BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)
Mostrando postagens com marcador futebol. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador futebol. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Dediquem-se à rasteira, rapazes

Há tempos venho procurando essa crônica de Graciliano Ramos (em pseudônimo). Nessas linhas, naquele começo de século XX, ele dava conselhos aos brasileiros se queriam mesmo introduzir o FUTEBOL nas práticas dos esportes nacionais. O fato curioso é que, o futebol já era praticado na Europa, mas no Brasil ainda engatinhava. Dei um título meu à crônica, mas ela foi publicada a primeira vez em "O Índio", em 1921.

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a ideia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.

Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.

A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro também possui consideráveis apêndices auriculares, o que não impede que o considerem, injustamente, o mais estúpido dos bichos. (...). Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes - uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: "Me deixa..." Precisamos fortalecer a carne, que a inação tornou flácida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o mercúrio escangalhou.

Consolidar o cérebro é bom, embora isto seja um órgão a que, de ordinário, não temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque é ótimo. Convencer um adversário com argumentos de substância não é mau. Poder convencê-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaçador, é magnífico. (...)

Para chegar ao soberto resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol.

Mas por que o futebol?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.

No caso afirmativo, seja muito bem-vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve.

Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um país é necessário, não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena. É preciso, pois, que vá preencher uma lacuna, como diz o chavão.

O do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído. (...)

Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.

As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; não somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego.

Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam liamba. (...)

Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.

Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar.

Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!

Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro - e a rasteira nos salva.

Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.

Muito útil, sim senhor.

Dediquem-se à rasteira, rapazes.

 Publicado por © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / maio de 2024.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

No coração de todos


Terminei o ano de 2011 sem concluir um texto sobre futebol. Queria escrever sobre o Barcelona; enaltecendo o seu belo futebol. Isso tudo sem saber do resultado final do mundial interclubes contra o Santos. Mas, prevendo o óbvio, já havia comentado por aí que todos os times jogam futebol; o Barcelona joga o “mais futebol”. Estava certo. O Santos – o futebol brasileiro – passaram vergonha; foram 90 minutos de uma aula de como se joga o “mais futebol”. Será que aprendemos? Alguns cronistas esportivos disseram depois: está na hora do Brasil se reciclar, e se render ao futebol de equipe, voltando a fazer o que fez do Brasil cinco vezes campeão mundial. Copiar a si é fácil.

Neymar e o Santos chegaram ao Japão bem antes da competição. Entrevistas humildes, mas atitudes nem um pouco. Na coletiva com a imprensa mundial, Neymar disse que Messi era o melhor e o Barcelona era o favorito. Tudo que podia se dizer e ouvir. Na saída do local, Neymar foi cercado por seguranças com a camiseta do Santos protegendo-o do assédio. Mas, assedio de quem? Não havia ninguém lá que quisesse agarrar o craque nacional, nem mesmo para arrancar um autógrafo. Essa imagem ficou marcada para mim: como a imprensa esportiva brasileira idolatra nossos pseudo ídolos, elevando-os à décima potência e o resto o do mundo nem aí com eles.

Enquanto isso, o Barcelona, ainda em gramados espanhóis, goleava o arquirrival Real Madrid por 3 x 1, no estádio do Real. Só depois da partida viajaram para o Japão. Chegando lá, não houve mudanças de hábitos e nem seguranças para seus ídolos. Eles foram dispensados para passear com suas mulheres e fazer turismos sozinhos pela cidade. Pensei, o futebol tem que ter disso também: humildade. Jogar sem a arrogância, e tudo isso que vem com os salários milionários. Não fosse isso, muitos estariam morando em condições ruins e viveriam pobres por toda a vida.

Não sei precisar qual jogador – há muitas notícias em pencas sobre futebol -, mas um jogador do Botafogo Campeão Mundial da Copa de 1958, no dia seguinte após as comemorações, quando a vida voltou ao normal, continuou pegando seu trem no subúrbio do Rio de janeiro para ir treinar. Naquela época o dinheiro não estava no futebol, mandando. Jogava-se por amor.

Comecei o ano de 2012 com uma notícia um tanto triste. Meu atual ídolo do futebol abandonou os gramados. Marcos, goleiro do Palmeiras, anunciou a aposentadoria. São Marcos, já foi canonizado por todos e se fez indulgente pelos anos de carreira e tudo que seu futebol nos deu. Ao Palmeiras e à Seleção Brasileira. Houve uma comoção geral, até de outros torcedores. Descobri com isso, que ele está no coração de todos. Uns irão justificar que ele foi o goleiro do pentacampeonato de 2002; para não se render que ele envergou a camisa do Palmeiras e hoje é mais um jogador palestrino se despedindo dos gramados.

O que faz Marcos ser diferenciado? Ele nunca esqueceu suas origens; agiu sempre como homem, dentro e fora de campo; na derrota soube perder; nas vitórias soube comemorar. Sem aspereza na voz. Cortês, franco, humorado e feliz pela vida que a bola lhe deu.

Em tudo que fazemos na vida, a humildade deve estar presente. Até mesmo no futebol. Marcos é um dos jogadores mais humildes que já vi dentro e fora de campo.

Quando o time do Palmeiras estava mal no campeonato, com os jogadores fugindo a imprensa, Marcos era quem falava com, sem medo de represálias, sem medo de dizer a verdade.

Na Copa de 2002, Marcos foi um dos maiores personagens daquela conquista – o pentacampeonato. Na partida final contra a Alemanha, onde vencemos por 2 x 0, ousei dizer depois: o Brasil venceu por 4 x 0. Duas defesas de Marcos foram consideradas por mim, um gol de goleiro. A primeira, quando ainda estava zero a zero, foi escolhida como a defesa da Copa. Aos 3min: 44seg do segundo tempo, o jogador alemão Neuville bateu uma falta, de longe, daquelas quase indefensáveis. Marcos pulou, se esticou todo para pôr a ponta dos dedos na bola, e ela bater na trave e sair. Se a Alemanha fizesse aquele gol, a história daquela Copa poderia ter sido outra. Depois, Ronaldo fez dois gols e salvou a pátria. Aos 37min: 40seg, Marcos fez outra defesa num chute queima-roupa, dentro da área, de Bierhoff. O futebol brasileiro também deve a ele aquela conquista. A FIFA deu o prêmio consolador de melhor jogador da Copa para Oliver Khan (goleiro alemão), mas Marcos foi naquela manhã, o São Marcos de todos os milagres. E por essas e outras, ele já virou mito no futebol, e que agora reina no coração de todos nós.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2012.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Futebol, religião, mulher...

Há coisas que não se discutem, dizem alguns apartadores de brigas, da turma do “deixa disso”. Futebol, religião e mulher. Será?

Futebol
O futebol, por chiste, se discute e muito. Que graça tem em ter um time e não falar dele, nem quando está mal no campeonato? Que graça tem chegar ao trabalho, depois do seu time ter vencido, e não tirar um sarro de alguém? Que graça teria os programas esportivos, se não houvesse as discussões, as polêmicas? A bola entrou ou não? Nenhuma graça. O futebol subsiste em razão também das discussões.

Quando saio à rua com a camisa do meu time, sempre alguém irá dizer algo, ou me chamar somente de “o palmeirense”. Gosto disso. Aproxima, trás a conversa, cria-se intimidade, cria-se amizade... Não tenho essa paixão desvairada, e quando é para falar mal eu falo, até por qual eu torço. Teimo ainda, as famílias deveriam ser formadas por membros com torcidas opostas. A discussão no futebol deve existir num ambiente saudável, sem brigas de arquibancadas com fraturas expostas. Abomino as brigas e louvo o futebol com discussão de pontos de vista.

Religião
No campo da religião, não há o que discutir. Todas têm razão. Faça uma experiência, se você entrar em algum templo - que nunca foi -, sairá de lá convencido que aquela é a melhor doutrina a seguir, o melhor lugar para frequentar. Nos novos templos, não te deixarão sair sem esse convencimento. Eles irão recebê-lo com sorriso na porta, como se você estivesse entrando numa agência bancária. É uma disputa por fiéis, e porque não, também por poder. Deus é a maior moeda que reina no mundo. Todo mundo quer vendê-lo à sua maneira, até porque não é visto por aí dando explicação de Sua existência, embora todo mundo busque para suportar sua própria cruz. Em troca dessas graças, provará sua fé, em muitos casos, com seu dinheiro.

Tenho amigos de outras religiões, ou que seguem algumas doutrinas. Resumidamente, cristãos e espíritas. Algo contra? Nenhum. Há gente boa em qualquer religião; há gente boa sem religião nenhuma também. A religião não é o termômetro que mede a bondade ou a maldade humana. Há gente fazendo coisas absurdas em nome de Deus; como o traficante que lia a Bíblia e empunhava um fuzil em outra mão, quando dava entrevista à jornalista. E dizia: eu sou cristão, leio a Bíblia.

Na linha do extremismo, temos o islamismo muçulmano, pouco conhecido por nós ocidentais, mas já vimos fazer barbaridades por sua causa, sua fé. O que dizer deles? Estão fundamentados em culturas que não chegam até nós. Respeito sem tocar.

Eu tenho a minha – Católica Apostólica Romana – e não fico tentando convencer ninguém ter aulas de vida com padres é melhor do que pastores ou rabinos. Para mim é uma questão, antes de tudo, de respeito à minha formação, à memória de meus pais, às tradições dos cultos que aprendi com eles e seus antepassados. Em ter que confrontar com certas regras dentro da igreja, procuro extrair o que é bom. Gosto de ir à missa, preferencialmente aos domingos pela manhã. Sinto-me bem, vendo a igreja naquela comoção de oração e cânticos sem fim. Deus está ali, não tenho dúvida.

Houve o tempo que as missas eram chatas, com padres velhos que falam coisas que não entendíamos. Os ponteiros do relógio demoravam a rodar. Hoje as missas melhoraram no aspecto de tratamento aos fiéis, com acolhida. Mais conforto, padres modernos e que estão nas redes sociais, sorridentes. Missas, cultos, reuniões e Deus; com humor, graça, devoção e fé.

Mulher
Uma amiga polarizou uma discussão comigo (pra que discutir com madame?). Quem é mais bonita, Jennifer Aniston ou Angelina Jolie? Coincidência ou não, uma esteve e outra está nos braços do mesmo homem. Ele poderia dizer melhor do que nós. Bem, ela teimou em Angelina e disse que Brad fez a melhor escolha. Pode ser verdade, mas até onde posso extrair (com os olhos), parece-me que Angelina tem uma beleza estática, retilínea, opaca; uma pintura de quadro, de uma Monalisa do século XXI. Apesar de ser linda, acho um tanto aplacada. Já em Jennifer, eu vejo aquela coisa da beleza em movimento, graciosa e cheia de charme. Se for mal-humorada ou não, não posso dizer. Só a vejo em suas comédias; e ela só afaga meus olhares.

A beleza e seu padrão são universais, como podemos ver no concurso de Miss Universo. Não existe beleza diferente, em países diferentes, hemisfério diferentes, regiões diferentes, continentes diferentes... O padrão de beleza é mesmo universal. E a beleza está na mulher e com a mulher. O concurso de Mister Universo não tem o mesmo peso do Miss Universo. Por quê? Tanto os homens quanto as mulheres preferem o padrão de beleza feminino. Ou, alguém já viu um bando de mulheres se reunindo em casa, com cerveja e petiscos, para ver Mister Universo? Acho que as TVs nem transmitem. Homem não discute sobre homens belos. Por que ele vai ater-se, se ele pode apreciar obras mais bonitas, as mulheres?

Agora, não há "beleza interior", porque beleza está no olhar. Segundo o dicionário Larousse: Be-le-za, sf (belo+eza)1 Qualidade do que é belo, conforme um ideal estético. 2 Harmonia, perfeição de formas. 3 Mulher bela, sedutora. Aquilo que adoça os olhos. Não vemos (com os olhos) o coração; sentimos com o coração, o coração. Portanto, não existe beleza interior. Beleza é aquilo que se vê; não o que se sente.

Outro exemplo, quando olhamos uma flor linda no jardim; iremos admirá-la por sua beleza e não pelo que tem em sua seiva. A beleza é a primeira coisa que nos chama atenção. Se há num jardim, uma rosa linda e uma touceira de alcachofra, ninguém prestará atenção na "beleza interior" da alcachofra (que faz bem à saúde); iremos olhar primeiro a flor que está ao seu lado... Não existe beleza interior nas pessoas; existe a bondade, o que também não deixa de ser uma atração. Beleza não é sinônimo de bondade, embora alguns dicionários ainda tratem tudo na mesma etimologia.

Acrescento à beleza, charme e bom-humor (já escrevi em outro texto). Uma mulher bonita deve ter o andar bonito, com charme e elegância; seus olhos (azuis, negros, castanhos, verdes esmeralda...) devem olhar com sedução e resplandecer; ao se expressar, deve falar e sorrir com a mesma boca, como se ouvisse a piada mais engraçada do mundo. Quando fazia ensaios de cenas para seu último filme - não terminou - "Something's Got to Give", Marilyn Monroe andava pelo set e ria com gargalhadas para a câmera; sem motivo aparente, apenas porque era focada e nada do que expressava serviria ao filme. Era só um teste de câmera. Era seu momento de luz e esplendor.

No conjunto da beleza, formará um grande ser humano, se além de tudo isso, tiver a bondade em seu coração, a "beleza interior". Tem algo mais para discutir?

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / outubro de 2011.

terça-feira, 22 de março de 2011

A maior do interior


O escritor Luís Fernando Veríssimo, numa de suas crônicas, descreveu e justificou dez razões para o milionário Eike Batista dar parte de sua fortuna a ele. Fiquei pensando depois, quais seriam as minhas razões, ou como seria se fosse o oitavo na lista dos milionários do mundo. O que faria com tanta grana? Se é que preciso de tudo isso... Se estivesse apaixonado, talvez, desse muitos presentes a minha amada; cobriria sua rua com pedrinhas de brilhantes. Mas, preferiria não estar, senão acabaria ficando pobre e sem ver a cor da grana. De verdade, se não tivesse nenhuma paixão, acho que faria um bem à humanidade. Doaria em uma campanha universal pelo amor no planeta. Meu dinheiro renderia muito mais, com certeza; mais do que uma aplicação na bolsa, ou se comprasse uma cidade inteira para morar.

Esta coisa da paixão que se junta com dinheiro nos cega por muito. No futebol também há paixão, ou o futebol é sinônimo de paixão. Um torcedor certa vez me disse: se tivesse uma sorte na megasena, construiria uma grande arena de futebol para o seu time de coração – paixão de torcedor. E por ela ficamos até doentes, um sentimento que nunca acaba. Deixamos casamentos, namoros, amizades, mas a paixão pelo time, esta nunca morre; vai junto conosco e com a bandeira sobre a urna. Há pessoas que não entendem. Eu entendo até certo ponto, quando não se torna loucura de se ridicularizar por qualquer coisa: brigas, discussões e inimizades. Mesmo assim, fiquei surpreso com sua resposta. Cada um teria algo a fazer diante de tamanha fortuna, ele pensou no seu time de coração. Justo.

Chego a me emocionar quando me deparo com esta relação de afeto entre futebol e o torcedor. Vivo o futebol, torço, vibro e quando meu time perde fico irado, mas na manhã seguinte tudo já passou; vivo no limite de não adoecer por isso ou perder a fome. Adoro estádio de futebol, aquele clima, aquela emoção que só quem já foi sabe o que é. A torcida entusiasmada, cantando e gritando uníssono, empurrando o time a todo o momento, é de arrepiar.

Já confessei que sou palmeirense desde criança, mas tenho um segundo time na manga – quando um não ganha, fico feliz com o outro. Há lugar no peito para um segundo time? Afirmo que há sim! O time da minha cidade luta para retornar ao staff do futebol paulista. Já são mais de 12 anos que o São José EC peleja para voltar à elite do futebol. E se fosse pelo tamanho e pela paixão de sua torcida, o time já estaria lá. Cronistas esportivos dizem que ela é o grande patrimônio do clube; e ela se orgulha em dizer: é a maior do interior! Mas, como em toda competição na vida, tem os tempos de lutas até a batalha final e o triunfo. E é isso que temos feito: os jogadores em campo e nós nas arquibancadas.

No ano passado, num desses memoráveis dias de vitórias e estádio lotado, fui chamado pelo torcedor Guilherme Miranda - arquiteto, companheiro de arquibancada e dono do Blog Torcedor da Águia (Clique aqui) - a fazer uma música em comemoração ao aniversário do seu Blog. A encomenda era uma música que homenageasse – merecidamente - a torcida. É de praxe que, todos os times de futebol tenham um hino; mas uma torcida que tem hino, era a primeira vez. De vez em quando, eu me arrisco a escrever letras de músicas, é minha contribuição nas parcerias. Mexo no violão, para algumas raras peças que não me deixam rubros de vergonha, mas na hora de compor, com notas e acordes, não sai nada – já tentei. Então, aguardei meu parceiro de música retornar de viagem para compor, iniciarmos o processo. Enquanto ele não vinha, rascunhei uma letra. Quanto retornou de viagem nos encontramos, e a música saiu no mesmo dia. Dei o nome da marchinha (de carnaval) de “Torcida Águia do Vale”. A letra é uma volta no tempo, da paixão  que nasceu desde o preto e branco para o azul e branco de sua camisa; do formigão do vale para a águia; e do seu inesquecível herói do acesso de 1980, Tião Marino - aquele que, dentre os jogadores de futebol depois de Dadá Maravilha, era o único que “parava no ar” para cabecear uma bola. A letra e o vídeo, agora disponíveis no youtube – com os créditos do Renato Emanuel - já contam com mais de 850 acessos. A voz é de Eduardo Borges e Mima Barros.

Esses torcedores não deixam de se apaixonar nunca; e enquanto o time não subir, será assim: uma música atrás da outra e um grito só: vai São José!

Torcida Águia do Vale
(Eduardo Borges / Anttonio Buarque)
11/10/10

Eu vou, eu vou, eu vou cantar gritar
O manto azul é a nossa cor
O manto azul é o nosso amor
Torcida águia do vale
A maior do interior

Desde o tempo do “formigão”
Do preto e branco fez o azul
Vimos nascer, crescer uma nação
De leste a oeste, de norte a sul

O amor por ti vem das vitórias
Nossa torcida em ti constrói
Esta camisa tem história
Tião Marino, o nosso eterno herói

Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe Águia
Enche de orgulho o nosso coração
(com luta e garra de campeão)
“Tá na rede” é gol!
Uma explosão

FINAL (só com palmas)

♫ Sou joseense com muito orgulho,
Com muito amor... ♫



© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / março de 2011.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O futebol Arte — Um recado a Paolo Rossi


Certa vez perguntei para meu sobrinho — naquela época com 12 anos — como foi o jogo de futebol do campeonato que estava disputando. Ele me respondeu com um sorrisinho: “Ah, perdemos de 5 x 1..., mas eu dei dois chapéus e um vão de perna.” Achei sua resposta fantástica. O que importa o placar se eu fiz a minha arte? O que importa se perdemos, se eu fui genial? O que importa a derrota, se já nos julgamos vencedores pelo que fizemos? Nós, brasileiros nascemos assim: apaixonados por futebol; e desde cedo já sabemos justificar nossas derrotas na maneira mais inocente num sorriso de uma criança. O que importa é fazer “arte”, dar espetáculos.

Não existe paixão maior que a de um torcedor pelo seu time de coração. Ouso dizer, esta união é verdadeira e leal: na saúde, na doença, na alegria, na tristeza e até que a morte vos separe. A herança de escolher para que time torcer — e isso é uma paixão para o resto da vida mesmo —, vem de nossos pais ou de nossos irmãos mais velhos. Sempre haverá esta influência, pois muito cedo somos inseguros em fazer outras escolhas, quanto mais para que time torcer. É claro que existem alguns que decidem não por influência, mas escolhem torcer pelo time do momento, ou seja, o time sensação da temporada. Com certeza, o momento do time do Santos-2010 fará engrossar o número de torcedores nas arquibancadas e pelo país a fora. Com seu futebol alegre, moleque tem atraído muitos pequenos torcedores já no berço.

Comigo, a influência futebolística foi de um dos meus irmãos, já que meu pai pouco gostava de futebol. Meu irmão, torcedor do palestra, colecionava revista “Placar” e sempre colocava no meu colo algum texto para eu ler – é claro que sempre do Palmeiras. Naqueles primórdios da década de setenta, eu só sabia de futebol pela Seleção do tri-campeonato; aquele time de Pelé, Tostão, Rivelino e Gerson. Dois anos depois da conquista do mundial comecei a torcer com paixão pelo Palmeiras. O time era a “Academia” comandada por Ademir da Guia, Leivinha, Luis Pereira e César, o maluco. O Palmeiras ganhou o segundo campeonato brasileiro em cima do Botafogo-RJ em 1972, depois foi bi-campeão no ano seguinte já contra o São Paulo. Até aqueles meus primeiros anos de futebol, só conhecia vitórias, conquistas e glórias. Colava meus pôsteres na parede, criava meus ídolos que, além desses do Palestra, havia Reinaldo do Atlético-MG. Até hoje não vi jogador como Reinaldo. Ele era um goleador nato, pois seu futebol tinha a ver com aquilo que mais apreciava: a arte.

Assim, como tudo na vida nem tudo são flores — mesmo na vida de um novo torcedor —, veio a primeira decepção ainda naqueles meus 20 anos. Era decepção sim, pois não imaginava que iríamos perder um titulo jogando o verdadeiro futebol brasileiro, com muita arte. Não estou falando do meu palestra, pois já entendia que não era fácil manter um time no auge por tantos anos e ganhando títulos, falo da Seleção de 82.

Em 1982, a Seleção Brasileira era comandada pelo “Mestre” Telê Santana, que vinha do meu Palestra. Telê tinha a pecha de ser um técnico exigente demais, detalhista, mas que gostava do futebol para frente, de atacantes. Naquela seleção havia um desconforto, a maioria dos torcedores não entendia porque o time de Telê não tinha ponta direita. E todos achavam que havia ali a teimosia do treinador turrão. E a seleção foi para copa da Espanha desacreditada, capenga e sem saber o que iria acontecer. Já nos primeiros jogos começamos a perceber a genialidade do time e de seu treinador. O meio de campo era um quadrado mágico formado por Sócrates, Zico, Falcão e Cerezo. O time jogava por música e os adversários não conseguiam parar o ataque, que só fazia gols magníficos. Ah, o ponta direita? Não havia um fixo, todos caiam por aquele lado do campo, como se ali fosse o terreno fértil para brotarem os gols.

Tudo ia bem, já éramos consagrados como a melhor Seleção da Copa, até que veio um trem desgovernado e nos atropelou. Horas antes daquele fatídico jogo contra a Itália, lembro ter assistido na TV uma entrevista com o avô de Bruno Conti, ponta direita da Itália. Um velho sapateiro do interior da Itália; um homem otimista, alegre e orgulhoso do neto. Como um inoportuno vidente, disse que não tinha dúvidas que a Itália sairia vencedora daquele jogo, embora o mundo todo pensasse e torcia o contrário. Acho que os deuses do futebol já haviam lhe soprado nos ouvidos o que iria acontecer. A previsão ou inspiração daquele velhaco foi de um bruxo diante de sua bola de cristal; e uma desgraça iria cair sobre nossas cabeças naquela tarde que seria conhecida como a “Tragédia de Sarriá” — nome do estádio que mais tarde seria demolido pelo governo Espanhol.

Dou-me o direito de não comentar ou sequer lembrar-me dos gols do nosso algoz, prefiro então ficar com a imagem de Falcão ao fazer o gol de empate de 2 x 2. Ele gritava e de braços abertos corria em direção ao lado do campo junto dos outros jogadores. Parecia que havia sido cometido por uma alegria que já não cabia em seu corpo. Mais tarde, descobri que o compositor Francis Hime havia feito uma canção chamada “Falcão”, justamente para descrever aquela cena. Depois da derrota por 3 x 2, com três gols de Paolo Rossi, apaguei. Quando acordei, demorei até minha ficha cair e compreender que o futebol também traz amarguras e desapontamento. No dia seguinte, ainda cabisbaixo fui até o jornaleiro e comprei o “Jornal da Tarde”; a capa trazia estampada a fotografia do filho mais velho de Zico com os olhos cheios de lágrimas. Aqueles olhos marejados representavam o choramingo de toda uma nação. Dobrei o jornal sem lê-lo e guardei comigo até hoje.

No futebol arte não havia espaço para mediocridade, descompostura, deselegância, grossura; a bola tinha que ser bem tratada como pincel na mão de um artista, o campo a sua tela e o gol a sua rubrica. Na vida como na arte não interessa se iremos perder aqui ou ganhar ali, por um simples placar ou de goleada; mas sim, interessa muito sermos lembrados pelas jogadas de mestre que faremos, pelos “chapéus” e “pedaladas” à frente do adversário. Seremos mais lembrados por isso.

Se vivesse aquela copa, meu sobrinho com certeza também iria achar Rossi um jogador repugnante, tosco, deselegante, de gols feios; e a Itália um time com futebolzinho de resultados, mais nada. Por outro lado, se alegraria com Zico e diria: é maior do mundo; Falcão, o mais elegante e genial de todos; Sócrates, o jogador que tem olhos no calcanhar direito; e Éder, o ponta que coloca as bolas com os pés como um jogador de basquete faz suas cestas na linha dos três metros.

O futebol arte morreu naquela Copa, foi enterrado junto com o Estádio Sarriá. Telê viveu tempo suficiente para ter outras glórias e ser campeão mundial interclubes, mas também para a angústia de terminar a vida sem ser campeão mundial com aquela Seleção. Quanto a nós, que presenciamos aquilo tudo, devemos reverências ao sagrado futebol daquela Escrete de Ouro que encantou o mundo. Passado esses anos, ainda carrego comigo esse trauma: toda vez que algum outro time no mundo ousar jogar como aquela Seleção de 82, penso que haverá um Paolo Rossi para estragar com a festa. É inconteste, ele odiava o futebol arte; e eu para sempre vou odiar Paolo Rossi.
(*) dedicado ao Thiago, autor de dois chapéus e um vão-de-perna.

©Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2010.