BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Janeiro

Hoje é dia da poesia. Encontrei esta do meu pequeno baú literário. Poemas não são feitos para serem explicados, mas para serem sentidos.



Quando ela olhou para trás
Eu vi sua face se esmaecer
Na curva de estrada
Nossa estrada, estrada...
Os anos se foram
Poemas rasgados
Canções furtadas
Janeiros afins
Eu sei...

Nos passos enluarados
Fui de encontro ao mar
Nas preces que me vinham
Em nome do nosso amor
Lânguido meu olhar ficou
E deixei-me na praia
Um corpo estirado
Eu nem sei por que de tudo
Deixamos de amar por nada
Sei que sem ela e ela sem eu
Na curva da estrada
Nossa estrada, estrada...

Vi um janeiro tua pele
Bronzeada árida
Tudo o que ficou
Entornou um mar em mim
Tuas queixas em vão
Onde foi parar meus versos
Arraste um janeiro
Sobre a minha canção
Um poema encomendado
Não pode ser convertido
Na palavra da alma
Não tem origem, nem fim
Um poema encomendado
Não pode ser entregue
Identificado contigo
Mas assino embaixo:
Você é meu amor.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 2007.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sinais e... Truco!

Segue abaixo um texto antigo, mas que não se perdeu com o tempo. Afinal, os sinais estão aí. Juntando sinais e truco pode-se dizer algo sobre a vida também. Nesta época, eu jogava muito truco, depois fui deixando de jogar até parar. Mas não perdi o jeito. É só chamar que eu vou.

Quem joga truco já ouviu muito isso: Truco! Seis! Nove! Doze! O truco é o jogo do gangolino, do blefe, dos sinais, da sorte e, do azar também. Popularmente é o maior jogo de cartas do Brasil. Digo isso porque não conheci ninguém que já não tenha jogado ou pelo menos tentado jogar truco. Minto, no Rio de Janeiro não se joga truco. Dizem por lá que é jogo de paulista. Na verdade, aqui em São Paulo, Minas, Mato Grosso e Goiás é costume se jogar truco em rodas de amigos e torneios. Claro que, de região para região há variações das regras. Aqui em São Paulo jogamos a regra do “ponto acima”.

Aprendi a jogar truco vendo meu pai jogar com seus amigos. Ali, ao lado da mesa eu ficava prestando atenção em tudo. Meu pai jogava quase todas as noites e sempre que o jogo não era em casa eu ia com ele, onde fosse. Achava divertido os desafios e blefes, embora não entendia muito. Naquele tempo se jogava a versão antiga ou como chamamos hoje de “manilha velha”. As cartas, por ordem de valor, são quatro de paus (zap), sete de copas, “As” de espada (espadilha) e sete de ouro (pica fumo). Hoje, jogar manilha velha não tem graça, s cartas facilmente ficam marcadas; ninguém joga mais, só os mais antigos.

Depois aprendi a jogar a regra do “ponto acima”. Muito mais difícil de jogar e mais difícil de “roubar”. O jogo dos gangolinos requer astúcia e perspicácia para ser um bom jogador e principalmente atentar aos sinais do parceiro. Você tem que conhecer muito bem os sinais do teu parceiro e ele os teus. O olhar fixo, a ligeireza e a malandragem evidenciam que jogar truco é muito mais no blefe do que na sorte das cartas que você tem nas mãos. Se tornando para muitos um vício. O dom de dar o sinal ao parceiro é tudo ou quase tudo no jogo de truco.

Fiquei muito tempo sem jogar. Para ser sincero, tive asco ao jogo. Quando fazia faculdade de Arquitetura era comum as mesas de jogatina entre um projeto e outro. Via muita gente deixando de estudar para jogar. Não que eu fosse um “caxias”, mas aquilo, todo dia me irritava. De lá para cá não joguei mais. Recentemente voltei a jogar, embora um tanto despretensioso, sem vontade nenhuma de alcançar o sucesso com medalhas e troféus; somente para passar o tempo, brincar e dar boas gargalhadas.

Num desses jogos aconteceu algo que me fez refletir a escrever estas linhas. Já na primeira partida, como de costume, ao receber as minhas 03 cartas olhei para o meu parceiro e dei um sinal. Como? Na hora me veio a vontade de encher as bochechas rapidamente para dizer que minhas cartas estavam horríveis. No sinal do truco, isso quer dizer o contrário e, ao contrario ele entendeu. Pensou ele, meu parceiro está cheio, entupido de cartas, tem “casal maior” na sua mão... Confiante no sinal, meu parceiro, se acomodou melhor na cadeira e disparou um truco, sem pestanejar. Do outro lado, nossos adversários levantaram e quase subiram em cima da mesa para gritar um sonoro SEIS!! Olhei para meu parceiro e fiquei sem entender nada, já que nada havia na minha mão. Fugimos rapidinho e passamos o baralho.

A pecha me serviu de lição e me chamou atenção a importância que devemos dar aos sinais, em tudo na vida. Vivemos a emitir e receber sinais pela vida inteira. Aprendemos desde o berço a ser usuário dos sinais. Observamos isso claramente quando uma criança é estimulada a pular no colo do pai, apenas pelos gestos e o sinais do olhar feliz do pai. Sem ter noção de distancia ou a altura, se jogam no espaço, sem medo e confiantes. Os surdos e mudos não se socializariam se não conhecessem os sinais de libra que usam constantemente, até para pedir comida. Ao guarda de trânsito colocamos nossa confiança e através de seus gestos e sinais nos orientamos. Assim, como meio substancial na vida humana, devemos acreditar nos sinais que o universo nos emana? Basta olharmos para o mundo que encontramos; a cada dia deparamos com manifestações na natureza, no meio ambiente e no comportamento do próprio homem. São os sinais do tempo, diriam, mas aqui não no sentido apocalíptico e, sim na pura verdade que há sinais demais no mundo para acreditarmos significativamente que mudanças vem em pencas; e tudo que emitimos devendo ter a absoluta credibilidade, o universo não se engana. No mundo que nós inventamos e mantemos, não vivemos sem estabelecer uma comunicação através dos sinais. Com Deus, fazemos o sinal da cruz. O sinais dos tempos, sinais dos corpos, sinais de trânsito... Tudo nos rege.

Depois do meu vexatório início, quer saber como terminou aquele dia do truco? Eu e meu parceiro ganhamos as 7 partidas seguintes, claro, com muita atenção aos sinais. Os mesmos sinais da vida.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 07/Agosto/2008.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quase sem querer


Sou comedido e, por muitas vezes, me abstenho a dar título que não está na biografia das pessoas, ou atribuir algo que não são. Nessa, posso confundir o motorista com o cobrador; o garçom com o maître; o empregado com o patrão. Assim também, há como discriminar a inteligência da sabedoria, a honestidade da competência — cada qual na sua frase e contexto. Por muito tempo, atribuíram a Renato Russo o título de poeta; um poeta do cancioneiro popular. Não, ele era um bom letrista de música e só. Já disseram o mesmo de Vinícius de Moraes e Bob Dylan. Vinícius era poeta quando fazia poesia, e letrista, quando sentava, com seu parceiro Toquinho, para compor canções. As poesias são outras palavras e têm a sua própria musicalidade — desprovida de instrumentos e harmonia musical.

Mas voltando a Renato, lembro-me dele escrevendo coisas lindas na sua curta carreira. Letras que se encaixaram em harmonias musicais como vagões nos trilhos; hinos que ecoaram no grito da juventude daqueles anos 80 — a geração coca-cola. Tem uma em especial que gosto: “Quantas chances desperdicei / Quando o que eu mais queria / Era provar pra todo o mundo / Que eu não precisava / Provar nada pra ninguém...”. Precisou Renato dizer isso, para todo mundo começar a não ter que prestar contas da vida a ninguém. Eu também me apeguei ai. Renato expressou nesta letra, seus dramas e conflitos pessoais. Desperdiçou oportunidades para provar que não precisa de provação nenhuma. Chorou suas melancolias e se libertou: não preciso provar minhas qualidades ao mundo, elas estão aí. Desabafou.

Nossa sociedade é cruel, há cobranças com provações a todo o momento — explícita ou muitas vezes velada —, que tenhamos sucesso em tudo na vida: ter corpo sarado, ter carro do ano, frequentar os melhores lugares, ter imóvel próprio, ter alguém especial, ter filho na melhor universidade, viajar nas férias para o exterior, obter vantagens em negócios e ter dinheiro aplicado na bolsa. Obrigam-nos a alcançar o auge, como se todo sucesso (a felicidade) fosse medido pela régua social das conquistas que nos coloca acima de tudo e de todos — o cume do mundo. Vivemos inconscientes, a provar que nós somos especiais para o mundo; e por consequência, deixamos de lado a nós mesmos e à família de onde viemos — nossos verdadeiros valores.

Nem todos os jogadores de futebol serão fenômeno, mas o futebol precisa de todos para existir. Há pessoas de sucesso que não aparentam; são quietas e não se mostram. Há pessoas satisfeitas, felizes e nem por isso, serão reconhecidas quando saírem à rua. Essas não precisam provar nada para ninguém e não desperdiçam vida para ser o que não são. Hoje, dou valor às pessoas pelo que elas viveram, pelo seu caminhar e não pelo que elas têm ou aparentam. Aprendi a viver com o pouco, e assim me encontro com mais frequência na felicidade, nas minhas andanças pelas aldeias e cidades. O mais importante do caminho é o caminhar.

Numa entrevista, que divulguei do médico psiquiatra Roberto Shinyashiki, ele afirma que vivemos os tempos da valorização do parecer, das aparências. A mentira como método de sobrevivência, nesta sociedade que pune, por falsa moralidade, a quem não está no staff social dos bem sucedidos. “Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem.” — disse Shinyashiki.

É a vida solapando seu próprio dono; a todo tempo construindo um perfil falso de si mesmo — numa confusão existencial. Vai se encontrar lá na frente na frustração e na depressão. Aí, vem Renato nesta mesma música e endossa: “Que mentir pra si mesmo / É sempre a pior mentira”. Os escritores Barbara e Allan Pease dizem que mentimos por duas razões: evitar a dor ou obter um ganho. A primeira é a mais branda, pois todo mundo mente para minimizar a sua e a dor alheia; a segunda talvez seja a que mais esteja na moda. Mentimos para obter sucesso e ter aparência que somos bem quistos. Num de seus livros, a escritora Lya Luft, diz: “Por isso a palavra, o abraço, o olhar, o momento de atenção, são infinitamente mais importantes do que o cartão de crédito, o compromisso, a viagem, o novo cargo”. Quando vivemos a aparência, também está na mesma oração, os objetos da vida que servem a ela: a mentira, a hipocrisia e a falta de humildade. Vamos nos apegar a isso e nos esquecer de outros gestos que fazem nos tornar tão próximos. É de surpreender ao ver pessoas bem sucedidas socialmente, serem humildes também.

Vi recentemente o filme “O discurso do rei”. Achei genial. Na trama vemos duas figuras antagônicas: um candidato à realeza inglesa, George VI (Colin Firth), uma pessoa fraca e com limitação imposta pela sua gagueira, desde os 04 anos; e um médico (Geoffrey Rush), um sujeito despretensioso, perspicaz, sem nobreza, mas com os pés no chão. O médico ajuda o rei a resolver seus problemas, invadindo sua intimidade e atingindo seu psiquismo. Como imaginar que uma pessoa poderosa — um rei — tenha suas frustrações, medos e limitações? Somos todos iguais, precisamos da humildade para assumir nossas limitações e viver o que somos de verdade, de carne e osso; assumir nossas raízes, de onde viemos; e os caminhos, que abrimos com as ferramentas que temos. Construiremos nossa canoa com as madeiras que dispomos. Navegaremos — rio abaixo ou rio acima — sendo nós mesmos, sem mistérios, sem sentimentos de derrotas, sem provar nada que não seja nosso braço e nossa força.

Vão dizer isso ou aquilo sempre de como alcançaremos nosso sucesso pessoal — as cobranças. Não dou provações e me calo. As palavras internas vão caindo: preste atenção no seu foco e na estrada; vivemos a repetir tudo para um dia aprender, de fato. “Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?” — de Renato Russo, quase sem querer.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / fevereiro de 2011.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Outras palavras

Meu psicanalista de cabeceira — Flávio Gikovate — sempre afirmou que, sexo não tem nada a ver com amor. Embora, romanticamente, falamos que fazemos amor quando, na verdade, fazemos só sexo. Porém, nada impede que façamos sexo com quem amamos — o que seria o ideal.

Vira-e-mexe, as palavras vão tomando lugar uma da outra, e esta perdendo o sentido, quando queremos expressar o que sentimos ou que desejamos. Tudo se confunde. Isto não ocorre com os extremos, com as antagônicas. Mas muitas palavras, pelas suas aproximações, vão tendo outras conotações que se perdem com o tempo. Até mudar inteiramente de sentido. Nem sempre elas tem a etimologia direta para explicar suas origens. As gírias, por exemplo, nascem no meio das conversas reservadas de grupos sociais, e quando cai no gosto popular, se espalham por aí como rastilho de pólvora.  Outro dia, perguntei se alguém sabia de onde vem a palavra "ataia", muito usada em Minas. Uma pessoa me disse: é uma derivação de atalho, atalhar. Quer dizer atalhe a conversa, encurte, seja breve. "Ataia Zé!" No popular mineiro virou "ataia".

No início da década de 1970, usávamos a palavra "transar" para dizer "curtir"; no dicionário, diz ser uma gíria em substituição das palavras ajustar, combinar, tramar, cuidar de, dedicar-se a. Era como se usava naquela época. Lembro de Elis Regina usando muito o termo "transei" isso ou aquilo nas suas entrevistas. Hoje "transar" ainda continua no sentido da gíria inventada a época, mas de maneira pejorativa só para  ajustar com alguém no sexo, combinar com alguém no sexo, dedicar-se a alguém no sexo. Ou seja, fazer sexo.

Até o início da década de 1980, ainda era assim usada, numa novela que se chamava Transas e Caretas. Vai botar o nome de qualquer coisa hoje de Transa, lá vem sexo na mente.




Postado por Antônio - Fevereiro 2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Almas perfumadas - o amor, o tempo, o vento...


De fato, não há vida só no plano. Entre montanhas e planícies, altos e baixos, construímos nossos estreitos caminhos. Contudo, quando a idade bate à porta, junto as más lembranças dos naufrágios, aprendemos que, o importante é saber lidar com tudo isso; se conhecer, posicionar o leme e navegar sem medo: hoje eu estou bem, nada me tira do prumo...

Fico altivo, quando minha autoestima se espalha pelo dia como um raio de sol: riso fácil, encontros, amigos, piadas, chope, um bocado de bom humor – a felicidade. Já, quando estou no andar de baixo do meu intimo – faz tempo que não visito - fico mais calado, pensativo, introspectivo e observador com tudo ao redor. Sem gritos, de acordar vizinhos ou causar perturbação alheia. Espero passar, e passa.

Há 12 anos, como fazia todas as manhãs, aportei numa padaria perto da minha casa para tomar meu café. O café da manhã sempre foi sagrado no meu dia a dia. E lá, entre uma mordida no pão, um trago no café e umas olhadelas no telejornal matutino, o pensamento viajava longe e tudo que me incomodava naqueles dias vinham em gotas na minha mente – o andar debaixo. Nessa mesma manhã, adentrou de mãos dadas um casal de velhos; ou, como é correto se dizer hoje, de idosos. (Gosto de dizer velhos.) Pela quantidade de cabelos brancos que cobriam suas cabeças, as fendas profundas nos rostos e os passos lentos — como se os pés se agarrassem ao chão —, eles aparentavam ter mais de 80 (depois dessa idade, diz ser ancião). Sentaram-se ao balcão bem à minha frente. A partir daí comecei a observar seus movimentos, ou seus quase não-movimentos; velhos não chamam atenção, mas algo atiçou meus olhos naquela manhã de inverno. Desde quando chegaram não falaram nada um com o outro. Ele só dirigiu a palavra ao balconista para pedir o café, o seu e o dela. Sem perguntar nada a ela, ele disse: “café com leite, um pedaço de bolo e um suco de laranja coado”. Ali ficaram, comendo em silêncio, sem se olhar. Quando ele percebeu que ela já havia também terminado levantou-se com a comanda na mão, e ela o seguiu. Até ao caixa, ainda deu tempo de segurar na ponta dos dedos da companheira. Pagaram e foram embora no mesmo silêncio, de mãos dadas e com os pés presos no chão, de velhos que eram. A partir desse dia, passei a refletir sobre a comunicação pelo silêncio das almas perfumadas.

Meu médico, sempre me recomenda os exercícios físicos para melhor minhas taxas de colesterol; elas teimam em me acompanhar já há alguns anos. Já lhe disse que não me pertencem, mas elas insistem, e não me largam do pé (do meu sangue)... Agora, já depois de outros esforços com dieta, tenho me dedicado às caminhadas de fim de tarde — e assim sigo, chutando as doenças para longe. Quando não há companhia, vou com o fone no ouvido. Caminho, penso e observo. Recentemente, tenho visto um casal de velhos, também caminhando no mesmo parque — em sentido contrário. O caminhar também é lento — com os pés presos ao chão — e também sem dizer uma palavra. Tudo igual. Voltas, voltas e calados; ouvindo somente as batidas do coração e o gorjear dos passarinhos que se aglutinam na copa das árvores. Um silêncio incomum, pois as pessoas que caminham juntas acabam exercitando também a língua. Quando os vejo irem embora, o silêncio vai junto; já fora do parque, ela enlaça em seu braço e vão para casa. Tudo em total silêncio.

“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo” (Caetano Veloso)

Quando caminhamos para velhice, nossas células vão morrendo de forma acelerada, e sem nunca fazermos um funeral a elas; a cada dia enterramos milhares delas, sem saber. É como se diz: morrer aos poucos. Por causa desse falecimento amiúde, diminui a ligeireza das pernas, das mãos e os sentidos vão ficando menos aguçados: próteses, óculos de grau, aparelhos de surdez, etc. A memória longínqua permanece assaz, lembrando lugares, cores e pessoas da infância; enquanto os últimos quinze minutos são esquecidos. Onde deixei meus óculos? As únicas coisas que crescem com o envelhecimento são as orelhas e o nariz — dizem.

Mas, na senilidade, é o amor que nunca morre; torna-se célula viva que não corrói com o tempo e como chama que não se apaga. Depurado em porto seguro, o amor sobrevive às intempéries da vida como uma rocha à beira mar. Já li por várias vezes que amar é uma decisão e não um sentimento. Na senilidade decidimos pelo amor; sem abandono, sem palavras duras, sem tréguas, sem cobranças — no silêncio. Não há mais o que falar; não há mais o que alcançar; nem o que pensar, sentir, reclamar, julgar, profanar, maldizer e provar. O tempo urge. O tempo é assim, faz o amor se condensar, purificado pelo filtro da alma; criam-se ramos e raízes que se aprofundam na terra e sustentam a ponta da vida sobre os ombros já arqueados. Fala-se sem palavras, fala-se no silêncio do coração, fala-se nos olhares, fala-se nos gestos de bondade e se acolhe nos braços, quando se cai. E quando não, transpassa  a morte e vai além da vida.

“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...”. (Mário de Andrade)

Lembro, então, das flores do quintal. A polinização é um fenômeno da natureza que acontece quando as flores se reproduzem; é o transporte do pólen que fecundará formando nova espécie. O vento se encarrega de levar as sementes (o amor ao vento) para que se fecundem em outro solo e desnude outra flor igual; e outra flor fará o mesmo, infinitamente... Sem nenhuma ação humana. Assim, também precisamos de elementos naturais para fecundar o nosso amor na alma. O tempo fecunda o amor quando já não vemos mais estrada para caminhar e o corpo range; quando ninguém nos vê mais com beldade; quando ninguém mais se interessa por nós; e nem a vida nos quer mais — só o amor nos anseia. O tempo é o vento para nós, aquele que transporta o amor para a terra fértil; o tempo conduz os caminhos para que os laços eternos se estreitem. No silêncio das palavras, na quietude como broto de flor. O amor é mais bonito e precioso quando envelhecemos. Quando as almas ficam silenciosas e perfumadas.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / fevereiro de 2011.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Bons conselhos

Meus Caros,
O meu próximo texto — ainda no forno — fala sobre idade, velhice e amor. À propósito, por coincidência, acabei de receber um e-mail com alguns "bons conselhos" de quem já chegou lá... Achei interessante em postar aqui e compartilhar com todos.

Escrito por Regina Brett, 90 anos de idade, assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio.

"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou.
É a coluna mais solicitada que eu já escrevi."
Meu hodômetro passou dos 90 em agosto, portanto aqui vai a coluna mais uma vez:

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .
3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.
4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.
5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.
6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.
7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.
8. É bom ficar bravo com Deus Ele pode suportar isso.
9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.
10. Quanto a chocolate, é inútil resistir.
11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.
12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.
14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.
16. Respire fundo. Isso acalma a mente.
17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.
18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.
19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.
20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.
21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.
23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..
26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'
27. Sempre escolha a vida.
28. Perdoe tudo de todo mundo.
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..
31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.
32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.
33. Acredite em milagres.
34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.
35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.
36. Envelhecer ganha da alternativa -- morrer jovem.
37. Suas crianças têm apenas uma infância.
38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou
39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.
41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor ainda está por vir.
43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.
44. Produza!
45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.

Postado por Antônio - Fevereiro de 2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Deus e as enchentes

Quando assumiu o gabinete presidencial, uma das primeiras providências da Presidente eleita Dilma Rousseff, foi pedir para retirar um crucifixo da parede e a Bíblia sobre a mesa, conforme noticiou o jornal Folha de São Paulo em 09 de Janeiro. Logo depois, o Palácio do Planalto tratou de remendar, dizendo que, os objetos foram retirados porque pertenciam ao mandatário anterior. Olhando por este lado, não vejo nada de anormal e acho justo; imaginando que, sendo ela uma cristã católica, iria providenciar imediatamente o seu próprio crucifixo e sua Bíblia. Nada! Até agora não li uma linha que tenha tido tal ato que demonstre sua fé. De verdade, ela não quer saber mesmo de religião em seu governo. Deus não entra ali.

Quando vem à tona esta polêmica entre Estado e religião, os entrincheirados esquerdopatas já estão armados: o Estado é laico; por isso deve manter-se longe da religião e governar com isenção às crenças religiões... Já me manifestei algumas vezes sobre isso, minhas visões vão além do Estado independente e soberano; as Leis Divinas também estão incutidas na sociedade, na família e penso que elas se fundem nas próprias leis humanas, onde os governos atuam. Não há mal em Deus.

Durante seus dois mandatos, Fernando Henrique nunca se incomodou com tais objetos em seu gabinete e não me lembro de ter pedido para retirar quaisquer símbolos religiosos da sua frente - governou com eles. Por respeito? Sei lá. E dizem que ele é o verdadeiro ateu.

Nos EUA, já muitas eleições - desde George Washington (1789) -, quase todos os presidentes, na cerimônia de posse, fazem o juramento ao governo sobre a Bíblia. Aconteceu com o presidente Barack Obama – antes mesmo, uma discussão polêmica cercou os noticiários que ele iria quebrar tal protocolo -, contrariando, ele fez o juramento repetindo o mesmo gesto sobre a Bíblia de Abraham Lincoln (1861). A utilização da Bíblia não é prevista na Constituição norte americana, mas é uma tradição seguida por quase todos os presidentes desde George Washington. Não sei qual a religião dele (Obama), mas o louvo por não fugir à tradição. Não lhe custou nada, seguir um velho costume americano, nada mesmo. Respeitou as crenças do seu povo.

Não tenho nada contra o ateísmo, embora não me lembro de conviver muito perto com pessoas dessa “crença”. Talvez, porque sejam mais comedidas e menos fervorosas quando pregam; e por isso, não as veja por aí “evangelizando” ninguém. Entendo somente, ser muito pobre em acreditar no nada, ou, como ouvi uma vez de um colega de profissão numa reunião de trabalho, “só acredito naquilo que meus olhos vêem...”. Natural, mas viver sem crenças, além dos olhos humanos, é um vazio enorme, a negação da própria alma – pensei - sem me manifestar.

Esquerdopatas remanescentes do comunismo vivem nesse mundo polarizadoentre Deus e o “nada”, e para isso se carregam da tese conduzida por um de seus mestres: “religião é opio do povo”. A fim de se justificar que não devemos misturar alhos com bugalhos; aí, eu devolvo ao condutor da frase: “suas ideias são os verdadeiros ópio do povo”. Suas teorias naufragaram. As religiões ajudam a formar boas famílias; e elas a sociedade.

Diante das enchentes que vêm devastando o país, exclusivamente a Região Serrana do RJ, a pergunta que faço, não tem a ver com as ocupações irregulares da população – que já são discutidas sistematicamente por toda a imprensa. Pergunto: O que Deus tem a ver com isso, com as tragédias? Creio que seja tudo! Especialistas disseram que a quantidade de chuva veio numa proporção igual ao mesmo período em outros anos. E pelo que sei, chove desde que o mundo é mundo.

As ocupações irregulares e o mau uso do solo urbano estavam no caminho da tragédia, dos deslizamentos – tudo às vistas do poder público que nada fez para desocupar essas áreas, o que chega a ser óbvio também neste país. Por outro lado, é fato que, os deslizamentos de terra ocorreriam, com ou sem gente morando lá; choveu e as águas arrastaram o que havia pelo caminho. Deus também entra nesse território - quando também não está - na forma de ajuda, compaixão, solidariedade e comoção das pessoas.

Enquanto escrevo estas linhas, são 809 mortos e 469 desaparecidos, estes que, ficarão ali nos escombros enterrados. Na sexta-feira, pós-tragédia, o jornalista Ricardo Boechat, disse, num tom de indignação que, o exército brasileiro levou mais de 48 horas para chegar à região, por questões burocráticas. Não fosse ajuda de voluntários e outras corporações militares locais, muitas pessoas outras, teriam morrido.

O país, que se prepara para tantas festas como Copa do Mundo e Olimpíadas - anunciadas com abraços, champanhe e politicagem -, não está preparado para remediar e socorrer pessoas em tragédias dessa natureza. A leniência, a omissão e o descaso têm sido a tônica nesses últimos anos de governo. Há muita dureza nos olhos, desrespeito, falta amor, compaixão e falta de Deus. Em outra ponta, no apagar das luzes do seu governo, o ex-presidente abastece com abundância seus familiares com passaportes diplomáticos ao arrepio das leis e torna um de seus filhos, um empresário bem sucedido e milionário. Tanta desfaçatez.

Aconselho nossa Presidente, como católica que diz ser, a voltar com o crucifixo e a Bíblia ao seu gabinete; e rezar mais. Contra as forças da natureza (de autoria Divina) não podemos nada, ou quase nada. Nem mesmo o Estado brasileiro pode. Ela tem feito as suas rezinhas - como já disse - quando o avião balança; tem acreditado em nossa senhora de “uma forma geral” (uma nova santa desconhecida do povo); precisa agora acreditar de fato que, só através da verdade e do amor – está em Deus - irá conduzir melhor esta nação. Ou - o que me parece mais provável -, assumir a verdade que também só acredita no que seus olhos vêem.

Não tenho dúvida, Deus vive se comunicando conosco, inclusive nas tragédias. Por esses mesmos sinais, Noé resolveu um dia entrar na sua Arca... A enchente é só Deus descontente, nada mais. Não consigo imaginar uma nação soberana, desenvolvida e sem crença, como querem. “Feliz a Nação que tem o Senhor por seu Deus, e o povo que escolheu para sua herança” – Salmo 32.12. Está lá no livro, que estava sobre a mesa.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Pão com manteiga


Um dos atores, hollywoodiano e contemporâneo, dos mais talentosos é Tom Hanks. Nos filmes em que atua, não me perco em ler a crítica antes; sento para ver, já sabendo que vai me prender do começo ao fim.

Faz um tempo, li uma entrevista que concedeu às páginas amarelas da semanária Veja. Ao ler o que pensa sobre a carreira, a fama, a vida e seu modo de escolher os filmes em que atua, extrapolei minha admiração, agora também é pela pessoa. Ele é um sujeito modesto, familiar, que até acha um despropósito os cachês que recebe pelos filmes; considera que há outras profissões que mereçam muito mais. Hoje, se dá ao luxo de escolher seus papéis só porque fará um bom personagem, sem se preocupar com o destino do filme; fugindo dos roteiros comerciais e dos mocinhos caricatos, enfadonhos, e assim justifica: “... nunca tive um tipo físico que me permitisse encarnar o Super-Homem”. No final da entrevista, ainda tece rasgados elogios ao diretor brasileiro Fernando Meireles pelo filme “Cidade de Deus”, e confessa: “vi o filme com atraso, há poucas semanas, e estou até agora atônito”.

Dentre os filmes, de sua brilhante carreira, cito o exuberante “Forrest Gump — o contador de histórias” — 1994. Nessa trilha, Hanks é Forrest, uma criatura ingênua, pura, ausente de picardia, cinismo, e com um QI abaixo da média das pessoas ditas normais. Toda sua inspiração e os conselhos que leva para vida são os da própria mãe, a quem sempre citava por suas frases: “A vida é como uma caixa de bombom, você nunca sabe o que vai encontrar”. Forrest narra as suas próprias histórias, ou, se coloca como centro das histórias de “coadjuvantes” ilustres como: Elvis Presley, John Lennon, John Kennedy e Richard Nixon. Sentado num ponto de ônibus, esperando uma condução que parece nunca chegar, Forrest fala e fala...

Da sua infância, vem o primeiro amor, digo, o único amor por Jenny. Uma menina que parece ser a única, além de sua mãe, que o vê como uma pessoa normal; e o aceita com seu jeito desengonçado, tentando andar dentro de um par de botas ortopédicas. Ao falar sobre Jenny e de como a conheceu dentro do ônibus escolar, Forrest enaltece: “Nós éramos como pão com manteiga...” — uma versão em português para peas and carrots. Na sua forma mais simplista e pueril, queria dizer: éramos inseparáveis, um não vivia sem o outro, unha e carne, corpo e alma... A versão dada em português foi o que deu grandeza na descrição do que era sua relação com Jenny.

Pão francês com manteiga é uma delícia; e a manteiga é sempre na medida: nem mais, nem menos. E fica mais gostoso passar nas duas abas do pão, depois dobramos e comemos uma aba por vez, com café e leite. A manteiga sem o pão é detestável, quase nenhuma utilidade, às vezes serve para untar forma de bolo; o pão sem a manteiga é sem gosto, incompleto. Não há valor, um sem o outro. São complementos. Assim, como dizer, arroz com feijão, na nossa culinária. Tudo é mais gostoso e saboroso quando estão juntos: manteiga no pão. O café colonial é farto, nos enche os olhos, mas nos perdemos em tantas variedades; já o pão com manteiga não comemos com os olhos, é o que temos para comer naquela hora, no dia-a-dia e nos saciamos também.

Assim, era na entrega, como Forrest vivia seu amor, que durou a vida toda — ou pelo menos até o final da trama —, sem cobrar de Jenny a reciprocidade. Era incondicional da sua parte. “Posso não ser inteligente, mas sei o que é amar...”, disse ele quando a pediu em casamento. Ele sabia o que estava dizendo, sobre as duas coisas. Após anos sem vê-la, ele a encontra numa vida mambembe, em más companhias e enfiada nas drogas. Mesmo assim, ela o reconhece e respeita, ao enxergar pela única fresta que restou da sua vida, o amor — o único que teve. O tempo poderia passar; o vento esvoaçar as cortinas da sala, bater as portas, mas o amor estava lá, guardadinho, prontinho para viver. Forrest amava como uma criança e agora ela sabia e desejava este amor.

O espírito de Forrest, nesta parca analogia, nos trás à reflexão: onde estão nossos verdadeiros valores? Na fartura ou na simplicidade de viver o dia-a-dia? E como ansiamos, muitas vezes, combinações mais caras, ou com maior valia — pela abundância. Quando, um simples pão com manteiga, também mata a fome — a fome de amor. Talvez, estejamos errando aí, quando buscamos a perfeição nas relações, ambicionando riquezas que as traças comerão um dia. Na gíria futebolística chama-se “jogar o arroz com feijão”; onde se ganha o jogo da vida, sem muitas ambições e jogadas de mestre. Um não é melhor que o outro e o placar a favor é sempre com score baixo. Quando os dois jogam juntos, o amor sempre vencerá. Relacionamentos sem ciúmes, sem intrigas e cobranças, caminhando num mesmo sentido, são fadados a ser por toda a vida. O universo conspira.

Talvez, se forçarmos a memória, encontraremos casais que vivem o “pão com manteiga” — dá para contar nos dedos —, caminhando juntos e construindo tijolo com tijolo, um lar, uma família... Nos seus horizontes projetados, a grande ambição é sempre manter acesa a chama do amor; regando o jardim da vida que os uniu, onde cada um segura em uma das alças do regador, enquanto espargem água sobre as sementes. Tudo num “pão com manteiga”, simples; e como Forrest e Jenny, inseparáveis.

Tom Hanks escolheu fazer Forrest, pelos mesmos critérios que sempre adotou: um personagem marcante; um personagem que deixou plantado em nossas mentes, de QI elevado, a confirmação que para amar só precisamos ter um amor e pureza dentro de si. O filme, ganhou naquele ano 06 Oscar dos 13 concorridos; inclusive o de melhor filme e melhor ator, para Tom Hanks.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A escada


Um dia, o homem, por uma inspiração Divina, inventou a escada. Era mais uma descoberta: estar mais perto Dele, para alçar na vida, para diminuir os espaços na ocupação da terra, para melhor conforto... Depois, veio o homem da segurança, inventou o corrimão e o guarda-corpo. Há muitos, que passam a vida toda e nem escada constroem; e outros piores, que param na escada - mal acabada - sem corrimão e guarda-corpo. Há que se ter segurança, sempre nas subidas na vida. Um dia podemos cair. Que importância você dá e como tem construído sua escada?

Postado por Antônio - Janeiro 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Do outro lado da rua

Um poema perdido. Encontrei-o nos arquivos de um amigo. Não me pergunte como e porquê o escrevi. Foi um período de busca e auto-conhecimento.

Do outro lado da rua
Há um bem a esperar
Vi um lugar
Era  uma casa de sonhos
De quintal de estrelas
Vi vitrines de sapatos
Espiando o meu olhar
Vozes ecoam nos arredores
Do porão da casa
Balançam cristais
Em armários trancados
Quisera eu despertar
Antes do dia raiar
Não vai tempo para viver
Um dia trás outro
E outro...
E a aurora da vida
Rompe em meu peito
Tal qual um jardineiro
Irrigando suas flores
Na festa da colheita
Um amor, que não passará...
Deslizará sobre o rio
Onde lancei meu coração
Onde me fiz renascer
De amanhecer
Quando atravessei aquela rua.

© Antônio / 2005.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Fim de férias

Estou no final das minhas férias — sem dizer que é merecida —, mas todos nós temos direito e não merecimento. Fiquei de férias um pouco do Blog também.
Como já falei, vivo das inspirações para tocar isso aqui para frente. Quando ela não vem — tira férias também —, os textos vão ficando minguado e os temas vão sendo recolhidos à memória, para não dissipar. Já juntei alguns.
Chove muito em janeiro, as praias lotadas, a cidade parada e muitas pessoas queridas ausentes (os amigos também tiram férias de nós), aí falta conteúdo para escrever. Confesso que, o máximo que li, neste período que se enseja daqui a uma semana, foi os habituais jornais e alguns poemas de Drummond, da sua antologia. Revi alguns filmes (nada de novo) e um pouco de futebol. Parece que o ano não começa se não houver futebol. Na Europa a coisa não parou para as festividades, pois dia 1º de janeiro rolou a bola nos gramados de lá.
À propósito dessa minha paixão, irei escrever um texto para elucidar e apresentar uma marchinha que compus com meu parceiro musical Eduardo Borges. Foi um hino em homenagem à torcida do São José Esporte Clube — meu segundo time.
Por enquanto, continuo a bajular os sobrinhos e reivindicar um passaporte diplomático também. Isto não é direito; é merecimento (risos). No resto é comer, rezar, amar.

Postado por Antonio - Janeiro 2011

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Por você, faria isso mil vezes


Eis que, o ano nem acabou e cá estou escrevendo algumas linhas. Eu, que prometi não escreveria uma linha a mais, guardaria tudo para o ano que se prenuncia: os tempos melhores. Quebro a promessa. Às vezes são as palavras que nos procuram, nos rodeiam, insistem - elas precisam sair. Começo agora em 2010 para findar no próximo ano, falando um pouco de saudade e amor. O amor de “parceros”.

A saudade é o revés de um parto; a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu...”. Muitos consideram estes versos da canção de Chico Buarque um dos mais fortes e marcantes – também assinto. Eu diria que é mais do que um jorro, mas uma das melhores explicações para esta coisa que dói tanto, que se chama saudade. Só as mães saberão dizer se é... Dizem que não há tradução em inglês. Talvez, porque os povos dessa língua não queiram saber dela, do sofrimento que ela trás junto – abnegam. Nós gostamos de dizer, que temos e sentimos. A saudade é uma doença da alma e sua cura só vem com o tempo; o mesmo tempo que temos para sobreviver na dor é o tempo da saudade. Para isso, o tempo também passa – ainda bem.

O quanto damos de valor às pessoas com quem convivemos? No meu último texto em 2010, disse que o Natal será sempre feliz, mesmo lembrando das pessoas queridas que nos deixaram; afinal, as crianças estão aí na sua pureza nos preenchendo com alegria e apagando a chama da dor que teima em arder. Mas, quando há perdas, não há Natal feliz; nem as crianças e nem mesmo a renovação do espírito natalino, conseguem cear conosco. Para perdas não há remédio, só o tempo. É dor mesmo.

Só quem é corajoso consegue encarar a morte e se arriscar aos seus chamamentos. Quando pessoas jovens morrem, penso que foram corajosas em ir tão cedo. Desafiaram o perigo, a última dor. Não se preocuparam com a dor de quem ficou, como se tivesse a opção de escolher, ou fossem donos do seu destino. Não somos donos de nada, nem da vida e nem da morte. Tudo que temos pertence a Deus. Quando pessoas queridas se vão, perguntamos: Por que hoje? Por que não me avisou? Por que não desviou o caminho? Por que não ficou aqui? São tantos os porquês e as respostas pairando no ar. Buscamos o conforto no colo do pai do céu. Só ele nos dá o consolo, a condição de olhar a vida novamente e encará-la de cabeça erguida.

Já escrevi em outra crônica, dos desafios que a juventude não tem medo de enfrentar. Sempre será assim, foi comigo e será com todos. Nos meus 20 anos, lembro que ia brincar meu carnaval no clube, e muitas vezes, eu e meus amigos íamos ou voltávamos em cima da carroceria de uma caminhonete, cujo motorista, mal conhecíamos e fazia manobras arriscadas. Dávamos gargalhadas da aventura e com o vento no rosto gritávamos: “massa! O cara é massa!”. Hoje, agradeço ao meu anjo da guarda, ele ia comigo sempre nessas aventuras. Mas, às vezes os anjos adormecem, ou se distraem por um segundo.

Um dos maiores sentimentos que Deus nos deu, foi o amor que vem da amizade. Este amor rompe fronteiras, distâncias, medos, angústias; ele vai além da vida... O amor por quem amamos na amizade, nunca morrerá. É para sempre o amor de “parcero”. Os amigos, nunca se esquecerão daquele que partiu, se arriscou na carroceria da caminhonete em alta velocidade, ou daquele que sumiu na curva da estrada e nunca mais olhou para trás. Ser amigo, “parcero” e verdadeiro é para poucos. Como qualquer outra relação, a amizade se constrói na doação, no companheirismo, na cumplicidade, no respeito, nos gestos. Gosto de assistir amizades verdadeiras. Fazer coisas por um amigo, que não fariam por ninguém mais, é amizade de “parcero”.

Maior que a nossa própria dor é a dor alheia; aquela que não está em nós, mas de maneira simbiótica nos contagia, nos arrepia e choramos juntos. Foge ao controle, rezamos, suplicamos e abraçamos. O que fazer para estancar a dor de quem só se vê triste? No livro “O caçador de pipas” — Khaled Hosseini (2003), Amir tinha uma dívida de honra e de amor para com seu melhor amigo; e agora ele precisava provar este amor que tanto negou, mas nunca o abandonou: amor de “parcero”. Ao contrário, seu amigo Hassan nunca deixou de declarar o seu amor. Com a coragem que nunca imaginou ter, Amir salva o filho de Hassan — seu sobrinho revelado — das mãos do Taliban. Amir fez o que seu amigo faria por ele. Depois, Amir precisava mais do que enxugar as lágrimas nos olhos do pequeno Sohrab, ele precisava botar alegria em seu rosto – a dor alheia. Quando o garoto viu a pipa no céu, Amir não acreditou, um sorriso se construiu no rosto da criança. A morte já não doía mais, era passado. Era tudo o que de melhor conseguiu realizar em toda sua vida; era luz, era ouro, era Divino, era o céu, eram estrelas... E a única coisa que Amir pode fazer no momento que a pipa se cortou, foi correr desesperadamente atrás dela — num gesto que seu amigo fazia sempre por ele —, dizendo: “Por você, eu faria isso mil vezes!”. Isso é amor. Isso é amizade de “parcero”.

(*) dedicado ao Juninho (em memória) , a todos os seus “parceros”, em especial, ao meu querido Thiago.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

2010...2011 - Um balanço geral


Caros leitores (as),
O Blog encerra as atividades em 2010, mas promete voltar com tudo em 2011. É hora de fechar as portas e fazer o balanço anual.

Vou abrir um champanhe! Em 2010, foram mais de 7.000 visitas contabilizadas. Lembrando que, o marcador de estatísticas oficial do Blog só começou a registrar a partir de Junho, e o Blog foi criado em Abril. Portanto, estimo que tenha ultrapassado 8.000 visitas. Uma média de 800 visitas/mês.

Fico feliz e orgulhoso, pois nem era minha intenção virar o que virou; e grande parte disso tudo, se deve aos poucos leitores, seus comentários pertinentes e de incentivo que recebi ao longo desses 09 meses. Tudo virou fermento na alma. Como sempre disse, é prazeroso escrever com liberdade e sem o compromisso de ser “politicamente correto”. Escrevi, muitas vezes, pelo lado do “incorretismo” mesmo, sem medo de errar ou dizer algo que fosse contrário ao pensamento da maioria. Dos 20 textos que escrevi, devo ter contrariado desde Chico Buarque a Freud. Mas, e daí? Não quero e nem pretendo ser um pensador ou levantar bandeiras sobre quaisquer pensamentos. Convenço-me muito fácil quando existe a lógica, a razão e a verdade no meio; e quem levanta bandeiras abomina qualquer questionamento. No fundo, faço disso a exposição de minhas ideais. Sendo elas: boas ou não, transitórias ou perenes, e aceitando sempre discordâncias.

Só para notificação, segundo as estatísticas do Blog, o texto "O ótimo, o medíocre e o idiota. Ou: Agora falando sério, Chico..." foi o mais lido, com quase 900 acessos. Por se tratar de um texto que fala de política (num momento propício) - e se tratando também de um ídolo (meu, inclusive) -, acabou tendo toda a repercussão que teve. Na seqüência, veio o texto "Eu quero uma casa no campo", com quase 300 acessos. Destes 20 textos, somente dois foram escritores em anos anteriores: "É só aguardar..." - 2008; e "A mulher árabe"- 2007.

Quando comecei, em Abril, eu já havia escrito 03 textos. Ainda sem o Blog, os textos iam por e-mail para um seleto grupo de amigos; chegando a postar também no Portal São José dos Campos Um dia, alguém me sugeriu a ideia de criar meu próprio canto – abrigar minhas palavras num lugar só. Foi aí que nasceu o Blog. A coisa cresceu, pois a exposição foi maior, com a divulgação também nas redes sociais.

Resumindo 2010, eu diria que foi o ano da paz, do silêncio... Só escrevemos no silêncio da alma, quando verdadeiramente estamos conosco e acolhidos no nosso íntimo, agora apaziguado. Quando ouvimos somente a voz do coração - sem gritos e lamentos externos. 2010, foi o ano do meu silêncio. Assim, como meus projetos arquitetônicos, escrever também requer paz, silêncio e com um bocado de inspiração.

Para quem não leu nenhum, ou ficou sem ler alguns dos textos, segue abaixo a listagem das crônicas. Excluindo dessas: os lembretes, comentários, as conversas e publicações fora da minha autoria. Clique e leia. A espera de 2011. Até lá!

UM FELIZ ANO NOVO!


CRÔNICAS - 2010

01 - O reconhecimento do amor

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O presente de Natal


Quando decidimos reformar a casa, pedi licença à memória de meu pai — o arquiteto — e me atrevi a arranjar o projeto. Comecei e saiu. Queria ter sido mais que o arquiteto, queria ser o eterno morador da casa que meu pai construiu. Onde vivi os melhores anos da minha vida.

A arquitetura é para viver, isso já foi um conflito, agora é um conceito que carrego comigo, quando ainda sonhava com a carreira. A peleja da forma versus a função. Nossos mestres insistiam nessa polarização, que brigava um mundo belo com o necessário. Sempre pensei e me pus ao lado de que tudo tem um porquê; mesclando função com a estética: a minha arquitetura. Há que ter vida na arte para que não caia na frieza, insossa — capa de revista. Arquitetura tem alma!

Sem saber disso, meu pai foi idealizador e construtor da nossa casa. Ele, contudo, não teve um projeto discutido e aprovado; nem um par de esquadros, um escalímetro e muito menos dispunha de um Neufert para consultar antes de iniciar a sua obra. Havia, todavia, a necessidade de abrigar a família, dar guarida com alguns milheiros de tijolos de barro. Era tudo o que tinha a mão e no coração.

A casa é meu pai, ele é a casa eterna que morávamos; e somente ele a pôs de pé. O arquiteto da nossa vida. Minha irmã, não entendeu e não a culpo por isso: não ver alma por dentro do barro do tijolo. Havia pressa em retornar à velha casa e também ansiedade. Como cobrá-la a entender de arquitetura enquanto punha água para ferver, se também não sou cobrado por entender de culinária; e o máximo que aprendi sobre esta arte foi fritar um bife acebolado. Ela nunca soube quem foi Mies van der Rohe, ou quem projetou a casa da cascata foi Frank Lloyd Wright — como gomos que saem das pedras com a queda d'água. Nunca também soube, que Gaudí esculpia sua arquitetura nas formas humana e depois de pronta a desenhava: curvas sem fim.

O pedreiro também não entendeu, o pintor se esquivou. Por que o nicho na parede a revelar a parede velha, desbotada? Havia a demão da tinta, a primeira. Ela não é velha; velha é nossa dor. A cor e suas nuances me remetem ao passado: o rosa velho que meu pai pintou antes. Era a última casca de tinta, depois dela era o reboco e os tijolos de barro (sua alma). Aquela cor rosa velho era o paspatur do retrato do arquiteto construtor. Arquitetura só existe para mim se tem memória eterna. E a memória nos trás lágrimas nos olhos. A arquitetura me emociona. O pintor pintou sobre a memória com tinta branca.

Era Natal. Depois da missa do Galo, íamos para casa comer a modesta ceia preparada por minha mãe. Aquela casa pequena de parede cor rosa velho — meu pai a pôs de pé. Era raro o Natal que ele estava conosco. O trabalho, muitas vezes, o consumia até na noite de Natal. Era um preceito, pôr pão na nossa mesa. A cozinha era quente, no forno havia assados que minha mãe preparava. E a criança resistia ao sono à espera da meia noite e assim celebrar: é Natal! Depois da reza, ceávamos e conversávamos um pouco mais, para depois ir para cama. Enquanto desenrolava a conversa, com os olhos caídos de sono, eu contemplava o Menino Jesus no presépio. Era um tempo de luz incandescente e amarela, como fotografia.

Era o nascimento da esperança: como será o próximo Natal? Não havia presentes e nem árvore de bolas coloridas. Montávamos um pequeno presépio sobre a mesinha de madeira que ficava ao lado do aparelho de TV preto e branco. Os presentes vinham antes do Natal. A fábrica onde meu pai trabalhava, era o verdadeiro papai Noel que acreditávamos. Ela nos dava o único presente que ganhávamos no Natal. Nunca falhava, apesar de não poder escolher o que ganhar. Os presentes eram distribuídos conforme a idade e sexo.

Houve um Natal, porém, que o presente não veio. Meu pai adoeceu e a fábrica o afastou. Não fomos à festa de entrega e muito menos tivemos brinquedos. Esqueceram de nós. A desolação era percebida. Como um Natal sem brinquedos? Era verdade, mas não chorei (eu sentia, mas não chorava). O Natal passou sem presente. Como cobrá-lo? Aceitei calado. 
 
Alguns dias se passaram depois do Natal, e uma Kombi estacionou à nossa porta. Eu não acreditava e meus olhos brilhavam. A Kombi estava cheia de brinquedos para nós. Não que todos fossem para nós, mas havia a possibilidade de escolher um entre muitos. Até me esqueci que o Natal já havia passado. As visões que me vêm não me trazem à lembrança a cor da Kombi, se era branca, vermelha ou azul; mas de uma coisa eu não me esqueço: havia muitas bolas gigantes de plástico. Não sei qual foi o brinquedo que escolhi, não me lembro. 
 
Hoje, acredito que o serviço social da empresa, tenha sentido nossa falta no dia da entrega dos presentes e quis, assim, reparar o erro mandando aqueles brinquedos depois. Da minha cabeça, nunca mais saiu esta cena, quando a Kombi estacionou no meio da rua e o motorista perguntou pelo meu pai. Foi um dia feliz.

Acostumei-me a não ganhar muitos brinquedos na infância, e por isso me lembro dos poucos que tive. Como meu irmão escreveu em sua crônica (Você já aprendeu a descascar laranja?), nossa infância nos reservou habilidades de construir, muitas vezes, o nosso próprio brinquedo. Num aniversário — tão raro de se comemorar — eu ganhei um bumbo de plástico e com ele ensaiava uma percussão que mais atormentava do que agradava as pessoas. Lembro-me também de um caminhão basculante, de cabine vermelha e caçamba amarela — este já no Natal. Depois outro: uma mini-mesa de sinuca. 
 
Havia na minha rua, um menino que tinha muitos brinquedos em seu quarto. Brinquedo caros, diga-se. Quando era convidado, eu ia lá brincar de autorama, de forte apache e com um pião prateado gigante que, além de ter som, piscava uma luz vermelha. Eu adorava, embora soubesse que não era meu. Eu só brincava quando ele me deixava pôr a mão.

Eu já tinha 18 anos, quando meu pai partiu. Foi em 23 de dezembro de 1981. Um edema pulmonar o levou na véspera do Natal. Eu estava na sala de espera do hospital, quando o médico trouxe a notícia. Ele foi novo, quieto, sem reclamações, como sempre viveu a vida inteira. Lembro-me, que o único veículo de transporte que ele teve na vida foi uma bicicleta Hércules, que o levava e trazia do trabalho.

Já me perguntaram algumas vezes, se meu Natal passou a ser triste depois desse. Não! Nunca. As crianças estão aí preenchendo com alegria o lugar da tristeza, que às vezes insiste em brotar; e quando elas crescerem e se casarem, outras crianças virão. Crianças trazem alegria; as novenas de Natal, a esperança; a estrela de Belém nunca se apagará; e o Menino Jesus continuará na manjedoura. Como poderei ficar triste quando se anuncia o nascimento?

Para os artistas, não existem obras acabadas, elas são abandonadas por eles pelo caminho — lembrou-me um amigo. Ela foi junto com sua partida. A casa foi o presente que meu pai idealizou e ergueu com as mãos de pedreiro e alma do arquiteto que o nomeei. Ele a queria, talvez, bem mais aconchegante. Ele nos deixou assim seu presente de Natal para que um dia eu pudesse mexer e modificar a sua obra, tornando-a eterna. Com tijolos que ele mesmo assentou. Sua alma está lá. Assim, o Natal, sempre será comemorado sob o telhado que meu pai construiu.

Definitivamente, não existe Natal triste; sempre haverá o Natal, com a lembrança do baú de brinquedos que guardamos em nossa memória, em forma de saudade. FELIZ NATAL!

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / dezembro de 2010.

domingo, 5 de dezembro de 2010

2010 – a pilha está acabando...

Faz uns dois meses fiquei sem computador. E a pior coisa é quando não dispomos da ferramenta e vem a ideia, o tema para algum texto. Onde anotar? Recorri ao método antigo: caneta e papel. Gastei um pouco de tinta da minha Lamy tinteiro numa folha de papel e escrevi 02 páginas de caderno. Fechei o caderno e não abri mais. Sabia que depois que reencontrasse o texto – já na tela do computador – teria que engolir algumas lágrimas em meio àquelas palavras. Então veio. Toda vez que escrevo textos intimistas é assim: engulo lágrimas. Dei o nome de “O presente de Natal”. Esta semana estará aqui postado.

Norma Jean queria só conhecer o pai. Se o tivesse conhecido na infância, talvez, vivesse uma vida normal até a fase adulta: casaria, teria filhos... Não encontraria o sucesso e morreria tão cedo, aos 36 anos. Pai às vezes faz falta à nossa vida. Norma era Marylin Monroe.

Um dia vou escrever sobre Marylin Monroe aqui.

Bem, 2010 está indo embora e minha pilha vai se acabando também. Acredito que este seja o último texto do ano. Este ano foram 21 crônicas. Espero para 2011, um ano com bastante inspiração e afirmações, estas coisas tão necessárias ao amadurecimento. Só tenho a certeza que iremos envelhecer por mais um ano que passou. Somente os sonhos, estes nunca envelhecem.

Postado por Antônio - Dezembro/2010