BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

No coração de todos


Terminei o ano de 2011 sem concluir um texto sobre futebol. Queria escrever sobre o Barcelona; enaltecendo o seu belo futebol. Isso tudo sem saber do resultado final do mundial interclubes contra o Santos. Mas, prevendo o óbvio, já havia comentado por aí que todos os times jogam futebol; o Barcelona joga o “mais futebol”. Estava certo. O Santos – o futebol brasileiro – passaram vergonha; foram 90 minutos de uma aula de como se joga o “mais futebol”. Será que aprendemos? Alguns cronistas esportivos disseram depois: está na hora do Brasil se reciclar, e se render ao futebol de equipe, voltando a fazer o que fez do Brasil cinco vezes campeão mundial. Copiar a si é fácil.

Neymar e o Santos chegaram ao Japão bem antes da competição. Entrevistas humildes, mas atitudes nem um pouco. Na coletiva com a imprensa mundial, Neymar disse que Messi era o melhor e o Barcelona era o favorito. Tudo que podia se dizer e ouvir. Na saída do local, Neymar foi cercado por seguranças com a camiseta do Santos protegendo-o do assédio. Mas, assedio de quem? Não havia ninguém lá que quisesse agarrar o craque nacional, nem mesmo para arrancar um autógrafo. Essa imagem ficou marcada para mim: como a imprensa esportiva brasileira idolatra nossos pseudo ídolos, elevando-os à décima potência e o resto o do mundo nem aí com eles.

Enquanto isso, o Barcelona, ainda em gramados espanhóis, goleava o arquirrival Real Madrid por 3 x 1, no estádio do Real. Só depois da partida viajaram para o Japão. Chegando lá, não houve mudanças de hábitos e nem seguranças para seus ídolos. Eles foram dispensados para passear com suas mulheres e fazer turismos sozinhos pela cidade. Pensei, o futebol tem que ter disso também: humildade. Jogar sem a arrogância, e tudo isso que vem com os salários milionários. Não fosse isso, muitos estariam morando em condições ruins e viveriam pobres por toda a vida.

Não sei precisar qual jogador – há muitas notícias em pencas sobre futebol -, mas um jogador do Botafogo Campeão Mundial da Copa de 1958, no dia seguinte após as comemorações, quando a vida voltou ao normal, continuou pegando seu trem no subúrbio do Rio de janeiro para ir treinar. Naquela época o dinheiro não estava no futebol, mandando. Jogava-se por amor.

Comecei o ano de 2012 com uma notícia um tanto triste. Meu atual ídolo do futebol abandonou os gramados. Marcos, goleiro do Palmeiras, anunciou a aposentadoria. São Marcos, já foi canonizado por todos e se fez indulgente pelos anos de carreira e tudo que seu futebol nos deu. Ao Palmeiras e à Seleção Brasileira. Houve uma comoção geral, até de outros torcedores. Descobri com isso, que ele está no coração de todos. Uns irão justificar que ele foi o goleiro do pentacampeonato de 2002; para não se render que ele envergou a camisa do Palmeiras e hoje é mais um jogador palestrino se despedindo dos gramados.

O que faz Marcos ser diferenciado? Ele nunca esqueceu suas origens; agiu sempre como homem, dentro e fora de campo; na derrota soube perder; nas vitórias soube comemorar. Sem aspereza na voz. Cortês, franco, humorado e feliz pela vida que a bola lhe deu.

Em tudo que fazemos na vida, a humildade deve estar presente. Até mesmo no futebol. Marcos é um dos jogadores mais humildes que já vi dentro e fora de campo.

Quando o time do Palmeiras estava mal no campeonato, com os jogadores fugindo a imprensa, Marcos era quem falava com, sem medo de represálias, sem medo de dizer a verdade.

Na Copa de 2002, Marcos foi um dos maiores personagens daquela conquista – o pentacampeonato. Na partida final contra a Alemanha, onde vencemos por 2 x 0, ousei dizer depois: o Brasil venceu por 4 x 0. Duas defesas de Marcos foram consideradas por mim, um gol de goleiro. A primeira, quando ainda estava zero a zero, foi escolhida como a defesa da Copa. Aos 3min: 44seg do segundo tempo, o jogador alemão Neuville bateu uma falta, de longe, daquelas quase indefensáveis. Marcos pulou, se esticou todo para pôr a ponta dos dedos na bola, e ela bater na trave e sair. Se a Alemanha fizesse aquele gol, a história daquela Copa poderia ter sido outra. Depois, Ronaldo fez dois gols e salvou a pátria. Aos 37min: 40seg, Marcos fez outra defesa num chute queima-roupa, dentro da área, de Bierhoff. O futebol brasileiro também deve a ele aquela conquista. A FIFA deu o prêmio consolador de melhor jogador da Copa para Oliver Khan (goleiro alemão), mas Marcos foi naquela manhã, o São Marcos de todos os milagres. E por essas e outras, ele já virou mito no futebol, e que agora reina no coração de todos nós.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2012.
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