BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Jardins da Infância



A voz da criança sussurra em meus ouvidos. Ela está aqui soprando suas canções e palavras ternas: vamos brincar de viver! Foi lá que pintei minhas melhores obras de arte; foi lá que colhi as minhas estrelas; foi lá que deixei meus diamantes enterrados. Nos jardins da minha infância eu volto todos os dias, encontro meus tesouros e tudo o que me posiciona forte diante da vida.

Faz pouco tempo, troquei e-mails com uma amiga estimada. Em seus desafogos, falava de resgate, de busca do (seu) elo perdido e de como aprender a descascar laranjas sem cortar os dedos. Em meio àquelas palavras guardei uma frase: “tudo que eu aprendi está lá no montinho de areia do jardim da infância e não no topo da montanha...”. Depois que li aquilo me peguei debruçado na janela da minha alma. Nossa! Quanta caminhada até aqui, quantas montanhas subimos e o que somos? Um punhado de conceitos e de lições que aprendemos no raiar de nossas vidas, lá na nascente do rio.

Contudo, é comum negarmos tais aprendizados e acharmos que desbravamos nossos horizontes nas páginas dos livros do colégio ou na cadeira da faculdade. Até que um dia, num piscar de olhos, nos deparamos sentados na poltrona do psicanalista, e como disse Vinicius de Moraes: e isso é pior que o infarte.

Padre Fábio de Melo é hoje no país um dos palestrantes mais requisitados e assistidos, (embora não tenha por ele grande apreço e fico na interrogação). De família humilde e pobre, não há como negar o quanto deve ter se aprofundado nos estudos para chegar onde está; e com toda riqueza que traz no seu bojo: a palavra de Deus. Ele é uma evolução dos padres pop star, pois, além de cantar, escrever, sabe explanar bem, tudo que inegavelmente é bom de ouvir. Mesmo assim ainda lhe sobram atributos, pois para outras de suas seguidoras ele é simplesmente Lindooo!

Numa dessas palestras, ele contou uma história que me chamou atenção. Contava sobre uma passagem de sua infância, aonde ele vai com sua mãe a uma sacaria comprar arroz - para que não sabe, nas cidades pequenas, sacaria é o local onde se compra cereais a granel. Chegando lá, sua mãe perguntou ao proprietário quanto custava o quilo daquele arroz mais quebradinho, ou seja, o arroz de terceira categoria. Com alguns contos de réis, ela pediu que pesasse cinco quilos que iria levar. Enquanto separava o arroz num saco de papel, o homem quis saber se era para dar à criação. De prontidão ela respondeu: “não, é para comermos mesmo...”. A criança ali ao lado morreu de vergonha. Não há como negar que aquela cena foi uma porçãozinha de areia que caiu no seu montinho; e se não houvesse tanta riqueza na sua vida, tal imagem já estaria apagada da sua mente.

Não temos noção, mas quando nossas mãozinhas pequenas colocavam mais areia no montinho, era mais uma lição que nunca mais esqueceríamos. Tais ensinamentos nos são dados, mesmo quanto por um instante sentimos vergonha até da vida. Depois mais tarde, já dentro do seminário, ele teve coragem de contar este episódio que durante anos o envergonhou.

Reconheço que não tenho boa memória para lembrar fatos da minha infância. Diferente de um primo que é um verdadeiro Forrest Gump para contar histórias. Algumas dessas parecem comuns a todos nós, mas lembro, por exemplo, quando meu pai me levava junto com meus irmãos cortar cabelo. Para mim era um martírio, pois demorava, com a barbearia sempre cheia. Enquanto esperava a minha vez, sentava na soleira com os pezinhos na calçada e ficava ali contando carros e vendo o entra-e-sai de gente nos ônibus que paravam no ponto. Quando finalmente me chamava, eu era colocado numa tábua apoiada nos braços da poltrona — minha pequenez era demais pra ficar sentado na poltrona, sem exigir da coluna do barbeiro. Não sei por que razão me dava sempre um acesso de riso, quando me via no espelho com aquele manto branco que cobria meu corpo todo. Talvez me achasse lindo demais, um super-herói... É claro, ria de soslaio, para não chamar atenção do barbeiro. Depois, saíamos dali todos com o mesmo corte de cabelo — aquele do topetezinho.

Foi nessas remotas viagens, construindo meus montinhos de areia, que veio uma das melhores imagens da minha infância. Era tarde de um domingo, presumo, meu pai nos levou a um churrasco da fábrica onde trabalhava. Chegando lá deparamos com uma multidão, e como não havia organização, nós não conseguimos comer um naco de carne sequer. Depois de algumas vãs tentativas, fomos embora frustrados e com a boca cheia d’água.

Já em casa, ao ver aquele abatimento geral, meu pai pediu para um dos meus irmãos fosse até o mercadinho próximo comprar: pão, mortadela e guaraná. Que alegria! Minha paixão por um guaraná era tão grande, que para dar a sensação que aqueles goles nunca iriam acabar fazia um furo na tampinha da garrafa. Assim, demorava, demorava... O guaraná daquela noite não era aquele que, nas poucas vezes que entrava em casa, era compartilhado com outros irmãos. Desta vez meu pai pediu para comprar um guaraná para cada. Já ia noite adentro quando fizemos aquela ceia com todos reunidos à mesa. Aquele gosto do churrasco entalado foi embora, o que sentíamos agora era um gosto bom de amor e de ternura. Meu pai não podia nos dar o paladar do apetitoso churrasco, mas o pão com mortadela e guaraná era o melhor que ele podia fazer por nós naquela noite. Reconheci. Devo ter tido ceias mais ricas ao longo da vida, mas nenhuma teve o sabor e os valores que essa deixou marcada na minha alma. Definitivamente, meus diamantes foram ali enterrados, guardados.

Encontraremos mundo afora, pessoas com notoriedade ou não, contando outras histórias de vida singela; de caminhos difíceis, carregando pedras e subindo topos de montanhas. Malgrado, para alguns, o sucesso alcançado faz esmaecer da memória as cores do arco-íris que só nossa infância nos permitiu embevecer. Que pena. Por outro lado, há aqueles que corajosamente abrirão suas gavetas, com seus anjos e monstros, sem dor ou medo da vida que em si guardou. Com certeza, esses serão adultos bem melhores e verão a vida sempre mais bela, em multicor.

Ainda hoje nas minhas idas semanais ao supermercado, sempre me lembro de não faltar mortadela. O cheiro e o sabor ainda continuam como naquela noite do meu jardim da infância, onde verdadeiramente eu aprendi.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2010.
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