Em 1979, o Brasil vivia a abertura
política: anistia, ampla geral e irrestrita. Muitos comunistas puderam voltar
dos seus exílios e continuarem sua revolução, começando, ano seguinte, com a
fundação do PT. Os militares estavam entregando os pontos aos inimigos, a ponto
do presidente João Figueiredo dizer que o país sentiria saudade daqueles anos das fardas
verdes. Sentimos, de certa forma.
Na outra ponta, naquele mesmo 1979, a Globo
estreava o seriado Malu Mulher. O primeiro episódio trazia o tema do desquite (antecessor do divórcio) e entre muitos
tapas e beijos, claro. No segundo episódio, nossa heroína, não se importando
nem com a filha de 13 anos, que ainda estava absorvendo aquela separação, se
envolvia com outro homem: — eu tenho direito de ser feliz — disse à sua mãe. Pior,
o sujeito, bon vivant, que ela estava
indo para cama, era conhecido do seu ex-marido. Provocando ciúmes naquele homem que ainda nutria sentimentos por ela.
Quando o seriado completou 40 anos (2019),
a Globo quis lembrar com seu público as aventuras daquela Malu independente, emancipada,
dona do seu nariz. O fato, porém, que numa entrevista com Bial, Regina Duarte
disse que não quis mais fazer o papel, porque a personagem estava virando
feminista demais e aquilo não compactuava com seus princípios. Entrevista
encerrada e volta a velha Regina ao seu status de separada do grupo.
Bem, como sempre trabalharam os homens de Frankfurt — terminei o livro —,
a semente foi plantada, o público colheu e os frutos brotaram. Esse é o caráter
da revolução cultural: deixar sementes, sem armas, sem reação. O ponto que interessa. Os
militares, de então, já não corrigiam mais textos, scripts, como no início da
década, e o arquétipo Malu se espalhou sem muito esforço. Roteiros semelhantes foram surgindo e as famílias foram
perdendo forças nas décadas seguintes e se desfazendo para o bem de uma pseudo "felicidade".
Não é isso que temos hoje?
“Começar de novo e contar comigo...” A música de Ivan Lins, na voz da Simone, naquela abertura, caiu
bem para a personagem. Ela começava e não terminava, porque tudo era uma aventura em busca da felicidade.
©
Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Março de 2026