expõe sua filha de 08 anos à erotização em shows, vídeos e fotos nas redes sociais. Ela tem um codinome de MC Melody. Um professor universitário esquerdista escreve em seu Blog um texto asqueroso e canalha fazendo defesa da pedofilia — gente progressista. Um político conhecido defende que crianças com 12 anos possam decidir mudança do seu sexo, mas, incoerentemente, se diz contra  a redução da maioridade penal para 16 anos. Nas escolas, o ensino do beabá (matemática, português, ciências), como tem que ser, foi substituído por um ensino de "consciência política" voltada ao marxismo. Quase o fim...

O pai dessa garota erotizada aos 8 anos disse, numa entrevista, que ele sabe muito bem o que faz: ela estuda e isso [dançar erotizando] é só um trabalho... Em outro vídeo ele mostra um colar no pescoço e diz que custa vinte e cinco mil reais, e que são poucos os que podem ter um, quase esfregando na câmera. Sua filha é só um produto do seu intento: o gosto pela ostentação, sem medir consequências do que possa estar acima do bem e do mal.

O que reina nesse nosso novo mundo é a ostentação de riquezas, ter poder e dinheiro. Mesmo que você não possua nenhuma das três coisas. E você não precisa ter cultura ou berço para tê-los. Irá atrás, nem que para isso sua filha fique exposta como carne numa vitrine, ou como uma manequim de roupa nova a ser devorada por gulosos e por quem quer que seja. Vale tudo pela ostentação e poder.

A erotização infantil vem de encontro com uma outra nova tendência dessa "engenharia social": a pedofilia como doença. Já existem pensadores (do mal) pregando que é preciso olhar com outros olhos um pedófilo. Há trinta anos não imaginaríamos que estaríamos hoje vendo casais homossexuais desfilando em novelas, como se isso fosse a coisa mais corriqueira em nossas vidas. Não é! Eles existiam no anonimato, mas agora virou voz a ser ouvida, e sob o seu pensar se aniquila uma sociedade predominantemente heterossexual. Ser respeitado não quer dizer que devamos seguir e compartilhar. No fim, somos todos sopros divinos com acertos e erros, e nada mais. Mas o que vem daqui em diante é a figura do pedófilo, como protagonista de alguma trama na nossa vida. E todos nós iremos aplaudir isso num futuro, não muito distante. Relativismo cultural.

Quando completei 11 anos (já pré-adolescente), eu lembro que ainda conservava muito a infância. Meu amiguinho de escola, que morava alguns quarteirões da minha casa, me chamou para brincar de carrinho (miniaturas de automóveis). Fui a pé e sozinho. Ele morava numa casa que ficava no fundo de um terreno íngreme, com a parte toda da frente arborizada e livre para brincar. E seus novos carrinhos passavam de mão em mão no chão de terra. E naquele momento, a indagação veio na nossa cabeça: já temos 11 anos e ainda brincamos de carrinho? Foi a última vez que brinquei. Hoje as crianças perdem o gosto por brinquedos, como esses, já nos primeiros anos de vida.

O artigo anterior, do escritor Contardo Calligaris, fala dessa infância, e me inspirou a escrever sobre esse outro lado dela; esse lado obscuro e empalado. Ele focou na disputa dos pais divorciados pelo amor dos filhos "repartidos". Com um, ele tem a permissão; com outro, a proibição. Com quem eu aprendo? — deve perguntar a criança. Ele fala de um problema, mas a coisa é pior que a simples divisão de amor entre pais separados. No extremismo, iremos desaguar nos casos daqueles que não dão a mínima, e sequer se preocupam com o que seu filho faz ou deixa de fazer.

Só posso dizer uma coisa: estão acabando com a infância; estão acabando com o ser humano que habitará o planeta nos próximos séculos. E o mundo vai vivendo esse estado febril, letárgico e inconsciente; com todos achando que está tudo sob controle, assim como a AIDS aparenta estar. Todo mundo finge e acha que pode se curar ou curar as vidas de seus rebentos, quando bem entender. Ou, simplesmente, ignorar tudo por completo e curtir sem limites para viver (com ostentação). Essa é uma doença moral em estágio avançado. Será que haverá remédio e cura a longo prazo?

Toda vez que vejo alguém festejando o nascimento de um filho, neto, ou qualquer parente, eu já penso no futuro daquele serzinho. Vejo aquela criatura ainda indefesa, diante de um mundo remendado, vazio de valores. E isso me dói. Será que ele verá, no seu mundo, um amanhã que valerá a pena ter nascido e viver? Deus esteja no comando! 

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Abril de 2015

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