BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

domingo, 1 de abril de 2012

Resurrectio



O padre bradava, num megafone, em meio à procissão: Viva o Cristo ressuscitado! Como uma corrente humana, com suas velas, a multidão de fiéis, respondia uníssono: Viva! Viva! Subiam fogos aos céus, como serpentinas riscando o breu; os sinos da matriz soavam sem parar, cães ladravam nos quintais. Depois vinham cantos em coro, de um cortejo que dobrava quarteirões. A cidade, dos ateus e não católicos que ainda dormia, era acordada por aquela festa da ressurreição, onde a vida venceu a morte – não há mais mistério. Mais importante que nascer era renascer. Aquele era o dia do renascer para vida. Assim na terra como no céu.

No outono, o dia amanhecia frio com uma neblina densa. Enquanto os fiéis caminhavam naquela peregrinação das ruas de paralelepípedos, a luz da manhã se anunciava no céu rubro e as dos postes se apagavam lentamente. Aleijados, coxos, anciões, muitos eram os que saiam nos portões e se inclinavam em orações e terços nas mãos. Era a manhã de um dia feliz. Uma pedra era retirada do sepulcro e do meu peito então; aliviado e sem mais culpa do petiz que se aniquilou ao flagelo do filho de Deus: crucifica-o! Aquilo não saia da minha mente. A ressurreição me tirava da angústia, fazia-me respirar o ar bom daquela manhã e com esperança na vida. Meus pecados infantis iam ao pó correndo pelo meio-fio; no coração era pluma com aquele caminhar penitencial. A dor da sexta da paixão tinha ido embora com aqueles “vivas”, que repetia sem parar. Eu ia à frente com meu pai segurando minha mão.

Já passava das seis horas da manhã, com o dia já luzente, quando a procissão chegava à porta da igreja, com toda a praça já tomada. O palanque de madeira improvisava o altar para celebração da missa da Páscoa (era o mesmo que se utilizavam nos comícios políticos). Ao entrar na praça, o padre, já em cima do altar, nos lembrava daquela manhã – esta era a razão de uma procissão de madrugada – onde Maria Madalena e outras duas mulheres foram até o sepulcro onde o corpo do Cristo fora colocado depois da sua crucificação e morte. E para minha surpresa, e de todos os anos, a pedra fora removida e o sepulcro vazio com as vestes deixadas no canto. Eu desenhava na minha mente aquela cena do Cristo, com todo seu poder e força, empurrando aquela enorme pedra; a felicidade tomava conta de mim. Nenhuma sepultura no mundo tinha aquela inscrição: não está aqui, ressuscitou! Repetia o padre sem parar. A ressurreição era como água límpida para minha sede.

A curiosidade etimológica fez-me ir atrás da palavra. Ressurreição surgiu do latim resurrectio. E de todas as traduções a que mais me acolhe é nascer de novo, para nova vida. É quando nos penitenciamos e nos damos chance de recomeçar num mesmo corpo com desígnio de um novo ser. Contrito e em paz de espírito. Nada de ovinhos de Páscoa escondidos nos troncos das árvores e nem coelhos imaginários; somente renascer em Cristo.

As manhãs dos domingos de Páscoa eram sempre mais frias e cobertas de cerração, hoje já não são mais. Não temos mais fogos e sinos soando; nem toalhas estendidas sobre as janelas das casas e pessoas se inclinando em rezas; nem há mais tantos fiéis em procissão. Mas a Páscoa não perdeu o sentido para o menino que fui, continua o mesmo dia do resurrectio; o dia que podemos renascer para uma nova vida.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril de 2011.
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