BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Um Bocejo de Deus



O filme AVATAR — James Cameron (2009) — acumulou, até então, a maior bilheteria da história cinematográfica. Quiçá, o público não tenha se identificado tanto com mais um filme de ficção, pois o conteúdo explorado vai além dos efeitos especiais e figurinos. O que chama atenção no filme é extremismo a que chega a raça humana; com suas mazelas e explorações. A mensagem é passada sem metáforas, ficando bem clara ao público mais antenado. Em síntese, discorre sobre povos de uma galáxia que lutam para defender seu habitat e seu patrimônio da tirania do homem, aquele do planeta Terra. Este, por fim, só quer explorar e retirar do planeta invadido um minério raro unobtanium, que pode ser a chave para solucionar a crise energética da Terra. Bela teoria, se não tivesse um pouco de verdade em tudo, ainda mais por saber bem de quem estamos falando: nós, seres humanos.
Desde as viagens das Apollos — década de sessenta — uma pergunta sempre me perseguiu e creio que muitas outras pessoas: há vida além da terra onde pisam nossos pés? Na minha adolescência li o livro “Eram os Deuses Astronautas?” (1968) — Erich Von Däniken. Fiquei instigado quando vi na TV uma matéria sobre as teses defendidas pelo autor. Embora nunca ninguém tenha provado nada, mas aquilo em acompanhou durante muito tempo. Fiquei ávido que devorei o livro em dois dias. De onde viemos? Para onde vamos? Onde está Deus nesta história? No romance de Erich não há respostas concretas, somente perguntas e constatações.

A NASA (National Aeronautics and Space Administration) desde a sua fundação (1958), tem promovido avanços em suas pesquisas espaciais e seu mais recente desafio é a construção em conjunto com outros países, da Estação Espacial Internacional. Bem, os objetivos dessa corrida espacial como apregoam, com seus gastos exorbitantes, nunca ficou tão claro para mim e acho que para grande maioria. Querem o quê com isso? A mim só tem uma resposta: levar todo mundo para morar “lá em cima”. Elaborar um plano “B” para nossas pobres e miseráveis vidas.

Sempre quando via fotografias de Marte publicadas na imprensa ou na Internet, sentia um gosto amargo e frustrado, e agora sei o por quê. Nenhuma dessas fotos revela que há vida: gente, animais, cidades, florestas, assim como aqui. Até nosso planetinha tem vida, por que não há de ter em Marte? Sei, aí, já me disseram que há outras dimensões de matérias (vida), ou seja, muita coisa para minha cabeça entender. A última que li sobre o planeta foi: HÁ ÁGUA EM MARTE! Não queria só encontrar água, quero vida e de preferência melhor que a nossa. Gente que viva e respire amor às pessoas e ao planeta onde habita; quero uma saída para nós. Construir e morar numa nova estação em outra galáxia ou em outro planeta seria um sonho, uma obra de ficção. Imaginando assim: nós mudaríamos de “bairro” e começaríamos uma nova vida em outro lugar onde ninguém nos conhece. Sairíamos do nosso cortiço passando para uma cobertura duplex. Assim, os 6,5 bilhões de homenzinhos pegariam suas naves particulares com suas mudanças: cachorro, galinha e papagaio e iriam habitar em outra galáxia. Aqui não dá mais pé.

Para! Claro, são devaneios e utopias da minha cabeça. Como sair daqui? Como habitar em galáxias desconhecidas? Esqueçam e parem de sonhar comigo. Não, há outra saída. Temos que resolver tudo por aqui mesmo, no nosso chão. Podemos mudar sim! A condição humana; e começamos acabando com o egoísmo, a pobreza, arrogância, corrupção, a fome.

Sinto necessidade de dizer: o mundo anda muito estranho há tempos, digo, a raça humana anda mal. Corrupção, egoísmo, guerras, mais corrupção, desgovernos, drogas, lixos, desmatamentos, aquecimento global. Ufa! Há muita destruição na terra. Alguém tem que por um freio nisso. A natureza, sábia que é,  tem dado os sinais e mostrado que também não é nem um pouco boazinha conosco. Quando ouço falar em enchentes, terremotos, maremotos, tsunamis fico pensativo: está aí a natureza se manifestando, e quais são nossas verdadeiras culpas? As coisas têm acontecido de maneira sistêmica, e todos já começam a olhar as tragédias, sei lá, como uma chuva passageira de verão —  logo vai passar. Não lhe dão a importância que deveria, e nem querem imaginar o significado de tais acontecimentos. Para mim, penso que nada é por acaso.

Ponho os dois pés no chão e digo que não quero alimentar a vã esperança que a NASA irá nos levar para habitar em Pandora; e não haverá meios de chegarmos até lá, pois ficaremos “Perdidos no Espaço” — lembrando um filme da minha infância. Quero continuar a viver aqui e pensar um mundo melhor com esta gente mesmo, de carne e osso; uma gente com um pouco mais de humanidade e de alma.

Olhando para este mundo incrédulo e que sente prazer em se destruir, coloco: E se Deus de fato existe? E se Ele anda muito irritado conosco? Em menos de três meses a terra tremeu no Haiti, Chile, Turquia, México e agora na China. Cidades destruídas e populações dizimadas. Diante dessas tragédias — não tão corriqueiras em outros tempos — invoco o meu lado espiritual, me volto e concluo: Deus existe! E talvez esteja realmente cansado de nos dar chances e tempo para acordarmos; de erguermos tudo que botamos abaixo e começarmos tudo em Gênesis, no princípio. Contrário, então sentaremos e esperaremos que a NASA nos salve dessa como num verdadeiro filme de ficção.

Toda vez que uma placa tectônica se movimenta por quilômetros, para mim é como um bocejo de Deus. Ele, de fato, anda cansado de nós.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / abril de 2010.
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