BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempo – Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 8 de março de 2018

20 soluções para os problemas do século XXI

(Poderia começar esse texto com "seus problema acabaram", como dizia o Casseta & Planeta quando queriam lançar algum produto das Organizações Tabajara)

Brigas em estádio de futebol.
Solução: Proibir a venda de cerveja.

Brigas dentro e fora de estádio de futebol.
Solução: Jogo com torcida única.

Ataque terrorista com caminhão.
Solução: Proibir a venda de caminhões.

Massacre em escolas com armas de fogo.
Solução: Proibir a venda de armas.

Invasão terrorista em países árabes.
Solução: Refugiar todos em países ricos.

Problemas com educação de base.
Solução: Criar sistema de cotas raciais.

Dificuldade cognitiva de aprendizado.
Solução: Acabar com o sistema de reprovação.

Falta de governo e democracia.
Solução: Eleger um ditador de esquerda.

Crime organizado, mortes e drogas no Rio.
Solução: Educação e muito “Imagine” para ouvir.

Assalto à mão armada.
Solução: Não dê mais mole naquele local!

Não consegue atingir o status de classe média
Solução: “Ressignificar” o que é classe média.

Animais sensíveis a fogos de artifícios.
Solução: Proibir a venda de fogos.

Sou feia gorda, mas quero ser miss.
Solução: Mudar os padrões de beleza impostos pela sociedade capitalista.

É desqualificado, preguiçoso e está desempregado.
Solução: Ir a um programa de TV reclamar da sociedade preconceituosa.

Foi assediada, molestada ou estuprada.
Solução: Escrever textão no face, lacrar e ficar de mimimi.

Invasores de terras e imóveis urbanos.
Solução: Furar a fila da casa própria.

Pobreza, analfabetismo, ignorância, desemprego.
Solução: Assistencialismo e Bolsa família.

Não sabe ler e vai ao cinema.
Solução: Filme dublado.

LGBTs em banheiros M/F
Solução: Criar o 3º, 4º, 5º, 10º banheiro.

Feriado que cai na quarta-feira.
Solução: Puxar pra segunda ou sexta.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / março de 2018

segunda-feira, 5 de março de 2018

Esquerda ou Direita?

A classificação esquerda e direita, hoje, perdeu totalmente o sentido desde que surgiu na Revolução Francesa (1789). E isso tem feito muita gente não saber se posicionar. Você é de esquerda ou de direita?

Ser de ESQUERDA é apoiar uma agenda progressista nos costumes (casamento gay, igualdade de gêneros, liberação de drogas, aborto, etc.). É ser simpático a governos estatizantes e controladores — veja como a maioria dos esquerdistas não dizem nada sobre governos ditatoriais como os de Cuba e Venezuela. É romper com o passado e todas as tradições, inclusive as religiosas; é ser ateu. Às vezes, é dizer-se espiritualizado, panteísta, mas nunca religioso (adorador). É ser a favor e propagador de movimentos de minorias, como: feminismo, gaysismo, sem terra, etc. É ser a favor das cotas nas universidades e em tudo onde couber. É ser socialista e enxergar desigualdade social em tudo, menosprezando o mérito e a capacidade individual de cada um. É ser utópico, sentir-se salvador do mundo, acreditando que tudo isso um dia vai se transformar em realidade, e vai dar certo. É ser relativista.

Ser de DIREITA é ser conservador nos costumes (ético e moral). É ser favorável à legítima defesa, ser pró-vida, contra a liberação de drogas. É ser obediente e vigilante às leis e regras. Ser a favor do modelo de família como se apresenta na constituição. Acreditar que as tradições culturais e religiosas devam ser mantidas e que a liberdade individual tem prevalência sobre o coletivo. Em muitos, é ter o cristianismo como crença e religião. Ser a favor da propriedade privada. É primar por um Estado mais enxuto e com o livre mercado estimulado pela competitividade. Ser mais liberal na economia e acreditar que só a geração de emprego é capaz de minimizar os impactos das desigualdades sociais. — O mundo é isso mesmo, herdamos assim e entregaremos um pouco melhor — pensa um direitista. É se guiar por uma realidade e acreditar numa verdade única. 

(Nota: as definições vão do mais light até os extremistas. Se você tem posições nos dois lados, pode ser que esteja sendo enganado por um deles).
  
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / março de 2018

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

2018: o ano que não terminará

Não! Eu não tenho bola de cristal e nem mesmo sou um daqueles adivinhos de fim de ano, que faz previsões do tipo "um artista famoso vai morrer" — com 100% de chance de acertar, porque o óbvio a lógica, no final, sempre triunfam. E eles sabem disso.

O Brasil não é para principiantes, já dizia Tom Jobim. O compositor brasileiro não era de frases polêmicas, mas ele também nos deixou outra pérola: "o brasileiro cultua o fracasso e o sucesso é uma ofensa pessoal." E não é mesmo? Aqui é tudo muito pelo avesso; do menos que sempre vale mais. O brasileiro torce para que o mais fraco estoure os miolos do mais forte. Ele tem ódio dos vencedores. (Lembrando que, forte, muitas vezes, é aquele que tem mérito.) Caminhamos no obscurantismo, nas trevas, no atoleiro do mundo. Não há tanta percepção no dia a dia, porque o brasileiro já está acostumado com os pés sujos de lama, há tempos.

Já arrumando as malas para 2018 — será que terminará? —, temos que, antes, analisar esse incompreensível e controverso ano de 2017. Alguns mais desatentos (desses que sentam na praça para dar milho aos pombos) poderão dizer: — Achei um ano tão normal, nada diferente... Não, definitivamente não foi um ano normal. Explico por quê.

Nunca a agenda progressista fez-se tão presente em nossas vidas; nunca vimos tantos posicionamentos politicamente correto enxovalhando nossas casas, cotidianamente. O assunto sobre transgênero, então, foi até ao esgotamento. A técnica é: encha as telas dos computadores e celulares de provocações à normalidade e senso comum da vida, que uma hora todos se acostumarão e passarão aceitar o bizarro como espelho social.

São de assombros esses nossos dias. A notícia diante da normalidade da vida passou a ser aquela assustadora aos olhos da imprensa fake news; por outro lado, aquilo que era escrachado passou a ser entendido como normal e corriqueiro. Isso está nas manchetes dos jornais, nas redes sociais, nas novelas, nos programas de TV. (O escritor Flávio Morgentern já disse algo parecido em seu Twitter.)

Quando, em setembro último, veio à tona a exposição que chocou boa parte do país, no Queermuseu Santander, a imprensa, de um modo geral, passou os olhos sobre aquelas ditas "obras de arte". Resolveu atacar os conservadores por não saberem apreciar uma arte. Que arte? Michelangelo, Da Vinci? Não! Havia ali, sim, uma clara intenção de provocação. Desde que as esquerdas tomaram a arte para si, tudo virou expressão artística, quando se enxerga nela um manifesto político/social. De arte e artista não há nada. Muitas dessas obras, qualquer criança faria. O pano de fundo do Queermuseu, contudo, era: a pedofilia, o vilipendio religioso (cristão) e a pornografia.

Numa das tais obras mostrava um negro, de modo passivo, tendo relação sexual com duas figuras brancas. Passaram os olhos a imprensa e os tais movimentos negros. Ninguém publicou nada, ou se indignou nas redes sociais: RACISMO! Duas semanas depois, quando a poeira havia assentada, os portais de noticia manchetaram uma matéria onde se identificou, numa publicidade no metrô do Rio, uma imagem racista. (Confesso que não vi nada de racismo. Eles viram.)

Aí você, leitor, pode indagar que isso foi uma coincidência: três ou quatro veículos de imprensa dar manchete do mesmo assunto, como se houvesse relevância no tema. E eu direi: uma ova!! Isso é orquestrado, pautado, comandado e dirigido por uma corrente muito forte que manda nos veículos de imprensa e no mundo; uma força oculta que investe nessa agenda progressista: o Globalismo.

Já contei aqui, neste Blog, que logo após a posse do republicano Donald Trump como presidente dos EUA, uma marcha (espontânea?) se organizou em muitas capitais pelo mundo. Uma marcha das mulheres que não aceitavam Trump por considerá-lo um machista e misógino. A pilhéria: foi sim, no mundo ocidental onde a mulher verdadeiramente se emancipou, teve mais destaque e saiu das suas casas para liderar, governar e trabalhar. E elas veem em Trump (um homem ocidental), governante do país mais livre do mundo, um machista. A perceptível e clara intenção de se criar um fato mentiroso para tornar aquilo verdadeiro, espantoso, tenebroso e conclamar as pessoas a combatê-lo.

Mas isso era só um aperitivo do que vinha por aí. Eles não dariam sossego a Trump, como não deram ao longo do ano. Os metacapitalistas — Olavo de Carvalho os chama assim —, interessados no controle da engrenagem do mundo, estão, sim, influenciando nossas vidas, há décadas. O movimento, porém, é silencioso, indolor, lento. Vindo através de agentes políticos, de meios comunicação e dos movimentos revolucionários espalhados pelo mundo.

Aqui no Brasil, é bem provável que o globalismo esteja financiando a grande imprensa para fomentar o discurso progressista. Depois que os jornais e revistas saíram das bancas de jornal (passou a ser menos impresso), a pauta globalista ficou mais clara. Afinal, ninguém sobreviria muito tempo se não fosse financiado por alguém. O poder dessa gente é grande. A fundação Open Society, do investidor e bilionário George Soros, recebeu dele mesmo, neste ano, US$ 18 bilhões. Para fazer o quê? Filantropia? Seria ingênuo pensar que sim.

O mesmo Soros também é um dos financiadores de outra instituição, a Planned Parenthood, responsável por abortos de mulheres negras nos EUA. O site Senso Incomum fez uma matéria em janeiro deste ano, onde relatou: "Poucos no Brasil sabem o que é a Planned Parenthood, a ONG que recebe cerca de US$ 530 milhões anuais do governo federal americano para realizar cerca de 324 mil abortos anuais. Entre seus objetivos, além de realizar abortos, está o de amenizar o debate e propagandeá-los para jovens através da cultura popular em um esforço de governos globais."

Uma das primeiras providências que "o maligno" Trump tomou, logo após sua posse, foi encerrar os contratos governamentais com a Planned Parenthood. O que ele fez muito bem. Do outro lado, a imprensa fake news não deu um rodapé de notícia. Trump não é só presidente da maior potência econômica do mundo, mas aquele que veio quebrar o ritmo ascendente da agenda globalista e seus tentáculos. Os politicamente corretos passaram a atacar até os gestos naturais de Trump. Quando ele segurou uma caneca de água com as duas mãos.

O interesse desses globalistas não é só a eugenia, o controle da vida humana, mas uma preocupação que uma superpopulação mundial possa atrapalhar a dinastia de seus poderes. É plausível pensar, hoje, que muitas doenças epidêmicas — curioso que muitas nascem em meio a pobreza do continente africano — foram criadas em laboratórios financiados por esses donos do mundo. Li uma matéria num site postado no Facebook, onde afirma que um laboratório financiado pela fundação Rockfeller descobriu, em 1969, a cura do câncer, mas manteve, a partir de então, a fórmula trancada por ordem da fundação. O câncer é uma forma de controle de população, exatamente tudo que quer esses globalistas. Fiquei curioso em saber de que morrem os Rockefellers. Com certeza não deve ser de câncer.

A fórmula do politicamente correto pautou as matérias jornalísticas em 2017. O tema transgênero não só foi estampado em novelas, mas aplaudido nos palcos Brasil a fora. A projeção do pseudo cantor (homem em corpo de mulher) foi uma das coisas mais bizarras que aconteceu este ano. A novela da Globo também tratou do tema: "sou um homem preso a um corpo de uma mulher". A ideologia de gênero foi debatida nas redes sociais e combatida por entidades conservadoras, que se organizaram para proteger os ambientes escolares dessa difusão. Depois, o empoderamento feminino, negro, e LGBT virou clichê nas páginas de revistas e nos portais de notícia. Só sei de uma coisa, o vendaval foi grande. Com artilharia de todos os lados e diariamente.

Na contramão, há também aqueles lampejos de luz no combate a essa agenda progressista e politicamente correta. O estilista Stefano Gabbana, em entrevista recente, chocou a imprensa politicamente correta mainstream com uma declaração. Disse:
"Não quero que me chamem gay, sou um homem. Parece-me inacreditável que este termo ainda se use hoje em dia. Biologicamente sou um homem. A palavra gay foi inventada por aqueles que precisam de etiquetar as pessoas e eu não quero que me identifiquem pela minha orientação sexual"
No campo da política, vimos, em 2017, nuvens negras — cuidado com o politicamente correto, Antônio! —  pairando sobre nossas cabeças. A sequência da Lava Jato, prisões e solturas de políticos corruptos. Incertezas e desesperanças tomaram conta das redes sociais. Um fato real foi o ressurgimento e fortalecimento de uma direita que até então estava adormecida; na outra extremidade, o enfraquecimento da esquerda financiada. Nesse esparramo de assuntos diários, a questão política correu paralela a tudo. Digo, a guerra que se travou não foi PT x PSDB, ou direita x esquerda. A guerra foi (e é) cultural. Entre aquilo que se quer conservar (do mundo que nos foi construído e entregue) e aquilo que se quer mudar (de um mundo a nos impor, sem nenhum experimento).

Desde que Lula foi condenado pelo juiz Sérgio Moro, no caso do Tríplex do Guarujá, a imprensa fake news enfatizou mais ainda a sua candidatura para 2018, tratando Lula como uma voz a ser ouvida, uma opção ao futuro do país (?); e não como alguém a se esquecer pelos 9,5 anos de condenação; alguém que já deveria estar preso e afastado totalmente da política. A política cheira mal e a imprensa no Brasil escancarou e deitou no lamaçal. Tratar Lula como assunto de todos os dias, sem mencionar sua condenação, nos afronta.

O que podemos esperar em 2018? Não há muita esperança que o ano comece e termine bem, infelizmente. Em dezembro de 1968, quando o regime militar baixou o AI-5 (o ato mais duro do regime), o escritor e jornalista Zuenir Ventura descreveu, mais tarde em seu livro, aquele como "o ano que não terminou". Em 2018, diante de tantas incertezas, corremos esse risco de que o ano possa também não terminar ou terminar em chamas, com barricadas e coquetéis molotov.

A força do establishment, em manter a esquerda no poder, já se desponta e começa sacudir o cenário. Lula ainda é a menina dos olhos de grande parcela da imprensa, dos empreiteiros, dos movimentos sociais, das instituições, do legislativo, judiciário, dos partidos nanicos e dos políticos sujos na Lava Jato. Lula é o salvador da pátria dos corruptos. Ele, eleito e livre da prisão, devolverá o país ao estado de miséria intelectual, que serviu por anos como esteio da corrupção. O que ninguém está considerando é: os pilares democráticos do país suportarão mais quatro anos governados por um partido que governa em favor da agenda do Foro de São Paulo e seu projeto de Pátria Grande para a América Latina?  Numa tragédia anunciada (toc toc), viraremos uma Venezuela rapidinho, e Soros vai suspirar e sentir que seu investimento fez o estrago previsto. Nos tornando mais pobres, famintos e pequenos diante do seu poder global.

Deus salve o Brasil!
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / dezembro de 2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Mr. Barrow

Confesso, não sou daqueles que veem uma série até o fim. Assisto várias ao mesmo tempo, e algumas vou largando pelo caminho. Vi sim, até o fim, Mad Men e agora Downton Abbey. (Por essa declaração já deve ter percebido que sou um aficionado pelos dramas.) Para mim o que me prende são as histórias ou as histórias dentro da história. Verdadeiras ou fantasiosas.

Zerei por esses dias Downton Abbey — se me permitem vou usar a sigla DA. Não tive pressa em ver, até porque tudo é locupletado de muitos detalhes e paisagens lindas daquele início do século XX (Belle Époque). Os figurinos, então, são impecáveis. As cenas são minuciosamente pormenorizadas com posicionamentos de câmeras, personagens, silhuetas, luzes, etc.

DA é uma série que discorre sobre a vida de uma família aristocrata inglesa; uma família com seus dramas e suas vidas misturadas com as dos seus criados. Há personagens marcantes, como o mordomo Carson (Jim Carter), figura impoluta. Mas o que eu queria trazer aqui nessa conversa, e até para servir de comparação com as produções nacionais, é o personagem do lacaio (servil) Thomas Barrow (Rob James-collier), ou simplesmente Mr. Barrow.

Thomas Barrow é jovem, educado, cortês, de boa aparência, cabelo aparado com brilhantina, espinha ereta. Mas carrega no olhar um certo cinismo, uma certa maldade; ele vê a vida de soslaio. Logo nos primeiros episódios (acho que foi no segundo) o diretor Julian Felowes deixa escapar que Mr. Barrow é homossexual, quando ele tem um noite amorosa (e casual) com um visitante de DA. Mas a coisa ficou só nisso. Não teve mais beijos gay ou cenas para chamar atenção do público. (Marketing barato e previsível da tv brasileira.)

É difícil dizer ou definir Thomas Barrow durante a série. Ele tem altos e baixos com atitudes covardes e de coragem em outras épocas. ( O período da história é entre 1910 a 1925) Por vezes, era vil e depois mostrava bravura, quando, por exemplo, ele salva Lady Edith de um incêndio provocado por ela mesma na lareira do seu quarto. Durante a guerra, ele se acovarda e se fere propositalmente quando, entrincheirado,  acende um cigarro a metros do inimigo e tem a mão alvejada. Imediatamente ele é desligado e volta para DA.

O sonho de Thomas Barrow era o posto mais alto dos serviçais de DA. Ele queria a posição de Mr. Carson, ser mordomo da mansão. Mas como eu disse, os altos e baixos do personagem leva-o a ter crises existenciais. Como o auto flagelo, por achar sua condição sexual  algo pecaminoso (?), e só flagelo o "curaria"; e depois quando tentou um suicídio cortando os pulsos. Quando ele se vê esgotado em DA, procura emprego em outra mansão. Ele segue com boas referências, mas sente falta do calor, do aconchego de DA. No último capítulo, ele volta como mordomo para DA, quando Mr. Carson descobre uma doença que o faz tremer as mãos.

É perceptível. O personagem não tem nenhum perfil de herói e nem de bandido. Ele se esconde dentro de si, roendo suas angústias quando almeja algo melhor para vida. Não houve uma preocupação de torná-lo bom, sendo ele muita vezes mal na trama. Ele era uma pessoa como vemos por aí, nas ruas do século XXI: o desejo de subir dentro da empresa e ser respeitado. Tinha seus medos, aflições, dramas e uma sexualidade acobertada.

Eis onde eu queria chegar. Agora, imagina esse personagem numa trama brasileira, dessas feitas pela Globo. Ele seria empoderado, protagonista, virtuoso, herói; um modelo para uma nova sociedade que aceita os diversos tipos de comportamentos sexuais e gênero. Iria chamar atenção mais que os outros. Depois, iriam sobrecarregá-lo de cenas intimas, até que o público não se chocasse mais — nem as crianças. Tudo como se vê nas novelas e séries brasileiras da atualidade.

Como disse a criadora de Friends, Marta Kauffman: "A telenovela não vai ser o primeiro gênero de entretenimento, não vai funcionar mais. Todo mundo tem de pensar algo diferente a ser feito. As pessoas não veem mais TV como antes". Ela tem razão. Vivemos uma época de esvaziamento (sem conteúdo) dos melodramas. As novelas e séries nacionais só capitulam afim de carregar e levantar bandeiras progressistas: racismo, LGBT, ideologia de gênero, regime militar, poliamor, etc. Como agora, nos enxovalhando com a discussão de gênero. Numa sociedade majoritariamente heterossexual, isso é rechaçado. As pessoas querem ver a vida como ela é, como nas séries americanas e inglesas, onde as histórias são bem contadas, sem nenhum pretexto (pano de fundo) em doutrinar o público. Depois, o publico que está errado em não ver mais novelas.

A pergunta que deixo é: quem sustenta toda essa discussão? A quem interessa tudo isso? Tenho estudado a resposta, mas isso é assunto para outra crônica.
 
© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / setembro de 2017

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A estagiária do calcanhar sujo

Este mês foi produtivo aqui no Blog, muitas crônicas. E ainda sobrou um espacinho para uma de Nelson Rodrigues. O nome original é "Os setenta anos de Gilberto Freyre" e está no livro "O Reacionário". Mas por que essa crônica, especialmente? Outro dia, uma seguidora do Facebook perguntou sobre a origem do termo "estagiária do calcanhar sujo". A expressão surgiu nesta crônica, de 1970. O mais interessante de Nelson é que ele continua atual, porque os calcanhares sujos continuam na nossa imprensa, diariamente.

Nem sei por onde começar. Digamos que. Eis a verdade: estou naquela situação de Carlos Drummond de Andrade ao oferecer seu livro a Marques Rebelo. Na dedicatória, escreve o poeta nacional: “A Marques Rebelo —sem palavras —Carlos Drummond de Andrade.” Ao que eu saiba, poesia é uma arte de palavras. E se um poeta não as tem, poderemos talvez chamá-lo de antipoeta. Na melhor das hipóteses: antipoeta.

Felizmente, o bom Carlos estava usando apenas um truque de sua prudência mineira. Não queria elogiar o romancista e o conseguiu. Eu diria que a minha situação é parecida: faltam-me palavras para começar esta crônica. Queria escrever sobre a socialização do homem. Digo mal. Não é bem do homem. O correto seria dizer asocialização do idiota.

Não sei se me entendem e tentarei explicar. Antigamente, o idiota era o primeiro a saber-se idiota; e babava fisicamente na gravata. Não andava, Como agora, em massas, unanimidades, maiorias, assembleias etc. etc. Do berço ao túmulo, ele assumia a sua irreversível miserabilidade de idiota. O mundo dependia de sete, oito, dez ou vinte individualidades, fortes, criadoras, sim, individualidades que pensavam por nós, sentiam por nós, decidiam por nós.

Embora minoritários, os melhores faziam o nosso mundo, inventavam a nossa realidade, ditavam os nossos valores. Até que ocorre o maior acontecimento do século XX que foi, exatamente, a socialização do idiota. Pela primeira vez o idiota se organizava. Ele sempre fora, como indivíduo, o grande impotente. Deixou de ser indivíduo. Impessoalizou-se; dissolveu-se no coletivo. Aqui no Rio, cinco autores fizeram uma única peça. Até o amor que, sempre, sempre, exigira a solidão do casal, o amor, dizia eu, precisou socializar-se também.

Há pouco, trezentos mil jovens se juntaram numa ilha inglesa. Trezentos mil jovens, 150 mil casais. Foi uma bacanal inédita na história humana. Um dos beatles casou-se. Queria fazer sua noite de núpcias na frente das câmaras e microfones. Não bastavam o noivo e a noiva. Era preciso que cinco, seis, sete milhões de telespectadores invadissem a intimidade do casal.

Ai daquele que, num desafio suicida, tenta individualizar-se. Vocês se lembram das greves estudantis da França. Os jovens idiotas viravam carros, arrancavam arrancavam paralelepípedos e incendiavam a Bolsa. E, então, o velho De Gaulle falou aos idiotas: “Eu sou a Revolução.” Que ele fosse a Revolução, era o de menos. O que realmente enfureceu o mundo foi o eu. Era alguém que queria ser alguém. Um dos maiores jornalistas franceses escreveu um furibundo artigo contra aquele espantoso orgulho. Aquele guerreiro, de esporas rutilantes e negro penacho, foi o último eu francês. Os outros franceses são massas, assembleias, comícios, maiorias.

E há o que se finge de idiota para sobreviver. Muitos não entendem por que professores, sociólogos, sacerdotes, cientistas —vivem a fazer rapapés, sim, humilhantes rapapés para os lorpas e os pascácios. Eis um mistério nada misterioso. Ou o sujeito bajula os idiotas ou não terá onde cair morto.

Por que é que estou dizendo tudo isso? Vejamos: outro dia, Gilberto Freyre completou setenta anos. Eu me lembrei de Hugo, Victor Hugo. No seu septuagésimo aniversário, a França parou. Toda Paris desfilou diante do poeta. Rosas, dálias, lírios, as flores mais inimagináveis foram atiradas a seus pés. Naturalmente que a maioria dos manifestantes eram os idiotas, não socializados, não organizados. Mas vejam o abismo que se cavou entre as duas épocas. Hoje, os idiotas, instalados em sua onipotência numérica, não concederiam ao grande homem um vago e reles bom-dia.

E assim Gilberto Freyre fez setenta anos debaixo de um silêncio brutal. Tive o cuidado de ler os jornais. Não vi uma linha. Minto. Vi num dos nossos jornais uma nota, espremida num canto de página. Quem a redigiu teve vergonha de elogiar um dos homens mais inteligentes do Brasil, em todos os tempos. Eis o que eu queria dizer: está em seríssima crise vital o país que não reconhece seus maiores homens.

Um companheiro ia passando e eu o chamei: “Olha aqui o que merece Gilberto Freyre.” O companheiro passou a vista e rosna este comentário; —“Por essas e outras é que o Amazonas tem menos população do que Madureira.”

Não é a primeira vez, nem será a última, em que falo de Gilberto Freyre e do seu exílio. Em nosso tempo, o Brasil tem sido o exílio do extraordinário artista. Os jornais não falam no seu nome, e vale a pena explicar, para os menos informados, esse mistério. A festiva infiltrou-se em toda a imprensa brasileira. Outro dia, passei num velho órgão. Enquanto esperava um colega, vi uma estagiária, dos seus 18, 19 anos, de sandália e calcanhar sujo. Estava lendo e titulando telegramas. Súbito, pega um dos telegramas, amassa-o e o atira na cesta. Diz para os lados: Gilberto Freyre não é autor que se cite.”

Aí está, num simples gesto e numa simples frase, a Operação Cesta. Os membros da festiva fazem uma vigilância feroz. Qualquer notícia que não convenha à esquerda vai para a cesta, sumariamente. sumariamente. Para o leitor, que nada sabe dos bastidores jornalísticos, pode parecer inverossímil o poder de uma estagiária de calcanhar sujo. Inverossimilhança nenhuma. Reparem como o editorial é uma coisa e o resto do jornal outra. A direção opina no editorial. O resto do jornal fica por conta da infiltração comunista.

No caso de Gilberto Freyre, as esquerdas têm-lhe ódio. Portanto, não se pinga uma palavra sobre a sua obra gigantesca. Falei no seu exílio na própria terra. E realmente ele é muito mais notícia lá fora. Escolham qualquer país europeu. Na Itália, França, Inglaterra, Alemanha, sua presença intelectual é muito mais poderosa do que aqui. Sim, o estrangeiro é muito mais sua casa do que o Brasil.

Isso só acontece num país que perdeu a sua consciência crítica. Bem sei que a “rebelião dos idiotas” é um fenômeno universal. Mas na Europa, nos Estados Unidos, todas reconhecem a dimensão mundial de sua figura. Ao saudá-lo, a Universidade de Sussex proclama que, depois de sua obra, o “Brasil tornou-se mais brasileiro”. Ao passo que, em nossa terra, as meninas de calcanhar sujo e os barbudos da festiva querem liquidá-lo pelo silêncio.

Tudo porque, na sua formidável solidão, não transige com as esquerdas. E, ao mesmo tempo, quantas mediocridades têm uma delirante cobertura promocional. Mas vejam: nos seus setenta anos, Gilberto Freyre fez uma obra para sempre. Daqui a cinco anos, os idiotas que hoje o negam ou, pior, que fingem esquecê-lo, vão desaparecer como se jamais tivessem existido. Daqui a duzentos anos, Gilberto Freyre estará cada vez mais vivo; e sua figura terá a tensão, a densidade, a atualidade da presença física.

Na minha juventude, os literatos patrícios perguntavam uns aos outros: —“Quando sai tua Guerra e paz?” E todos respondiam: “Estou caprichando.” Mas a Guerra e paz não saía. Eu só imaginava o escândalo que seria se, um dia, explodisse, no Brasil, uma súbita Guerra e paz. Até que, há pouco, fui ler todo o Gilberto Freyre. Li e reli. Fiz a enorme descoberta. Sua obra tem o movimento, a profundidade, a variedade do romance tolstoiano. 

O Globo, 28/ 3/ 1970

Postado por Antônio de Oliveira / agosto de 2017