BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Provou do próprio veneno


Outro dia, uma pessoa quis chamar-me atenção através de uma rede social. Tem isso agora, a exposição de nossos comentários e opiniões reserva às pessoas o direito — sem dar o direito — de invadirem o nosso espaço para tecer comentário, não sobre o assunto que se expõe, mas sobre nossa pessoa. Por uma simples observação.

Como já afirmei em outra crônica, a melhor descoberta da liberdade — e aqui se fala também da expressão — é dissociar ideias, pensamentos, informações e pessoas. Assim como, o sujeito do verbo. A coisa mais fácil é comentar a lógica. É o que procuro fazer. Hoje, faço isso e assim convivo com todos em todos os ambientes, até nos virtuais.

Mas o sujeito do comentário foi petulante e insistiu em querer me rotular, afirmando que, por eu não gostar do comportamento — não da arte — de alguns artistas, que, por suas atitudes têm pensamentos e ideologia esquerdista, eu seria então de direita. Oh my God!

Especificamente, eu dizia da atitude hipócrita de John Lennon (pessoa pública), que após a dissolução do grupo (faz-nos felizes até hoje), começou a erguer bandeiras pela paz e aparecer sem roupa à frente das câmeras de TV (sempre a exposição). Um indivíduo que vivia em guerras internas e individuais, lutando pela paz, parece-me um tanto desvio de personalidade. Isso se chama hoje de marketing pessoal. Outros também fazem o mesmo por aí, como Bono Vox, por quem não tenho nenhuma admiração, exceto por algumas de suas canções.

Cito um trecho de um livro que li sobre Lennon e de como ele viveu a tratar mal seus antigos parceiros, em especial Paul McCartney. Quando Paul foi visitá-lo em Nova Iorque, no Edifício Dakota (o mesmo onde foi assassinado), Lennon o tratou mal já pelo interfone e quase o mandou embora. Ou, o que você está fazendo aqui rapaz? São as guerras internas de um “pacifista”.

A diferença de Paul para John é que o primeiro sempre foi um líder nato. Nos ensaios era quem dava as cartadas e dizia como deveria ser os arranjos. Nas entrevistas, no palco, também era quem falava com o público. Depois da banda, continuou a fazer aquilo que sabia fazer melhor que é sua música, com qualidade. Ninguém, nas redes sociais, irá ver um cartaz com alguma citação de Paul, ele nunca foi de frases. Ele continua atuante aos 70 anos, porque continua a fazer canções como na década de 1960. Sua fala é sua música.

Vejo nesses seres, um tanto de desvio da formação de caráter. Ao mesmo tempo em que pedem a paz no coletivo, vivem guerreando no individual; brigando com o vizinho do andar de cima, ou jogando cadeiras de cima do quarto do hotel, porque excederam nas drogas. Quando vão dar entrevista às câmeras de TV ficam mansos e pedem a paz ao mundo. O lobo em pele de cordeiro é, na essência, um mau-caráter.

Algumas personalidades nacionais, por exemplo, não se deve tocar ou mal dizer. Logo você será tachado disso ou daquilo. Há o que chamo de santíssima trindade da música brasileira. Velhas e novas gerações aprenderam que não se pode comentar nada que desconstrua a biografia de Gil, Caetano e Chico. Por que, antes de tudo, eles enfrentaram bravamente a ditadura militar com sua arte. E hoje?

Observo que, eu não comentaria nas redes sociais sobre Lennon, ou qualquer outro se não fossem públicos, se não estivessem em exposição nos noticiários. E com relação a ele, até hoje se fala. Enfim, a coisa não é de conotação pessoal, mas da figura pública que ele representou e representa até hoje.
O mundo do politicamente correto é patrulheiro. Se você não gosta de Bono Vox, no que diz, fala e se comporta então você é a favor da fome no mundo; você é a favor da opressão que os ricos têm sobre os pobres; você é contra a humanidade e o meio ambiente. Tudo bobagem.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, numa de suas crônicas semanais, citou uma frase que vai de encontro com o comportamento desses “pacifistas”: “fighting for peace is like fucking for virginity" (lutar pela paz é como trepar pela virgindade)”. Bem oportuno, e isso estava escrito na porta de um banheiro em Israel na década de 80. Quem "luta" pela paz e vive em guerras internas e individuais é um oportunista, antes de tudo.

Hoje somos refém dessa praga, como chama Pondé. O politicamente correto tenta corrigir os termos, colocações, comportamentos, direções para que lado devemos seguir, porque toda a humanidade deve caminhar para lá, mesmo sem saber o que irá encontrar. Associa e posiciona o cidadão no mundo sob sua ótica. Se você não está nem aí para as causas ambientais, você não ama seu planeta — tentam lhe pregar. Como se fôssemos robôs e o único teto sobre nossas cabeças é do apartamento onde dormimos; sem olhar para o céu lá fora e por onde andarmos pelo mundo, será sempre o nosso teto. O mundo é minha casa. Deus me livre da prisão desse apê!

Zilda Arns — médica sanitarista morreu no terremoto no Haiti em 2010, quando estava numa missão humanitária. Nem eu, nem ninguém soubemos através dos noticiários que, esta verdadeira pacifista, estava lá, por uma causa. Ela não deu notícia ao mundo. O que fazia, não precisava ter reverência, não precisava aparecer.

A melhor revolução do mundo é aquela interna, de dentro para fora. Cuidar da casa, dos filhos e dar o melhor para suas formações; é o caminho individual que podemos fazer para plantar a semente do mundo, nossa pequena e sadia revolução.

Recentemente, por conclusão da peça de acusação aos réus do Mensalão do governo Lula, o Procurador-Geral da República Roberto Gurgel citou Chico Buarque “Dormia a nossa Pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações” — Vai Passar (1984). Em tudo que deferiu na sua fala, talvez não coubesse melhor citação. Enquanto a Pátria dormia, carros-fortes saiam dos bancos para pagar e manter um esquema de corrupção – o maior já visto, segundo Roberto Gurgel. Com certeza, alguém (esses que andaram dormindo), deva ter pensado, como pode ele citar isso? Chico Buarque não serve à direita. Esta música foi feita para a ditadura e não para os tempos de democracia que vivemos!

Concluo. Em democracia ou em regime de ditadura, a corrupção tem a mesma feição. O compositor escreveu para um e acabou acertando o outro. Como ele sempre se posicionou à esquerda acabou provando do próprio veneno. Esta é outra página infeliz da nossa história, que ainda não desbotou da memória. Estamos passando.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / agosto de 2012.
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