BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)
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segunda-feira, 21 de março de 2011

Paixões de Outono


Já me manifestei em outra crônica - Nesta manhã de primavera... - minha predileção pelas estações com climas mais amenos. O verão e o inverno são estações rudes, extremistas e irritantes para o corpo: muito quente ou muito frio; interferindo também em nossas decisões. Ouso dizer: o clima influencia mais em nossas vidas que a astrologia – para aqueles que acreditam. As mudanças climáticas apaziguam ou incomodam, na medida que sentimos; mexe com nosso corpo, altera o sono, mexe com o apetite, com o humor; e estes respondem com decisões sobre a vida.

Isto também está nesta estação que se inicia – o outono. Nestes dias, com este friozinho, mangas longas e banhos mornos, nos remetem ao aconchego, ao casulo, à cabana; faz-nos mais carentes de colo e de cafuné na cabeça – como é bom... O calor já se foi e já não dá mais praia, o carnaval já passou, as folhas caem e o ano, de fato, já começou. Tenho esta teoria já faz tempo, de acreditar que o outono é a estação onde mais nos apaixonamos. O pavor com a chegada do inverno e de não ter ninguém no calcanhar, para aquecer nossos pés, torna-nos mais fragilizados e vulneráveis às paixões. Permitimos e nos apaixonamos mais. Em 2005, escrevi um poema sintetizando tudo isso (poema não se explica, já disse Ferreira Gullar). “Paixões de outono” é um convite ao recolhimento, à paixão que bate no peito querendo entrar. Permita-se, então, se vem para ficar - muito além do outono.

Paixões de outono

Outono, outono...
Nunca me dei conta
Como instável era a paixão
Marolas de mar
Balanços das ondas
Suspiros no fim do verão
Passeios à tarde
Taças de vinho ao luar
Rubros no céu de abril
Amores sem dono
Extraídos de um conto
De outono

Outono...
Nunca me dei conta
Dos dias que passei
Em frente aos olhos
Que vi naquele olhar
São coisas de outono:
As noivas de maio
Fogos de junho
Festas de encontros
Rodas de carruagem
Levam histórias, viagens...
Levantam folhas caídas
De igual abandono
De outono...

E nem me dei conta
Do amanhecer de orvalho
Quantas constelações
Estrelas milhares
No jardim daqueles olhos
Vinham em navios
Invadiam noites afora
Saqueavam meu sono
Num encanto
De quase outono

Ah, quando me dei conta
Já hospedava no peito
Mais nova paixão
Navios, estrelas, folhas...
Depois deste outono
Ninguém mais ouse dizer
Que seus olhos
Agora, já não tem mais dono

Antonio - 19/05/2005

segunda-feira, 14 de março de 2011

Janeiro

Hoje é dia da poesia. Encontrei esta do meu pequeno baú literário. Poemas não são feitos para serem explicados, mas para serem sentidos.



Quando ela olhou para trás
Eu vi sua face se esmaecer
Na curva de estrada
Nossa estrada, estrada...
Os anos se foram
Poemas rasgados
Canções furtadas
Janeiros afins
Eu sei...

Nos passos enluarados
Fui de encontro ao mar
Nas preces que me vinham
Em nome do nosso amor
Lânguido meu olhar ficou
E deixei-me na praia
Um corpo estirado
Eu nem sei por que de tudo
Deixamos de amar por nada
Sei que sem ela e ela sem eu
Na curva da estrada
Nossa estrada, estrada...

Vi um janeiro tua pele
Bronzeada árida
Tudo o que ficou
Entornou um mar em mim
Tuas queixas em vão
Onde foi parar meus versos
Arraste um janeiro
Sobre a minha canção
Um poema encomendado
Não pode ser convertido
Na palavra da alma
Não tem origem, nem fim
Um poema encomendado
Não pode ser entregue
Identificado contigo
Mas assino embaixo:
Você é meu amor.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 2007.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Do outro lado da rua

Um poema perdido. Encontrei-o nos arquivos de um amigo. Não me pergunte como e porquê o escrevi. Foi um período de busca e auto-conhecimento.

Do outro lado da rua
Há um bem a esperar
Vi um lugar
Era  uma casa de sonhos
De quintal de estrelas
Vi vitrines de sapatos
Espiando o meu olhar
Vozes ecoam nos arredores
Do porão da casa
Balançam cristais
Em armários trancados
Quisera eu despertar
Antes do dia raiar
Não vai tempo para viver
Um dia trás outro
E outro...
E a aurora da vida
Rompe em meu peito
Tal qual um jardineiro
Irrigando suas flores
Na festa da colheita
Um amor, que não passará...
Deslizará sobre o rio
Onde lancei meu coração
Onde me fiz renascer
De amanhecer
Quando atravessei aquela rua.

© Antônio / 2005.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Caminhos cruzados

Ela não podia ouvir
Como poder ouvir?
Latejante era a dor
E nem lembrava
Como a lua dançava
Quando o sino dobrava
Na noite do seu “sim”...
Ela não caia em si
Como poder fingir?
Ele velejava
Dia e noite
Noite e dia
E não voltava pra ela
Noites acordada
Apertava no peito
Mil convites pra sair
Ele não podia sentir
Mas havia um só beijo
Em seu paladar
E não desembarcava
Nunca daquele avião
Ignorava suas rotas em vão
Caminhos cruzados mudarão
Trajetórias e vida
Namorados de outros serão

Em vastos oceanos
Ele atravessava
De um país a outro
Remando em canções
Chamando seu nome no fim
Ela não havia
E nem sabia mais a razão
Ele virou numa esquina
E sumiu na retina
A sua visão
E aí, conta uma lenda...
Quer que o amor se prenda?
Solte dentro do coração
Até que o destino, milagres
Presságios e sonhos...
Outra vida, outras ruas
Cruzem, então
Os amores, olhares
De dois corações

Ele virou vento
Ela virou flor
Ele esperou no tempo
Ela dormiu na espera
Ele seguiu na correnteza
Ela na primavera
Ele chorou, no entanto...
E ela com certeza.

Antonio / 2005

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Julho

Queridos leitores (as):
Segue um poeminha novo pra aquecer este inverno. E falando nisso, pena que Roberto não canta mais uma das suas melhores canções: "...quero que você me aqueça neste inverno / e que tudo mais vá pro inferno". Li num livro que ele fez esta música pra uma namorada que o pai mandou morar no EUA, com o objetivo afastá-la dele (Roberto), pois não queria aquele namoro. Aí veio a canção.

Julho

Ainda que tardio
Julho, ela veio
Guardei palavras
Em meu coração
Corro atrás da lua
Vejo o tempo da janela
Ela veio me aquecer
Corro atrás do sol
Guardei canções
Julho, ela veio cantar
Na tua pele nua
Na cortina do tempo
Julho, ela me segue
Com seus olhos
Neblina de manhã
Rogo-te amor
Rogo-te paz
Remendo estes versos
E deixo este julho
Adormecer na espera
Um álbum de recordações
Até a nossa primavera

© Antônio / julho de 2010.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

ESPELHOS NOS OLHOS OCEÂNICOS

Debruçado na tarde, lanço a mais triste rede aos teus olhos oceânicos.
Nela se estende e arde na mais alta fogueira minha solidão que gira os braços como um náufrago.
Faço rubros sinais a teus olhos ausentes que ondulam, como à beira de um farol, o oceano.
Guardas apenas trevas, fêmea longínqua e minha.
De teu olhar emerge às vezes o litoral do espanto.
Debruçado na tarde lanço a mais triste rede a esse mar que sacode os teus olhos oceânicos.
A noite galopa em sua égua sombria esparramando azuis espigas pelo campo.
Os pássaros noturnos bicam as primeiras estrelas que cintilam como minha alma quando te amo.
Debruçado na tarde lanço na rede o meu coração, tentando atingir o seu, através de teus olhos oceânicos.
(Pablo Neruda)

sábado, 8 de maio de 2010

Tarde de verão

Nublou na tarde vadia
Achei meu olhar perdido
A mesa cheia de papeis
Na fresta do dia:
Ela ainda vai estar onde eu estiver
Nas estrelas ou no elevador
Quando a chuva passar
E o destino se lançar
Em que lugares, livrarias, cafés?
Na missa de natal
Na tarde torrencial
Seus sapatos molhados
Não combinam com a chuva
Meu paletó sobre a poça dágua
Será seu abrigo por um instante

Minha doce amada
Será que ela vai me olhar?
Com tantos na espreita
Sem esperar, ela sorriu e desabrochou.
Como o sol em meio aos pingos
Nas folhas prateadas
Com um buquê de rosas
Encheu toda cidade
Na tarde raiou.

©Antônio (2007)

domingo, 2 de maio de 2010

Alice e o espelho


Fui ver Alice no País das Maravilhas do Tim Burton. Maravilha mesmo é o 3D do filme. Fantástico! Aí eu penso: como o cinema evoluiu com tanta tecnologia. Sempre fui vidrado por esta história. Alice era um livro da minha infância, depois veio o desenho de Walt Disney e isso ficou muito bem registrado na minha cabeça. Quando tinha 20 anos, escrevi um poema cujo título faz alusão à Alice e seu companheiro, o espelho. Na verdade, o espelho é seu eu, seu interior (alma) com quem ela fala e desabafa.

Alice e o Espelho

Alice dormiu
E o espelho se abriu
Esparramou no lençol
Uma doce lembrança
Um sonho de moça
E uma tempestade
Caiu lá fora
Então, ela se enfeitou
E penetrou no espelho
Um país em chamas
Um estranho mundo
Navios sem rumo
Um quadro negro
Nenhum amigo
Nem lua cheia
E ela sentiu

Alice saiu
E o espelho a seguiu
Na mobília do hall
A tola lembrança
O embriagado
Seu namorado
Que foi embora
Em vão, deixou o cobertor
E escreveu no espelho
Com um pouco de rouge
Seu nome e o dele
Depois um grito
Algumas lágrimas
E uma estrela
No céu, sozinha
Ela se viu

Alice sorriu
E espelho partiu
Em pedaços se fez
Num passado longínquo
A flor que fizera
De uma primavera
Brotou na aurora
Pois sim, ela se penteou
E falou ao espelho:
- não há no mundo
alguém mais linda.
E sua estrela
Que andava alhures
Voou de volta
Pra sua janela
E ela se abriu.

© Antônio / 1984