BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)
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segunda-feira, 13 de maio de 2024

Ruas de paralelepípedos

Passei os últimos dois meses envolvido com a política, exclusivamente com a eleição presidencial. Não desgrudei do celular, das mensagens e notícias a toda hora. E as pesquisas? A cada uma que saía, uma agonia tomava conta de mim. Aquilo me consumiu diuturnamente, que minha ira se espalhou pelos terrenos áridos das redes sociais.

Desde o atentado, minha fúria só aumentou que cheguei a pensar: — "não é dessa vez que tiramos o pé da lama. Não é!". Imaginei que aquela faca, pontiaguda, poderia ter cortado também todos os nossas artérias de sonhos de país. No fim, a turbulência passou e  agora estamos limpando a sujeiras das solas dos sapatos para entrar o ano de alma lavada. O saldo foi algumas amizades perdidas nas redes sociais, xingamentos (sem desculpa) e uma vida que segue agora o seu curso. Afinal, o Brasil se sairá bem desse lamaçal. Eu espero.

Apaziguado, tirei os livros da estante, voltei às leituras. Acordei e baixei no meu e-book um livro que ainda não havia lido de crônicas rodrigueana (não sei se existe o neologismo). O "Óbvio Ululante" é um apanhado daquilo que Nelson Rodrigues nos deixou de melhor, fora da dramaturgia. E por que eu falo isso? Ontem, não consegui pregar o olho, e já era tarde. Antes de apagar o abajur, li uma crônica que ele se lembrava de uma paixão de infância. A moça (menina moça) era Lili, uma rechonchuda que morava no caminho da sua escola. Lili apanhava do pai e o pequeno Nelson ouvia seus urros e gemidos da rua. Comecei a pensar, então, na minha infância, que depois puxou pela adolescência. Lembranças e lembranças que não estancavam, retardando ainda mais meu sono.

Não tenho voz e cor da infância. É como um filme de Chaplin: preto e branco, sem voz e com uma trilha sonora de fundo. Minto. Lembro, sim, da cor do meu uniforme escolar: camisa branca, calça boca de sino azul marinho e conga alpargatas. Eu já falei também do tom rosa velho da minha casa, que já foi azul clara, com o número 139 sobre a veneziana. Mas voz nenhuma vem. Assim, eu na minha mais tenra idade (aos 10 e 11 anos), atravessava uma ponte gelada para estudar em outro bairro. Mas nenhum gravador registrou uma sílaba que tenha dito. Súbito, penso que fui um faroleiro na vigília do mar. A solidão do mar noturno e um silêncio de vozes, enquanto ondas gigantes chicoteiam pedras e cais. Eu sentia mesmo era paixão.

Ali, antes dos 10 anos, eu já havia me apaixonado. Depois, já nos 11 anos, e assim foi até a fase adulta. (O homem que nunca se apaixonou, não viveu.) As paixões não tinham desejo sexual, mas silhuetas, admiração e contemplação como paisagens. Elas mudavam de direção, mas eu era o mesmo menino: traquino em bando, e tímido no privado. O olhar era lânguido, e a boca balbuciante e sussurrante. (Talvez por isso não encontre uma frase da minha infância.) Nas paixões platônicas não se têm fala, não têm "eu te amo", não tem olhares penetrados, não tem sorriso encarado. Tudo é calado e só sentido; um coraçãozinho já ardendo e sofrendo.

Na quinta série (ali nos meus 11 anos) havia uma garota. Ela era Mônica. Loirinha dos olhos castanhos arredondados. Encantadora, com uma educação aristocrata e beleza nata. Mas eu não era o único. Havia uma fila de meninos de olhos naquela menina simpática de silhueta delicada. Naquela época, as meninas na escola usavam saias três dedos acima dos joelhos. (Com um espelho pequeno dava para ver a calcinha.) Aquele par de pernas era totalmente permitido pelo regime militar, com a panturrilha branca sobre as meias também brancas.

Um dia, fomos expor numa feira de ciência. Um fotógrafo do jornal nos clicou. No dia seguinte, estávamos na front page. Ela linda, sorrindo, olhando para a lente. Ao lado, duas meninas distraídas. E eu com meu amigo cabelo de fogo ao lado, em pé, fazendo caretas. Guardei aquele recorte, mas hoje não sei mais onde está.

No ano seguinte, sem se despedir, ela já não estava mais na escola. Seus pais haviam se mudado para Goiânia, se não me falha a memória. Foi a notícia que chegou. Ela foi embora, mas eu tinha o recorte do seu sorriso pueril. Logo minha paixão se dissipou no nevoeiro da ponte sobre o rio. Outros encantos surgiram, com outras meninas na escola e suas saias de pernas à mostra. Mas paixão não houve por um tempo, até esquecer o recorte.

Como disse, nas minhas lembranças não há muitas falas. Havia, contudo, uma voz fraca. Era do meu pai me chamando sobre o muro do vizinho. Aos 52 anos, sua voz já era cansada pelo cigarro e as dores no peito. Então, algo me vem sempre quando adentro nesse quarto escuro. Se não há voz, há um cheiro imortal. E ele exala na atmosfera da minha vida, até os novos dias, como um perfume da eternidade. Pode até parecer esquisito, mas a aromática lembrança é uma mistura de batata frita, argamassa e tijolo molhado.

Foi um dia qualquer entre 1973 e 1974. Acho que era 1974 (já tinha 12 anos). Nossa casinha passava por uma reforma. Meu pai puxou a casa até à divisa com o vizinho do lado direito. Construiu um paredão que, para rebocar, precisou erguer andaimes. Lá no alto, a cumeeira, os caibros e terças de um telhado à francesa, de uma água só. Um forro de madeira fechava nossa casa para suportar o frio do inverno. Essa era a obra necessária: espaçar centímetros e acolher.

Fecho os olhos e vejo esse dia. Eu sentado à mesa de tampo laminado azul (diziam fórmica), fazendo um desenho com uma régua de madeira. Uma cortina improvisada dividia aquele ambiente do externo, da parte da obra, do paredão. Tudo era improviso naquela cozinha sem reboco e pintura. O cheiro da obra (argamassa e tijolo) se misturava com cheiro de batata fritas que saia do fogão da minha mãe. (Foi uma época que comíamos batatas quase todos os dias.) A batata era cortada serrilhada, de espessura fina. Era cedo ainda para o jantar, havia luz do dia. O barulho da frigideira era sinfônico.

Eu estava naquela fase dos meus desenhos de futebol. Explico. Aprendi a desenhar os lances de gol vendo as ilustrações de Gepp & Maia, que saiam semanalmente no Jornal da Tarde. Um dia levei um desses desenhos à escola (o gol do título do Palmeiras de 1974), e ganhei, dias depois, um autógrafo do goleiro Leão, que tinha parentes na minha cidade e aparecia por ali de vez em quando. Não me lembro se foi minha professora de português que conseguiu. Virei tão especialista em desenhar gols, que passei também a criá-los também. Desenhava os gols impossíveis, com a bola batendo na trave cinco, seis vezes antes de entrar. E sempre era um gol com titularidade de um Leivinha, de um Ademir da Guia ou Edu. Até um amigo me perguntar: — "Esse gol é mesmo verdadeiro?".
Copa de 1974 - por Gepp & Maia

Aquela tarde/noite ficou como um quadro, um Michelangelo na galeria da minha memória. Quando você entra na grande sala, ele está lá, estampado na parede. A reforma, o desenho, os tijolos sem reboco, minha mãe e a fritura que saia do seu fogão. Aquele dia virou segredo de confessionário, um quadro que eu não desenhei sobre a mesa azul. Ele se fez sozinho em mim.

Fiz esses parágrafos para chorar de saudade... 

Volto às paixões que alimentei pelas garotas da minha adolescência. Eu, como quase todos, me apaixonava pelas meninas da escola. Houve depois uma Maria Rita que usava meia 3/4, que eu torcia para encontrar no caminho, na ponte, e chegar na escola ao seu lado, como quem exibe um troféu. Sem declarar nada, devo ter dito muitas bobagens e coisas de meninos.

Mas houve uma paixão por uma garota — na minha lembrança era uma moça e não uma petiz — que morava perto de casa. Meus olhos a descobriram durante as peladas de rua, porque eu jogava no paralelepípedo na frente do seu portão. Ela morava, melhor, ela surgia numa casa que ficava no alto de um terreno, numa edícula. Uma família pobre como a minha, de três filhos. Era seu irmão quem compunha o meu time de rua. E quando ela saia para ir à padaria, meus olhos travavam até que dobrasse a esquina.

À noite, eu sentava no portão para vê-la vindo da escola, pontualmente às oito e quinze da noite. (Era um horário estranho para aquela escola onde ela estudava. A aula começava às quatro da tarde e ia até às oito, já no jantar.) Ali, no portão, eu fazia plantão, para vê-la desfilando suas bochechas rosadas, segurando os livros e cadernos apertados juntos aos seios já com sutiã. 

Até que um dia, ela desceu a rua ao lado de um rapaz arcado, magro e bem mais velho. O quanto mais velho? Sei lá, uns 17 anos.  Ele era loiro, nariz pontiagudo e tinha o cabelo liso, fino e penteado do lado, caindo na testa. Achei que era só um garanhão, porque não imaginava que ela pudesse se interessar por uma tábua envergada. Mas o medo vinha junto:  e se ela ceder? Todos os dias eu me perguntava: "o que ele tanto fala à ela que eu não consigo dizer?". Passaram alguns dias, aquela deusazinha da rua, de bochecha rosada, desceu a rua com ele com as mãos sobre seus ombros. Ali eu sepultei minhas esperanças e mais uma das minhas paixões se encolheu para sempre. Acho que chorei por dentro, por me achar mais feio que uma tábua envergada.

De nada valeu querer chamar sua atenção, por muitas vezes, com meu futebol de rua, que jogava descalço sobre o paralelepípedo em frente ao seu portão. Ela não me via com olhar nenhum. Eu era mais um daqueles sujinhos da rua. Além de tudo, eu era sardento e tinha cabelo grosso, espetado e sem shampoo. Para piorar, me apelidaram de "gordo", mesmo não sendo. Depois, a arcada dentária tinha diastema. Talvez sejam essas minhas desculpas para não me aproximar. O medo do "não" entalou e morreu comigo.

Guardei ali, nas juntas dos paralelepípedos das antigas ruas, meus dedões estourados de chutar bola descalço. Claro, isso foi antes do surgimento do kichute. E o primeiro apareceu nesses idos, ali pelo meio dos setenta. Era o calçado que estava ao alcance de todo garoto pobre de periferia. Dava para jogar bola no paralelepípedo da rua, na terra do campinho e depois servia para ir à missa de domingo. E havia também o segredo do cadarço. Ninguém amarrava o kichute de forma convencional. Ou era na canela ou era por baixo, dando voltas na sola, com as travas não permitindo que o cadarço se arrastasse no chão. Eu amarrava por baixo. Achava que ficava mais firme nos pés.

Hoje, tenho respeito pelas ruas de paralelepípedos, porque elas guardam em si histórias de crianças, de peladas descalços, de brincadeiras de queimadas, enterros, procissões e paixões. O paralelepípedo é o que decora minha alma de infância. O paralelepípedo é o adorno que emoldura a simplicidade das casas. Não são ruas de passagem; são de imortais peladas, onde deixei meu dedão sangrando por muitas tardes. São ruas da feliz esperança, de paixão pelas meninas de bochechas rosadas. E tudo com o aroma bom da frigideira de batata fritas. Minha infância não teve voz, mas teve muito cheiro bom.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / novembro de 2018

segunda-feira, 26 de março de 2018

Quando chama o coração

Eu tenho andando esses dias, digamos assim, mais emotivo. Então, aproveitei para vir aqui no meu refúgio e recostar no meu divã. Por vezes já caí numa cama com o coração nas mãos — meus 20 anos —, como se estivesse doente fisicamente, mas é alma, só alma. Apartei-me dos noticiários do cotidiano, da política, das discussões, da chateação e o que se revelou foi um peito entornando. Amor por alguém? Não, amor que não se põe em colo nenhum, mas que se sente no ar.

(Não tenho certeza, porque não lembro, se foi Nelson Rodrigues quem disse que o único amor puro é aquele que brota na nossa infância. Deve ter sido ele, vou pesquisar...)

Tenho passado uns tempos de muitas discussões e debates nas redes sociais. E por essas eu andei exaurido, fadigado, intolerante, gritando e xingando virtualmente. Fico atônito e inconformado, como muitos, porque queria que as coisas andassem de forma ligeira. Que a justiça viesse a galope, dragando e arrastando tudo e todos para dentro de um calabouço, onde só cabem os marginais do poder. Mas nem tudo depende de meu esforço, ou do meu pensamento positivo — eu penso, logo acontece. Há que se ter resiliência para aceitar e aguardar o tempo onde tudo acontecerá.

Nessa encruzilhada, redirecionei meus pensamentos para outros assuntos e acabei captando paisagens perdidas na janela da minha vida: — Olha aquele amor que pouco se comenta, está passando ali, virando uma esquina... Ele ainda habita no mundo, nos becos, nas casinhas dos arredores, nas montanhas; e, como terra molhada, tem cheiro de chuva. Há pessoas se amando nas nuvens,  nas madrugadas, em lençóis, fronhas, e ouvindo canções de amor. Há pessoas se olhando nos olhos, dizendo "sim" e colocando aliança nos dedos, sem receio do futuro. Ainda há.

(O outono se anuncia e toda vez que ele chega, vem um vento forte dos bons sentimentos; mais frio nas manhãs e mais calor no coração. E tudo fica mais à flor da pele. Os sentimentos brotam como folhas secas no cimento duro da calçada.)

Toda vez que ouvimos falar de histórias de amor, vem à mente uma tragédia como uma sobremesa acre depois do jantar, como dedos e unhas são justapostos. — Porque ninguém pode ser tão feliz assim, e uma tragédia deve acontecer — responderá o leitor. Nunca é um amor com final feliz. Sempre os protagonistas terão um câncer ou uma morte que impeça aquilo (o amor) de ser velho, de gerar filhos, netos e bisnetos; que impeça o amor de ser eterno. Claro que há, na vida real. Em ocasiões raras, já deparei com histórias de casais octogenários quando um morre o outro vai logo em seguida. Os antigos diziam que fulano "morreu de paixão". Não é uma dramaturgia shakespeariana, mas historias de gente de verdade, que não vão para os livros.

E por lembrar Shakespeare, veja que Romeu e Julieta é uma história que se repete ainda nos nossos dias. Digo que ela se repete, porque aqueles que ainda insistem nesse tema (romancistas e roteiristas) seguem a linha do amor que acaba em tragédia, em atropelamento, em doença, em crime e vingança. O amor que mata por amor, que morre por amor, por parecer grande demais ao mundo e o mundo não saber lidar com ele. E todos ficam com aquele nó na garganta de que algo poderia ser diferente. Aí eu pergunto: não dá para ser feliz para sempre, e além da eternidade? Amor que acaba em tragédia não é amor.

Bem, vamos ao que interessa. Já faz um ano, estava procurando algo novo para assistir na TV, cliquei numa série que, só pela sinopse minhas pupilas dilataram: No início do século XX, uma professora linda, recém formada, de família aristocrata, abandona seu conforto para lecionar numa pequena vila na fronteira dos EUA com o Canadá. Como sou capturado por filmes de chapéus e vestidos longos, me peguei a ver, mas já com medo de ser uma dessas tragédias de desencontros, conflitos (com ganhos e perdas) e morte com faca atravessando um corpo na beira da estrada.  

When Calls The Heart é muito maior que isso. É uma história de amor; do amor que se dá e recebe de volta; do amor que é possível e para sempre. Do amor que não se confunde com paixão. Daquele que brota no coração à léguas de distância das suas almas; e seguindo seu rastro e aroma como se o coração chamasse: venha, estou aqui! E faz seu imaginário flutuar, de não ter nem forças para encostar a cabeça no travesseiro e dormir. Você sonha acordado: é disso que sinto falta, desse amor...

A série é baseada no livro homônimo (1983) da escritora canadense Janette Oke. Numa pesquisa rápida, Janette tem 83 anos, e ela se dedica a escrever romances falando sobre sua fé cristã, onde, em muitas vezes, as mulheres são protagonistas.

Depois desse parênteses técnico, sigamos. Elizabeth Thatcher, a bela protagonista, vai atrás do desconhecido. Ela vai em busca de sonhos, com coragem, vivacidade, independência, como num retiro espiritual da sua vida. Ao chegar, ela encontra uma Coal Valley chocada com o acidente na mina de carvão que vitimou mais de quarenta homens. Por consequência, muitas viúvas tendo que criar seus filhos, sozinhas. Desde então, ela começa a perceber que não iria encontrar vida fácil naquela cidadezinha. Mas havia algo maior que tudo no caminho: o amor.

A escola, onde iria lecionar, não existe mais. Ela terá que improvisar e ministrar suas aulas num saloon, que fica fechado durante o dia. As crianças daquela cidade parecem despertar nela um outro sentimento que ainda não tinha tido: a dor pela perda de alguém próximo. É hora de ser mais forte e ajudá-las a enfrentar esse momento. Ao mesmo tempo da sua chegada, o policial de montaria Jack Thornton também apeia na cidade como representante da lei. Jack é jovem, belo, viril, corajoso e justo. O primeiro olhar entre eles é trocado no primeiro episódio e nunca mais eles serão os mesmos. Eles se apaixonam à primeira vista.

O amor que brota, cresce e toma conta entre o policial Jack e sua amada professora Elizabeth é algo de sonho, de conto de fadas. Eles têm pureza na alma. O primeiro beijo vão episódios para acontecer. Eles se amam nos olhares, nos gestos de bravura  e reconhecimento; uma admiração sem muitas palavras. Num dos episódios, Elizabeth tenta editar suas memórias em um livro, e quando ela manda uma carta para a editora, recebe um "não" como resposta. Imediatamente, Jack, percebendo sua tristeza, a surpreende ao confeccionar um único livro para ela. Ele, além disso, ilustra seus textos com seus desenhos. A conquista do coração com gestos singelos. Ela se joga em seus braços quando ele lhe entrega o livro.

O episódio do Natal é também surpreendente e mágico.  (Sem dar muito spoiler, mas vou contar só esse.) Às vésperas do Natal, surge na cidade um velhinho com seu cachorro e numa carruagem cheia de bugigangas. Ele tem um slogan: "eu tenho exatamente aquilo que você precisa". Exibe simpatia e diz pertencer a lugar nenhum, mas vive no mundo... As crianças ao avistarem na sua carruagem, já o identificam: Santa! Mas algo inesperado acabou estragando o baile da polícia que Jack iria levar Elizabeth. O trem, onde trazia os presentes das crianças de Hope Valley (a cidade havia mudado de nome alguns capítulos anteriores), descarrila. Imediatamente, a cidade se junta para fabricar presentes com os objetos que as pessoas possuíam em casa. Nenhuma criança podia ficar sem.

Tudo deu certo. Depois da encenação do Natal e a distribuição dos presentes, Jack recebe do velhinho viajante uma caixinha de música, e lhe diz: — não precisa pagar... Ao mesmo tempo que Elizabeth chega em casa exaurida e vê na sua árvore de Natal um bilhete de Jack pedindo para comparecer ao saloon numa roupa informal. Ela põe o seu vestido de baile e vai até ao encontro com Jack. Quando chega, vê um ambiente todo iluminado à luz de vela, como se fosse um salão de baile. Jack aparece segurando aquela caixinha de música de repertório único, e eles dançam. Antes de partir da cidade, aquele velhinho arremessa uma bola de basebol para o alto, até ela explodir em fogos de artifício e fazer a neve cair na noite de Natal de Hope Valley. Ele era mesmo o papai Noel.

WCTH é puro amor, sem tragédia. Totalmente politicamente incorreta, não porque retrata um período que já parece longínquo da nossa história (o século XX), mas por não dar espaço a discussões como gênero, homossexualismo, feminismo e outros temas do maldito mundo de hoje. Ao contrário, a cada episódio o público leva consigo uma mensagem de compaixão, amizade, heroísmo, resgate, bravura, justiça, fé e amor. A série transmite valores conservadores que uma novela da Globo não mostraria, e sem ser piegas. Tudo se condensa e a faz você aspirar, como se segue um aroma de café fresco quando os olhos se abrem pela manhã.

Enquanto a quinta temporada ainda não chega ao Brasil — Go Netflix! —, os fãs americanos estão se emocionando, todos os domingos, com cada episódio dessa temporada. Tenho acompanhado alguma coisa via Twitter. O ápice foi no domingo (18/03) com o casamento de Jack e Elizabeth; aquele que a Hallmark Channel chamou de "o casamento da década", porque era tudo que o público esperava desde o primeiro episódio. Eles eram correspondentes em tudo e o casamento foi a premiação e a consequência desse amor. O casamento foi para selar o compromisso já assumido daquelas almas, desde o primeiro olhar. Gostaria de reproduzir toda a cena da celebração, mas deixo aqui resumido só um instante: na igrejinha de Hope Valley (Elizabeth ministrou muitas aulas à suas crianças), uma lágrima — única e pequena lágrima — escorre pelo canto de seus olhos, quando ela declara todo o seu amor, e termina com a voz murmurada: — I'm yours.

"They say There´s fireworks in empty Sky. They say. That your stomach fills up with butterflies. They say. You will know. Cause your heart takes flight. When you finally find THE ONE..."
A coisa foi levada tão a sério, que parecia ser vida real. A atriz Erin Krakow (Elizabeth) trocou o sobrenome de solteira de sua personagem para o de casada, na bio da sua conta de Twitter. Passou a se chamar "Elizabeth Thornton". Uma realidade fora do comum, enquanto a hashtag "Hearties", que marca os apaixonados pela série, chegou ao oitavo lugar naquela tarde/noite nos EUA. Os hearties estavam com os olhos cheios de lágrimas. Eu, sem assistir, também fiquei.

O Canal dos EUA Hallmark Channel (tem um histórico de ser um canal cristão com conteúdo para a família), produtor da série, anunciou na mesma semana que WCTH terá a sexta temporada. O sucesso do episódio do casamento teve uma repercussão tão grande, que eles apostaram numa última e derradeira temporada (última?). Isso só comprovou uma coisa: as pessoas, lá e em qualquer lugar do mundo, ainda quererem ver mesmo é história de amor, e com final feliz.

Nessa, meu imaginário já viajou ao término dessa linda história: Jack e Elizabeth irão envelhecer em Hope Valley. Lutarão por outras causas e amores; terão filhos e netos; e, por fim, uma eternidade para viverem. E o mundo ainda respira, porque existe amor. E ele está no ar.

(Lembrei-me da frase de Nelson Rodrigues: "Como sempre me apaixonei por minhas professoras, acho que as grandes paixões do homem surgem quando ele está entre os seis e dez anos, apenas". Então, eu posso dizer que tive a minha Elizabeth Thatcher.)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / março de 2018

sábado, 3 de outubro de 2015

Cheguei tarde para amar. Ou: Síndrome de Scarlett


Difícil começar a escrever algo quando não se encontra um fio condutor da conversa, ao mesmo tempo em que a emoção vai aflorando, expelindo pelos poros. Seria fácil, se tudo na vida fosse como ela própria acontece: começo, meio e fim; mas, quase sempre, temos só o meio sem fim nem começo. Então, parto por algum trecho onde a ponta se solta. O amor invisível, obscurecido, adormecido e cego por razões que ele mesmo não sabe. Aquele que não acontece no seu tempo e perde o trem da história. Já passou, amadureceu fora da época de colher e sofre agora seu sumo acre.

Se não houvesse tantos amores intempestivos, o mundo seria um mar de águas calmas com manhãs ensolaradas, porque todos estariam amando na essência, no seu tempo, em sintonia do "amar e ser amado". Nem antes, nem depois, mas no mesmo segundo, como os ponteiros do Big Bang. Menos separações, menos ruínas, tragédias, desarranjos, discussões, com mais entendimento e aconchego na alma.

A sincronicidade — aprendi o seu significado por aí —, ou aquilo que dizem "o universo conspira", é a outra estrada que cruza nosso caminho, por onde surge alguém que não sabemos quem é (por ação divina? Creio.). Só se percebe com a lupa do coração. O que nos envia as pessoas na nossa vida não é só o vento a favor. Há algo, além disso. Não apague a chama que ilumina sua estrada, porque haverá escuridão com solidão lá na frente. Ela pode ser a única luz na sua vida.

Comecei a pensar sobre um tipo de pessoa que ainda existe por aí, que açoita o amor. Lembrei, então, de Scarlett O'hara. E por que lembraria da personagem de um filme da década de 1930 (no apagar das luzes daqueles anos)? É fácil entender aquilo que chamo de "Síndrome de Scarlett", porque identificamos em alguém ou em nós mesmos. Claro, ela é uma figura feminina, mas também poderia ser a de um homem.

A cena final do filme "E o Vento Levou", Rhett Butler, disse à Scarlett: "Frankly, my dear, I don't give a damn". (Francamente, minha querida, eu não dou a mínima...) A frase pronunciada, fora do contexto, pode parecer a de um homem machista, de um pulha. E era a de um machista, como são a maioria dos homens, independente da sua época. Capitão Butler era um homem viril, militar, corajoso, grosseiro e cavalheiro guardião ao mesmo tempo, mas também um grande amante. Ele amou Scarlett até o limite de sua decência. Até onde não se viu um tolo babaca, sob qualquer condição.

Quando ele percebeu que era hora de partir, ele se foi; partiu sem deixar um vestígio na mulher amada, para que ela se suportasse sozinha e se colocasse em seu lugar.  Durante o tempo da conquista e dedicação, ele fez tudo por ela. Livrou-a do perigo da guerra civil, da pobreza, da fome e lhe deu uma família, retomando seu conforto e riqueza. Aceitou não ser amado por ela, aceitou. 

O que fez Scarlett? Ela subjugou o amor, não lhe deu trela, a devida importância. Mirava um amor impossível de outro homem (Ashley), que ela também não amava. Scarlett não amou ninguém; ela só amou seu regozijo. Era infantilizada, mimada, paparicada, entojada (palavra exumada). Desejava todos os homens aos seus pés. Por essas e outras, se casou algumas vezes (três), nunca por amor. Sempre pensando em proteção ou fuga da realidade (a realidade que não vinha da guerra civil). Usava seu charme e beleza para conquistas e o choro nos momentos de  fraqueza e desespero — quando os problemas pareciam insolúveis e a beleza não dava conta. E sempre com os homens sob domínio.
Scarlett e os homens
Rhett Butler a conhecia de longe e chegou a dizer: "por que você insiste em casar com homens que não ama?". Ashley era o homem que ela sonhava, porque, no íntimo, sabia que ele não a queria. Buscava o amor impossível, justamente por que não o teria nunca. Por outro lado, tinha medo de se entregar ao homem que a amava, porque teria que amá-lo na mesma medida; depois, amadurecer, assumir família, se sentir completada e livre por esse amor. Medo, puro medo. E esse homem estava ali, disposto: Rhett Butler. O problema em Scarlett não estava na guerra e nem nas terras da fazenda que perdeu com ela (nunca mais sentirei fome!), mas o amor. Ela não o conhecia.

De 1939 pra cá, o tipo Scarlett não evoluiu. Elas ainda se topam por aí, em cada esquina. Lindas, maravilhosas, sentimentais, frívolas, mimadas e infantis (não quero dizer que tenha que ter todos os adjetivos juntos). Do outro lado, os capitães Butler também continuam a não dar mole a elas. Farpas trocadas e o amor sendo levado ao vento... 

Naquele momento de nevoeiro e despedida, Rhett Butler ainda alfinetou: "Minha querida, você é uma criança. Você acha que dizendo: 'Sinto muito', todo o passado pode ser corrigido. Aqui, pegue o lenço. Nunca, em qualquer crise de sua vida, que eu soubesse, você tinha um lenço". Ele cansou.

A história termina, pelo menos para o público, sem sabermos se Scarlett agora estava dizendo o que realmente sentia (Oh Rhett, do listen to me, I must have loved you for years, only I was such a stupid fool, I didn't know it.) ou se era mais um dos seus truques sentimentais, ao alcance de compaixão e pena. Estaria retirando do seu coração uma pedra que a impedia de dizer do seu amor? Isso não saberemos.

Em muitas ocasiões, por solidão e carência, lembramos de amar as pessoas que já não temos mais, que se desgovernaram por outros estreitos. Não por escolhas, mas por que deixamos ir, lhe demos distância e liberdade achando que um dia voltariam. E não voltam. Quase sempre, nesses casos, o arrependimento é a faca que apunhala no peito, deixando marcas profundas. É precioso amar o quanto antes, quando ainda há tempo e sincronismo. Quando o amor está vivo, pulsante e pode olhar nos olhos. Quando o amor é a nossa casa de acolhida.

Eu sei o que é chegar depois e não encontrar ninguém — quando o trem já partiu. Quem é que nunca se arrependeu de um amor que escapou por entre os dedos? Aquele que viu passar, como um cometa que se desintegrou na escuridão do universo.

O amor chegou tarde quando eu estava de malas prontas e partia para outra estação. Cheguei tarde para amar e não havia mais nada de nós ali. Só uma poça d'água; só um resto de você.

(You think that by saying, 'I'm sorry', all the past can be corrected. Very difficult to believe now...)

E.T: Fui alertado por uma postagem no Facebook — talvez seja a palavra que não encontrei — sobre a palavra que mais define Scarlett: Histriônica. Ela queria ser o centro de todas as atenções, mais relevante que a própria guerra que passava na sua janela e sobre sua vida. Nunca mais esquecerei: HISTRIÔNICA.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Outubro de 2015

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Pacto de amor



Tenho pensado muito no amor. Durmo amor, acordo amor, resmungo e respiro amor. Tomo café sentindo aroma de amor. As canções no carro, na vitrola são de amor. Meus filmes antigos — Oh my God! — são histórias de amor... Incomoda-me não o amor nesses dias, mas o que resultará do mundo se rarear pelo espaço e tempo. Mas que amor é esse que as pessoas clamam, buscam, rastejam por querer?

Outro dia, numa conversa sobre política, sem querer, soltei a frase: "Este mundo não está legal...". Sem dizer precisamente o quê. Fazia referência a tudo que nos cerca, dos caminhos tortos que a vida, no conjunto da raça, tem tomado. Com valores distorcidos, moralidade ética baixa, corrupção alta e muita gente não se indignando com nada. Simplesmente assistindo tudo, passivamente, comendo pipoca, ouvindo música pelo iPhone, numa fria arquibancada de cimento.

Não sei dizer se já foi pior — guerras mundiais que não vi, com muito ódio espalhado por aí —, mas o amor não vai bem no mundo, senão não estaríamos reclamando tanto sua ausência, ouvindo queixas das pessoas de todas as idades. Reproduzo, no anonimato, um pequeno texto que recebi pelo WhatsApp (modernidade do desabafo): "...O que há com o mundo? Será esse o nosso destino permanecer só? Quem muito deseja tem seus sonhos traídos, mas aqueles que não esperam são surpreendidos. E eu me pergunto: onde está o amor?". Desabafou minha nova amiga, que já confessou o sonho do casamento e da maternidade. Ela, apesar de nova, tem desejos antigos: quer ser mãe de muitos filhos e ter um amor para vida toda.

Não dá para responder de súbito, ou tentar campear palavras, quando de quem se queixa não é um indivíduo único; aquele que dia desses abria a porta do carro para ela entrar, e dizia coisas lindas no seu ouvido. Mas de uma legião de outros semelhantes, gananciosos por ostentar e preocupados, e tão somente, com seu umbigo, sua cerveja, sua academia, seus bíceps, suas festinhas, happy hours sem compromisso e por levar um número maior de moças para cama.

Dizer o quê? Há esperança de o grande amor acontecer um dia? Sim!, ela é nova, bonita e ainda é possível que um desses por aí, seja diferente dos demais (despertado do seu egocentrismo), e sua alma o encontre na fila do supermercado. Muitos tropeços acontecerão até aquele eterno namorado venha sufocar seu vazio e dor.

Há muitas frases que Nelson Rodrigues deixou. Estou lendo agora o livro de Luiz Felipe Pondé "A filosofia da Adúltera", onde ele disseca o íntimo rodriguiano. Nelson filosofou muito sobre o amor, mas a que separei para este singelo texto é: "Este mundo não é a casa do amor". Havia um contexto, é claro, mas fiz minha interpretação: "casa" é moradia e o amor não encontra morada nessa casa (Terra), ele mora em algum lugar, mas não aqui. Não nega sua existência, ele só diz que não mora aqui. Ele perambula mendigo por ai, batendo de porta em porta, mas seu presente e futuro é o chão da rua, sem lar e sem comida. Não tem morada o amor neste mundo. E quem quiser visitá-lo, na essência, terá que se aventurar rompendo fronteiras cósmicas — galáxias (?). A morte, talvez, seja o alcance da plenitude desse amor, na divindade. Quiçá quisesse dizer Nelson: sendo o amor flutuante, inconstante neste mundo, ele não pode encontrar morada onde o trata tão mal e em segundo plano.

Em outros tempos vivi confusões sentimentais. Com elas havia pessoas envolvidas e a psicanálise para desatar tantos nós... Não, hoje eu não sou um ser totalmente "limpo" da sofreguidão pela maturidade; de coisas postas no lugar, organização, sem pecados e um tanto blasé. Erro, mas teimando em acertar mais com a vida.

Fiz amor, quando na verdade fazia sexo. Depois aprendi que não era amor, porque mulheres gostam de dizer que é, talvez porque procuram em tudo o amor. Até no sexo. "O sexo suja o amor. O homem deve possuir todas as mulheres, menos a bem-amada" — disse Nelson Rodrigues. Fingi amor, quando tinha só desejo pelas pernas, pelas coxas, pela bunda, pelos seios e pela boca da mulher na cama. Elas sabem nos enfeitiçar e fui dominado muitas vezes por magia, aflição, loucura e desejo febril. Não senti o amor acontecer depois de tudo consumado. Na manhã seguinte, ele não estava ali entre nós. Era só um gosto amargo de ressaca; uma mistura de gozo com altas doses de whisky, sem Engov.

No sexo, os corpos se trepam; no amor eles se aconchegam.

Agora veio à mente um texto que recebi, na época que ainda se encaminhavam e-mails (começa já fazer tempo...). Dizia o monge da história, que o amor não era um sentimento (separando-o da paixão), mas uma decisão que se toma juntos. Se decide amor, não se sente amor. Desprezei-o e mandei-o para lixeira virtual... Passados esses anos, sinto aquelas palavras me penetrarem como água. O que sentimos, muitas vezes, são sentimentos efêmeros (tesão, atração, ânsia, ciúme); de pouca duração, de horas e dias finitos. O que não conversamos antes, para que tudo dure, é sobre pacto, compromisso, acordos, tarefas, cumplicidade, comprometimento, na presença e na distância dos olhos. Cumprir um acordo, como se negocia um contrato comercial registrado em cartório.

O leitor pode perguntar: "Você está dizendo que o amor é um negócio?". Sim!, exemplifiquei como negócio de objetos, mas o amor é parceria; o amor é negócio de alma; tem profundidade em regiões inatingíveis, onde os objetos não fazem diferença, parte e não penetram. O mais que tudo que precisamos. Aquilo que o psicanalista Flávio Gikovate chama de "mais amor".

Afirmo que o amor é pacto, decisão, trato. Quando duas pessoas têm firmado entre si uma relação cúmplice, e mesmo estando longe de suas vistas, a palavra será mantida, porque tem peso e valor; a fidelidade do trato daquele negócio que se serviram e selaram entre elas — olhos nos olhos. Nas discussões, brigas, o pacto do amor é o pêndulo do equilíbrio que traz a serenidade, acima de qualquer grito mais alto que se ouse, e que supera todas as palavras duras. Pacto de amor, de sangue, de vida e morte, porque não se quebra um trato certificado na alma.

Antes de iniciar o caminhar, vejo aqueles que pactuam o amor na confidência; mas há aqueles que os olhares se cumpliciam já à primeira vista, sem palavras, como se as almas falassem por si. Na palavra ou no olhar, tudo é um pacto que torna as vidas agora transpassadas, entrelaçadas, fundidas numa só; um resgate do amor mendigo (ainda que neste mundo, seja possível existir e morar).

E ao raiar de todos os dias, depois do desfrute dos desejos entre pernas, coxas, seios, boca e sexo bom, que o amor seja devolvido ao corpo sagrado, descoberto do colo e útero da mesma mulher. O meu afã é pela alma feminina. Onde reina meu amor. Onde mora o amor perfeito. 

© Antônio de Oliveira / cronista, arquiteto e urbanista / Agosto de 2014.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dessa vez é para sempre...


Alguns leitores já devem ter ouvido esta frase: “Dessa vez é para sempre”. Ou, “Dessa vez é pra valer”. Muito presente no vocabulário de quem está vivendo uma nova relação, como quem resolveu dar mais uma chance para antiga. As idas e vindas do amor, como assim cantou Roberto Carlos: “Eu que sempre fui tão inconstante / Te juro, meu amor / Agora é pra valer...”.

Após o desastre da relação anterior, dizem que, a melhor forma para sepultar ou pôr uma pedra em cima, é viver uma nova paixão. E sempre quando iniciamos uma nova relação, os primeiros dias são de descobertas, das qualidades infinitas, das coisas em comum; uma nova música tocará naqueles encontros ao luar, com fadas, sininhos e harpas. Estarão mesmo vivendo um momento de torpor, do sexo bom, de pernas bambas e alegria incontida. Ela foi feita para mim; nascemos um para o outro, dirão.

Os dias passam e começam a perceber que a outra pessoa vai perdendo o encantamento; que tudo que imaginou, ou projetou nela vai se desmilinguindo. Os olhos já não têm o mesmo brilho; aquele ardor se esfacela. Já não está inebriado com sua voz. Acabou a fase do encanto. Uns deixarão a relação pelo caminho e simplesmente dirão: “não deu química”. Outros irão extrair o sumo, ou na verdade, enxergar o que está por trás daquela pessoa que cruzou o seu caminho. Ela tem algo mais do que o encantamento que se perdeu nos olhos.

Receio o destino das relações, quando alguém me vem dizer que encontrou a sua cara-metade, sua alma gêmea. Fico estático esperando a próxima notícia, ou aquela frase que poderá dizer de partir para outra, pois não foi dessa vez. Os anúncios das pessoas sobre si são sempre mentirosos. Na outra ponta, tem aquela que irá dizer: “ele fuma e é um ateu convicto, mas tem um bom caráter e uma integridade impar...”. Esses têm mais chance de progredirem no amor. De cara, ela já identificou o que não gosta nele, mas percebe-se a alma, o seu lado bom de conviver. Vai extrair o sumo.

Conheço casais que estão junto mais de vinte anos e nunca se casaram; nunca passaram perto de um cartório ou de uma igreja. Simplesmente resolveram andar juntos, na mesma passada, olhando para o mesmo horizonte e sem pressa de chegar. Há outros que conheci que namoraram por anos, depois planejaram um casamento cheio de pompas, mas a relação não durou muito tempo. Não há explicação. Está certo que, há casais que se casam porque é única forma oficial de se separar, como já ouvi uma vez de uma pessoa: “eu tive de me casar com ela para conseguir-me separar. Antes ela não aceitaria...”.

Com os desfechos do primeiro e do segundo casamento, é melhor não mergulhar novamente em outro. É necessário o tempo do arrefecimento, da calmaria no peito. E por isso, acredito que o tempo da espera, o tempo do “enquanto o amor não vem” é mais importante. É quando cuidaremos de nós sem a presença de outra pessoa. Suportar a si primeiro é regra para se relacionar com alguém. E quanto tempo pode durar isso? Difícil mensurar. O tempo da secura poderá durar meses ou anos. O importante é não ter pressa e assim confundirmos tudo novamente, fazendo repetições. Esvaziar-se do sentimento anterior, da dor da mágoa. Nas condições que muitas vezes deixamos uma relação, ao atracarmos com a primeira pessoa que cruza o caminho, fatalmente não dará certo; é essencial fazer a limpeza antes. Para uma nova relação amadurecer, é preciso desistir as agruras e fazer a escolha certa; tolerar, ter paciência, compreender, resignar... Tudo irá complementar.

Enquanto ele crescia dentro da empresa, ela se apequenava nos serviços domésticos, lavando, passando, cozinhando. Ele nunca fez elogio da casa que encontrava quando chegava. Ele andava estranho nos últimos dias e ela farejava que ele tinha outra, e tinha. O divórcio veio como um relâmpago. Ele saiu de casa e foi formar uma nova família com a moça com a qual trabalhava; essa estava na segunda pós-graduação; com ele fazia cursos de línguas e se falavam o dia todo. Casaram-se e logo os filhos vieram. A ex-mulher voltou para casa da mãe; foi recomeçar a vida onde nunca havia imaginado. Saiu para o mercado de trabalho, aos 35 anos e sem experiência nenhuma. Ralou, chorou, sofreu, ganhou peso. Dos bens materiais, só lhe restou a pequena casa que hoje aluga. Trabalha num subemprego e leva marmita para almoçar. Ainda bem que não teve filhos. Da próxima vez não errarei mais, disse ela.

Muitos se lembrarão de casos análogos, com a história que acabei de narrar, ou se verão dentro dela. De mulheres que casam com maridos intelectualmente mais adiante do que ela, ou vice-versa. Daquele modelo de família patriarcal, onde homem trabalha e mulher cuida de casa, já não há mais chance de prosperar. A analogia que faço é da escada que subimos com quem está ao nosso lado. Ele enxergou na anterior, uma pessoa que não estava mais ao seu alcance, no mesmo patamar. Já a colega de trabalho, ele a percebia na mesma direção e degraus próximos da escada que subia. Depois uma atração aqui, um olhar ali, e enfim o despertar.

É preciso também ter percepção do time da relação, a hora de partir sem deixar sequelas. Ninguém tem o direito de ficar aporrinhando a vida do outro. O amor acaba, posto que é chama (já disse o poeta); e as chamas se apagam aos vendavais das janelas abertas. Felizes os que apaziguarão os ventos e ainda viverão até onde a morte os separa, mas na maioria das vezes acaba mesmo antes. Isso não há mal nenhum. Só o trabalho de recomeçar.

Lembra-se de quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era para sempre? Sem saber que, o “para sempre”, sempre acaba.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / novembro de 2011.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Almas perfumadas - o amor, o tempo, o vento...


De fato, não há vida só no plano. Entre montanhas e planícies, altos e baixos, construímos nossos estreitos caminhos. Contudo, quando a idade bate à porta, junto as más lembranças dos naufrágios, aprendemos que, o importante é saber lidar com tudo isso; se conhecer, posicionar o leme e navegar sem medo: hoje eu estou bem, nada me tira do prumo...

Fico altivo, quando minha autoestima se espalha pelo dia como um raio de sol: riso fácil, encontros, amigos, piadas, chope, um bocado de bom humor – a felicidade. Já, quando estou no andar de baixo do meu intimo – faz tempo que não visito - fico mais calado, pensativo, introspectivo e observador com tudo ao redor. Sem gritos, de acordar vizinhos ou causar perturbação alheia. Espero passar, e passa.

Há 12 anos, como fazia todas as manhãs, aportei numa padaria perto da minha casa para tomar meu café. O café da manhã sempre foi sagrado no meu dia a dia. E lá, entre uma mordida no pão, um trago no café e umas olhadelas no telejornal matutino, o pensamento viajava longe e tudo que me incomodava naqueles dias vinham em gotas na minha mente – o andar debaixo. Nessa mesma manhã, adentrou de mãos dadas um casal de velhos; ou, como é correto se dizer hoje, de idosos. (Gosto de dizer velhos.) Pela quantidade de cabelos brancos que cobriam suas cabeças, as fendas profundas nos rostos e os passos lentos — como se os pés se agarrassem ao chão —, eles aparentavam ter mais de 80 (depois dessa idade, diz ser ancião). Sentaram-se ao balcão bem à minha frente. A partir daí comecei a observar seus movimentos, ou seus quase não-movimentos; velhos não chamam atenção, mas algo atiçou meus olhos naquela manhã de inverno. Desde quando chegaram não falaram nada um com o outro. Ele só dirigiu a palavra ao balconista para pedir o café, o seu e o dela. Sem perguntar nada a ela, ele disse: “café com leite, um pedaço de bolo e um suco de laranja coado”. Ali ficaram, comendo em silêncio, sem se olhar. Quando ele percebeu que ela já havia também terminado levantou-se com a comanda na mão, e ela o seguiu. Até ao caixa, ainda deu tempo de segurar na ponta dos dedos da companheira. Pagaram e foram embora no mesmo silêncio, de mãos dadas e com os pés presos no chão, de velhos que eram. A partir desse dia, passei a refletir sobre a comunicação pelo silêncio das almas perfumadas.

Meu médico, sempre me recomenda os exercícios físicos para melhor minhas taxas de colesterol; elas teimam em me acompanhar já há alguns anos. Já lhe disse que não me pertencem, mas elas insistem, e não me largam do pé (do meu sangue)... Agora, já depois de outros esforços com dieta, tenho me dedicado às caminhadas de fim de tarde — e assim sigo, chutando as doenças para longe. Quando não há companhia, vou com o fone no ouvido. Caminho, penso e observo. Recentemente, tenho visto um casal de velhos, também caminhando no mesmo parque — em sentido contrário. O caminhar também é lento — com os pés presos ao chão — e também sem dizer uma palavra. Tudo igual. Voltas, voltas e calados; ouvindo somente as batidas do coração e o gorjear dos passarinhos que se aglutinam na copa das árvores. Um silêncio incomum, pois as pessoas que caminham juntas acabam exercitando também a língua. Quando os vejo irem embora, o silêncio vai junto; já fora do parque, ela enlaça em seu braço e vão para casa. Tudo em total silêncio.

“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo” (Caetano Veloso)

Quando caminhamos para velhice, nossas células vão morrendo de forma acelerada, e sem nunca fazermos um funeral a elas; a cada dia enterramos milhares delas, sem saber. É como se diz: morrer aos poucos. Por causa desse falecimento amiúde, diminui a ligeireza das pernas, das mãos e os sentidos vão ficando menos aguçados: próteses, óculos de grau, aparelhos de surdez, etc. A memória longínqua permanece assaz, lembrando lugares, cores e pessoas da infância; enquanto os últimos quinze minutos são esquecidos. Onde deixei meus óculos? As únicas coisas que crescem com o envelhecimento são as orelhas e o nariz — dizem.

Mas, na senilidade, é o amor que nunca morre; torna-se célula viva que não corrói com o tempo e como chama que não se apaga. Depurado em porto seguro, o amor sobrevive às intempéries da vida como uma rocha à beira mar. Já li por várias vezes que amar é uma decisão e não um sentimento. Na senilidade decidimos pelo amor; sem abandono, sem palavras duras, sem tréguas, sem cobranças — no silêncio. Não há mais o que falar; não há mais o que alcançar; nem o que pensar, sentir, reclamar, julgar, profanar, maldizer e provar. O tempo urge. O tempo é assim, faz o amor se condensar, purificado pelo filtro da alma; criam-se ramos e raízes que se aprofundam na terra e sustentam a ponta da vida sobre os ombros já arqueados. Fala-se sem palavras, fala-se no silêncio do coração, fala-se nos olhares, fala-se nos gestos de bondade e se acolhe nos braços, quando se cai. E quando não, transpassa  a morte e vai além da vida.

“As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...”. (Mário de Andrade)

Lembro, então, das flores do quintal. A polinização é um fenômeno da natureza que acontece quando as flores se reproduzem; é o transporte do pólen que fecundará formando nova espécie. O vento se encarrega de levar as sementes (o amor ao vento) para que se fecundem em outro solo e desnude outra flor igual; e outra flor fará o mesmo, infinitamente... Sem nenhuma ação humana. Assim, também precisamos de elementos naturais para fecundar o nosso amor na alma. O tempo fecunda o amor quando já não vemos mais estrada para caminhar e o corpo range; quando ninguém nos vê mais com beldade; quando ninguém mais se interessa por nós; e nem a vida nos quer mais — só o amor nos anseia. O tempo é o vento para nós, aquele que transporta o amor para a terra fértil; o tempo conduz os caminhos para que os laços eternos se estreitem. No silêncio das palavras, na quietude como broto de flor. O amor é mais bonito e precioso quando envelhecemos. Quando as almas ficam silenciosas e perfumadas.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / fevereiro de 2011.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Quando as flores eram de verdade

Muitas histórias de amor já foram contadas por romancistas mundo a fora. E quem já não leu um desse folhetins na vida, uma história curta que fosse? Na maioria delas, descrevem lugares lindos, com encontro e desencontros; citam poemas e cartas; cavalheiros e damas, mocinhos e suas heroínas; buquês de flores com promessas de amor eterno e, porque não, contam também os dramas, as tragédias.

Devo confessar, sou um romântico tentando se corrigir. E se ninguém mais levantar a mão vou dizer que sou o “o último romântico” —  como já escreveu um poeta do cancioneiro popular. Quando vivo esse feitiço, me deixo levar pelas palavras e gestos de carinho quando me dirijo à mulher amada. Meus devaneios passionais vêm como brisas de outono, em sons de conchas de mar, com recheios de doçuras, de estrelas que se ouvem; e lições, que procuro me valer, como um bom vinho ao paladar.

Não receio em olhar para trás e colher da vida os melhores parágrafos, separando do passado as suas mágoas. Procuro ficar com o que foi bom. No final, resta aquela sensação: aprendi muito com isso. Não duvido, mesmo depois da dor, que se cicatrizou, podemos viver outro amor. Que graça tem a vida se nos matarmos de amor? Haverá sempre um novo a caminho, numa esquina do tempo. Tudo depende do comando da vida o quanto damos de colher de chá para que ela aconteça. Sem desesperanças e com muita inspiração.

Tenho saudades de tudo que foi bom — é claro —, da simplicidade da vida de outrora; da leniência do tempo, nas mudanças e tudo mais que me trouxe até aqui. Tempo em que as paixões nos corações arrebatavam; no cinema, namorávamos; nos olhos, olhávamos; nas bocas, beijávamos. Fazia parte do cotidiano encontrar poesias e versos pelos cantos da casa, receber e dar flores; simplesmente porque era delicioso sentir o coração mais efervescente.

Ah, o primeiro amor, como foi bom viver. Era belo quando a moça respondia à carta com uma boca de batom vermelho estampada num papel de carta. Havia aquelas que colecionavam esses papéis; eu mesmo recebi algumas cartas escritas nesses papéis especiais. E quanto aos recadinhos escritos em guardanapo, era o garçom quem entregava à mesa. Nas minhas declarações, “catava milho” tentando escrever numa “Olivetti”; e no final havia aquela frase em letras maiúsculas ou em CAPS-LOCK, como se diz hoje: P.S EU TE AMO! Era bom, quando dispúnhamos de uma caneta, um papel e um amor para pensar e sonhar — mesmo que fosse só platônico. Meus olhares eram tragados pelas atrizes de cinema e as dançarinas da TV; e as tratava como musas das minhas fantasias. Criava os meus romances particulares. Minhas cartas de amor não foram jogadas em garrafas ao mar. Mas por muito tempo elevaram e pairaram meu coração em colos de nuvens.

O mundo do século 21 tornou as pessoas mais individualistas e distantes; pôs asas na comunicação e como tudo também ficou mais sem emoção e inspiração; pôs até macarrão instantâneo na nossa mesa — que mau gosto! O amor agora é virtual, os beijos são “carinhas” com bocas vermelhas que vão anexas aos correios eletrônicos. Rosas em arquivos formatos PPS, poemas em formas diversas de apresentação espalhadas na blogosfera. Tudo virou Ctrl “C” / Ctrl “V” e colocou para debaixo do tapete o bom e velho cortejo com criatividade; aquele que vem do coração, explícito em forma de um buquê de rosas vermelhas ou numa caixa de bombom.

No fim das relações a coisa também enveredou por este caminho, diga-se, mais ligeiro. Segundo a agência Reuters, levar um fora digital é um fenômeno que vem crescendo. Pesquisas feitas na Inglaterra apontam que muitas pessoas hoje preferem as redes sociais e e-mails para terminar seus relacionamentos. Mais de um terço dos pesquisados disse que havia terminado seu relacionamento por e-mail, 13% mudou o status no Facebook sem avisar o parceiro e 6% divulgou a má notícia primeiramente no Twitter. Como se pode ver, a modernidade chegou aqui também e como tenho dito: ser solteiro hoje não é mais estado civil, virou status.

Tudo agora gira a milhões de gigabytes por segundo. Difícil mesmo é ser avesso a essa tecnologia. Não vou mentir, é difícil para mim — e acredito que para muitas pessoas também — resistir a tudo isso; agora, por exemplo, estou escrevendo estas linhas diante de uma engenhoca que meus antepassados jamais imaginariam existir. Necessitamos das ferramentas do mundo moderno, precisamos nos comunicar e entrar neste imbróglio informatizado, virtual e globalizado, mas não façamos virtuais também nossas emoções e sentimentos.

Para piorar, a palavra da moda agora é workaholic. Esses jovens viciados preferem como companhia à mesa do restaurante, não mais a namorada ou o velho amigo para falar de futebol; é comum vermos pessoas com seus computadores ultima geração ao lado do prato de comida. Navegando, navegando onde não há água.

Na minha cidade, percebo uma frequência cada vez menor de pessoas comprando flores. Uma floricultura que ficava aberta 24 horas fechou as portas. As flores agora vão por endereço eletrônico — aquela coisa fria e sem fragrância. As poucas visitas às floriculturas são em dias de finados, pois ainda não descobriram os endereços eletrônicos do “além”.

Em 1980, Roberto Carlos compôs a sua Amante à moda antiga: “Eu sou aquele amante à moda antiga / Do tipo que ainda manda flores...”. Exatos há 30 anos, já era antigo mandar flores. Imagina hoje. Ficou antiquado, démodé, cafona, brega demais. Quando as flores eram de verdade, havia o perfume e a alegria denunciada nos olhos de quem recebia; e não tinha como negar: era mesmo uma prova de amor despida por um gesto simples. Naqueles dias das flores, o ambiente se revigorava, se transportava, era outro. Um dia alguém me disse: "Por que mandar flores, se o final delas é o lixo?" Não quis lembrar que, durante aquele período da sobrevida no vaso, aquelas flores renovaram e aguçaram nos corações o amor, deixou os corações mais próximos, atados por um laço de ternura e carinho.

Outro dia fui buscar uns versos e encontrei esses: “as melhores flores são aquelas colhidas à luz das estrelas e entregues na surpresa da primeira luz da manhã”. Se existe a saudade alheia — como romântico ainda — sinto das flores de verdade. As rosas não falam — cantava Cartola —, agora elas também não exalam mais. Deixo-os com esta reflexão: se um dia Deus criou as flores, hoje o Google criou a forma mais rápida de encontrá-las.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2010.


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma canção, um parceiro



Caros leitores (as),

Alguns de vocês já conhecem, mas gostaria de compartilhar com os demais também, uma canção que compus em parceria com meu amigo Eduardo Borges. Digo amigo, pois além de parceiros na música, somos amigos nos momentos de alegrias e tristezas — já há 10 anos. Como em toda relação, às vezes nos debatemos em alguns pontos de vistas — o que é natural —, mas de volta à música tudo nos une de novo. Sei que ele anda preguiçoso para “mexer” com música, mas é inegável o talento que sempre teve, e isso não vai perder nunca. Espero.
Desde o início da amizade, fizemos umas 05 músicas, mas a última canção ficou marcada. E posso dizer que foi nossa melhor parceria: “Amor da Vida”.
Em setembro de 2007, mandei por e-mail um esboço (na arquitetura se diz “croqui”) de uma letra. Algumas horas depois, minha impaciência me tomou e peguei no telefone. Quando perguntei se ele havia recebido o e-mail, ele pegou o violão e cantou a música pra mim. Não acreditei, me aprontei logo para ira a sua casa e terminar de fazer o resto.
A canção faz bem aquele estilo “sertanejo romântico”, talvez se eu soubesse “mexer” bem no violão e fosse também o autor da música, saísse mais com cara de Chico Buarque. Mas, ficou como teria que ser. Ele acertou.
Faz 01 mês eu registrei a música e agora já podemos divulgá-la, e depois quem sabe receber uma proposta de gravação. Já temos alguns contatos.
O vídeo acima está postado agora no youtube, e vocês podem ver clicando aqui (Amor da Vida).
A música, com arranjo e como foi registrada, está no sítio “músicas registradas” e se vocês quiserem ouvir também podem clicar aqui (Músicas registradas).
Escolhi para o Blog esta gravação acústica (violão e voz), sem os arranjos, pois está como a música foi feita. A voz, é claro, não é minha. O cantor é Eduardo Borges.
Em tempo, um agradecimento ao meu outro amigo palmeirense João Pedro pelos créditos do vídeo, que ficou muito bom.
Só para não haver dúvidas, “Anttonio Buarque” sou eu. Com qual intenção?
Espero que gostem.

AMOR DA VIDA
(Eduardo Borges/Anttônio Buarque)
27/09/2007

Amor da vida
Flor da primavera
O tempo fez em mim.
Sua longa espera

Amor da vida
Sol do meu caminho
Vem morar comigo
E aquecer o meu ninho

Poeiras e pedras
Passei para estar aqui
Antes de você chegar
Meu destino um deserto
Meu futuro incerto
Foi Deus que mandou você pra mim.

|Quantas noites vazias
|Em meu quarto
|Eu te chamo
|No meu sonho
|Nele você vem
|Há tantos motivos
|Pra dizer que
|Eu te amo
|Você é minha razão
|E me faz tão bem
|E me faz tão bem...

Canção pra vida
Hoje tocou em nós
Tatuou nossos corpos
Marcou nossos lençóis

Amor da vida
Será pra sempre assim
Eu em você
Você dentro de mim.

REFRÃO
Eduardo Borges e eu
Postado por Antônio - 04/10/2010

domingo, 26 de setembro de 2010

Encontrei a felicidade

O cristianismo prega que encontraremos a felicidade plena no Reino de Deus. E onde está o Reino dos Deus? Fui lá conferir: O Reino de Deus não virá de modo ostensivo. Nem dirá: Ei-lo aqui; ou Ei-lo ali; Pois o Reino de Deus está dentro de vós. (Lc 17, 20-30). Aqueles fariseus não entenderam nada e muitos de nós (cristãos) ainda continuamos a não entender patavina do que disse o Cristo. Depois dessa inferência secular, poderia parar de escrever por aqui. Perdeu a graça em dizer que encontrei a receita da felicidade e ela está no livro dos livros; ou para outras crenças: nas alquimias, nos chás, na bula do prozac, no horóscopo, num pergaminho escondido no críptex, ou num baú secreto cuja chave foi lançada ao mar. Nada! Não há chave, não há baú, nem segredo. Há sim, nossas vidas e o modo de como queremos que ela prossiga daqui em diante, com ou sem amor. Continuemos a olhar para fora, ou vamos ao encontro da nossa espiritualidade?

A busca do externo, do exibicionismo, do materialismo, do consumismo, da satisfação nas coisas que o mundo oferece, faz muitos de nós sentirmos este vazio interior. O que falta para sermos felizes plenamente, se já provamos de tudo? Partindo desse engodo, já numa forma de desespero, acreditamos então que só seremos felizes quando alguém nos trouxer a felicidade a nossa porta. Como se tudo fosse uma mercadoria a delivery. Esta é nossa última cartada. Exigimos e aguardamos. Traga-nos uma porção. Não! Queremos uma quantidade farta que é para durar a vida toda. Ok?!

Pode ser que eu não esteja falando com você, mas isso é o que a maioria das pessoas busca. Anseiam nas suas relações interpessoais, que a outra pessoa a faça feliz. Esperam do outro e nada fazem por si, e para si. Faz parte do requinte que a pessoa escolhida, além de todos os outros atributos (ser príncipe ou princesa), traga ainda a felicidade no seu caminhão de mudanças. Depois do beijo no altar eles irão agora requerer seus direitos num casamento: a felicidade do outro. E se houver falhas nas suas atribuições um irá cobrar o outro e tudo caminhará para um divórcio bem rápido; e somente mais tarde, depois de algumas visitas ao analista, irão perceber que não há dívida de felicidade com ninguém. Querer sugar a felicidade alheia, é exigir além das fronteiras das relações humanas, mas muitas pessoas pensam, vivem e agem assim.

“É impossível ser feliz sozinho”, na música de Tom Jobim este é o verso mais comentado e propagado por aí. Tem outro de Vinícius de Moraes também: “mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”. A música, a poesia tem a licença para dizer o que vier e tudo fica permitido, mesmo que seja uma receita que não se aplica na vida real. Assim, quem quiser acreditar nessas frases poderá concluir que a solidão é sinônimo de infelicidade. Entretanto, a solidão quando sofrida — e não sentida —, poderá trazer a infelicidade sim, mas ela não é determinante. Vou mais fundo.O que de fato é estar sozinho? Estar sozinho é ausência de companhia, de abandono e não falta de felicidade. Vasculhei nos dicionários de sinônimos e não há menção da ausência de felicidade para a palavra solidão. O pior abandono que causamos a nós é o abandono da alma; e uma vez instalado esse vírus, ali começará brotar a infelicidade — a erva daninha. É quando perdemos o foco e a referência, num sinal fatídico de se olhar no espelho e não se ver – nossa alma e tudo esvaecem.

Pode ser lugar comum o que vou dizer, mas não existe a vida totalmente feliz, e aqui, aonde viemos aprender, não existe felicidade plena. Por isso, necessitamos aprender a exercitar e expelir nossas emoções: as boas e as más; mais cedo ou mais tarde iremos precisar desprendê-las quando tivermos que encarar a realidade dos fatos. Não há vida sem luta e para isso há que se ter coragem para viver. O sofrimento, a dor são imputáveis à vida, assim como a felicidade. Não poderemos evitar nunca o sofrimento e a dor, as noites tempestuosas virão, com certeza, mas poderemos ansiar e permitir a felicidade sempre. Isto sim. Quando vivemos algum drama na nossa vida, somos aconselhados a fugir, fazer as malas numa viagem para esquecer. Sem notar que todas as nossas dores vão junto com as malas. Quem sofre com alguma dor, deve viver isso como se vive o amor na sua plenitude. Nunca devemos fugir dos nossos sentimentos.

Para saber até que ponto o dinheiro compra a felicidade, uma pesquisa recente nos EUA, com mais de 450 mil pessoas, constatou que para ser feliz o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre. A verdade, é que as dificuldades de acesso aos bens de primeira necessidade desencadeiam fatores de ordem física, psíquica e emocional — trazendo a infelicidade. Respondendo à pesquisa, a grande maioria que está feliz ou vivendo momentos felizes encontrou na religião (qualquer delas) a sua maior causa; já a infelicidade, está mais atrelada à solidão, e esta, com certeza, já numa forma de sofrimento, de abandono da alma.

O ser humano é uma máquina de queixumes. Não bastasse o corpo, que com o tempo dará sinais de cansaço e dores, as pessoas se queixam também das dores da alma — ainda na juventude. Gostaria que essas pessoas que vivem a reclamar da vida, olhassem para dentro dela e enxergassem os tantos motivos que têm para dar felicidade a si. Quiçá, uma visita à ala de pediatria de um hospital de câncer mudasse seu comportamento, com mais resignação. Iriam se queixar menos e amar a vida que tem. O melhor remédio para dor é o amor. Por outro lado, encontraremos poucas pessoas que irão dizer: EU ENCONTREI A FELICIDADE. A felicidade dá medo até de dizer que se tem, ficamos com a sensação que irá fugir a qualquer momento e não encontraremos mais o fio da meada. Dá medo de ser feliz. Ou, por um instante, nos perguntamos: mas isso que é a felicidade? Duvidamos dela. E como numa frase que li: “o medo da felicidade está na raiz de todo pensamento supersticioso: estando bem, nos sentimos ameaçados e nos protegemos batendo na madeira”.

O filme “O Divã” — 2009 traduz bem esta conversa aqui. A personagem vivida por Lilia Cabral é daquelas mulheres mais do que comum: casou, criou filhos, vida modesta e em paz. Durante uma sessão de psicanálise percebe que sua vida falta algo, um sentimento de incompletude a toma conta. Então, ela resolve viver aventuras amorosas e perigosas. Em consequência, rompe o casamento de anos e cai na vida. O fato, é que a terapia a traz para a realidade, e ela se descobre ao olhar para dentro da sua vida — vivida e escolhida. A frase final dita por ela sintetiza tudo: “Se tive problemas um dia, não foi por falta de felicidade. Ah, não foi mesmo”.

Acender um fósforo numa noite fria irá aquecer somente o minúsculo inseto ao redor da chama, e tão logo se apagará; mas acender uma lareira no canto da sala irá aquecer a casa e as pessoas que ali moram. O amor é o fogo duradouro da lareira, que devemos manter aceso para encontrarmos o caminho da felicidade. Os que acendem a fogueira do amor, irão se aquecer ao seu redor e viver mais felizes. Há aquelas pessoas que passaram a vida toda buscando a felicidade sem encontrar, mas na verdade, viveram nela a “não felicidade”: a negação da sua presença em muitos momentos da vida. Essas pessoas amarguradas, birrentas e de mal com o mundo são puramente ocas, incompletas e terminam sozinhas — o tempo já se foi. Quem não quiser chegar ao final de sua jornada assim, ainda há tempo para abrir as portas do coração e deixar forjar o amor na espiritualidade e por fim a felicidade — tudo na mesma fornalha. E quando a vida um dia lhe questionar, poderá dizer: se tive felicidade um dia, foi porque vivi muito o amor.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / setembro de 2010.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A mullher árabe

A tarde já se ia quando cheguei naquela praia deserta. Meus passos lentos traçavam um caminho incerto na areia. Queria chegar até as pedras, encontrar meu prumo, minha vida. Os povos do oriente nunca me fizeram compreender. As ondas apagavam tudo em que pensava. O inverno que havia em mim era árido e deserto. A brisa gelada fazia minha pele sentir o frescor sob minhas vestes brancas. Sem forças, estirei meu corpo ao chão com minhas mãos espalmadas sobre a rocha ainda quente. Minhas veias saltadas supuravam um suor amargo. A boca seca desencontrava em murmúrios e palavras que brotavam sem direção no espaço. O mar revirava, agitava e lançava suas ondas nas pedras, como um convite para o mistério das suas profundezas. Quero ser como o mar, dizia dentro de mim. Voltarei um dia como mar... Lembrei-me do sonho em que vi um anjo que saltava do penhasco e sumia entre as nuvens. Era bom presságio sonhar com anjos, diziam meus antigos. Mas meus olhos ali amorteciam no firmamento. A cortina do dia fechava num espetáculo que as minhas pupilas teimavam em não espiar e minhas mãos reticentes em não aplaudir. Fiz de mim um vinho entornado, uma palha seca de sentimentos vãos, migalhas de um coração partido em mil pedaços. Um raio de sol quisera que penetrasse inteiro em minha alma, mas não pude represar minhas lágrimas no mesmo instante. Abaixei o queixo, fechei os olhos e com nitidez veio a cena daquele dia na biblioteca. Num livro antigo empoeirado, desvendava o mistério dos meus tormentos e pesadelos: a mulher árabe não pode amar. Convencido que já havia lido e sabia tudo sobre o amor, de como se dissemina entre os povos, na chama do coração e pelo tempo. Que o amor não tem raça, nem credo. Que o amor liberta. Que amar é uma dádiva. Nunca imaginava saber a verdade sobre quem eu amava. Desfolhei outros livros, contos, manuscritos, histórias reais. Nada. Quebraram meus braços, cravaram em meu peito uma lança. Chorei, cuspi nas folhas, disse injúrias e teimei com Deus. Não pode ser assim! Como somos tão desiguais. Meu coração agora arde de amor, eu preciso entregar este amor à minha amada. Minhas teses se concluíam, fechavam como peças de um quebra-cabeça. Das nossas conversas e encontros. Senti que ela sofria e eu por ela mais ainda, mas nada podia fazer. Manifestei aos céus, ceifaram a liberdade dela amar mesmo antes de vir ao mundo. Pensei nas pedras e na água fria que poderia encontrar lá embaixo. Nossos poemas, as canções que compus no mel dos seus olhos. Reli a última mensagem do celular. Mas em tudo voltava como um trem desgovernado: a mulher árabe não pode amar nem aqui, nem em lugar algum. Chorei por nós, pois agora não podia mais lutar por aquele amor que já deveria partir de mim sem tempo. A mulher árabe não serve para o amor. Indaguei o destino que nos cruzou, o evangelho, as escrituras. Por quê? Quero este amor! Em vão, tudo se esmaeceu como uma centelha que se dissipa no ar.

Levantei a cabeça. A noite caia fria e as embarcações eram tragadas no nevoeiro. Pássaros partiam para o repouso noturno. Agora eu era só, as estrelas primeiras surgiam como pontos no pano do céu. Traçava a bel prazer desenhos de geometria incompreensível. Lia sobre elas o nome que me vinha e não era outro senão o nome dela. Músicas entoavam ao longe um hino de amor que guardei para lembrar de nós. Cadernos, poemas, bombardeios, fronteiras, caravanas, desertos tudo se misturava com meu sangue quente. Como compreender? Bêbadas manhãs que acordei pra sonhar com este amor. Para qualquer lugar distante, queria fugir sem deixar vestígios.

Já era tarde e chovia ao norte. Pus-me em pé e fiz um crucifixo do oriente ao ocidente dos meus braços. Gritei - sem eco. Um vento forte soprou em meus olhos e secou minhas lágrimas. Por fim, era verdade como em meu sonho. Senti então meu anjo suspirar ao redor; túnica longa e branca, com a mão estendida sobre meus ombros e na sua plenitude transfigurava: "vai, volte à vida, leve este teu amor para guardar no coração e para sempre na eternidade juntar-se a ela; quanto à mulher árabe, saiba que a ela foi dado somente o prazer de chorar". Parti.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril 2007

terça-feira, 13 de julho de 2010

Passione


Em 2008, um crime chocou o país. Durante 04 dias um rapaz de classe média de 22 anos manteve em cativeiro e sobre a mira de um revolver outra jovem, Eloá Pimentel de 15 anos. Depois de várias tentativas de negociações, numa operação frustrada, a polícia resolveu estourar o cativeiro — sem querer julgar o modus operandi da ação —, no mesmo instante Lindemberg deu dois disparos em direção à Eloá; a quem tinha uma paixão platônica e por quem foi negada tal reciprocidade. Eloá faleceu depois no hospital e ele foi parar numa penitenciária onde ainda aguarda por julgamento.

O que havia de mal na vida e no passado daquele jovem atirador? Nada, ele era uma pessoa comum, descobrindo a vida, com seus sonhos, seus desafios e prazeres; mas, por trás daquele cenário de horror, havia sim um sentimento envolvido, algo maior que tudo que ele podia dominar dentro de si e por isso se deixou entorpecer. Quando cair em si, irá perceber que pôs fim também à sua própria vida.

Faz alguns dias outro crime aconteceu na minha cidade, pelos mesmos motivos: paixão. Um jovem de 25 anos matou e esfacelou a ex-namorada e seu algoz; dias depois, ao se entregar numa delegacia confessou friamente que primeiro havia matado o rapaz e depois a matou porque ela foi testemunha ocular e o motivo era ciúmes dela, de quem foi namorado. Tudo friamente.

Em ambos os casos, não havia motivo para tanta crueldade: tirar a vida de alguém. Ou havia? Difícil dizer não estando na pele, mas o desprezo foi determinante nestes casos; e depois a intolerância e não aceitação por derrotas. A justiça interpreta estes crimes como sendo passionais, hediondo, por motivação fútil. Não sou jurista para analisar os meandros que seguirão até o desfecho, mesmo porque a justiça dever ser fria e cautelosa.

Contudo, quero por em questão esse sentimento, muitas vezes doente, que é a paixão; e que para muitos há uma confusão com outro chamado Amor. Lindemberg não tinha amor por Eloá, senão não a teria matado. O que fez praticar aquele crime foi sua paixão obcecada e naquele momento não correspondida. A paixão muitas vezes é possessiva, não concede tréguas e não aceita o “não” como resposta. Aquilo que se sente não pode ser desprezado e pisoteado pelo outro. Penso que, o ato de matar o ser “amado” é um desejo (obscuro) também que junto com ele se vá o sentimento que o aprisiona.

Se procurarmos, iremos encontrar inúmeros casos análogos, de consequência também trágica. Na literatura e na dramaturgia essas histórias tidas como histórias de amor já foram contadas, como em Tristão e Isolda ou na celebre obra shakespeariana de Romeu e Julieta (1591/1595). Aquele drama, sugere que a morte daquele jovem casal foi porque o sentimento de um pelo outro era maior que todas as intrigas e diferenças familiares, e nem a morte os iria separar. Se houvesse o aceite das famílias e se casassem, criassem filhos, talvez compreendessem mais as condições do mundo e não iriam se matar quando um ou outro morresse por morte natural. Na verdade, eles responderam com a própria vida os “nãos” que ela os impôs. Quem de nós um dia já não pôs a ponta da língua em algum veneno da paixão? Eles beberam.

O que me chama atenção nessas tragédias passionais são seus personagens: sempre jovens. Na imaturidade não sabem lidar com as derrotas e decepções. Como já havia dito em outro texto, essa fase da vida é onde mais nos atiramos nos precipícios e mais nos permitimos arriscar. Numa outra tese, asseguro também que, quando ficamos mais velhos e maduros, nos voltamos mais para nosso interior: tomamos remédios para doenças invisíveis, nos precavemos mais por sair à noite ao relento, procuramos alimentos mais saudáveis para o corpo e deixamos outros vícios. Assim, também cuidamos mais dos nossos sentimentos e por isso nos apaixonamos menos, sofremos menos desse “mal” ou aprendemos mais com a vida, como queira. Procuramos viver relações mais maduras, onde o bem partilhado é um sentimento livre, sem pressa e sem cobrança; onde a maior discussão com quem nos relacionamos é sobre qual o melhor filme de Almodóvar ou o melhor poema de Drummond. Nada mais a se preocupar ou se questionar.

Amor e paixão — muitos escritores, filósofos, pensadores já deram suas explicações colocando cada coisa no seu lugar. Serei simplista no meu modo de ver, direi que um é água e outro vinho, e transformar uma coisa na outra é o grande mistério. Transformar a água da paixão no vinho bom do amor é o passo seguro que iremos dar para uma relação com caminhar feliz. Na verdade, a maioria das relações fica somente na água da paixão e seca por aí. Há um escritor que disse que a paixão é mistura de um amor de intensidade máxima com um enorme medo. Possessão, obsessão, ciúmes, descontrole, medo são ingredientes que não cabem na receita do amor; esses são os piores temperos de quem se apaixona; e por tudo isto irá sofrer. Ninguém sofre por amor; sofremos por medo. O amor nos quer seguro, confortável e aconchegante no seu colo; ele também requer paz e harmonia para se permitir.

No poema do português Fernando Pessoa, anotado agora na minha agenda, diz: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?” Os poetas falam melhor por nós.

Um exemplo concreto do que ouvi sobre o amor veio também numa forma simples de um homem casado que um dia me contou algo que guardei comigo. De maneira natural e sem qualquer problema conjugal ou familiar, disse: “... o único amor que acredito é do de um pai para um filho e vice-versa”. Explicou: “Quando um filho morre, jamais iremos a um orfanato adotar outro, ou vamos procurar nossa esposa para 'encomendar' outro em substituição aquele. Quando um filho morre nosso amor vai junto, ele vira saudade eterna...”. Fiquei com essa analogia por anos e aqui partilho com todos. De fato, essa é uma bela explicação de amor. Simples, mas verdadeira.

Na relação que se acaba, o difícil é “virar esta página” — como sugere quem está de fora. Nesta hora a palavra é serenidade. Este é o segredo para sairmos sem arranhões. Sempre quando alguém vem me pedir socorro, a primeira coisa que me vem é: serenidade. Só quem não tem não sabe a importância dessa palavra nos dias de hoje. Quem tem serenidade tem paz, esperança, paciência, e espera o amor... Tudo que precisamos para passar as tormentas. Temei, apanhei, cai e me ergui, por fim aprendi a contar até dez e ser sereno. Já contei até mil também, é bom ser assim, pois não brigamos mais com o mundo e com ninguém. As pessoas serenas são mais fáceis de você lidar e decidem melhor. São boas ouvintes e quando falam colocam as palavras no seu devido lugar. Aprenderam por terem o coração e a mente decidindo juntos; ele agora apaziguado bate no seu ritmo, no ritmo de Deus.

Da paixão, como conhecemos e como muitas vezes fomos tomados, nos reservamos agora o direito de viver e deixar viver; respirar seus aromas sem o entorpecimento da insensatez. E dela, somente as palavras doces sejam guardadas como numa linda história de amor: “Direis que aquela luz não é da manhã... ainda não amanheceu. Foi o rouxinol e não a cotovia que vos gritou no ouvido. De noite, canta pousado naquela romãzeira. Acredita meu amor, foi o rouxinol...” (*).

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2010.
(*) William Shakespeare – Romeo and Juliet – Ato III - Cena V