BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempo – Carlos Drummond de Andrade)
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O canto lírico do berrante


 
A novela Paraíso (1982) é uma inebriante história de amor — ah... os anos 80. É ambientada numa bucólica cidadezinha do interior, com cavalos, peões, comitivas, modas de viola, famílias tradicionais, amores verdadeiros e um catolicismo ainda forte. Eu poderia dizer que é o Romeu e Julieta de Benedito Ruy Barbosa.

Grande parte da trama, do meio até o desfecho, discorre sobre um tema hoje muito discutido na Igreja Católica: os casamentos não consumados em longos processos de nulidade (ratum sed non consummatum). Naquela época não era tão comum como hoje.

O padre Paulo Ricardo certa vez falou que a maioria das pessoas se casa na Igreja sem dar relevância àquele momento sagrado. Mais tarde, já separadas, elas se descobrem católicas em uma verdadeira conversão. É quando se deparam com a realidade de que, para viver um novo e verdadeiro amor, enfrentarão um demorado processo eclesiástico, sem garantia alguma de sucesso.

Em Paraíso, no entanto, no crepuscular e derradeiro episódio, o mocinho toca o berrante ao longe, despertando sua virgem e amada, que já está pronta para ser beijada por outro no altar. De posse do resultado do ofício da Igreja, ele cavalga a galope até ela, rouba-a da cerimônia, coloca-a na garupa do seu cavalo e vai viver seu final feliz.

 © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / Agosto de 2026