BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Bonjour Paris


Antes que me escape da memória, e termine esse dia, despertei com saudade de uma viagem. Há pouco mais de dois anos fui conhecer Paris. E já digo, sem pestanejar por nenhum lamento: em cinco dias, não dá para pisar todas as suas pedras; melhor, tampouco mil dias dariam para explorar todas suas rues et les boulevards e se embevecer da riqueza histórica que traz, como tragos de um bom vinho.

Mas, durante esse curto estágio, pude conhecer o que há de mais precioso e belo na "cidade luz". E aqui cabe uma explicação: Voltaire, Rousseau, René Descartes, Diderot, todos esses filósofos pensadores ficaram marcados como os iluministas (ideias de luz). Por isso, o cognome "cidade luz" ficou conhecido, mundialmente. Fui saber, então: o iluminismo surgiu no século XVIII na Europa, e tinha como filosofia o uso da razão (luz) contra as ideias ultrapassadas (trevas) e as influências culturais da igreja católica. Esses iluministas queriam maior liberdade econômica e política: liberdade, fraternidade e igualdade. Nada do que imaginava, porque a cidade era muito iluminada à noite.

Saindo da história e voltando à viagem. Pisei em Paris, junto com minha amiga de jornada, vindo de ônibus de Londres, numa viagem de oito horas (cabe outra crônica). Já passava das sete horas da manhã e aquela sensação (non sense): onde eu estou? Fomos atrás de táxi e nada. Ninguém estava disposto a nos levar do outro lado da cidade (por causa do trânsito), ou mais precisamente na zona 3 da cidade: Avenue Henri Martin, Nanterre. Mas, ninguém se perde em Paris, quando se encontra o "M". Descemos numa estação puxando nossas malas pela escada. Aí ficou fácil, encontramos o trem que nos levava para nossa hospedaria (hostess) na região de La Defense. (No terceiro dia, ficamos geograficamente craques em deslocamentos sobre trilhos.)

Levamos algumas horas até conseguir entrar naquele flat no terceiro andar de um prédio antigo (sem elevador) — como se fosse fácil encontrar algo moderno em Paris. Até que uma parisiense simpática abriu a porta e eu fui me entender com ela no meu inglês "book eight". Depois de nos mostrar nossos aposentos, desapareceu.

Fomos atrás da cidade sozinhos, olhando um letreiro aqui e ali e, como qualquer um perdido, perguntando a um transeunte qualquer. E aqui faço uma ressalva: mentira, que o parisiense é mal-educado e não fala outro idioma senão o francês. Eles são educados, sim! Onde fica o Center George Pompidou? — Perguntamos. Estava logo ali, no próximo quarteirão, quando um dia estava um oceano longe dos meus olhos.

Como já disse: pouco tempo não dá para pisar todas as pedras, como também não dá para visitar o Louvre. Um dia é impossível visitá-lo e conhecer todas as exposições; olhar profundo nos olhos daquelas figuras ilustradas. As que olhei, eu me perguntei: — O que pensava o gênio quando pintou esses olhos? Deparei com uma máxima: há mais japoneses (gente de olho puxado) tirando fotos e selfies da Madona (Mona lisa) que nas ruas de Tóquio. Isso é verdade.


Lembrei agora que me senti como um personagem de filme. Em 2005, vi um filme nacional chamado "Mais uma vez amor" com o excelente Dan Stulbach e Juliana Paes. O filme narra uma vida nada comum de um casal que passa 25 anos tentando se estabelecer juntos; se buscando um ao outro. Ele era muito pés no chão, enquanto ela voava... Numa cena, ele mostra a ela um quadro que tinha no seu quarto, da Torre Eiffel em construção. — Um dia estarei lá — disse ele. Era seu sonho conhecer a cidade. Passado alguns anos, depois de muitos desencontros, ele recebe uma carta de Lia (Juliana), com uma foto. Ela aparecia sorridente com a Torre dos sonhos dele ao fundo. Ela realizava, enquanto ele ainda sonhava.

Vou me ater à Torre Eiffel. De onde se olha a paisagem parisiense se vê a majestosa. A torre cabe em qualquer foto de onde estiver. A impressão que temos é que a cidade se reduz, para que ela se agigante. Descemos numa estação um pouco longe e com chuva caindo (como se não fosse comum: Paris = chuva) e um único guarda-chuva que comprei em Londres (vermelho e com a marca "The Beatles"). Andamos muito pela Champs Elisier até chegar. Nos passos que aproximávamos a chuva ia parando e um grande arco-íris se formou ao lado da torre. Não resisti e cliquei várias vezes: click! click!

Ali, alguns metros da torre descobrimos uma pizzaria que tinha uma cerveja em caneca de litro. Não era a pint dos pubs londrinos, mas a litre dos bares parisienses. Voltamos no dia seguinte para subir a torre, antes comer  uma deliciosa pizza, com sabor italiano. O garçom era um menino turco (pouco mais de 17 anos), que se arriscou um português conosco. Quando pedimos a conta (can you have a bill?), com um risinho no canto da boca, ele respondeu: — "a dolorosa?". Soltei uma risada, depois pensei: algum brasileiro passou por aqui e deve ter lhe ensinado também os nossos palavrões. (Brasileiros adoram ensinar os palavrões da nossa língua)

A verdade é, sai do restaurante com a bexiga cheia. Foram duas canecas de um litro. Quando deparamos com a fila quilométrica para subir a torre, eu pensei em banheiro. Não conseguia pensar na emoção. Eu só pensava: banheiro, banheiro e cachoeira. Segurei ao máximo, até na primeira parada do elevador. Não quis nem olhar nada, saí em disparada para a primeira porta que apareceu. Aliviei.

Lá do alto da da Torre Eiffel vi uma cidade encantadora, mais ainda à noite. Deslumbrei: cheguei no topo de um dos corações do mundo (o mundo tem muitos corações); pensei também naquelas cidades modernas, como Las Vegas, com outdoor e letreiros enormes piscando sem parar. Parece cansar os olhos. Paris, não. A cidade é retangular, horizontal e de cor amarela nas luzes que se sustentam nos seus postes seculares. Revigorei minhas forças.

Dois dias depois parti, sem pisar todas suas pedras, mas com a promessa íntima: Eu voltarei, e não ficará pedra sem minha sola!


© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2015

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