BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sou brasileiro, mas não tenho orgulho

Desculpe. Mas eu não faço parte do coro daqueles que vão a ginásios e estádios esportivos gritar “SOU BRASILEIRO COM MUITO ORGULHO”. Como posso ter orgulho de um país, cuja educação é uma das piores do mundo, em 88º lugar; onde a saúde, que deveria vir de graça a nós, pelos impostos altos que pagamos, obriga-nos pagar mais pelo particular, para ter um atendimento melhor. E achamos que é isso mesmo e tudo está bem. Não está! Como posso ter orgulho de um país, onde os meios de transporte públicos estão sucateados e não funcionam, fazendo cada um de nós um refém do automóvel, que depois temos que pagá-lo em dolorosas prestações; e com anciãos e deficientes físicos amargando uma vida entre quatro paredes, porque as ruas, com suas calçadas esburacadas, não lhes permitem se locomover com segurança. Como posso ter orgulho de um país, onde há mendicância pelas cidades onde passamos, e não é de imigrantes tentando se estabelecer no país, mas de brasileiros mesmos, sem emprego, sem moradia e sem ter o que comer. Onde se criam leis de cotas raciais para pôr fim a tal “desigualdade social”, onde deveria, sim, era investir em educação básica para todos, sem distinção de cor de pele e credo religioso.  Como posso ter orgulho de um país, onde a lei que mais impera é a “Lei de Gerson”, porque brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. Certo? Errado, Sr. Gerson! Como posso ter orgulho de um país, onde o traficante de droga ostenta, empunha armas de grosso calibre e tem mais autoridade que o poder constituído pelo voto que demos nas urnas; onde as pessoas acham graça e votam pela alegria do palhaço que diz “pior não fica”. E achamos que é isso mesmo e tudo está bem. Não está! Como posso ter orgulho de um país, onde as pessoas se emocionam e opinam sobre novelas, mas são incapazes de ler as páginas políticas de um jornal e se indignar com tudo. Como posso ter orgulho de um país, onde a maioria dos postulantes almeja um cargo político, porque no fundo, pretendem se enriquecer com a política, como muitos que já estão lá. Como posso ter orgulho de um país, onde as obras públicas são superfaturadas e dinheiros desviados para abastecer campanhas políticas; onde carros-fortes saem dos bancos com milhões de reais, também para abastecer esquemas de corrupção, como o mensalão; onde há desonestidade em todos os níveis sociais, desde o mais pobre ao mais rico. Como posso ter orgulho de um país, onde um partido político quer se estabelecer único e soberano em todas as esferas de poder, nem que pra isso tenha que mentir, enganar, roubar, extorquir, infringir, aniquilar e eliminar quem estiver pelo caminho. Pela simples razão de poder. Como posso ter orgulho deste país, de gente intelectualmente e culturalmente miserável. Como posso ter orgulho de um país, que empobrece seu povo a cada dia, sugando-lhe até última gota de seu sangue. Aceitamos e achamos que é isso mesmo e tudo está bem. Não está! Agora, diga com sinceridade, você teria orgulho?
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2012.
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