BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Deus e as enchentes

Quando assumiu o gabinete presidencial, uma das primeiras providências da Presidente eleita Dilma Rousseff, foi pedir para retirar um crucifixo da parede e a Bíblia sobre a mesa, conforme noticiou o jornal Folha de São Paulo em 09 de Janeiro. Logo depois, o Palácio do Planalto tratou de remendar, dizendo que, os objetos foram retirados porque pertenciam ao mandatário anterior. Olhando por este lado, não vejo nada de anormal e acho justo; imaginando que, sendo ela uma cristã católica, iria providenciar imediatamente o seu próprio crucifixo e sua Bíblia. Nada! Até agora não li uma linha que tenha tido tal ato que demonstre sua fé. De verdade, ela não quer saber mesmo de religião em seu governo. Deus não entra ali.

Quando vem à tona esta polêmica entre Estado e religião, os entrincheirados esquerdopatas já estão armados: o Estado é laico; por isso deve manter-se longe da religião e governar com isenção às crenças religiões... Já me manifestei algumas vezes sobre isso, minhas visões vão além do Estado independente e soberano; as Leis Divinas também estão incutidas na sociedade, na família e penso que elas se fundem nas próprias leis humanas, onde os governos atuam. Não há mal em Deus.

Durante seus dois mandatos, Fernando Henrique nunca se incomodou com tais objetos em seu gabinete e não me lembro de ter pedido para retirar quaisquer símbolos religiosos da sua frente - governou com eles. Por respeito? Sei lá. E dizem que ele é o verdadeiro ateu.

Nos EUA, já muitas eleições - desde George Washington (1789) -, quase todos os presidentes, na cerimônia de posse, fazem o juramento ao governo sobre a Bíblia. Aconteceu com o presidente Barack Obama – antes mesmo, uma discussão polêmica cercou os noticiários que ele iria quebrar tal protocolo -, contrariando, ele fez o juramento repetindo o mesmo gesto sobre a Bíblia de Abraham Lincoln (1861). A utilização da Bíblia não é prevista na Constituição norte americana, mas é uma tradição seguida por quase todos os presidentes desde George Washington. Não sei qual a religião dele (Obama), mas o louvo por não fugir à tradição. Não lhe custou nada, seguir um velho costume americano, nada mesmo. Respeitou as crenças do seu povo.

Não tenho nada contra o ateísmo, embora não me lembro de conviver muito perto com pessoas dessa “crença”. Talvez, porque sejam mais comedidas e menos fervorosas quando pregam; e por isso, não as veja por aí “evangelizando” ninguém. Entendo somente, ser muito pobre em acreditar no nada, ou, como ouvi uma vez de um colega de profissão numa reunião de trabalho, “só acredito naquilo que meus olhos vêem...”. Natural, mas viver sem crenças, além dos olhos humanos, é um vazio enorme, a negação da própria alma – pensei - sem me manifestar.

Esquerdopatas remanescentes do comunismo vivem nesse mundo polarizadoentre Deus e o “nada”, e para isso se carregam da tese conduzida por um de seus mestres: “religião é opio do povo”. A fim de se justificar que não devemos misturar alhos com bugalhos; aí, eu devolvo ao condutor da frase: “suas ideias são os verdadeiros ópio do povo”. Suas teorias naufragaram. As religiões ajudam a formar boas famílias; e elas a sociedade.

Diante das enchentes que vêm devastando o país, exclusivamente a Região Serrana do RJ, a pergunta que faço, não tem a ver com as ocupações irregulares da população – que já são discutidas sistematicamente por toda a imprensa. Pergunto: O que Deus tem a ver com isso, com as tragédias? Creio que seja tudo! Especialistas disseram que a quantidade de chuva veio numa proporção igual ao mesmo período em outros anos. E pelo que sei, chove desde que o mundo é mundo.

As ocupações irregulares e o mau uso do solo urbano estavam no caminho da tragédia, dos deslizamentos – tudo às vistas do poder público que nada fez para desocupar essas áreas, o que chega a ser óbvio também neste país. Por outro lado, é fato que, os deslizamentos de terra ocorreriam, com ou sem gente morando lá; choveu e as águas arrastaram o que havia pelo caminho. Deus também entra nesse território - quando também não está - na forma de ajuda, compaixão, solidariedade e comoção das pessoas.

Enquanto escrevo estas linhas, são 809 mortos e 469 desaparecidos, estes que, ficarão ali nos escombros enterrados. Na sexta-feira, pós-tragédia, o jornalista Ricardo Boechat, disse, num tom de indignação que, o exército brasileiro levou mais de 48 horas para chegar à região, por questões burocráticas. Não fosse ajuda de voluntários e outras corporações militares locais, muitas pessoas outras, teriam morrido.

O país, que se prepara para tantas festas como Copa do Mundo e Olimpíadas - anunciadas com abraços, champanhe e politicagem -, não está preparado para remediar e socorrer pessoas em tragédias dessa natureza. A leniência, a omissão e o descaso têm sido a tônica nesses últimos anos de governo. Há muita dureza nos olhos, desrespeito, falta amor, compaixão e falta de Deus. Em outra ponta, no apagar das luzes do seu governo, o ex-presidente abastece com abundância seus familiares com passaportes diplomáticos ao arrepio das leis e torna um de seus filhos, um empresário bem sucedido e milionário. Tanta desfaçatez.

Aconselho nossa Presidente, como católica que diz ser, a voltar com o crucifixo e a Bíblia ao seu gabinete; e rezar mais. Contra as forças da natureza (de autoria Divina) não podemos nada, ou quase nada. Nem mesmo o Estado brasileiro pode. Ela tem feito as suas rezinhas - como já disse - quando o avião balança; tem acreditado em nossa senhora de “uma forma geral” (uma nova santa desconhecida do povo); precisa agora acreditar de fato que, só através da verdade e do amor – está em Deus - irá conduzir melhor esta nação. Ou - o que me parece mais provável -, assumir a verdade que também só acredita no que seus olhos vêem.

Não tenho dúvida, Deus vive se comunicando conosco, inclusive nas tragédias. Por esses mesmos sinais, Noé resolveu um dia entrar na sua Arca... A enchente é só Deus descontente, nada mais. Não consigo imaginar uma nação soberana, desenvolvida e sem crença, como querem. “Feliz a Nação que tem o Senhor por seu Deus, e o povo que escolheu para sua herança” – Salmo 32.12. Está lá no livro, que estava sobre a mesa.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Pão com manteiga


Um dos atores, hollywoodiano e contemporâneo, dos mais talentosos é Tom Hanks. Nos filmes em que atua, não me perco em ler a crítica antes; sento para ver, já sabendo que vai me prender do começo ao fim.

Faz um tempo, li uma entrevista que concedeu às páginas amarelas da semanária Veja. Ao ler o que pensa sobre a carreira, a fama, a vida e seu modo de escolher os filmes em que atua, extrapolei minha admiração, agora também é pela pessoa. Ele é um sujeito modesto, familiar, que até acha um despropósito os cachês que recebe pelos filmes; considera que há outras profissões que mereçam muito mais. Hoje, se dá ao luxo de escolher seus papéis só porque fará um bom personagem, sem se preocupar com o destino do filme; fugindo dos roteiros comerciais e dos mocinhos caricatos, enfadonhos, e assim justifica: “... nunca tive um tipo físico que me permitisse encarnar o Super-Homem”. No final da entrevista, ainda tece rasgados elogios ao diretor brasileiro Fernando Meireles pelo filme “Cidade de Deus”, e confessa: “vi o filme com atraso, há poucas semanas, e estou até agora atônito”.

Dentre os filmes, de sua brilhante carreira, cito o exuberante “Forrest Gump — o contador de histórias” — 1994. Nessa trilha, Hanks é Forrest, uma criatura ingênua, pura, ausente de picardia, cinismo, e com um QI abaixo da média das pessoas ditas normais. Toda sua inspiração e os conselhos que leva para vida são os da própria mãe, a quem sempre citava por suas frases: “A vida é como uma caixa de bombom, você nunca sabe o que vai encontrar”. Forrest narra as suas próprias histórias, ou, se coloca como centro das histórias de “coadjuvantes” ilustres como: Elvis Presley, John Lennon, John Kennedy e Richard Nixon. Sentado num ponto de ônibus, esperando uma condução que parece nunca chegar, Forrest fala e fala...

Da sua infância, vem o primeiro amor, digo, o único amor por Jenny. Uma menina que parece ser a única, além de sua mãe, que o vê como uma pessoa normal; e o aceita com seu jeito desengonçado, tentando andar dentro de um par de botas ortopédicas. Ao falar sobre Jenny e de como a conheceu dentro do ônibus escolar, Forrest enaltece: “Nós éramos como pão com manteiga...” — uma versão em português para peas and carrots. Na sua forma mais simplista e pueril, queria dizer: éramos inseparáveis, um não vivia sem o outro, unha e carne, corpo e alma... A versão dada em português foi o que deu grandeza na descrição do que era sua relação com Jenny.

Pão francês com manteiga é uma delícia; e a manteiga é sempre na medida: nem mais, nem menos. E fica mais gostoso passar nas duas abas do pão, depois dobramos e comemos uma aba por vez, com café e leite. A manteiga sem o pão é detestável, quase nenhuma utilidade, às vezes serve para untar forma de bolo; o pão sem a manteiga é sem gosto, incompleto. Não há valor, um sem o outro. São complementos. Assim, como dizer, arroz com feijão, na nossa culinária. Tudo é mais gostoso e saboroso quando estão juntos: manteiga no pão. O café colonial é farto, nos enche os olhos, mas nos perdemos em tantas variedades; já o pão com manteiga não comemos com os olhos, é o que temos para comer naquela hora, no dia-a-dia e nos saciamos também.

Assim, era na entrega, como Forrest vivia seu amor, que durou a vida toda — ou pelo menos até o final da trama —, sem cobrar de Jenny a reciprocidade. Era incondicional da sua parte. “Posso não ser inteligente, mas sei o que é amar...”, disse ele quando a pediu em casamento. Ele sabia o que estava dizendo, sobre as duas coisas. Após anos sem vê-la, ele a encontra numa vida mambembe, em más companhias e enfiada nas drogas. Mesmo assim, ela o reconhece e respeita, ao enxergar pela única fresta que restou da sua vida, o amor — o único que teve. O tempo poderia passar; o vento esvoaçar as cortinas da sala, bater as portas, mas o amor estava lá, guardadinho, prontinho para viver. Forrest amava como uma criança e agora ela sabia e desejava este amor.

O espírito de Forrest, nesta parca analogia, nos trás à reflexão: onde estão nossos verdadeiros valores? Na fartura ou na simplicidade de viver o dia-a-dia? E como ansiamos, muitas vezes, combinações mais caras, ou com maior valia — pela abundância. Quando, um simples pão com manteiga, também mata a fome — a fome de amor. Talvez, estejamos errando aí, quando buscamos a perfeição nas relações, ambicionando riquezas que as traças comerão um dia. Na gíria futebolística chama-se “jogar o arroz com feijão”; onde se ganha o jogo da vida, sem muitas ambições e jogadas de mestre. Um não é melhor que o outro e o placar a favor é sempre com score baixo. Quando os dois jogam juntos, o amor sempre vencerá. Relacionamentos sem ciúmes, sem intrigas e cobranças, caminhando num mesmo sentido, são fadados a ser por toda a vida. O universo conspira.

Talvez, se forçarmos a memória, encontraremos casais que vivem o “pão com manteiga” — dá para contar nos dedos —, caminhando juntos e construindo tijolo com tijolo, um lar, uma família... Nos seus horizontes projetados, a grande ambição é sempre manter acesa a chama do amor; regando o jardim da vida que os uniu, onde cada um segura em uma das alças do regador, enquanto espargem água sobre as sementes. Tudo num “pão com manteiga”, simples; e como Forrest e Jenny, inseparáveis.

Tom Hanks escolheu fazer Forrest, pelos mesmos critérios que sempre adotou: um personagem marcante; um personagem que deixou plantado em nossas mentes, de QI elevado, a confirmação que para amar só precisamos ter um amor e pureza dentro de si. O filme, ganhou naquele ano 06 Oscar dos 13 concorridos; inclusive o de melhor filme e melhor ator, para Tom Hanks.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A escada


Um dia, o homem, por uma inspiração Divina, inventou a escada. Era mais uma descoberta: estar mais perto Dele, para alçar na vida, para diminuir os espaços na ocupação da terra, para melhor conforto... Depois, veio o homem da segurança, inventou o corrimão e o guarda-corpo. Há muitos, que passam a vida toda e nem escada constroem; e outros piores, que param na escada - mal acabada - sem corrimão e guarda-corpo. Há que se ter segurança, sempre nas subidas na vida. Um dia podemos cair. Que importância você dá e como tem construído sua escada?

Postado por Antônio - Janeiro 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Do outro lado da rua

Um poema perdido. Encontrei-o nos arquivos de um amigo. Não me pergunte como e porquê o escrevi. Foi um período de busca e auto-conhecimento.

Do outro lado da rua
Há um bem a esperar
Vi um lugar
Era  uma casa de sonhos
De quintal de estrelas
Vi vitrines de sapatos
Espiando o meu olhar
Vozes ecoam nos arredores
Do porão da casa
Balançam cristais
Em armários trancados
Quisera eu despertar
Antes do dia raiar
Não vai tempo para viver
Um dia trás outro
E outro...
E a aurora da vida
Rompe em meu peito
Tal qual um jardineiro
Irrigando suas flores
Na festa da colheita
Um amor, que não passará...
Deslizará sobre o rio
Onde lancei meu coração
Onde me fiz renascer
De amanhecer
Quando atravessei aquela rua.

© Antônio / 2005.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Fim de férias

Estou no final das minhas férias — sem dizer que é merecida —, mas todos nós temos direito e não merecimento. Fiquei de férias um pouco do Blog também.
Como já falei, vivo das inspirações para tocar isso aqui para frente. Quando ela não vem — tira férias também —, os textos vão ficando minguado e os temas vão sendo recolhidos à memória, para não dissipar. Já juntei alguns.
Chove muito em janeiro, as praias lotadas, a cidade parada e muitas pessoas queridas ausentes (os amigos também tiram férias de nós), aí falta conteúdo para escrever. Confesso que, o máximo que li, neste período que se enseja daqui a uma semana, foi os habituais jornais e alguns poemas de Drummond, da sua antologia. Revi alguns filmes (nada de novo) e um pouco de futebol. Parece que o ano não começa se não houver futebol. Na Europa a coisa não parou para as festividades, pois dia 1º de janeiro rolou a bola nos gramados de lá.
À propósito dessa minha paixão, irei escrever um texto para elucidar e apresentar uma marchinha que compus com meu parceiro musical Eduardo Borges. Foi um hino em homenagem à torcida do São José Esporte Clube — meu segundo time.
Por enquanto, continuo a bajular os sobrinhos e reivindicar um passaporte diplomático também. Isto não é direito; é merecimento (risos). No resto é comer, rezar, amar.

Postado por Antonio - Janeiro 2011

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Por você, faria isso mil vezes


Eis que, o ano nem acabou e cá estou escrevendo algumas linhas. Eu, que prometi não escreveria uma linha a mais, guardaria tudo para o ano que se prenuncia: os tempos melhores. Quebro a promessa. Às vezes são as palavras que nos procuram, nos rodeiam, insistem - elas precisam sair. Começo agora em 2010 para findar no próximo ano, falando um pouco de saudade e amor. O amor de “parceros”.

A saudade é o revés de um parto; a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu...”. Muitos consideram estes versos da canção de Chico Buarque um dos mais fortes e marcantes – também assinto. Eu diria que é mais do que um jorro, mas uma das melhores explicações para esta coisa que dói tanto, que se chama saudade. Só as mães saberão dizer se é... Dizem que não há tradução em inglês. Talvez, porque os povos dessa língua não queiram saber dela, do sofrimento que ela trás junto – abnegam. Nós gostamos de dizer, que temos e sentimos. A saudade é uma doença da alma e sua cura só vem com o tempo; o mesmo tempo que temos para sobreviver na dor é o tempo da saudade. Para isso, o tempo também passa – ainda bem.

O quanto damos de valor às pessoas com quem convivemos? No meu último texto em 2010, disse que o Natal será sempre feliz, mesmo lembrando das pessoas queridas que nos deixaram; afinal, as crianças estão aí na sua pureza nos preenchendo com alegria e apagando a chama da dor que teima em arder. Mas, quando há perdas, não há Natal feliz; nem as crianças e nem mesmo a renovação do espírito natalino, conseguem cear conosco. Para perdas não há remédio, só o tempo. É dor mesmo.

Só quem é corajoso consegue encarar a morte e se arriscar aos seus chamamentos. Quando pessoas jovens morrem, penso que foram corajosas em ir tão cedo. Desafiaram o perigo, a última dor. Não se preocuparam com a dor de quem ficou, como se tivesse a opção de escolher, ou fossem donos do seu destino. Não somos donos de nada, nem da vida e nem da morte. Tudo que temos pertence a Deus. Quando pessoas queridas se vão, perguntamos: Por que hoje? Por que não me avisou? Por que não desviou o caminho? Por que não ficou aqui? São tantos os porquês e as respostas pairando no ar. Buscamos o conforto no colo do pai do céu. Só ele nos dá o consolo, a condição de olhar a vida novamente e encará-la de cabeça erguida.

Já escrevi em outra crônica, dos desafios que a juventude não tem medo de enfrentar. Sempre será assim, foi comigo e será com todos. Nos meus 20 anos, lembro que ia brincar meu carnaval no clube, e muitas vezes, eu e meus amigos íamos ou voltávamos em cima da carroceria de uma caminhonete, cujo motorista, mal conhecíamos e fazia manobras arriscadas. Dávamos gargalhadas da aventura e com o vento no rosto gritávamos: “massa! O cara é massa!”. Hoje, agradeço ao meu anjo da guarda, ele ia comigo sempre nessas aventuras. Mas, às vezes os anjos adormecem, ou se distraem por um segundo.

Um dos maiores sentimentos que Deus nos deu, foi o amor que vem da amizade. Este amor rompe fronteiras, distâncias, medos, angústias; ele vai além da vida... O amor por quem amamos na amizade, nunca morrerá. É para sempre o amor de “parcero”. Os amigos, nunca se esquecerão daquele que partiu, se arriscou na carroceria da caminhonete em alta velocidade, ou daquele que sumiu na curva da estrada e nunca mais olhou para trás. Ser amigo, “parcero” e verdadeiro é para poucos. Como qualquer outra relação, a amizade se constrói na doação, no companheirismo, na cumplicidade, no respeito, nos gestos. Gosto de assistir amizades verdadeiras. Fazer coisas por um amigo, que não fariam por ninguém mais, é amizade de “parcero”.

Maior que a nossa própria dor é a dor alheia; aquela que não está em nós, mas de maneira simbiótica nos contagia, nos arrepia e choramos juntos. Foge ao controle, rezamos, suplicamos e abraçamos. O que fazer para estancar a dor de quem só se vê triste? No livro “O caçador de pipas” — Khaled Hosseini (2003), Amir tinha uma dívida de honra e de amor para com seu melhor amigo; e agora ele precisava provar este amor que tanto negou, mas nunca o abandonou: amor de “parcero”. Ao contrário, seu amigo Hassan nunca deixou de declarar o seu amor. Com a coragem que nunca imaginou ter, Amir salva o filho de Hassan — seu sobrinho revelado — das mãos do Taliban. Amir fez o que seu amigo faria por ele. Depois, Amir precisava mais do que enxugar as lágrimas nos olhos do pequeno Sohrab, ele precisava botar alegria em seu rosto – a dor alheia. Quando o garoto viu a pipa no céu, Amir não acreditou, um sorriso se construiu no rosto da criança. A morte já não doía mais, era passado. Era tudo o que de melhor conseguiu realizar em toda sua vida; era luz, era ouro, era Divino, era o céu, eram estrelas... E a única coisa que Amir pode fazer no momento que a pipa se cortou, foi correr desesperadamente atrás dela — num gesto que seu amigo fazia sempre por ele —, dizendo: “Por você, eu faria isso mil vezes!”. Isso é amor. Isso é amizade de “parcero”.

(*) dedicado ao Juninho (em memória) , a todos os seus “parceros”, em especial, ao meu querido Thiago.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / janeiro de 2011.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

2010...2011 - Um balanço geral


Caros leitores (as),
O Blog encerra as atividades em 2010, mas promete voltar com tudo em 2011. É hora de fechar as portas e fazer o balanço anual.

Vou abrir um champanhe! Em 2010, foram mais de 7.000 visitas contabilizadas. Lembrando que, o marcador de estatísticas oficial do Blog só começou a registrar a partir de Junho, e o Blog foi criado em Abril. Portanto, estimo que tenha ultrapassado 8.000 visitas. Uma média de 800 visitas/mês.

Fico feliz e orgulhoso, pois nem era minha intenção virar o que virou; e grande parte disso tudo, se deve aos poucos leitores, seus comentários pertinentes e de incentivo que recebi ao longo desses 09 meses. Tudo virou fermento na alma. Como sempre disse, é prazeroso escrever com liberdade e sem o compromisso de ser “politicamente correto”. Escrevi, muitas vezes, pelo lado do “incorretismo” mesmo, sem medo de errar ou dizer algo que fosse contrário ao pensamento da maioria. Dos 20 textos que escrevi, devo ter contrariado desde Chico Buarque a Freud. Mas, e daí? Não quero e nem pretendo ser um pensador ou levantar bandeiras sobre quaisquer pensamentos. Convenço-me muito fácil quando existe a lógica, a razão e a verdade no meio; e quem levanta bandeiras abomina qualquer questionamento. No fundo, faço disso a exposição de minhas ideais. Sendo elas: boas ou não, transitórias ou perenes, e aceitando sempre discordâncias.

Só para notificação, segundo as estatísticas do Blog, o texto "O ótimo, o medíocre e o idiota. Ou: Agora falando sério, Chico..." foi o mais lido, com quase 900 acessos. Por se tratar de um texto que fala de política (num momento propício) - e se tratando também de um ídolo (meu, inclusive) -, acabou tendo toda a repercussão que teve. Na seqüência, veio o texto "Eu quero uma casa no campo", com quase 300 acessos. Destes 20 textos, somente dois foram escritores em anos anteriores: "É só aguardar..." - 2008; e "A mulher árabe"- 2007.

Quando comecei, em Abril, eu já havia escrito 03 textos. Ainda sem o Blog, os textos iam por e-mail para um seleto grupo de amigos; chegando a postar também no Portal São José dos Campos Um dia, alguém me sugeriu a ideia de criar meu próprio canto – abrigar minhas palavras num lugar só. Foi aí que nasceu o Blog. A coisa cresceu, pois a exposição foi maior, com a divulgação também nas redes sociais.

Resumindo 2010, eu diria que foi o ano da paz, do silêncio... Só escrevemos no silêncio da alma, quando verdadeiramente estamos conosco e acolhidos no nosso íntimo, agora apaziguado. Quando ouvimos somente a voz do coração - sem gritos e lamentos externos. 2010, foi o ano do meu silêncio. Assim, como meus projetos arquitetônicos, escrever também requer paz, silêncio e com um bocado de inspiração.

Para quem não leu nenhum, ou ficou sem ler alguns dos textos, segue abaixo a listagem das crônicas. Excluindo dessas: os lembretes, comentários, as conversas e publicações fora da minha autoria. Clique e leia. A espera de 2011. Até lá!

UM FELIZ ANO NOVO!


CRÔNICAS - 2010

01 - O reconhecimento do amor

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O presente de Natal


Quando decidimos reformar a casa, pedi licença à memória de meu pai — o arquiteto — e me atrevi a arranjar o projeto. Comecei e saiu. Queria ter sido mais que o arquiteto, queria ser o eterno morador da casa que meu pai construiu. Onde vivi os melhores anos da minha vida.

A arquitetura é para viver, isso já foi um conflito, agora é um conceito que carrego comigo, quando ainda sonhava com a carreira. A peleja da forma versus a função. Nossos mestres insistiam nessa polarização, que brigava um mundo belo com o necessário. Sempre pensei e me pus ao lado de que tudo tem um porquê; mesclando função com a estética: a minha arquitetura. Há que ter vida na arte para que não caia na frieza, insossa — capa de revista. Arquitetura tem alma!

Sem saber disso, meu pai foi idealizador e construtor da nossa casa. Ele, contudo, não teve um projeto discutido e aprovado; nem um par de esquadros, um escalímetro e muito menos dispunha de um Neufert para consultar antes de iniciar a sua obra. Havia, todavia, a necessidade de abrigar a família, dar guarida com alguns milheiros de tijolos de barro. Era tudo o que tinha a mão e no coração.

A casa é meu pai, ele é a casa eterna que morávamos; e somente ele a pôs de pé. O arquiteto da nossa vida. Minha irmã, não entendeu e não a culpo por isso: não ver alma por dentro do barro do tijolo. Havia pressa em retornar à velha casa e também ansiedade. Como cobrá-la a entender de arquitetura enquanto punha água para ferver, se também não sou cobrado por entender de culinária; e o máximo que aprendi sobre esta arte foi fritar um bife acebolado. Ela nunca soube quem foi Mies van der Rohe, ou quem projetou a casa da cascata foi Frank Lloyd Wright — como gomos que saem das pedras com a queda d'água. Nunca também soube, que Gaudí esculpia sua arquitetura nas formas humana e depois de pronta a desenhava: curvas sem fim.

O pedreiro também não entendeu, o pintor se esquivou. Por que o nicho na parede a revelar a parede velha, desbotada? Havia a demão da tinta, a primeira. Ela não é velha; velha é nossa dor. A cor e suas nuances me remetem ao passado: o rosa velho que meu pai pintou antes. Era a última casca de tinta, depois dela era o reboco e os tijolos de barro (sua alma). Aquela cor rosa velho era o paspatur do retrato do arquiteto construtor. Arquitetura só existe para mim se tem memória eterna. E a memória nos trás lágrimas nos olhos. A arquitetura me emociona. O pintor pintou sobre a memória com tinta branca.

Era Natal. Depois da missa do Galo, íamos para casa comer a modesta ceia preparada por minha mãe. Aquela casa pequena de parede cor rosa velho — meu pai a pôs de pé. Era raro o Natal que ele estava conosco. O trabalho, muitas vezes, o consumia até na noite de Natal. Era um preceito, pôr pão na nossa mesa. A cozinha era quente, no forno havia assados que minha mãe preparava. E a criança resistia ao sono à espera da meia noite e assim celebrar: é Natal! Depois da reza, ceávamos e conversávamos um pouco mais, para depois ir para cama. Enquanto desenrolava a conversa, com os olhos caídos de sono, eu contemplava o Menino Jesus no presépio. Era um tempo de luz incandescente e amarela, como fotografia.

Era o nascimento da esperança: como será o próximo Natal? Não havia presentes e nem árvore de bolas coloridas. Montávamos um pequeno presépio sobre a mesinha de madeira que ficava ao lado do aparelho de TV preto e branco. Os presentes vinham antes do Natal. A fábrica onde meu pai trabalhava, era o verdadeiro papai Noel que acreditávamos. Ela nos dava o único presente que ganhávamos no Natal. Nunca falhava, apesar de não poder escolher o que ganhar. Os presentes eram distribuídos conforme a idade e sexo.

Houve um Natal, porém, que o presente não veio. Meu pai adoeceu e a fábrica o afastou. Não fomos à festa de entrega e muito menos tivemos brinquedos. Esqueceram de nós. A desolação era percebida. Como um Natal sem brinquedos? Era verdade, mas não chorei (eu sentia, mas não chorava). O Natal passou sem presente. Como cobrá-lo? Aceitei calado. 
 
Alguns dias se passaram depois do Natal, e uma Kombi estacionou à nossa porta. Eu não acreditava e meus olhos brilhavam. A Kombi estava cheia de brinquedos para nós. Não que todos fossem para nós, mas havia a possibilidade de escolher um entre muitos. Até me esqueci que o Natal já havia passado. As visões que me vêm não me trazem à lembrança a cor da Kombi, se era branca, vermelha ou azul; mas de uma coisa eu não me esqueço: havia muitas bolas gigantes de plástico. Não sei qual foi o brinquedo que escolhi, não me lembro. 
 
Hoje, acredito que o serviço social da empresa, tenha sentido nossa falta no dia da entrega dos presentes e quis, assim, reparar o erro mandando aqueles brinquedos depois. Da minha cabeça, nunca mais saiu esta cena, quando a Kombi estacionou no meio da rua e o motorista perguntou pelo meu pai. Foi um dia feliz.

Acostumei-me a não ganhar muitos brinquedos na infância, e por isso me lembro dos poucos que tive. Como meu irmão escreveu em sua crônica (Você já aprendeu a descascar laranja?), nossa infância nos reservou habilidades de construir, muitas vezes, o nosso próprio brinquedo. Num aniversário — tão raro de se comemorar — eu ganhei um bumbo de plástico e com ele ensaiava uma percussão que mais atormentava do que agradava as pessoas. Lembro-me também de um caminhão basculante, de cabine vermelha e caçamba amarela — este já no Natal. Depois outro: uma mini-mesa de sinuca. 
 
Havia na minha rua, um menino que tinha muitos brinquedos em seu quarto. Brinquedo caros, diga-se. Quando era convidado, eu ia lá brincar de autorama, de forte apache e com um pião prateado gigante que, além de ter som, piscava uma luz vermelha. Eu adorava, embora soubesse que não era meu. Eu só brincava quando ele me deixava pôr a mão.

Eu já tinha 18 anos, quando meu pai partiu. Foi em 23 de dezembro de 1981. Um edema pulmonar o levou na véspera do Natal. Eu estava na sala de espera do hospital, quando o médico trouxe a notícia. Ele foi novo, quieto, sem reclamações, como sempre viveu a vida inteira. Lembro-me, que o único veículo de transporte que ele teve na vida foi uma bicicleta Hércules, que o levava e trazia do trabalho.

Já me perguntaram algumas vezes, se meu Natal passou a ser triste depois desse. Não! Nunca. As crianças estão aí preenchendo com alegria o lugar da tristeza, que às vezes insiste em brotar; e quando elas crescerem e se casarem, outras crianças virão. Crianças trazem alegria; as novenas de Natal, a esperança; a estrela de Belém nunca se apagará; e o Menino Jesus continuará na manjedoura. Como poderei ficar triste quando se anuncia o nascimento?

Para os artistas, não existem obras acabadas, elas são abandonadas por eles pelo caminho — lembrou-me um amigo. Ela foi junto com sua partida. A casa foi o presente que meu pai idealizou e ergueu com as mãos de pedreiro e alma do arquiteto que o nomeei. Ele a queria, talvez, bem mais aconchegante. Ele nos deixou assim seu presente de Natal para que um dia eu pudesse mexer e modificar a sua obra, tornando-a eterna. Com tijolos que ele mesmo assentou. Sua alma está lá. Assim, o Natal, sempre será comemorado sob o telhado que meu pai construiu.

Definitivamente, não existe Natal triste; sempre haverá o Natal, com a lembrança do baú de brinquedos que guardamos em nossa memória, em forma de saudade. FELIZ NATAL!

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / dezembro de 2010.

domingo, 5 de dezembro de 2010

2010 – a pilha está acabando...

Faz uns dois meses fiquei sem computador. E a pior coisa é quando não dispomos da ferramenta e vem a ideia, o tema para algum texto. Onde anotar? Recorri ao método antigo: caneta e papel. Gastei um pouco de tinta da minha Lamy tinteiro numa folha de papel e escrevi 02 páginas de caderno. Fechei o caderno e não abri mais. Sabia que depois que reencontrasse o texto – já na tela do computador – teria que engolir algumas lágrimas em meio àquelas palavras. Então veio. Toda vez que escrevo textos intimistas é assim: engulo lágrimas. Dei o nome de “O presente de Natal”. Esta semana estará aqui postado.

Norma Jean queria só conhecer o pai. Se o tivesse conhecido na infância, talvez, vivesse uma vida normal até a fase adulta: casaria, teria filhos... Não encontraria o sucesso e morreria tão cedo, aos 36 anos. Pai às vezes faz falta à nossa vida. Norma era Marylin Monroe.

Um dia vou escrever sobre Marylin Monroe aqui.

Bem, 2010 está indo embora e minha pilha vai se acabando também. Acredito que este seja o último texto do ano. Este ano foram 21 crônicas. Espero para 2011, um ano com bastante inspiração e afirmações, estas coisas tão necessárias ao amadurecimento. Só tenho a certeza que iremos envelhecer por mais um ano que passou. Somente os sonhos, estes nunca envelhecem.

Postado por Antônio - Dezembro/2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lei do Happy hour


Final de ano chegando e começam as maratonas para os freqüentadores de botequins. A famosa via-sacra. Todo dia um bar  diferente, com todo mundo "junto e misturado". Confraternizações com amigos secretos (ocultos) e bebemoração. Tudo para celebrar a vida e mais um ano que passou.
Então, para o bom freqüentador, valem também as regras. Em 2009, elaborei a Lei do Happy hour para meus colegas de trabalho. Assim, ninguém  poderá dizer que infringiu as regras e foi punido sem saber.



LEI COMPLEMENTAR N°001


DE 24 DE OUTUBRO DE 2009.
Dispõe sobre as regras para adeptos e freqüentadores de HAPPY HOUR e reuniões etílicas após o expediente de trabalho e dá outras providências.

Art. 1° - Para efeito desta Lei Complementar, considera-se “HAPPY HOUR” (HH), a reunião etílica em bares, botequins ou similares dentro do perímetro urbano do município - após o expediente de trabalho e sem banho tomado; para fins de consumo e degustação de bebidas alcoólicas fermentadas e/ou destiladas;

Art. 2° - Ficam convocados para os Happy hours todos os funcionários públicos da autarquia direta ou indireta, estagiários e membros de conselhos;

Art.3º - Preferencialmente os Happy hours serão às sextas-feiras e vésperas de feriados, com inicio á 18h e sem horário para término.
Parágrafo primeiro: Eventualmente os Happy hours poderão acontecer em outros dias da semana, desde que seja publicado com antecedência no DOU e comunicados aos seus funcionários adeptos.
Parágrafo segundo: O intervalo entre um Happy hour e outro será de 15 dias, salvo os dias que caem em feriados municipais e nacionais.

Art.4º - Os bares, botequins e similares deverão ser escolhidos antecipadamente até 03 dias antes do Happy-hour.
Parágrafo único: Os locais deverão ser alternados a cada Happy hour, admitindo-se uma repetição a cada 06 meses;

Art.5º - É tolerado ao funcionário adepto do Happy hour o atraso nas reuniões de no máximo 15 minutos, salvos os casos por motivos de força maior. A permanência mínima será de 02 horas;
Parágrafo único: Os atrasos não justificados serão punidos com multa e a reincidência poderá ocorrer em eliminação do quadro de funcionários adeptos;

Art. 6° - Ficam proibidos nos dias de Happy hours:
I. Agendar compromissos depois do expediente;
II. Ir à baladas, festinhas no dia que antecede ao Happy-hour;
III. Ir à academia, cinema, estádios de futebol;
IV. Ir a velórios ou cultos religiosos;
V. Marcar festas de aniversários de filhos;
VI. Marcar reuniões de bairros, SAB´s e outras reuniões de trabalho;
VII. Ir à shopping com marido ou esposa;
VIII. Ir ao cabeleireiro e salão de beleza;
IX. Ingerir remédios antidepressivos e outros.

Art.7º - Fica proibido levar às reuniões, maridos, esposas, namorados e namoradas e outros acompanhantes chatos, babacas e que, além de não beber, detestam seus colegas de trabalho;

Art.8º - Fica permitido ao término de cada reunião, o consumo, em doses mínimas, de outros tipos de bebidas não-alcoolicas;

Art.9º - O funcionário adepto ao se ausentar antes do término do Happy hour deverá deixar paga a quantia mínima de R$30.00 (trinta reais), que ficará com quem estiver na extremidade da mesa;
Parágrafo primeiro: Se no final da reunião, com o pedido da conta, o rateio for menor que o valor de R$30,00 (trinta reais), o valor deixado não será devolvido;
Parágrafo segundo: O valor mencionado no parágrafo anterior será destinado para pagar a “saideira” dos que ficaram até o final;

Art.9º - É proibido durante as reuniões falar de assuntos de trabalho e ou fofocas de pessoas que não estão presentes;

Art.10º - É obrigatório durante o Happy hour falar de futebol, filmes, novelas, bobagens, dar risadas e outras sacanagens;

Art.11º - É proibido o excesso como: passar mal, dar vexame, vomitar no banheiro, perder o caminho de casa;

Art.12º - É proibido sair do Happy hour extremamente bêbado e dirigir veículos automotores. Ficando, o infrator sujeito às penalidades previstas no Art. 306 do CTB (Código de Trânsito Brasileiro);

Art.13º - Esta lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.


Prefeitura Municipal de Xerém, 23 de Outubro (sexta-feira) de 2009.

Jessé Gomes da Silva Filho (Zeca Pagodinho)
Prefeito Municipal

Postado por Antônio - Novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

1980 - a parada de sucessos


Há 30 anos, em 1980, o que se ouvia nas rádios era um estilo de música que tem nada a ver com as de hoje. Pra começar, não havia pagode, funk, axé e nem sertanejo. A base da música nacional era a chamada MPB. Como afirmei, ouvíamos 14 Bis, Fagner, Alceu Valença, Djavan, Boca Livre, Elis Regina, Rita Lee e outros da nossa MPB. No lado internacional, ainda não havia começado de fato a Era Michael Jackson, mas podíamos ouvir Pink Floyd, Roger Keny, Abba, KC & The Sunshine Band, Air Supply, Queen. A maioria dessas eram temas de novelas da época.
Era uma Parada de Sucesso de muito romantismo e de música boa. O tempo não volta, mas as canções ficam marcadas para sempre. Eu guardo todas. Ainda lembro que a rádio que mais ouvia na minha cidade era o Difusora FM, que depois mais tarde virou RD-90.
Quem quiser o arquivo em MP3 da trilha sonora que embalou 1980, eu tenho as 100 música abaixo:

1980

1 Balancê - Gal Costa
2 Another Brick In The Wall - Pink Floyd
3 Crazy Little Thing Called Love - Queen
4 Momentos - Joanna
5 Menino do Rio - Baby Consuelo
6 Toada (Na Direção do Vento) - Boca Livre
7 Lady - Kenny Rogers
8 Lost In Love - Air Supply
9 Meu Bem Querer - Djavan
10 Alô Alô Marciano - Elis Regina
11 Grito de Alerta - Maria Bethânia
12 Don't Stop Till You Get Enough - Michael Jackson
13 Sailing - Christopher Cross
14 Admirável Gado Novo - Zé Ramalho
15 20 e Poucos Anos - Fábio Jr.
16 Xanadu - Olivia Newton-John & Electric Light Orchestra
17 Foi Deus Que Fez Você - Amelinha
18 Little Jeannie - Elton John
19 Amante à Moda Antiga - Roberto Carlos
20 Mania de Você - Rita Lee
21 Magic - Olivia Newton-John
22 Coração Bobo - Alceu Valença
23 All Out Of Love - Air Supply
24 Cruisin' - Smokey Robinson
25 Demônio Colorido - Sandra Sá
26 Do That To Me One More Time - The Captain & Tennille
27 Cheiro de Mato - Fátima Guedes
28 Another One Bites The Dust - Queen
29 Noturno - Fagner
30 The Winner Takes It All - Abba
31 Bandolins - Oswaldo Montenegro
32 Canção da América - Milton Nascimento
33 With You I'm Born Again - Billy Preston & Syreeta
34 Feminina - Joyce
35 Him - Rupert Holmes
36 Babe - Styx
37 Upside Down - Diana Ross
38 Essa Tal Criatura - Leci Brandão
39 Please Don't Go - KC & The Sunshine Band
40 Sol de Primavera - Beto Guedes
41 Call Me - Blondie
42 Chega Mais - Rita Lee
43 Só Nos Resta Viver - Angela Rô Rô
44 Fame - Irene Cara
45 Shining Star - The Manhattans
46 Nosso Estranho Amor - Marina & Caetano Veloso
47Special Lady - Ray, Goodman & Brown
48 After You - Michael Johnson
49 Do Right - Paul Davis
50 Meu Amigo, Meu Herói - Zizi Possi
51 Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira - Moraes Moreira
52 Into The Night - Benny Mardones
53 Just Like You Do - Carly Simon
54 Menino Sem Juízo - Alcione
55 Eu e a Brisa - Baby Consuelo
56 More Than I Can Say - Leo Sayer
57 Noites Cariocas - Gal Costa
58 Ponto de Interrogação - Gonzaguinha
59 Gonna Get Along Without You Now - Viola Wills
60 Give Me The Night - George Benson
61 Lead Me On - Maxine Nightingale
62 I Never Fall In Love - Davitt Sigerson
63 Desesperar Jamais - Simone
64 You And I - Mireille Mathieu & Paul Anka
65 Quem Tem a Viola (Cecília) - Boca Livre
66 Quero Colo - Fábio Jr.
67 Semente do Amor - A Cor do Som
68 Shine On - L.T.D.
69 I'm So Glad That I'm A Woman - Love Unlimited
70 Ships - Barry Manilow
71 Agonia - Oswaldo Montenegro
72 Survive - Jimmy Buffett
73 Bola de Meia, Bola de Gude - 14 Bis
74 Three Times In Love - Tommy James
75 Wave - João Gilberto
76 Canção de Verão - Roupa Nova
77 Modern Girl - Sheena Easton
78 More Love - Kim Carnes
79 Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores) - Simone
80 Love I Need - Jimmy Cliff
81 Aroma - Lúcia Turnbull
82 Planeta Sonho - 14 Bis
83 Cais - Milton Nascimento
84 Escravo da Alegria - Toquinho & Vinícius
85 First Be A Woman - Leonore O'Malley
86 Clareana - Joyce
87 Fracasso - Gilliard
88 Quero Quero - Cláudio Nucci
89 Novo Tempo - Ivan Lins
90 Lembranças - Kátia
91 Meninas do Brasil - Moraes Moreira
92 Never New Love Like This Before - Stephanie Mills
93 Rua Ramalhete - Tavito
94 Faltando Um Pedaço - Djavan
95 Se Eu Quiser Falar Com Deus - Elis Regina
96 Doce de Pimenta - Olivia
97 No Night So Long - Dionne Warwick
98 Nova Manhã - 14-Bis
99 The Second Time Around – Shalamar
100 A Massa - Raimundo Sodré
 



Postado Por Antônio - Novembro / 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Aqui ninguém mais ficará depois do sol...

No início da década de 80, todos os domingos, — como não havia muito o que se fazer na cidade —, a juventude joseense ia curtir o pôr do sol do Banhado, sentada no gramado da Avenida Anchieta. Ou, como chamávamos na época: Avenida Pôr do sol — era assim conhecida. Além do pôr do sol, lá rolavam as paqueras, os flertes, os olhares, tudo regado a shows musicais com artistas e bandas (conjuntos) da terra.

Lembro-me do conjunto “Revoada”, que sempre se apresentava por lá e tinha como seus integrantes o Benoit e o Fernando — esses, ainda firmes com os pés na estrada, tocando nos bares da vida. Seu repertório era a base do que ouvimos na época: 14 Bis.

Em 1980, o 14 Bis já estava no segundo disco, que tinha entre outras “Nova manhã” que foi uma das classificadas do festival da Globo e depois virou tema de uma de suas novelas. Havia também “Planeta Sonho” e “Caçador de mim”. As rádios da época — não tão influenciadas — tocavam 14 Bis, Roupa Nova, Zé Ramalho, Alceu Valença e outras bandas que despontavam como: Kid Abelha, Legião Urbana e Titãs.

Ontem, 15 de novembro, o 14 Bis veio ao SESC-SJCampos reviver em nós os bons momentos daquela época. Naqueles idos, o SESC era o grande palco do 14 Bis na cidade. Duas, três vezes ao ano eles se apresentavam aqui. Sempre com casa cheia. Fiquei saudosista ao ir ao show. Lembrei-me de muita coisa boa e em especial de um show em que eles soltaram um modelo do avião “14 Bis” sobre o ginásio lotado e ainda contavam com o Flávio Venturini como líder e vocalista da banda.

Na companhia de amigos agradáveis, colhi e agora compartilho com os leitores do Blog algumas fotos da noite de ontem. Foi bom rever, ouvir o 14 Bis; e tudo agora me trouxe a lembrança de uma frase — celebrada em uma de suas canções —, que a juventude daqueles anos pichou no muro da Avenida Pôr do sol: “Aqui ninguém mais ficará depois do sol...”.

Luciana, eu e Cláudio Venturini

Postado por Antônio - Novembro/2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A mulher polvo

Aguçam-me as provocações. É claro, com humor, e sem aquela de dedo em riste, apelativo ou coisa parecida. E provocar mulheres e seus instintos é mais prazeroso ainda. Não sou machista, mas não há melhor maneira para provocar uma mulher que se vestindo como tal. Assim, extraio delas as melhores respostas. Descubro o que mais lhes desagradam e agradam. Numa dessas minhas provocações, quando falávamos de homens e mulheres, suas relações e metáforas com objetos e animais marinhos (moluscos): homem sofá, mulher vuvuzela e mulher polvo, dei minha alfinetada por e-mail:

Boa lembrança amiga: a mulher polvo. É aquela mulher que vive num aquário adivinhando quem vai ganhar alguma competição, ou qual homem é mais lindo: Johnny Depp ou Pierce Brosnan. O problema (ou a felicidade) é que esta mulher morre muito rápida, tem vida curta em seu aquário. Vide o polvo Paul, morreu cedo. Coitado.

Agora, essa mulher polvo (de verdade) é aquela que não tem dois braços, tem oito... Depois de um árduo dia de trabalho - ela é arrimo de família -, ainda chega em casa, põe roupa pra bater, as panelas no fogão; depois dá banho e troca o filho, passa algumas peças de roupa, vê novela, põe lixo na lixeira e reclama do marido que sai para jogar futebol com os amigos e volta duas horas depois, bêbado. Esparrama-se no sofá, se apossa do controle remoto da TV e dorme roncando - sem tomar banho.

Aliás, este é o homem-bomba, ele pode explodir a qualquer momento, basta você deixar de lhe dar comida na boca e de trazer cerveja gelada. Ah! E nada de passar na frente da TV enquanto ele vê futebol. E não importa se é o time dele ou não, futebol é sagrado no universo masculino.

Eu já experimentei vários modelos de mulheres... Diziam que a melhor tinha de ser submissa; sabe aquela caixa de supermercado e com neutrox no cabelo (sem preconceito às duas coisas...) - Katy Milene Suelen -, assim você manda e desmanda e ela faz tudo. Bem, não deu certo, ela não sabe a diferença de pátena e decapê e jamais irá dar palpite no seu projeto arquitetônico. Aí você procura uma arquiteta (mesma profissão), que sabe a diferença de patena e decapê, e é linda, maravilhosa... Meses depois, ela começa a dar palpite demais no projeto da casa que você está fazendo e na tua vida também; controla tua roupa, teu apetite e o pior: a tua conta bancária. Por fim – quase já desistindo -, você arruma uma mulher de profissão oposta: advogada. PERIGO!! Muito cuidado com esta. Ela finge que te dá carinho e tudo mais, mas por trás está tramando algo contra você, vai lhe tirar o que não tem. Ferrou-se cara. Sai fora!

Desistência? Jamais!

Há salvação. Ou: uma luz se acende. Cara! Você encontrou a felicidade. Você descobriu, como eu, aos 45 minutos do segundo tempo - pra não dizer a idade - que não existe perfeição. E a melhor de todas as mulheres é a de BUNDA, PEITOS FARTOS E SÓ LHE DÁ AMOR. Ah, e não fala muito, só ouve e obedece (de cabeça baixa). Para chamá-la, é só balançar o sininho (blem-blem), ou gritar: FULANA! Ela vem correndo. Aí você chega à constatação: esta é a mulher da minha vida, estou no paraíso. Felicidade perene e sexo em abundância. Viva a bunda e o peito! Chega de mulher-polvo. Encontrei a mulher da minha vida: A mulher-bunda-peito. Antonio.

Bem, não queiram saber a resposta. Ela veio ao melhor estilo feminista, com alfinetadas também; elas detestam o machismo, embora a maioria delas se casa com seres dessa espécie. Aprendo muito mais com provocações ao universo feminino do que já aprendi em muitas conversas de botequim com meu melhor amigo homem.

Brincadeiras à parte, a melhor mesma é a mulher polvo; e acredito também, que na relação, se dará melhor com um homem de linhagem igual – polvo. Com oito braços para cada sexo, eles se entrelaçam e não há o que os desunam; sendo assim, os abraços serão afáveis, cálidos, apertados, multi, eternos, para sempre...

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / novembro de 2010.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Alpendre

A arquitetura, como toda arte, sempre caminhou pelo tempo, de um extremo a outro, do passado ao futuro mais remoto que o homem pode vislumbrar; tecendo formas, espaços, dando movimento e definindo períodos. Das nossas casas de taipa de pilão às construções high-tech, vem permeando o universo e contando a história da humanidade. Na volta ao passado, ela encontra os seus simbolismos perdidos, numa releitura de si; como os valores módicos da vida e o que nela havia de melhor. Contraponto assim, à sofisticação, aos modismos e tudo mais que tornou a vida mais turbulenta nos nossos dias. Hoje, a vida se resume e se permite ser mais prática, acelerada, racional, individualizada; tudo num invólucro e mais longe da felicidade perene, sem fragmentos, sem barreiras. E longe de ser o dono da verdade — não discordarei dos quem pensam o contrário — coloco aqui uma visão analítica de quem observa e vive este mundo maluco e agora globalizado. Nessa síntese, talvez valesse aquela máxima: “naquele tempo era melhor...”.

Os tempos são outros e o conceito de moradia também mudou. Dos bairros predominantemente residenciais, o pouco restou; com suas ruas de paralelepípedo quase sem automóvel e de gente simples morando. Hoje não nos damos mais ao luxo e o prazer de termos casa com muro baixo e portão de madeira, onde na infância brincávamos de andar sobre os muros; e de muro em muro íamos equilibrando e pulando os portões até se espatifar na calçada — já vivi essa cena. (Sempre era divertida a aventura e dolorosa a queda.) Da calçada, sobre o muro baixo podíamos ver a casa; dos janelões: a sala, a mobília, os ornamentos, os apetrechos, os enfeites, os retratos, os quadros, as pessoas e o modo de vida daquela família. E elas? Viam a nós, que passávamos pela rua, sozinhos no nosso caminhar ou em procissões da sexta-feira da paixão. Como se nada tivéssemos que esconder um do outro. Víamos nossos interiores, assim como ver a alma da alma.

Da casa, era do seu alpendre que avistávamos a rua e quem quer que por ali passasse. No alpendre sempre havia um lugar para uma cadeira de balanço e uma gaiola de passarinho pendurada; com muretas que circundavam, é lá que ficava o “relógio” que registrava o consumo da luz. Em alguns, havia um mosaico de azulejos portugueses na parede frontal ou um pequeno oratório no nicho lateral. Sem nos esquecer dos vasos de avencas e samambaias e o piso gelado de cimento queimado ou ladrilhos vitrificados, este, nas casas dos mais abastados.

Vamos à literatura. Alpendre é o espaço coberto, reentrante, e aberto na fachada de uma casa, que dá acesso ao interior. Pois sim, o alpendre é o próprio convite à casa: adentre-se. Diferente da varanda, que é balcão, sacada, terraço. Gradeamento de sacadas ou de janelas rasgadas ao nível do pavimento. Ou: espaço saliente à casa e fora do seu corpo — desalinhado. Em sua crônica, o escritor Mário Prata define: “Mas a diferença básica é a seguinte: você vai ficar na varanda do 16º andar para ver quem? Quem é que você acha que vai passar por ali? Você acha que vai ver alguma pinta-brava? Pessoa suspeita; cafajeste” Mais adiante ele conclui: “Agora achei a palavra certa: os alpendres foram feitos para a cobiça também”.

Nos casarões coloniais, era o alpendre que fazia a divisão da parte da casa com a área social. Os alpendres centrados dividiam de um lado a capela e do outro o quarto de hóspedes, depois a porta de acesso, por fim, a casa. Por muito tempo, eram também nos alpendres que namoravam as moças de família, as recatadas. Cujo namoro tinha que ficar às vistas do pai austero e com hora marcada para pisar porta dentro. No alpendre “batíamos figurinhas” e reuníamos os moleques da rua para brincar. Dava para jogar futebol de botão e fabricar pipas também.

E os quintais? Quanto tempo eu não ouço ninguém dizer que gostaria de uma casa com um quintal grande e de terra; sem nada, solitárias árvores e a criatividade dos olhares pequeninos. Trocaram os quintais por jogos de vídeo game e internet; e as casas térreas, por conjuntos verticais — sem quintal.

Faz dois anos fiquei surpreso com uma história: quando foi indagado o que gostaria de dar a seu filho pelo seu aniversário, o ator Lázaro Ramos disse sem pestanejar: “um quintal”. Achei diferente, tudo muito simples e talvez fosse tudo o que tenha presenciado de valor na sua infância feliz. Um quintal para brincar e um alpendre para olhar a vida passar, quiçá.

No próximo projeto de casa quero ser simplista e darei a ela um alpendre. Inserida numa paisagem, um ambiente urbano ainda preservado pela vida parca do lugar, sem agredi-lo. Uma Casa para morar, para viver e guardar os dias melhores de nossas vidas. Gosto dessa viagem ao tempo que a arquitetura me proporciona, principalmente quando ela vai ao meu interior, onde me permito encontrar uma bela paisagem e com tudo aquilo que vale à pena viver de novo: uma casa com alpendre e quintal de terra.

©Antonio de Oliveira / arquiteto e urbanista / 2008- revisão Novembro de 2010.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bastardos

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Para ficar de bem com o mal — já que ontem foi dia das bruxas — fui presenteado pelo canal telecine com o filme “Bastardos Inglórios” (2009) — Quentin Tarantino. Já perdi a conta de quantas vezes vi este filme, mas acredito que seja a quinta vez. A cada repetição uma emoção, uma descoberta. Quando vi pela primeira vez, fiquei tão fascinado que considerei o melhor filme do ano, sem o ano ter terminado e sem ver os outros. A academia deverá dar o Oscar de melhor filme, constatei. Depois lembrei que a Academy Awards não daria um prêmio de melhor filme a um filme aos moldes de Bastardos — uma ficção sobre o terceiro reich e sanguinário.

Tarantino é um consagrado diretor pelos filmes sangrias. Há quem não goste do seu estilo, mas em Bastardos ele se superou. Fez um dos seus melhores filmes. Sorte e competência teve o ator Christoph Waltz; ainda no projeto do filme, Tarantino quase desistiu de rodar o filme, pois não conseguia encontrar um ator que falasse fluentemente Inglês, Alemão, Francês e Italiano. Encontrou, por fim, Waltz. E não poderia dar outra: ele brilhou e ainda levou o Oscar de ator coadjuvante. Antes já havia ganhado o prêmio de melhor ator no festival de Cannes. Waltz fez um vilão vibrante, ácido, repugnante, eloqüente, às vezes engraçado; roubou as melhores cenas do filme. Só posso comparar a Heath Ledger como Coringa em Batman – o cavaleiro das trevas.

Quem brilhou também foi Brad Pitt no papel do caricato tenente Aldo Raine. Suas caras e falas são de dar gargalhadas e sua atuação foge completamente do seu estilo: herói e belo. Há quem pense que ele ficará com a mocinha do filme — como sempre acontece. Embora Aldo e Shosanna tivessem os mesmos objetivos: matar nazistas, mas eles não se encontram em cena nenhuma.

O filme tem como pano de fundo a segunda guerra mundial numa França tomada pelos nazistas. O Coronel da SS Hans Landa (Waltz) é condecorado pelas suas proezas de caçador de judeus. Já no inicio da trama deixa escapar das suas mãos a jovem judia Shosanna (Mélanie Laurent). Do outro lado, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt) lidera o grupo dos bastardos, que tinha como missão eliminar nazistas.

A trilha sonora é outra genialidade do filme. Tarantino trás músicas do compositor italiano Ennio Morricone. Quem começa ver o filme, já nos caracteres, tem a impressão que verá um filme bangue-bangue à italiana dos anos sessenta.

A melhor cena — entre tantas — é a do encontro do Coronel Hans Landa com a moça judia Shosanna num restaurante. Quando todos se levantam para sair, ele a convida para continuar sentada, com o propósito de conhecê-la melhor e saber o que faz em Paris. Como verdadeiro oficial nazista e machista, não lhe dá o direito nem de escolher o que comer e beber na sobremesa daquele final de jantar. Ele mesmo diz ao garçom o que ela vai comer. Quando o garçom esquece-se de trazer creme, ele pede que traga e quando ela vai garfando o seu pedaço de torta, ele bate-lhe a mão e diz: espere o creme. Depois de muitos interrogatórios e gargalhadas de cinismo igual, ele apaga o cigarro sobre o resto de torta no prato e sai deixando a pobre Shosanna em pânico. Genial.

Para ficar de bem com o mal — dito no começo da conversa —, o filme tem um final apoteótico. Como ninguém até hoje deu Hitler como morto, ou tenha certeza de que modo ele morreu, Tarantino lhe deu uma morte digna de um ditador, populista e que, reconhecidamente, mudou os caminhos da humanidade. Ele e Goebbels morrem junto com todo o primeiro escalão do comando nazista dentro de um cinema em chamas. O cinema da mocinha judia Shosanna (Mélanie Laurent). O filme termina com a “suástica” marcada na testa do Coronel Hans pelo intrépido Tenente Aldo, dizendo: "Acho que essa pode ser minha obra-prima". Tarantino lavou a minha alma no dia das bruxas. Que seja o fim de todos os ditadores.


Postado por Antônio - Novembro 2010