BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Herói sem caráter

No último dia 20 de novembro, chamado dia da "consciência negra" (50 tons a escolher), li um texto que veio parar na minha feed de notícias do Facebook, afirmando que Zumbi (dos palmares) era uma espécie de herói sem caráter, um outro Macunaíma. Ele era racista e também mantinha seus escravos. Virou herói pelas lendas e poesias de cordel cantada por historiadores esquerdopatas.

Não sei se é verdade, mas é bem provável. Não existe ser humano 100% bom e 100% mal. Os romancistas só contam o lado bom.

Lembrei-me do excelente filme de Quentin Tarantino "Django Livre". Também narrando a escravidão nos EUA sulista. Ao modo Tarantino, tudo com muito humor, perspicácia, ódio e sangue — muito sangue. Excelente filme.

O que me chama atenção nesse filme não são os personagens interpretados por Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio, mas o personagem de Samuel L. Jackson.

Ele era Stephen, um velho negro manco, racista e puxa-saco de brancos poderosos. Humilhava e ria dos outros negros. Se achava acima da sua gente. Odiava negros tanto quanto seu patrão Calvino Candie (Leonardo DiCaprio).

É dele a percepção do plano de Django e Dr. Schultz, para libertar a bela escrava poliglota Broomhilda. Chamou seu patrão num canto e o alertou sobre aqueles dois forasteiros. Um canalha!

A justiça veio. Django matou aquele velho safado e subserviente; mas antes, com requinte de crueldade, lhe deu um tiro no seu joelho doente. Eis, sim, um negro traidor da sua melanina, da sua gente. Bem feito!

Django (negro) era mocinho, inteligente, justiceiro, mas cruel; Stephen (negro) era asqueroso, covarde e medroso. Fosse pela política e seus interesses, era bem provável que tornasse um herói manco e Django um criminoso foragido da justiça.

Há muitos heróis agora em Gotham City. Porque até os vilões querem passar que são. O povo, na ignorância, se confunde e já não sabe mais a diferença entre Batman/Coringa e Django/Stephen. 

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Dezembro de 2013.
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