BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Razão e sentimento

Existem algumas frases feitas que, sem percebermos, vamos propagando incontestes. Muitas delas vêm nos confortar e aliviar agruras da alma; ou nos norteiam para um novo estágio. Agarramos a elas naquele instante, como um náufrago em alto-mar agarra sua boia. Um dia, alguém na sua angústia, as criou para negativar algo dentro de si — acredito. Acordamos com aquele nó na garganta e postamos no nosso mural virtual. Aliviados, a sensação é que uma corrente negativa, que acordou conosco, foi enxotada para fora do nosso corpo.

“De hoje em diante, só vou gostar de quem gosta de mim”. Lembrei-me dessa, por acaso.

O triunfo da nossa jornada está fincado na razão. Como um pêndulo em nossas vidas: nem céu, nem terra; nem acre, nem doce; ela nos posiciona de volta ao caminho. A razão é pura sensatez; o nosso lado responsável, que nos centra no mundo com tantos sentimentos díspares. Como um equilibrista na corda, atravessando de um penhasco ao outro. Por vezes, a razão é um trem que demora chegar à estação. E quando chega, fora de hora, o estrago já foi feito, por aquele sentimento indomável. Agora, o que há de lógica quando se tem o coração a frente? Nada! Corações não pensam, não refletem, não enxergam, não sabem escolher. Corações só sentem e algumas vezes decidem também. Eis o perigo.

A frase “gostar de quem gosta de mim” nos evoca à reflexão, quando não se tem controle de nada que sentimos. Fácil de propagar; difícil de cumprir. Roberto Carlos escreveu isso em uma de suas canções mais populares “Só vou gostar de quem gosta de mim”. A frase quer dar um chute na tristeza, pôr um ponto final em tudo; mas pouco nos adianta quando ainda estamos aprisionados. Mais cedo ou mais tarde virá nos domar quando estivermos sozinhos no quarto escuro. Notadamente, o coração é como um burro empacado, que não obedece a seu dono. Ele vai onde não queremos ir, ele escolhe quem não admitiríamos, pela razão, escolher. Ele é um viajante sem destino e sem medo. O que fazer com ele? Expulsamos o do peito? Vamos dizer-lhe: não sinta isso? Ao contrário, deixamos tudo fluir... O autoconhecimento, com os dons espirituais, é a janela por onde a razão irá entrar e dar um basta à teimosia do coração.

Em geral, iremos ceder aos nossos sentimentos; iremos gostar de quem não gosta da gente, sim! Deixaremos feridas expostas por sermos tolos do coração e por deixarmos guiar por ele. Num voo cego para dentro. Na outra ponta, a razão deve estar com seus soldados a postos para qualquer emergência; ela brigará com o coração; e vencida a luta, irá nos colocar num canto de recolhimento, num silêncio necessário e com o tempo a favor. Assim, tomará a vez para decidir. Até a tormenta passar e dizer: agora pode sair, não há mais perigo algum.

Sempre alguém próximo vem nos indagar: “por que você não namora a fulana? Ela gosta de você...” (como se já houvesse consentimento do outro lado). Nunca cobrei a mesma coisa de ninguém, pois sei como é difícil mandar em quem não quer obedecer. Sei que existe esta coisa também, de alguém querendo cuidar da vida alheia, até pelo que você deve sentir. O que lhe causa incômodo não está na sua vida, mas na vida do outro. Ela pode enxergar alguma afinidade ali, mas não está dentro de você. Agora, diga isso ao seu coração. Ele não concorda com o que não sente. O que pode parecer interessante para o outro, pode ser um copo vazio para ele. Ou pelo menos naquele momento não lhe sacia. Os olhos e a mente devem, sim, estar abertos para depurar, com valor, o tamanho do sentimento que o coração escolheu. Sob o domínio da razão, o coração não mandará mais gostar de quem não nos completa. Por outro lado, também não nos fará cair na tolice de teimar gostar de quem por ele não bate.

Lá no século XIX, a sociedade ainda era assim: o pai escolhia o marido para a filha. Mesmo ela não gostando, ela era prometida àquele homem que nunca tinha visto antes. Boa reputação, boa família, trabalhador, etc. Eram esses atributos que o pai dizia. O que se chamava de “bom partido”. Em alguns lugares do mundo, ainda existem essas relações arranjadas, onde o sentimento é desprezível. Os casamentos se dão pela importância das ramificações familiares e não pelo sentimento que selou aquelas pessoas. Aquele que nasce com os olhares.

Outra coisa importante sobre sentimentos. Há um desprezo pelas amizades em troca do encalço do amor, ou de uma projeção de amor, com riscos enormes de falhar. A razão nos fará posicionar para o lado mais eficaz do convívio. Se você não pode se dar no amor àquela pessoa, deixe reinar a amizade. Amigos de verdade são para sempre. Eles não ficam cobrando a presença, mas se curtem do mesmo jeito que um casal bonitinho de mãos dadas no cinema. É fato, não havendo tais cobranças e dependências, nas amizades não existe a dor da separação. Amigos se distanciam, mas não se separam. Só extraímos o que é bom.

Com isso, volto às teses do médico psicanalista Gikovate. Com mais de 30 anos de consultório, algumas pessoas — com o olhar no passado —, ainda querem discordar do que vem dizendo. O mundo vive mudando e o modo de se relacionar também. As relações hoje estão mais próximas da amizade do que do amor romantizado e dependente. Estamos mais prontos para ter relações amorosas por concessões e parcerias do que por dependências sentimentais. E isso é um caminho sem volta. Homens e mulheres estão disputando espaço no mercado de trabalho e quando se juntam para uma relação (por amor), ela é uma progressão do ambiente do qual eles agora compartilham. Ninguém está submisso ao outro; e ninguém manda em ninguém. São parceiros no amor e na construção de uma relação arraigada no respeito e admiração mútua. Como direitos e deveres mais próximos e iguais.

Ainda que tais teorias sejam verdadeiras, o coração continua ainda mandando nos sentimentos; e quando encontramos alguém que cumpre nossos quesitos, pelo brilho dos olhos, pulsação, alma e poros, podemos estar diante não da nossa cara-metade, mas da boa parceria, que iremos constituir, para construir uma vida a dois. Neste ponto, a razão concede, concorda e deixa o coração reinar.

Dessas frases máximas do dia a dia, tem outra que lembro sempre: “antes sozinho do que mal acompanhado”; ou mais correta ainda: “antes sozinho do que estar com alguém que não me atrai”. Esta, eu cultivo. Não sou eu quem diz, mas é minha razão que resolveu agir. Enquanto ela estiver falando, assim será.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2012.
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