BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A mullher árabe

A tarde já se ia quando cheguei naquela praia deserta. Meus passos lentos traçavam um caminho incerto na areia. Queria chegar até as pedras, encontrar meu prumo, minha vida. Os povos do oriente nunca me fizeram compreender. As ondas apagavam tudo em que pensava. O inverno que havia em mim era árido e deserto. A brisa gelada fazia minha pele sentir o frescor sob minhas vestes brancas. Sem forças, estirei meu corpo ao chão com minhas mãos espalmadas sobre a rocha ainda quente. Minhas veias saltadas supuravam um suor amargo. A boca seca desencontrava em murmúrios e palavras que brotavam sem direção no espaço. O mar revirava, agitava e lançava suas ondas nas pedras, como um convite para o mistério das suas profundezas. Quero ser como o mar, dizia dentro de mim. Voltarei um dia como mar... Lembrei-me do sonho em que vi um anjo que saltava do penhasco e sumia entre as nuvens. Era bom presságio sonhar com anjos, diziam meus antigos. Mas meus olhos ali amorteciam no firmamento. A cortina do dia fechava num espetáculo que as minhas pupilas teimavam em não espiar e minhas mãos reticentes em não aplaudir. Fiz de mim um vinho entornado, uma palha seca de sentimentos vãos, migalhas de um coração partido em mil pedaços. Um raio de sol quisera que penetrasse inteiro em minha alma, mas não pude represar minhas lágrimas no mesmo instante. Abaixei o queixo, fechei os olhos e com nitidez veio a cena daquele dia na biblioteca. Num livro antigo empoeirado, desvendava o mistério dos meus tormentos e pesadelos: a mulher árabe não pode amar. Convencido que já havia lido e sabia tudo sobre o amor, de como se dissemina entre os povos, na chama do coração e pelo tempo. Que o amor não tem raça, nem credo. Que o amor liberta. Que amar é uma dádiva. Nunca imaginava saber a verdade sobre quem eu amava. Desfolhei outros livros, contos, manuscritos, histórias reais. Nada. Quebraram meus braços, cravaram em meu peito uma lança. Chorei, cuspi nas folhas, disse injúrias e teimei com Deus. Não pode ser assim! Como somos tão desiguais. Meu coração agora arde de amor, eu preciso entregar este amor à minha amada. Minhas teses se concluíam, fechavam como peças de um quebra-cabeça. Das nossas conversas e encontros. Senti que ela sofria e eu por ela mais ainda, mas nada podia fazer. Manifestei aos céus, ceifaram a liberdade dela amar mesmo antes de vir ao mundo. Pensei nas pedras e na água fria que poderia encontrar lá embaixo. Nossos poemas, as canções que compus no mel dos seus olhos. Reli a última mensagem do celular. Mas em tudo voltava como um trem desgovernado: a mulher árabe não pode amar nem aqui, nem em lugar algum. Chorei por nós, pois agora não podia mais lutar por aquele amor que já deveria partir de mim sem tempo. A mulher árabe não serve para o amor. Indaguei o destino que nos cruzou, o evangelho, as escrituras. Por quê? Quero este amor! Em vão, tudo se esmaeceu como uma centelha que se dissipa no ar.

Levantei a cabeça. A noite caia fria e as embarcações eram tragadas no nevoeiro. Pássaros partiam para o repouso noturno. Agora eu era só, as estrelas primeiras surgiam como pontos no pano do céu. Traçava a bel prazer desenhos de geometria incompreensível. Lia sobre elas o nome que me vinha e não era outro senão o nome dela. Músicas entoavam ao longe um hino de amor que guardei para lembrar de nós. Cadernos, poemas, bombardeios, fronteiras, caravanas, desertos tudo se misturava com meu sangue quente. Como compreender? Bêbadas manhãs que acordei pra sonhar com este amor. Para qualquer lugar distante, queria fugir sem deixar vestígios.

Já era tarde e chovia ao norte. Pus-me em pé e fiz um crucifixo do oriente ao ocidente dos meus braços. Gritei - sem eco. Um vento forte soprou em meus olhos e secou minhas lágrimas. Por fim, era verdade como em meu sonho. Senti então meu anjo suspirar ao redor; túnica longa e branca, com a mão estendida sobre meus ombros e na sua plenitude transfigurava: "vai, volte à vida, leve este teu amor para guardar no coração e para sempre na eternidade juntar-se a ela; quanto à mulher árabe, saiba que a ela foi dado somente o prazer de chorar". Parti.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril 2007
Postar um comentário