BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)
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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Como um trailer sem carro


Uma mulher sem um homem é como um trailer sem carro. Não vai a lugar algum”. Com razão, trailer não tem motor e a maioria dos modelos por aí, só tem duas rodas. Sozinho não sai do lugar. É preciso de um veículo motorizado com muitos cavalos para rebocá-lo. Bela analogia.

Nos dias de hoje, esta frase soaria um tanto machista, preconceituosa, pecaminosa, out-of-date, e totalmente reprovada por essa gente bronzeada que mostra seu valor, diariamente no Facebook. Campanhas seriam disseminadas reduzindo a reles o seu autor. Verme machista! — diriam.

Verdade mesmo, a frase foi dita por uma personagem feminina num filme de 1964, antes mesmo que alguma mulher queimasse seu sutiã em praça pública, pedindo emancipação, liberdade e igualdade. Mas posso garantir, o roteirista não errou no script; e o público acolheu com sutileza suas palavras. Ele estava em consoante com seu tempo.

Naquele início dos anos de 1960, as mulheres casadas ainda eram donas de casa, cuidando do marido e da prole. As que não alcançavam esse status invejavam as que tinham seu homem, sua casa, sua família. (Isso é o que nos mostra as películas hollywoodianas.) Com a proclamação da chamada revolução feminina (Women's Liberation Front) tudo tomou outro rumo, se perdeu e a feminilidade também. Um cordão umbilical familiar se rompeu daquele modelo familiar. Mulheres deixaram suas casas e afazeres; mulheres saíram do vestido para usar tailleur e substituir os homens nos negócios. Hoje, sindicatos feministas odiariam e poriam toda sua rede social em batalha, a odiar também a mulher que dissesse que precisa de um homem.

Depois que surgiu a denominação “feminista”, para aquela categoria de mulheres que resolveram dirigir suas próprias vidas, independentes de qualquer relação estável e necessidade, o mundo não foi mais o mesmo. O contrário do que se constata, se você disser que o oposto de feminista é machista, o termo cai num conceito pejorativo e como um mal a se combater. A sociedade não-machista irá sempre pensar em homem que bate em mulher e tão somente.

Chique é ser chamada de feminista e viver de suas mazelas sentimentais, porque homem nenhum suportaria conviver, por muito tempo, com uma assim: mulher que briga, que disputa, que discursa com os seios de fora, mas não sabe fritar um bife e nem ao menos andar sobre um salto. Como disse Luíz Felipe Pondé: “o puritanismo feminista, que não entende nada de mulher, faz da mulher uma ‘camarada’ vestida de homem em meio a um mundo brocha de tanta exigência de igualdade entre os sexos”.

Na verdade, a vida das relações conjugais e amorosas, tornou-se tediosa demais e por isso há tantas separações, descontroles e desarranjos familiares. E para complicar ainda mais, um novo modelo de casal resolveu entrar na disputa pela construção familiar. Exatamente assim: “deixem que nós cuidemos do seu filho”. É o que se vê pelas pregações nas redes sociais. Um cartaz, a princípio provocador, diz que “toda criança adotada por um casal gay, foi gerada e abandonada por um casal hétero”. Mesmo que a frase tenha duplo sentido, ela faz propaganda, oportunista, apontando para outros caminhos e saídas. Quando se imagina aquilo que chamam de família tradicional (abomino esse termo); porque todos nós viemos de uma relação hetero (até os homos); de um ato sexual hetero, mesmo que abandonados depois. A família ainda continua a existir a partir deste modelo. Por outro lado, nada contra as outras relações de uniões de pessoas do mesmo sexo. Mas não chamar de família, por favor.

O mundo piorou com essa conjunção atual e a feminilidade foi-se junto, dando espaço às mulheres de “luta” em busca do nada agora. Os direitos civis, uma de suas brigas, já estão conquistados; está na hora de voltar para casa e fazer um jantar para o marido.

Outro dia, conversando sobre este assunto com uma amiga (vivendo a sua fase trailer sem carro), ela me disse algo que poderia sintetizar tudo que se passou nesses anos, a partir dessa pseudo emancipação: “eu acho que para algumas mulheres faltou coragem para ser mãe; para outras faltou coragem para ser puta”. Bingo!

Ao homem não houve mudança de papel. Ele continuou sendo o provedor, o macho dominante e ciumento. Diante do que acontecia permaneceu estático assistindo a tudo, sem entender nada. E quando deparou com essa nova mulher, se assustou e recuou. Na verdade, ele só queria uma que fosse como sua mãe, caseira e cuidadora. Agora quem está perdido e procurando seu trailer para atracar é ele.

A frase do filme “Kiss me, stupid” (1964) do diretor Billy Wilder foi dita pela personagem de Kim Novak (Polly). Polly é uma garota de programa que mora e “trabalha” (atende à clientela) num trailer. Ao ser inquirida por Zelda, a mulher do homem que passara a noite, ela a reprime e diz à Zelda que seu marido é ótimo (no sentido do caráter), tentando convencê-la a voltar para casa. Convicta, ela assegura que a vida de Zelda é invejada por outras mulheres (inclusive as GP´s como ela): "acredite em mim, tem um marido ótimo"; um marido, uma casa e uma família. Tudo perfeito para o mundo de 1960, pós-revolução industrial, familiar e ainda muito romantizado. Uma mulher sem um homem para conduzi-la, não chegaria ao outro lado da rua, talvez à prostituição.

O mundo de hoje acha que não. Acha que podemos ir, sim, a muitos lugares separados; o mundo de hoje acha que podemos educar filhos estando ausentes; o mundo de hoje acha que podemos dividir tarefas dentro e fora de casa; o mundo de hoje acha que podemos viver muitas relações sem se perder; o mundo de hoje não prepara as relações para durarem, mas para serem efêmeras; o mundo de hoje não percebe também, como estamos perdidos por termos abandonados certos velhos costumes.

Por fim, um homem sem uma mulher e uma mulher sem um homem, continuarão a se cambalear por aí e ir a lugar algum. Assim, como um trailer sem carro.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / Abril de 2013.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Cartazes de filmes

Como sabem, velharia é comigo mesmo. Cultivo as coisas antigas sem medo de ser chamado de “retrô”. Por sinal, eu até gosto... Já tentei confundir minha mente (e o coração) a querer gostar do novo, mas eu volto sempre aos objetos abandonados, por mero descuido, no buffet da sala de jantar; como já disse, dos “tesouros enterrados”.

Poucas pessoas entenderem esta frase que escrevi numa crônica de 2010. Cabe explicação. Algumas coisas são tão valiosas em nossas vidas que, acho que deveriam ficar escondidas para serem preservadas. Por isso usei o termo “enterrar”, ao invés de guardar. As histórias fictícias de piratas contam de tesouros enterrados. E quando alguém os enterra, entendo que tinha grande valor e só aquela pessoa sabia da sua existência. O que é bom deve ser enterrado para sempre. No futuro, serão como peças antigas que arqueólogos escavaram para descobrir nosso passado.

Tenho uma paixão - até ontem era contida - por cartazes de filmes (posters). De preferência pelos filmes antigos. Acho que os cartazes tinham um papel fundamental nas campanhas publicitárias, de divulgação e bilheterias, nos tempos do Cinemascope. Quando não havia tantos meios de publicidade e quase tudo se resumia aos jornais e magazines.

Há peculiaridades nesses cartazes. O segundo nome da atriz/ator/diretor era mais relevante que o primeiro e por isso se escreviam em caixa de letra maior. Outra curiosidade era “Cinemascope” (you see it without glasses!) que aparecia como um chamariz nos cartazes. Cinemascope é o que chamamos hoje de “widescreen”. Foi criado pela Twentieth Century Fox, e utilizado na produção e exibição de filmes entre 1953 até 1967.

Como não havia grandes produções a cores, era um chamariz também o “technicolor”. Neste mesmo período, os filmes em preto e branco ainda sobreviviam, embora já se fizessem os “technicolors”. A resistência de alguns diretores era porque alguns filmes em P&B escondiam imperfeições de maquiagem e cenários que o colorido expunha demais. E o público poderia perceber tais imperfeições.

Liguei a tv outro dia e pude ver ainda o final de uma entrevista (que pena!) de um ilustrador de filmes brasileiros. Nem seu nome lembro mais. Ele era ilustrador, na década de 70, de cartazes de filmes brasileiros, na época da pornochanchada, de atrizes como Vera Fisher, Nádia Lippi, Helena Ramos e Aldine Muller; aquilo que chamávamos de “sala especial”. Ele conserva muitos desses cartazes como foram desenhados e produzidos. Uma relíquia.

Reuni uma coleção de cartazes dos filmes de Marilyn Monroe (sempre ela), para mostrar como era esta arte; onde o ilustrador tinha um papel determinante na publicidade, não usando nenhum computador ou tecnologia gráfica para criá-los. A coisa nascia no papel, com pincel e guache. As ilustrações tinham a perfeição de fotografias e puxavam das silhuetas e corpos os destaques mais acentuados: pernas, bocas, mãos e gestos. Noutras eram fotos montadas, com a mesma técnica.

Adorável pecadora - 1960

Como agarrar um milinário - 1953
 
O rio das almas perdidas - 1954
 
Quanto mais quente melhor - 1959


O príncipe encantado - 1957

Os desajustados - 1961

Almas desesperadas - 1952
 
Nunca fui Santa - 1956
O pecado mora ao lado - 1955
Os homens preferem as loiras - 1954


© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2012.