BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Descubra a verdade


Ah!, o espelho da alma. Se ele fosse como o espelho da nossa casa, seria ótimo e prático. Assim poderíamos nos ver antes de tomar decisões, como quem se olha no espelho da sala antes de sair para jantar fora. Dava para ver onde estamos mais bonitos e feios no nosso interior. Na adolescência, enxergaríamos as espinhas, as acnes do rosto oculto. O creme da noite e o filtro solar durante o dia, e a vida sem erros e defeito. Escovação perfeita nos dentes e depois aquele sorriso para sair sem nenhuma preocupação de que algo não está entre os dentes. Daria para fazer um selfie da alma.

Nada disso. O espelho da nossa alma não tem reflexo tão fácil assim de enxergamos. É preciso olhar afinco e para dentro; no íntimo, nos calabouços, nas profundezas onde não há luz. É lá que escondem nossas verdades refletidas. Mas com um início de tarefa árdua de executar; requerendo muita dedicação e coragem. Quem se olha? Quem faz isso com facilidade? Se tivéssemos muitas pessoas conscientes de si (olhar para dentro), não teríamos tanta gente perseguindo a construção de um "mundo melhor"; e o mundo melhor seria acessível, para dentro de cada um.

A autoanálise, com um profissional para orientar o caminho, é tudo que o ser humano precisa para se relacionar melhor consigo e com seu mundo. Nunca antes na história desse mundo houve tanta procura a consultórios de psicanálise como nos nossos dias. Como já escrevi na minha crônica Jardins da Infância: "há aqueles que corajosamente abrirão suas gavetas, com seus anjos e monstros, sem dor ou medo da vida que em si guardou. Com certeza, esses serão adultos bem melhores e verão a vida sempre mais bela, em multicor."

Não confrontamos na vida adulta o que nossa vida nos fez na infância, porque nosso "depósito interior" está cheio de coisas que não queremos ver, e o mundo a nossa volta pode nos condenar por elas. Vivemos sob vigilância do medo da condenação, da humilhação. Por isso, nos encolhemos. A tragédia ao expor nosso intimo. Medo de sermos ridicularizados e excluídos socialmente. Desde o nascimento vivemos sob essa tutela de sentir medo dos passos que damos e dos posicionamentos que assumimos em tudo. A insegurança em viver, nos leva cada vez mais empurrar nosso lixos sentimentais para debaixo do capacho. Como aquele quartinho de fundo de casa, onde tudo que queremos esconder amontoamos lá.

E por que não olhamos o que nós somos, mas vemos (com clareza) tudo o que outro faz? Porque existe uma coisa dentro de nós que não gostamos de confrontar: a nossa verdade. E já disse em outras ocasiões: verdade não é sinônimo de felicidade, de algo bom; verdade é sinônimo de realidade, de embate, de encontro com todas as coisas que constroem nosso caráter; são nossos anjos e demônios. A verdade é fratura exposta e dói saber, ver e sentir. Ninguém gosta de mostrar a sua, mas vive apontando, o que acha ser a verdade, no outro. Somos exatamente isso: mentirosos quando é sobre nossas vidas.

É preciso se descobrir; tornar visível o que nosso íntimo teima em acobertar. Nossas relações interpessoais serão melhores se melhores formos com nós mesmos. Não ter medo de apontar, de apertar a ferida, mesmo sob dor e pus visivelmente feio e cheiro desagradável. Em nenhuma escola iremos aprender sobre nós. Por isso, o estudo solitário é um caminho difícil, mas sem volta. Quem se descobre, nunca volta mais ser o que foi um dia.

E quando eu digo descobrir, não quero me referir à terra inóspita, inabitável. Não falo do desconhecido, mas daquilo que, sob a mortalha da vergonha e do medo, mantemos cobertos. Do cadáver que se cobre com o jornal, porque é horripilante ver a cena. Descobrir o que nós mesmos, durante anos, cobrimos como fugitivos da vida. Há, sim, muitas coisas em nossas vidas que não queremos revelar. A maioria delas está nas profundezas do nosso ser.

A verdade que se é e a verdade que se enxerga. Você pode opinar sobre filmes, novelas, futebol, política, etc. Um olhar diferenciado, analítico sobre alguma coisa, onde há lacunas de pensamentos. Contudo, você não pode ter pontos de vista contra fatos; você não pode opinar sobre (acima) a verdade pujante. Dar opinião e ter pontos de vistas, também não é certeza que encontrará com a verdade no final. Sua fala pode cair no limbo.

E quando uma opinião tentar se sobrepor à lógica dos fatos, a verdade esmagá-la-á como uma sola de sapato faz com uma barata. Pontos de vista de nada valem contra a verdade que grita, porque ela sempre triunfará sobre tudo e todos. Ter opinião não é dizer a verdade. A verdade é inequívoca.
"O pensamento só se torna veraz quando toca algo que está para além dele, algo que não se reduz de maneira alguma ao ato de pensar e nem ao pensamento pensado. Esse algo é o que chamamos de verdade" (Olavo de Carvalho)
Já encerrando, lembro uma das mais belas palavras já calcadas na minha memória, onde a verdade se encontra com sua irmã: a liberdade. Naquele adágio (versículo) bíblico: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Mais cedo ou mais tarde a verdade nos encontrará numa esquina qualquer da vida e do tempo, como a morte fará também. E isso é verdade que grita.

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Outubro de 2014.
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