BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Trintona, solteira. E agora?


Imagina aquela mulher, entre 30 e 40 anos, que citei na crônica A taça de vinho (quase) vazia (clique aqui); que está na pegação por aí, como se diz; portando-se como antes só cabiam aos homens: desinteressada de relações e interessada somente em seu "eu" (umbigo) e desejos. Sim, ela existe e começa a ser maioria entre elas. Isso eu já disse. E agora, imagina outra, na mesma faixa etária, que mesmo estando nos ambientes de moda (baladas, bares e festas), ainda conserva, por tradição, um desejo de um modelo antigo de relação: namoro, casamento, filhos e família. É sobre ela que escrevo agora.

A escassez de homem do mercado, para essa mulher que está aí na faixa dos 30 a 40 anos, tem várias vertentes. Primeiro, tem muito veado ou genérico na praça. Segundo, os homens, hoje em dia, na faixa dos 40 anos (bom para ela), ainda moram com os pais. O cara já está na segunda pós e seus ganhos não condizem, muitas vezes, com seus gastos (a sociedade de mercado nunca ofereceu tantos produtos para se gastar com o mísero salário que se ganha). Melhor morar com a mamãe, que serve janta quentinha todos os dias e ainda o mima como se tivesse 15; muito melhor do que dividir um apê com um amigo bagunceiro, que só sabe fazer omelete e comer no Burger King. No final do mês, tem o salário limpinho e pode fazer prestações de um iPhone novo.

Depois, aquele que ganha mais e quer se emancipar (são raros), tem projetos individuais, como: estar sempre de carro novo; ter um apê próprio para levar não só essas de 30, mas as de 20; tem futebol society quase todos os dias; melhor tomar cervejas com amigos, do que ter que pagar a sua conta; filho nunca foi objetivo na vida (são muito caros); viagem para Europa é mais barata para um e tranquila, quando não tem uma mulher para encher seu saco querendo ir a lugares de compra, quando ele quer tomar cerveja australiana num pub. Enfim, ele está fugindo de compromissos longos, cobrados; passando bem longe da casa da sogra e dos almoços de domingo. Aí fica parecendo que você, mulher, vai às baladas em vão. É verdade. Vai, sim. Não tem homem!

Aí eu pergunto: Como penetrar nesse universo (quase misógino) e sair dali com seu homem zerinho, em suaves prestações? Difícil responder. Vivemos numa época muito controversa, confusa de relacionamentos. Com tantas facilidades em construir e desfazer tudo como num passe de mágica. Anti-sentimental e pró-imagem. Muito status e pouca vida. Muita tecnologia e poucas relações. Muito WhatsApp e poucos telefonemas. Eu diria até que vivemos um hiato, um vazio, um abismo ou uma transição de eras. O sentimento, o amor deixam de ter suas importâncias e o que vale é o sucesso, o corpo, a saúde, a imagem, o parecer, a felicidade, a longevidade, a grana, o prazer e o desfrute.

Mudar isso é como virar um tabuleiro inteiro, no meio do jogo. Essa mulher precisa aprender: homens amadurecem mais tarde. Não é como na década de 70, quando eles, com 30 anos, eram casados, já com três filhos. Homens com 40 anos, hoje, andam com boné de aba para trás, bermuda, regata e jogam vídeo game com seu sobrinho de 15. Só vão criar juízo e visão do mundo depois dos 50. E olha lá...

Por outro lado, essa mulher (sem terapia), por achar que a escassez é um problema que está com ela (não imagina que ele não quer compromisso), começa a se sentir rejeitada (se for bonita, mais ainda); vai querer ficar mais bela (do que já é), só para atrair esse cara. Gastos excessivos com cabeleireiros, manicures semanais, academia e plásticas (bumbum, seios, nariz, etc.). Está tudo misturado no seu subconsciente. (Ela pode até dizer que turbinou os peitos por ela mesma, mas não há explicação quando é algo do corpo que se quer consertar. É para ser visto de fora e não no espelho.) Mesmo assim, ele só a quer para uma noite, porque beleza cansa e só serve até ele gozar. Mesmo se você for bonita, não pense que tem o poder de escolha. Mulheres bonitas são péssimas para escolher homens. Sempre acabam nos braços de caras mais ricos, bonitos, adúlteros e cafajestes.

(Quando eu falo em escassez, é no sentido da raridade de um tipo de homem. Aquele que está pronto, homem feito, mas precisa de um empurrão ou algo que o impulsione para assumir um compromisso sério.)

Essas mulheres deveriam se mirar naquela da sua espécie, que está numa faixa mais acima (45 e 50 anos). Se estiver sozinha, é porque já foi casada, ou porque entrou nessa safra de escassez também, tudo com blasé. Menos ansiosa, mais paciente, sem aquele elã dos trinta; até por que, para ela, sobraram os filhos para cuidar, enquanto o ex-marido veleja em Ilhabela. Essa, que já passou pela crise dos 30 (de difícil namorado/parceiro), aprendeu, com os tropeços, que o homem não a quer da maneira que ela sempre achou que fosse.

Repare bem e se pergunte: Por que tem mulher feia, gorda, desajeitada e malvestida casada? A resposta é simples. É porque ela não tem muita frescura na escolha de homem. São tímidas e até passam despercebidas numa festa. Ela não olha a conta bancária do cara, seus olhos azuis, seu nariz italiano, seu Corolla, etc., mas enxerga muito além. Enxerga futuro, filhos, etc. E, principalmente, se ele tem disposição para uma vida a dois. Pronto! Depois, ela tem algo a mais que oferecer que sexo. Já dizia o velho Gikovate: as relações, hoje, são feitas de parcerias e não de amor-romântico (século XIX). Ela oferece parceria.

Homem feito não gosta de mulher burra. Bonita/burra só para se divertir na balada. No dia seguinte, ele vai jogar futebol com amigos e nem se lembra dela. Se ela não sabe discutir política (assunto do momento), oriente médio, livros, séries da Netflix, etc., esquece. Você tem que se parecer (e ser) interessante para ele. Sua beleza e atração é sua fala, seus argumentos, seus conhecimentos e tudo que possa se somar à vida dele. (Conhecer futebol não serve). Atributos como: cozinhar, servir, arrumar, decorar, educar devem ser instintivos. Não são acessórios. Fazem parte do conjunto daquele universo atrativo.

Tem um um ditado popular que diz que você tem que casar com quem você gosta de conversar, porque, na velhice, o que sobra é só a amizade. Eu acredito nisso.

Por fim, se você mulher trintona tradicional, ainda tem alguma esperança de um bom relacionamento, é melhor olhar mais para o lado. Quem sabe aquele carinha feio e magro do teu trabalho. Pode ser ele. Frequente mais supermercado do que baladas. Gaste mais tempo com livros e filmes do que com supinos, legpress e crossfit. Mais tempo em conhecimento do que com futilidades, shopping, sapatos, raves e música sertaneja. 

Olhando para esse nosso tempo (cheio de mutações e imprevisibilidade), talvez com 40 (ou mais) você, com paciência e sorte, encontre esse homem para o resto da sua vida. No silêncio da alma, na respiração serena de uma manhã. Depois, aprenda acender a churrasqueira e a manter sua cerveja na temperatura certa. E já vou avisando, ele tem barriga.

(Outra dica: "Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas" – Nelson Rodrigues)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017

sábado, 5 de agosto de 2017

Nossos ídolos não são os mesmos

Começo escrevendo estas linhas no dia que o jogador, e ídolo brasileiro, Neymar foi transferido do Barcelona para o Paris Saint-Germain (PSG). A maior transação, em cifras, do futebol mundial — não cansa de repetir a crônica esportiva. O valor recebido pelo Barcelona foi de 222 milhões de euros (cerca de R$ 822 milhões).

Fiquei sabendo, logo de manhã, pelo rádio, que o "mlk" havia descido em Paris. Mais tarde, o site O Antagonista ironizou: "Na frente do seu hotel, um manifestante exibia um cartaz com a seguinte frase: 'O Qatar compra tudo. Jogadores e Jihad.' Bem-vindo a Paris, Neymar." O dono do time chama-se Nasser Ghanim Al-Khelaifi. Nem precisa dizer sua origem e de onde vem toda essa dinheirama.

Eu nem estava aí para o fato, mas um amigo futebolista me mandou um áudio — audião —, no WhatsApp, falando que a TV estava mostrando o momento da sua apresentação; e que ele estava mobilizando um pais, o mundo (exagero). E se é que tem alguém que presta neste país (Brasil) é Neymar — disse. Depois de ouvir o áudio, e antes de responder, me veio muitas coisas juntas. E aqui eu me pego na palavra "Ídolo". Quem é seu ídolo, Sr. cronista?

Já falei aqui neste Blog que, no Brasil, por falta de heróis de verdade (de guerra), idolatramos os do esporte, da música, da política, da TV, etc. E com ajuda da mídia, esses ídolos são transformados em heróis da noite para o dia. Como disse Nelson Rodrigues, em 1968: "Por isso, falo na solidão do Brasil. Não há perspectiva do grande enterro porque não há o grande homem para enterrar". Depois dessa frase, só me lembro do finado presidente (sem posse) Tancredo Neves, morto em 1985, às vésperas de se tornar o primeiro presidente do período "redemocrático" — com perdão das aspas — do Brasil. Depois, em 1994, Ayrton Senna, morto em uma prova automobilística.

Aí eu ponho a pergunta: Para quem corria Ayrton Senna? Ele corria pelo seu país, pela pátria de rodas? Ele corria por ele, pelo seu entusiasmo, gosto, talento e por muitas cifras de dinheiro, claro. Por mais ninguém. Morreu como morre um operário de construção que cai do andaime, no exercício do seu ofício. Não devíamos nada a ele e nem ele a nós. Tancredo foi uma comoção nacional pelo calvário que passou até o anúncio de sua morte. Os heróis nacionais não são heróis, que morrem em campos de batalhas, como vimos em guerras do passado. Aquilo que sempre digo: se temos paz em algum canto do mundo é porque foram conquistadas por grandes guerras. O antagonismo da vida, de  guerra e paz: esses são os heróis, os ídolos anônimos e sem rosto.

Na verdade, acho mesmo que os heróis deveriam morrer no anonimato e pobres, com uma bala na testa, porque não seriam heróis; e assim se preservam da desonra, da medalha, do nome de ruela. O heroísmo só cabe aos anônimos, aqueles que estão enterrados debaixo de nossos pés, para que possamos, hoje, passear à tarde numa praia ensolarada. Quantos já foram heróis e esquecidos? Depois, eles (grande mídia) deturpam tudo e transformam, mesmo, grandes assassinos da humanidade em ídolos de pano. Assim como Lênin, Stalin e Che.

Lembrei-me ainda, na conversa com meu amigo, que se olharmos para o mundo, veremos grandes figuras do show business vivendo suas vidas como pessoas comuns, no seus trajetos, no dia a dia. Como a foto, mostrada esses dias, de Paul McCartney dentro do metrô, supostamente em Londres; como também já vi um vídeo, onde o ator hollywoodiano Keanu Reeves, dentro do metrô, oferecendo seu lugar a uma mulher. São figuras reconhecidas e públicas, mas não se sentem superiores, divindades e nem heróis de sua nação.

Lá fora, no primeiro mundo, eles têm uma noção maior do que seja um ídolo e um herói. Porque tiveram muitos heróis em guerras travadas com seus vizinhos. Aqui, no Brasil, confundimos tudo. Tratamos tudo igual. Depois eles nos decepcionam, se mostram soberbos, como o cantor Roberto Carlos, que vive processando as pessoas que tentam tirar e publicar algo da sua vida. Diga-se de passagem, vida pública. Ele quer continuar ídolo, mas ser tratado como um ser intocável, celestial.

Roberto Carlos processou o autor da sua biografia. Proibiu o livro de circular, ameaçou.  Depois do episódio da biografia, ele processou também o deputado Tiririca por utilizar uma de suas músicas numa campanha política. (Deve haver outros casos, que não me lembro agora.) Tudo através de seus advogados, sem botar a cara. No final do ano, ele aparece na TV, canta aquelas mesmas canções, sorri, oferece música a Deus, às mulheres e distribui rosas ao som de Jesus Cristo. Tudo muito simétrico, calculado, igual e enfadonho ao mesmo tempo.

Esse cidadão é ídolo num país sem heróis, e por isso o avistamos, ao longe, como um cavaleiro vindo de uma batalha, com uma lança numa das mãos, quando sua música é gravada em outro idioma ou ganha um prêmio Grammy Latino. Confesso que gosto de algumas de suas músicas, mas, assim, como outros da música brasileira, só aprecio a obra e não a pessoa.

A arrogância não parou em Roberto Carlos. O manifesto dos artistas contra as biografias não autorizadas ganhou textos e mais textos em jornais. A produtora Paula Lavigne encabeçou um movimento de artistas, contra as biografias não autorizadas, chamado, à época (2013), de “Procure Saber”. Ela não só cuida da carreira de Caetano Veloso (ex-marido), mas de diversos nomes da música brasileira. A fórmula é fazer o dinheiro chegar até eles por vias mais rápidas. De Caetano ela disse em 2003:
“Hoje a gente tem quem cuide só da carreira internacional dele, na verdade é um império. E é justo que seja. Ele é um artista importante. Hoje o Caetano tem um patrimônio mais de dez vezes maior do que tinha. Vivemos bem. Somos ricos. Temos um apartamento maravilhoso na Vieira Souto, uma casa maravilhosa na Bahia e um apartamento incrível em Nova York. Minha ambição agora é manter isso que a gente já conseguiu”.
(Sentiu nojo? Eu também...)

Em 2015, O STF fez o que devia: liberou as biografias não autorizadas, para o coro dos descontentes. Por sorte, a grande parcela da sociedade brasileira já havia repudiado a atitude do bloqueio, de proibirem que algum anônimo escrevesse uma linha sobre suas vidas. O brasileiro está mudando e hoje não se deixa mais influenciar por entrevistas, lágrimas, ideias, campanhas, frases ditas por alguns desses artistas. O povo brasileiro não é mais o mesmo e já caminha por outros caminhos; se posiciona e opina. Tem procurado saber mais com aqueles que se portam como um farol em alto mar. E nossos ídolos não são mais os mesmos.

E por que eu digo isso de Roberto Carlos? O mesmo Paul McCartney, figura icônica, conhecida mundialmente, teve uma biografia publicada recentemente. Segundo um portal de notícias, o autor conta casos de um Paul humano: que se irrita, que briga, que xinga; e muito provavelmente deve lembrar também de suas experiências com drogas. O que fez o ex-beatle? Processou o sujeito, como Roberto Carlos? Não. Ele continua andando de metrô, a pé por aí, pelo primeiro mundo. Sem esconderijos e seguranças.

E Neymar? Também tem em si esse ar de soberba, de possuído por uma divindade. Faz seis anos (2011), o Santos foi jogar o torneio da final do mundial interclubes, no Japão. Neymar já era ídolo do Santos e nacional (sem ter ganhado nada lá fora). Uma semana antes do torneio, o time do Santos já havia desembarcado no Japão. Mas antes disso, caiu agora na lembrança outro fato. O menino Neymar, de férias em Santos, disputava uma partida de futevôlei na praia. A quadra desenhada por fitas na areia estava rodeada de fãs, de neymarzetes. Cada vez que a bola caia para fora da quadra, bem longe, elas entravam na quadra e agarravam o ídolo. Uma coisa bem rastaquera, digna de um país como o nosso.

Continuando. Na semana da chegada ao Japão, o Santos foi dar uma coletiva à imprensa, e um mundo de seguranças fazia um corredor para Neymar chegar e sair do local. O problema é que no Japão não havia ninguém querendo agarrá-lo. Achei aquilo brega, coisa de brasileiro que se sente superior. Dias mais tarde, depois de ter vencido o arquirrival Real Madrid por 3x2 (desculpa se errei o placar), o Barcelona chegava ao Japão, sem sirenes e alardes; e sem treino, os jogadores foram dispensados para sair com suas famílias e fazer um tour pela cidade. Também sem nenhum tipo de alarde e corredor de seguranças. Na final, entre Barcelona e Santos, o resultado foi o esperado: 4x0 para o time catalão, sem nenhum brilho do ídolo/herói brasileiro.

Em 2018, se o Brasil ganhar a Copa, com Neymar em campo, muito certo que a mídia irá dizer que ele foi o grande herói nacional. Mas ele nos livrará do quê? De uma invasão muçulmana? Acho que ele nunca leu um livro na vida; nunca se preocupou com nada, exceto os pés que lhe dão muito dinheiro. Ele não está errado; errado somos nós, que o colocamos num altar santificado, como bocós que somos.

Mas a possível vitória ainda não irá finalizar o ano de 2018. Ainda poderemos eleger um presidente da esquerda populista, como Lula (toc toc) e terminar o ano vendo Roberto Carlos, de terno branco, jogando rosas brancas às senhoras espevitadas, ao som de Jesus Cristo.

 © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / agosto de 2017

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O lixeiro, o escritor e a babá

Quando era um petiz, o compositor Francisco Buarque de Hollanda não aceitava o fato do lixeiro fazer um serviço tão pesado e não ganhar mais que seu pai, que sustentava 7 filhos escrevendo à máquina, dentro de um escritório, com conforto. (Ele não aceitava a vida burguesa, mas não pensava em divisão. Curioso.) Ele queria que sua babá — ele tinha uma — se casasse com o lixeiro, mas ele não ganhava o  suficiente para sustentar uma família, pagar aluguel, contas, etc. Foi o que ela se queixou.

Passados quase 70 anos, a sociedade não "evoluiu" a ponto de abolir o recolhimento de lixo de nossas vidas, tampouco fez o lixeiro ganhar mais que um escritor. O lixeiro continua tão útil quanto um escritor, um jornalista, um compositor de música, um professor, um dançarino, um operário da construção ou um filósofo. (A babá, ao contrário, é um luxo social mesmo.) Cotidianamente, o lixeiro continua a passar em frente do seu prédio na zona sul carioca, recolhendo suas garrafas vazias de vinho importado e latas de caviar — presunção.

Durante sua trajetória de vida, aquele menino, que achava o mundo injusto e desigual,  não quis saber do trabalho braçal; ele foi impelido a ser como seu pai: viver dentro do ar refrigerado, compondo músicas e sustentando seus bens e luxos (e tudo que pudesse manter seu público com o velho discurso socialista). Teve talento para criações e não para carregar peso nos ombros. Era um sonho, um desejo pueril, mas pesou em sua escolha de caminho (de mundo melhor e justo), o fato de ser pertencente a ele. Tudo muda (e faz sentido) quando o interessado e sacrificado somos nós. Não há pensamento socialista que renegue o berço.

A desvalorização, se nós podemos dizer assim, de uns em detrimento a outros é milenar e, consequentemente, lógica na escala social da história da humanidade; o que fez, por milênios, o mundo ter sido  mais escravista. O que também se diferencia as pessoas pelo intelecto, talento, expertise e não por injustiça social. A uns foi dado o talento da ideia do que fazer com as pedras; a outros foi dada a força para carregá-las, transformando as ideias do criador em algo para o sustento da vida de ambos. E assim sempre será.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Utopia e realidade

O leitor, alguma vez, nas redes sociais, já deve ter deparado com uma foto de uma antiga (antiga?)  fita cassete e uma caneta esferográfica (dessas sextavadas) lado a lado. E um texto em seguida: "se você sabe a relação desses dois objetos, posso calcular a sua idade". E é verdade. Hoje, um espermatozoide cabeçudo, de 15 anos, não saberia mesmo dizer o que tem a ver uma coisa com a outra. Teria que ter vivido os anos 80, 70.

Confesso, pois, a primeira vez que deparei com a postagem me veio memórias — muitas coisas me dão saudade — daquele tempo mecânico, manual e nada digital: o disco riscava, o cassete enrolava no aparelho e a música não tocava. Até então, achava que só eu havia descoberto a técnica. Vou voltar no final do texto sobre essa época, porque me veio outras coisas interessantes agora.

Outro dia, depois de eu ter escrito numa postagem que índio no Brasil é vagabundo, fui chamado atenção, logo em seguida, por um colega músico. Ele disse: "E o Amor de índio, o Beto Guedes, o Clube da Esquina?". Desertei para não gerar a chamada treta, muito comum hoje nas discussões pelas redes sociais. Na verdade, ele queria me provocar: — já que você gosta das músicas, não pode tratar mal as ideias e inspirações de quem as cria. Dei de ombros e fingi que não li.

No tempo da fita cassete, não haveria tal provocação, discussãozinha — diminutivo de uma palavra que já nasceu grande — boba. Todo mundo se alimentava da mesma fonte. Éramos mais ingênuos em pensar que havia mesmo amor de índio; e era mais bonito pensar assim, mais poético, porque na nossa cabeça havia muito mais amor de índio que amor de homem branco.

A realidade é: os povos indígenas não cabem no mundo moderno. Índios não têm civilidade, são pedófilos, praticam infanticídios, degradam o seu habitat com caças predatórias. Na sua realidade, não vivem só de amor. Isso só na cabeça dos poetas. O amor e a magia tem ambiente em mentalidades utópicas. O mundo precisa de um choque de realidade; a distopia, a desconstrução dos sonhos de nuvens de algodão; ou do poema concreto, que demonstre a fome, a miséria, a verdade da vida. Tudo que se revela, como toda ditadura que se esconde por trás de democracias.

Na era do Smartphone não temos direito à muitas licenças poéticas. Poucos são aqueles que hoje mandam poesias metrificadas pelo WhatsApp. Vai aquele "Bom dia" costumeiro às 7h e depois é um despejar de realidade. E eis aqui onde que quero pautar. O que ocorre ainda com algumas pessoas — depois irei falar desse grupo — é que elas vivem a doce ilusão de um mundo poético e utópico, quando a realidade nos sufoca diariamente.

Por que artistas, intelectuais, músicos de MPB insistem no apego à ideologias e pensamentos de esquerda? Por que ainda vivem como idólatras de ídolos sanguinários como Fidel, Guevara, Stalin, Mao? Por que vivem a pregar um mundo de iguais, sendo eles mesmo tão diferentes e arraigados às riquezas? Por que eles se escondem atrás da realidade de um país? Porque não querem enxergar que o "amor de índio" já não cabe no dia a dia de um país chafurdado em corrupção, com sistemas públicos não funcionando e com 14 milhões de desempregados? Não dá para fazer poesia. A realidade nos atropela. É só discurso, discurso. Nada mais.

O jornalista e cineasta Arnaldo Jabor escreveu em uma das suas crônicas, que a esquerda envelhecida de hoje, ainda se apoia nos seus discursos que polariza burguesia e proletariado, muito comum no anos de 1960, porque têm vergonha de mudar de opinião, lado ou simplesmente aceitar a chocante realidade. Se o fizerem, irão romper com seu passado. E como ficarão com o público que os elevou? Muitos deles fizeram sua carreira em cima desse mote: — a ditadura me perseguiu. Pouco tiveram coragem de romper com o passado e pensar no pais do presente. Este mesmo país sob uma corrupção da esquerda que eles ajudaram a chegar ao poder. Escreveu também Jabor:
"Que interstícios percorrem as ideias dentro de suas mentes, para negar tudo que está acontecendo hoje? Não conseguem fazer uma reles autocrítica de suas crenças. Mudar de ideia é considerado traição. É uma visão paranoica de que o país está tomado por “fascistas” que querem tirar o PT do poder."
A verdade — aqui pegando por onde Jabor disse —, a "intelectualidade" da esquerda (dos artistas ainda engajados em velhos pensamentos dos anos 1960) perdeu o timing; perdeu o momento de dizer "não" à água podre que corrói as entranhas do país. Eles não têm mais discursos e por isso cantam ainda, como Milton Nascimento, "Menestrel das Alagoas", lembrando aquela campanha de 1985 por Diretas Já. É hora de se recolher e contar suas memórias; ou virar um colunista atacando o câncer do PT, como fez Ferreira Gullar nos últimos anos de vida — ele já foi do PCB. Não pode ter vergonha do passado. Mas eles não têm coragem.

Agora, em pleno momento de torpor, da dramaturgia política, de um país que tenta encontrar seu rumo depois do impeachment de Dilma, eles (esses mesmos artistas) vêm pedir Diretas Já, como se o momento fosse só o de romper com um governo e reiniciar um outro. Mas esse outro, que eles propõem, é o mesmo que eles elegeram, corroendo os cofres da nação. Ou seja, nada pode mudar e, sim, continuar como antes.

Também é de penar, ver que, ao final de suas jornadas, com uma carreira artística vasta e rica, artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, terminem suas carreiras (todos na faixa dos 70 anos) de uma maneira melancólica e improdutiva. E tentam nos enfiar, como uma continuidade dos seus talentos, artistas como: Carlinhos e Mano Brown, Criolo, Emicida e Chico César. Todos da mesmo corrente utópica e ideológica. Muito diferente dos anos de 1960, as pessoas não os aceitam e nem consomem seus lixos musicais. Quem escuta é uma minoria.

A fita cassete enrolada por uma caneta esferográfica era a forma simplista de resolver um problema que a tecnologia da época não pensou. Tudo rudimentar, como apontar um lápis com a faca de cozinha. Mas tudo também de um tempo sem o policiamento do politicamente correto; quando as palavras eram soltas pelas bocas, sem uma patrulha por trás ou a vigília das redes sociais — ainda falam em censura durante o Regime Militar. Aqueles tempos, onde tais intelectuais ainda nos enganavam com seus discursos de mundo melhor, que hoje só demonstra que eles estavam mesmo atrás de dinheiro graúdo do Estado brasileiro.

A dor do brasileiro hoje é visceral; o país hoje clama é por justiça, segurança, educação, sobrevivência. Nada mais fisiológico. Acostumamos com tanta realidade, que as utopias, os amores de índio, as ideologias já não nos convencem mais como outrora.

Ninguém consome cultura sem antes ter comido o pão.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Julho de 2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Desconstrução

Esta crônica não começou aqui, mas nasceu numa conversa de botequim. Onde se conversa de tudo; e hoje, mais do que nunca, o assunto que supera o futebol é a política.

E não podemos tocar na política sem lembrar dos intelectuais, artistas de hoje (e antes) engajados — palavra muito usada no anos de 1970 — à correntes ideológicas e únicas de esquerda. Não, eu não sou daqueles que preciso saber o que um desses artistas de MPB pensa para tecer meus comentários. A bem da verdade, muitos deles se aproveitam, ainda hoje, da política para existir, ou melhor, difundir sua obra. É o caso da Lei Rouanet, que foi criada sob pretexto de incentivo à cultura dos anônimos, mas virou contrapartida, moeda de troca, aos artistas conhecidos e consagrados defenderem o governo de esquerda, que hoje nos rege, dono da lei, e sob qualquer viés. Como se todos nós fôssemos guiados por eles.

Poderia lembrar de outros aqui, mas o mais engajado sorridente, e quem mais se aproveitou dos governos (militar e de esquerda) foi Chico Buarque. Se projetou no regime militar e se condecorou no governo Lula/Dilma, como mito e símbolo de resistência. Ninguém mais do que ele é, até hoje, aclamado pela imprensa e toda a militância de esquerda como aquele que combateu a "ditadura", com suas músicas e peças de teatro. Combateu? Vamos voltar um pouco no tempo, reler e avaliar parte de sua obra. Uma desconstrução do autor de Construção? Sim, pode ser.

É inegável que Chico tenha sido perseguido pela censura do Regime. Não que suas letras eram balas de canhão a ponto atrair a massa e derrubar o governo — como a música que fez Geraldo Vandré — , mas só porque eram escritas por ele. Ele se fez, e hoje ainda se vende no meio artístico, como símbolo de resistência ao governo militar. Para isso, ousou em algumas letras, criou um pseudônimo e reescreveu algumas letras, trocando palavras, para ter suas músicas liberadas e gravadas.

Em 53 anos de carreira, Chico Buarque compôs, segundo seu site oficial, 343 músicas letradas (às vezes a mesma música com letras diferentes). Dessas músicas, nenhuma delas foi censurada no início de sua carreira até ser reconhecido como artista, de 1964 a 1969. Mesmo após o AI-5 (Dezembro de 1968), ele estava livre para compor e cantar. Sabiá, por exemplo era uma espécie de canção do exílio. Sem problemas nenhum, foi cantada no festival da Globo. Sua música mais tocada naquele final dos anos de 1960, Roda Viva, não sofreu corte nenhum da censura.

Somente em 1970 — e aqui começa tudo —, ele teve a sua primeira música proibida pela censura federal. Apesar de Você foi lançada num compacto simples — meu irmão tem até hoje essa raridade —, que tinha do lado B Desalento. Logo depois, quando perceberam que o "Você" não era nenhuma amante, mulher, etc, os discos foram recolhidos das lojas e a divulgação proibida nos meios de radiodifusão, pelos órgãos de censura. Subliminarmente era uma queixa clara ao governo militar. Muitos a chamam de "Carta ao Médici" ou "Carta ao presidente". Nessa época ele já tinha voltado do seu auto-exílio, em Roma.

Se levarmos em conta o valor de uma música que ficou no imaginário popular, como uma música de protesto (e que marcou um período), podemos dizer que só Apesar de Você e Cálice (1973), foram reconhecidas depois como músicas, com teor de crítica à política, e que sofreram censura ao longo da sua carreira. Isso não representa nem 1% da sua obra musical. Depois, ambas foram gravadas no LP de 1978, ainda dentro do Regime Militar. Foi mais um chororô de ocasião, e como a esquerda sempre interpretou bem nesse papel: vitimização. Para repetir até exaurir: — olha, eles estão me perseguindo. Fui censurado.

Alguém pode argumentar: mas ele teve outras músicas de cunho político censuradas, como Milagre brasileiro, Vence na vida quem diz sim, Tanto mar, etc. Essas não contam? Sim, mas sem a mesma importância. E o que eu digo, são aquelas que, mesmo censuradas, ficaram popularizadas, e sempre aparecerem em destaque na sua obra. Inclusive, depois, foram regravadas por ele mesmo.

As suas músicas censuradas (em partes ou integral), pelos órgãos de repressão do governo militar, eram por simbolizar aspectos negativos da vida social, ou aquilo que afrontava a "moral e bons costumes" da época. Partido Alto, por exemplo, teve palavras trocadas, porque ofendia a própria raça, o brasileiro. Disse o censor, que a avaliou: "Se é engraçado ou uma infelicidade para o autor ter nascido no Brasil, país onde ele vive, e encontra esse povo generoso que lhe dá sustento comprando seus discos, e pagando-o regiamente nos seus shows, afirmo que ele está nos gozando. Opino pelo veto." Depois que substituiu algumas palavras na música, o censor ainda lhe deu outra descompostura: "Como  é que você, que fez uma música como Construção, agora vem com esta, falando de titica e saco cheio." A música foi gravada.

Dos seus discos, nenhum foi mais comentado que Calabar. E aqui abro um espaço para descrever como a censura proibiu a peça e o disco, simultaneamente. Em 1973, Chico Buarque estava com 29 anos, e escreveu músicas lindas para a peça. Depois dos ensaios e pronta para estreia, ele soube que a peça havia sido proibida. Calabar, o elogia da traição soou como uma espécie de resposta à morte do Capitão Lamarca, desertor/traidor do exército brasileiro, por se juntar ao grupo de guerrilha Vanguarda Popular Revolucionária (VPR); se refugiando, por fim, no sertão da Bahia, onde foi encontrado e morto. Os órgãos de censura ao perceberem no meio a palavra "traição", não pensaram duas vezes em proibir tudo.

Das 11 músicas, do disco Chico canta Calabar (depois virou somente Chico canta), muitas tiveram parte das letras substituídas, ou estrofes retiradas (Tire as mãos de mim) e uma música foi totalmente censurada: Vence na vida quem diz sim. A capa, onde aparecia a palavra "Calabar" pichada num muro, também foi censurada. Na parte interna, no encarte do disco, a foto de soldados fazendo piquenique sobre a bandeira do Brasil também foi censurada. Ou seja, não sobrou quase nada. Apesar de tudo, o disco, com canções escritas por Chico e Ruy Guerra, é um dos melhores de sua carreira. A letra de Vence na vida quem diz sim, na forma como foi entregue à censura federal (anexa à esta crônica), aparece o carimbo de "vetada". Na canção Tire as mãos de mim, a última estrofe não foi gravada. Dizia:
"Por três tostões
Ganhaste um par
Hoje está sós,
Eunuco e coxo
Tire as mãos de mim
Põe as mãos em mim
Vendeste um teu amigo
até o fim
Agora leva o troco"
(A estrofe foi subtraída e não foi gravada. Quando comprei o livro Chico Buarque Letra e Música, não veio com essa estrofe. Mandei um email ao editor que me respondeu que na próxima remessa seria corrigido.)

O período duro e repressivo não durou muito, talvez quatro ou cinco anos e só. Em 1976, Chico escreveu três letras para uma mesma música. Nas três versões da conhecida O que será, a frase "o que não tem governo nem nunca terá" não foi censurada e foi gravada assim. A música inicialmente foi composta para o filme Dona Flor e seus dois maridos.

Nessa época, Chico Buarque, e grande parte da chamada MPB (dos artistas engajados) eram aclamados e muito populares nos meus universitários (ainda são até hoje); do outro lado, a maioria da população ouvia mesmo era Antonio Carlos e Jocafi, Benito Di Paula, Originais do Samba, Secos e Molhados e Os Incríveis cantando Eu te amo meu Brasil. Para o meio politizado, se você não ouvia Chico e a MPB você era alienado. Mas quem se importava com isso, se a vida não era tão repressiva como eles diziam àqueles que não deviam nada ao governo?

Naqueles idos, pelos arredores e calabouços, se falava muito em prisões e torturas. Que artistas haviam sido presos e torturados, citando sempre Geraldo Vandré (?); e que nele fizeram uma lavagem cerebral, etc. (Pois é, somente ele carrega essa pecha da tortura. Ninguém mais. Por quê?) Logo após aquela noite, da sua memorável apresentação no Maracanãzinho, depois de ser ovacionado com Pra dizer que não falei de flores, Vandré foi sentindo o peso de sua música no meio dos militares e no início de 1969, já com o AI-5, ele sumiu. Ele arrumou um jeito e escapou pelas fronteiras do país e ninguém mais o viu. Naquela altura sua música já estava na boca do povo. Ele voltou em 1973 negando a prisão e que havia sido torturado. Nunca mais compôs como antes. Nas entrevistas recentes, ele, aos 81 anos, continua negando peremptoriamente que tenha sofrido qualquer tipo de tortura. Passados tantos anos, quem vai dizer o contrário? Por isso, a esquerda o abandonou. Ele não cabe mais na sua narrativa.

Agora, quem verdadeiramente sofreu tortura moral naquela época foi Wilson Simonal. O negão era como se diz hoje, marrento. Dono de uma voz irretocável, tinha personalidade, talento e um domínio total das grandes multidões. Meu limão, meu limoeiro virou hit no final dos anos de 1960. Era um showman. O que ele não estava nem aí, era com o que acontecia no país: do governo militar e aqueles que queriam derrubá-lo. Ele só queria cantar, andar nos seus carrões, se encher de dinheiro e ter as mulheres que queria. Foi acusado, por seus parceiros de música, de ser um informante do governo. (O que ninguém conseguiu provar até hoje.) Sua carreira acabou ali. Isso, sim, foi tortura. E ninguém, desses, veio lhe pedir desculpas, nem post mortem. Morreu anos mais tarde, alcoólatra, sem nunca conseguir provar sua inocência.

Outro dia, uma seguidora do meu Twitter se surpreendeu,  por eu ser arquiteto, e ter um pensamento tão conservador. (Os arquitetos são, na maioria, revolucionários de esquerda.) São outros tempos ou outros homens? Tempos de realidade e não de utopias (outra crônica). Por mais que a arquitetura tenha seu  broto e processo criativo numa visão utópica de mundo, mas a sua transformação é realidade que se toca, que se vê e se admira como poema concreto. Os sonhos são devotos, revigorantes, mas só o real encontro com a vida nos torna pessoas.

Assim, muitos outros também me questionam, porque passei a vida toda colecionando a obra do Chico Buarque (discos, livros, songbooks, DVDs) e hoje sou crítico. Bem, ao longo a vida a gente aprende muitas coisas. Uma delas é apartar o artista (e sua obra) da pessoa. Dizem que Chico Buarque vai lançar um novo disco em 2017. E dizem, até, que há uma música escrita para o Lula. Sempre esperei muito por seus discos chegarem às lojas. Hoje, nem tanto. Talvez, eu compre para continuar a coleção, mas não será com o mesmo entusiasmo quando comprei o LP "Chico Buarque 1978", ali nos meus 16 anos. Não será mesmo!

E para finalizar essa conversa, cheia de retrospectos, lembro da entrevista célebre do escritor Millôr Fernandes ao programa Roda Viva, da tv Cultura. Uma das perguntas, que veio de telespectadores, se referia da sua suposta briga com Chico Buarque. Millôr não quis polemizar, mas afirmou que não havia brigado, e alfinetou: "os defeitos de Chico Buarque se juntaram comigo. Defeitos que não tenho". E concluiu numa frase imortal: "Eu desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal".

(Você pode dizer que esta crônica é a desconstrução de um mito. É sim. No entanto, a pior das torturas, carregadas de censuras, não estão nos tempos da repressão, onde vinha com o carimbo "vetada", do censor que tinha rosto. A pior são as censuras em tempos de democracia, porque elas vêm da forma mais rasteira e velada.)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Junho de 2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Um abajur cor de carne

Ali, no início dos anos 80, havia tanta música boa tocando, que nós, jovens, rejeitávamos um punhado delas ou colocávamos na prateleira do desprezo por acharmos bregas. Assim, o que queríamos ouvir, comprávamos ou emprestávamos o disco; e as outras, aprendíamos a cantar, mesmo sem querer, porque as rádios não paravam de tocar. Ritchie era essa música que grudava nos ouvidos como goma de mascar.

O inglês Ritchie foi uma figura icônica dos anos 80. Ou: sem ele aqueles anos não teriam acontecido, musicalmente falando. Do seu famoso e álbum "Voo de coração", cinco músicas estiveram no hit parede entre 1983 e 1984. Suas apresentações eram constantes e obrigatórias nos programas de auditórios. Rosto fino, loiro, blusão de couro preto, usando óculos Wayfarer e aquele sorriso despontado pelos pontiagudos caninos (não era belo, mas mesmo assim, havia mil garotas a fim).

E o que era Ritchie para mim? Aquela música que ouvia por tabela: na discoteca, de passar pela rua na frente da loja de disco; e depois sustentava para os amigos que não gostava, porque iam me tachar de brega. Mentira!, gostava sim. Depois desses 34 anos (1983), ainda curto demais suas músicas. Está na minha playlist do pen drive. Sem nenhum rubro na face.

Mas ali, nos anos 80, havia uma outra coisa fascinante. Os discos vinis (bolachões) tinham capas bem elaboradas e encartes com as letras das músicas. As revistas para tocar violão também tinham as letras cifradas. Assim, ficava difícil confundir palavras, frases e cantar errado, como teve gente que passou a vida cantando "Trocando de biquíni sem parar" (Noite do Prazer - Brylho), quando a letra dizia "Tocando B.B. King sem parar". Nada tão mal. Só a confusão de um gênio do Blues com um vestuário feminino de praia. Repetiam o que ouviam sem reparar na letra. Eu, por ofício, sempre tive esse hábito de ler letras, os autores, o arranjador e os instrumentos que estavam presentes naquela música. Dificilmente cometia tal gafe.

Uma fórmula que todo letrista de música — poeta, por que não dizer? — tem em mente (ou não tem) é sentir nas palavras que vem, que elas, muitas vezes, vêm soltas e vão, em seguida, encontrar uma outra e outra... E não necessariamente essa fará junção com a primeira, ou será correspondente, dando sentido à frase: "De um quasar pulsando loa. Interestelar canoa. Leitos perfeitos, seus peitos direitos me olham assim. Fino menino, me inclino pro lado do sim. Rapte-me, adapte-me, capte-me, It's up to me coração". O uso de hipérboles, como "morrer de amor" ou "coração partido", são coisas corriqueiras na linguagem poética.

Eu não tinha dúvida nenhuma que, ao escrever "Menina Veneno", o letrista Bernardo Vilhena quis dizer que o abajur era cor de carne. Nós estávamos nos anos 80 e mais acostumados com essas colocações poéticas que não faz sentido. Qual é a cor da carne? Sei lá. Poderia ser "cor de caramelo", ou algo assim. Estava licenciado.

Não faz muito tempo, vi uma entrevista de Ritchie e ele disse que a letra foi escrita na sala (não lembro se era da sua casa). Mas eles foram construindo a letra com aquilo que viam no ambiente: cortina, escada, porta, abajur, lençol, cama, parede, etc. E assim nasceu Menina Veneno, como uma sombra, a silhueta do fantasma de uma mulher, dessas que atormentam a mente masculina.

Mas eis o que queria dizer. Eu, no Twitter, sigo algumas celebridades. Até para ver o que pensam. Faz pouco tempo comecei a seguir o Ritchie. Depois de algumas postagens, me apartei do assunto e perguntei a ele quem trocou a letra da sua música e inventou o "abajur cor de carmim". (Nas redes sociais já postaram inúmeras vezes a letra com "cor de carmim", e eu me cansei de reparar as pessoas do erro). Aguardei 12 horas para ele me responder: "Foi alguém que não sabe ler. ;)", escreveu de forma lacônica e direta. Exatamente aquilo que eu disse acima: as pessoas ouvem e saem reproduzindo, sem ler ou prestar atenção. Aquele hábito da época do Vinil: de ler as letras das músicas. Quem viveu os anos 80, sempre cantou como eu: "abajur cor de carne", sem se perguntar se havia sentido concreto. Há sentido e realidade em poemas? Tema para outra crônica.

— Então, diga aí Ritchie, cor de carne ou de carmim?


© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Junho de 2017

quarta-feira, 5 de abril de 2017

De volta ao quarto escuro

Algumas crônicas requerem coragem para escrever. Como se uma fratura da alma fosse ficar exposta; um réu confesso de um crime que só você sabe, porque o assassino e o cadáver é você mesmo.

Bem, no caso, não se trata de um crime, mas de velhos segredos (de liquidificador), esconderijos de um poço fundo. Dessas coisas que empurramos para debaixo do tapete do tempo ou, como já disse em outra crônica, aquele quarto escuro no fundo de casa, onde amontoamos nossas memórias e tudo aquilo que negamos do passado: dores, vexames, vergonhas, pobreza, fome e mortes. Há sempre dores na memória prontas para serem reveladas. As dores da fome e da morte são doloridas de lembrar. Então, acobertamos.

Estava esses dias carregando meu Kindle (aparelho de ler livros digitais). Parei na espera do médico, abri, digitei a senha e comecei uma cronica de Nelson Rodrigues. Ele descrevia (confessava) exatamente sobre essas duas negações: fome e morte. Ninguém consegue falar sobre isso, quando tudo ainda está consigo. Só falamos quando já superamos a dor, ela já foi. E Nelson, corajoso, contou de uma infância, do dia que pediu água para beber num botequim. A água não era sua sede, mas sua fome. Era a primeira coisa que punha na boca naquele dia, já às 8h da noite. Dores de fome na infância.

Na mesma contextualização veio a sua lembrança a "Espanhola". Aquela gripe que fez, em 1918 (por todos os cantos por onde se olhava), um amontoado de defuntos. A morte que acostumamos já na infância, e dela aprendemos a não ter medo. Escreveu no final: — "A peste deixara nos sobreviventes, não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. A cidade estava cansada da morte". Coisas de um mundo que essa nova geração (do lado ocidental) não se assemelha e nem sabe que existiu. Somos apartados e poupados do convívio, da cara da morte, da carne exposta. As crianças da classe média, que passam Nutella no pão, mais ainda.

Eu testemunhei a primeira morte, ainda de olhar pueril, com certo espanto e assombro. (Testemunhei, não, eu senti.) Ali pelos meus seis, sete anos. Era um menino paraplégico que havia morrido próximo de mim. Morava duas casas da minha. Primeiro, queria dizer que minha tia já havia perdido alguns filhos recém nascidos. E aquela cena de caixãozinho na sala, parecia comum. Como se a cada ano se esperasse um novo enterro para despachar. E lá ia o cortejo, a pé, para uma sepultura branca e singela, como tudo era na nossa vida.

Ouvia os adultos falarem de morte, e eu sempre no meu assombro sem manifestação. Eu era silencioso e complacente. Havia uma fala entalada em mim, sem nunca pronunciada. Ela teve uma filha, que me lembro, durou mais de um ano de vida. Acho aquilo que levou aquela priminha era uma meningite. Não pude nem chorar, porque criança não entende muito de perda. A criança, em nós, imagina sempre algo confortável, como um anjo. Era um anjo erguido aos céus. Eu imaginava assim: não há dor quando se vê um anjo.

(O que me recolhe mais ainda para dentro do catolicismo, não é só o respeito aos meus pais que me deram sua religião, mas também esse encontro de vida e morte; de compreensão, na fé, que nada termina, mas, sim, se modifica, se amplia numa extensão de alma. Não há explicação racional.)

Volto ao caso do amiguinho — não vou dizer o nome. Era uma amizade de limites. Explico. Ele não podia fazer as coisas que eu fazia: correr atrás de pipa, pular corda, jogar bola, etc. Mas não havia queixa nos seus olhos; eu amava sua companhia e não enxergava nada nas suas limitações, não havia pena. E mesmo sentado na sua almofada xadrez verde, do quintal, ele "batia figurinhas", empinava suas pipas. Tinha habilidades com os dedos para fazê-las ganhar os céus com rapidez. Coisa que eu não tinha.

Havia, eu me lembro, um carrinho de madeira com rodas de borracha, que nós levávamos seu corpo miúdo para onde queríamos. Até para a escola ele ia no carrinho de madeira. Nas outras vezes era carregado no colo como um recém nascido e quando se sentava no chão, era sempre na almofada xadrez. Suas pernas eram finas, sem carne e o joelhos saltados, sobressalentes, só ossos.

Havia algo mais, suas pernas não se esticavam. Franzino, queixo fino, pequeno para os seus 12 anos, ele ia diminuindo quando as dores chegavam. Atrofiava e a dor vinha em compasso, cumprimindo seus ossos. Uma vez teve uma crise. Primeiro, ele reclamou que o café com leite (era mais leite que café) estava com nata e sua mãe tirou com toda paciência. No dia que um médico foi chamado, eu fui para o corredor, dos fundos da casa, espiar da janela. Vi o médico apertar seus joelhos saltados para baixo. A perna não esticava, o joelho não obedecia. A doença estava se agravando.

Quando veio a notícia de sua morte, recebi resignado, sem choro, porque ninguém chorava naquela época. Era esperada sua hora e todos já haviam chorado por dentro, e muito antes. Alguém em casa ainda comentou:  "tiveram que empurrar seu joelho para fechar o caixão". O joelho não obedeceu nem depois da morte, era rígido. Pus a cabeça no portão, e vi pessoas se aglomerando na frente da sua casa. Não sai dali até que o cortejo partisse. A vida seguiu depois e eu guardei aquele menino no meu fundo quarto escuro, nas minhas memórias de dor e morte.

No dia seguinte (e nos outros) estávamos novamente na rua; nos carrinhos de rolimã, atrás das pipas, da bola, piões, cata ventos, balões e estrelas no céu. O vento no rosto e a camisa xadrez tampada com remendos, e calção de brim grosso. Esquecer quem partiu já era parte de nós. Quem nasce na pobreza, nunca escapará de um "não", de uma ferida aberta (sem Merthiolate), que não nos queixamos da ardência e sangramento. Mas, mesmo na escassez, a vida tem também o seu "sim". Sobreviver é o "sim" da miséria.  E, por acreditar que tudo passa, chegamos à vida adulta. Aprendi, desde então, a ter que aceitar a morte nos pequenos homens como eu era — 7 anos. Era destino, fatalidade. Nunca havia culpa. Por trás de muitas delas havia, sim, a pobreza. Se morre, porque, em muitas vezes, se é pobre.

Certa vez ouvi de uma pessoa (uma mulher) que, ter dinheiro e perder tudo é pior que nunca ter tido nada. Quando acostumamos a não ter nada, não nos importamos com as pequenas perdas. Ela falava de si e estava certa no seu modo de pensar. Aquele que é pobre não se compara a ninguém. Exceto a ele mesmo.

Olho, agora, as velhas fotografias, amareladas e o que chama atenção não são nossas feições (pai, mãe, irmãos, primos), mas as paredes que estavam atrás daquelas silhuetas. Vulneráveis paredes, sem reboco e muito menos tinta. Eram tijolos expostos, com argamassa de terra (sem cimento). Os tijolos de uma fome, uma fraqueza, num sinal crível de pobreza. Quanto mais tijolos vistos e terrenos cercados por taquaras amarradas, maior era a pobreza. Nossas fotografias não escondem nada. Radiografam uma memória: éramos pobres.

Se escapamos da morte na infância, devemos à sorte e não a prevenção e cuidados com vacinas e medicamentos. Um médico, um hospital eram coisas distantes da vida de quem morava periférico do mundo. Os pés descalços, o esgoto correndo pela rua de terra, a água de poço, a latrina, etc. Não havia medo de doenças e de nada. Mas havia algo bom: as balas, o bolinho de chuva, o pão doce com mortadela, o ki-suco, o café com leite e farinha de milho. Havia um olhar de esperança e de não se enxergar na pobreza. Ter a percepção de que algo lhe falta, dói mais. Eu não tive. Eu sonhava coisas pequenas de um mundo pequeno.

Certifico, por fim, não vi a fome, como Nelson, mas a quase fome me avizinhou como um trem fantasma. Quando, na memória, tocamos nossas dores e mortes, é como se palavras se desprendessem ao vento do nosso livro aberto. A voz entalada da infância, que agora se solta, além das cortinas e janelas da alma.  O quarto escuro é o velho passado, cansado de tanta dor, pobreza e morte. Agora escancarado, vasculhado na narrativa. O passado fenece quando falta coragem para tirá-lo da escuridão e expor no meio da rua, à luz do mundo.

"O que não se diz apodrece em nós" — Nelson Rodrigues.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Abril de 2017