BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 3 de julho de 2019

O poder do homem de 50 anos

Passados já sete anos — já estou com 57 —, só agora fui compreender o PODER DOS 50 ANOS, esse divisor de águas, esta ponte que separa o homem jovem do velho. E, aqui, eu passo um pouco da minha experiência a você, homem, que já chegou ou está perto de completar.

ACADEMIA: Quando chegar aos 50, diminua o peso que puxa na academia. Faça mais exercícios aeróbicos, porque é de fôlego que você precisará daqui em diante. Não se preocupe se as garotas vão reparar que você diminuiu a carga, porque elas vão parar de olhar para você de qualquer jeito. Quem vai sentir as dores depois é você. (Não tem Gelol que dê jeito numa coluna torta.) Agora, quer um conselho? Deixe o supino para os mais jovens e vá caminhar no parque, em ritmo moderado, claro. Cuidado só com seus joelhos, pois seus meniscos já não tem a mesma elasticidade e compressão. É melhor que tentar ser fitness e musculoso nessa idade. O importante é sua condição cardiovascular e não se você será um atleta de maratona ou rato de academia. Aliás, "cardiovascular" é uma palavra que entrará no seu vocabulário através do seu cardiologista. O quê? Vc não tem um? Logo, logo terá...

BEBIDAS: Água, já ouviu falar? Comece a beber. Pare com as bebidas alcoólicas como se ainda tivesse 49 aninhos. Comece a ter noção do limite. Não queira praticar esse esporte de beber, sem causa, com seus parceiros de botequim. Gota, sabe o que é? Pois é, ela está esperando você tomar o próximo porre de cerveja com muita carne vermelha, num churrasco. Seu joelho vai inchar e doer pra caralho! Dica: prive-se a tomar três latinhas de cerveja por semana. Ah! junto com Alopurinol 300ml. Pare por aí. Chega de happy hour todo dia e cachacinha com tira-gosto de moela ou chouriço. Você não tem mais organismo para chegar bêbado em casa. Súbito, sua mulher (mais nova) só está esperando um motivo para meter o pé na sua bunda. Você pode até insistir e ter vontade e atravessar os limites com seus amigos, mas seu organismo responderá com muita ressaca moral, indisposição e, talvez, uma internação por um pico de pressão ou — crendeuspai! — um AVC.

COMIDAS: Modere tudo. (Outra palavra a se acostumar: MODERAÇÃO) Tire o carboidrato imediatamente. Churrasco toda semana pode antecipar muitas doenças que você nem imaginava, mas seu avô morreu em decorrência. Já ouviu falar em pressão alta, diabetes, gastrite, pedras nos rins e vesícula? Pois é, essas doenças silenciosas pairam na sombra dos 50 anos. São implacáveis e quando você menos espera, elas se apresentam como alguém que você sempre evitou, mas seu amigo (a vida) insistiu em lhe apresentar. Destempere seu prato e acostume com as pequenas porções, agora seu metabolismo lento não permite extravagância alimentares. Tire o açúcar e durma mais. (Perca peso e me pergunte como.) Ser gordo nunca foi sinal de saúde. Gordo só serve para ser engraçado, enquanto está vivo. Para perder peso distancie de coisas básicas como cerveja, carboidrato e WhatsApp.

MÉDICO: Se você ainda não tem hábito de ir ao médico, por um simples check-up, comece a bater ponto. Urologista é o primeiro, porque sua próstata começará a inchar e sua urina já não faz aquele som gostoso no fundo do vaso. Exame de toque agora entrou no seu radar. (Só não se entusiasme, porque é feio virar veado nessa idade.) Consultar uma vez por ano já está bom demais. Você nem vai se incomodar — vai ficar até feliz — quando seu médico disser durante o exame: — "Sua próstata está lisinha, sem câncer, sem câncer...". Não dura 10 segundos. Talvez mais... Confira seu colesterol e diabetes a cada 4 meses.

COMPORTAMENTO: Pare de mascar chiclete e usar roupas de garotão na tentativa, em vão, de chamar atenção das garotas. Corte esse rabinho de cavalo ridículo e esconda suas tatuagens de mau gosto que você fez. Use roupas folgadas, de homem, e faça corte de cabelo normal — aparado. Assuma o grisalho e a calvície. Insisto: mulheres de 30 anos não estão nem aí mais para você. Elas só vão associar você ao "Tio Sukita". Lembra? (Mesmo que você tenha dinheiro, elas vão te achar velho do mesmo jeito, só que rebolando no seu iate.)

Pausa para frase:
"Com 30 anos de idade só existem três ocasiões em que uma mulher se interessa por um homem de mais de 50 anos: 1) quando ele é pai dela; 2) quando ele tem muito dinheiro (status) e; 3) quando ela é muito feia. Os olhos de uma mulher de 30 anos enxergam no homem a fertilidade. Depois dos 50, seu saco começa a balançar no vão das pernas."
Modere ou pare de fumar. Não use gírias e vocabulário de garotão. Seu filho não é seu amigo; ele é seu espermatozoide crescido e não tente acompanhá-lo, exceto na arquibancada de um estádio de futebol. Você só tem idade para ir ao show do Paul McCartney, em lugar coberto, com assento e perto do banheiro. Ler livros de filosofia e ver filmes e séries de conteúdo agora condizem com você. Chega de Marvel e coisas do gênero. Liberte o cinquentão que existe em você e não acredite nessa história de "melhor idade", porque é puro marketing para vender pacotes de viagens ao Nordeste. Como pode ser melhor idade com esse joelho latejando? Por fim, acostume-se a ouvir que seus amigos (que não se cuidam) estão indo embora; indo dessa pra melhor.

Como pode notar, meu caro, depois dos 50 anos, o homem não tem poder nenhum mais. Digo, claro, não tem muito controle sobre seu corpo, porque as mudanças vêm a galope. Isso não quer dizer, também, que você está com o pé na cova. Ainda há uma vida boa (embora lenta) pela frente. Mantenha-se vivo, tendo sua mente sã, se preocupando com aquilo que realmente vale a pena e já está fazendo muito bem. Mande à merda quando lhe encherem o saco. Você não tem obrigação de agradar ninguém mais. Se conseguir fazer sexo (bem e sem viagra) uma vez por semana, com a mesma mulher, comemore, porque, aos 50 anos, sua libido começa a entrar para seu livro de memórias.  E por falar nisso, comece a anotar tudo, porque sua memória ainda vai fazer você procurar os óculos dentro da geladeira.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / julho de 2019

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O diário (atualizado) de Bridget Jones


Na virada do milênio, muitas pessoas esperavam por uma grande catástrofe mundial. Outros mais conspiradores e apocalípticos, o fim dos tempos. Os celulares (ainda sem internet) ficaram mais lentos. Ligações eram impossíveis de se completar na noite de 1999 para 2000. Eu estava na praia com amigos e a única coisa que me lembro, naquela noite, foi que, na minha cidade uma grande tempestade alagou uma das principais vias, um córrego transbordou e muitas pessoas ficaram ilhadas. Fora isso, parecia uma passagem de um ano para o outro, como se deita e se levanta. Nada além de champanhes e cervejas para comemorar.

O tempo galopou. Já estamos em 2019. Lá se foram 20 anos do bug do milênio que não houve. Nada parece ter acontecido de especial, não é? Mas não se engane, algo aconteceu, sim. Não foi nenhuma catástrofe, terremoto, tsunami, cataclisma, ou outro fenômeno na natureza que mudou nossas vidas. Não tivemos guerras entre nações. O que avançou, de forma galopante, foi algo que parecia inofensivo, à primeira vista. O advento e crescimento da internet, e suas ramificações, mudaram muito, sim, nossas vidas. Bridget Jones, por exemplo.

Fui ver O Diário de Bridget Jones no cinema, em 2001. Nada a acrescentar naquela comédia romântica, onde a protagonista (Renée Zellweger) era uma atrapalhada e insegura balzaquiana querendo encontrar seu grande amor — sem perfil no Tinder. Saímos do cinema e fomos beber chope sem comentar nada sobre o filme. (À parte, a trilha sonora, que já virou favorita na minha playlist do Spotify.)

Em 2001, aquela figura feminina, britânica (ainda como a deixamos em 1999), não era nada diferente do que se via aqui, nos trópicos. Bridget era a perfeita caricatura daquela mulher insegura que tentava se firmar num romance, já com o peso dos seus 33 anos anos, se sentindo gorda e velha demais para a maternidade e o amor. Ela queria algo que fosse durável, não só sentir, mas ouvir palavras, porque era insegura demais para olhares e gestos. Era uma eterna romântica, vivendo entre dois amores platônicos. E quando eles se manifestaram, ela se perguntou: — Será comigo?

Ao que surte, ela também não precisava de coisas materiais. Ela era uma jovem jornalista rechonchudinha que havia se emancipado, morando num apartamento de fazer inveja a qualquer um, abrindo mão do aconchego da casa dos pais. Ela queria se sentir uma mulher de verdade, emancipada e livre. Quando se recolhia, vinha o vazio da tv ligada (sem atenção), o cigarro e ao fundo All by myself. E nada mais casual que uma funcionária se interessar pelo seu chefe, embora ele a visse só como mais uma mulher que ele não levou para cama, ainda.

Bridget não queria sexo, mas o amor, o homem perfeito e para sempre. Nada piegas àqueles anos, porque era disso que nutriam os corações: amor e o encontro da felicidade. Com todo mundo achando a coisa mais normal do mundo e uma história como de muitas outras garotas da época. — Bridget Jones é minha história de vida. Muitas devem ter pensado nisso. Mas e hoje, como seria uma história de Bridget Jones? Seu estereótipo estaria ultrapassado?

A Bridget Jones, 30 anos de idade, hoje, não teria diário. Ela tem mesmo um stories no Instagram alimentado diariamente com fotos dos seus melhores momentos. Nada de lamúrias, reclamações de estar só. A vida tem que ser mostrada como a vislumbramos, com fotos filtradas em posições que demonstrem um corpo exuberante. Mesmo que tudo esteja dando errado (indo para outro caminho), o importante é a foto na praia onde só mostrem os pés e o mar ao fundo com uma frase de autoajuda para ilustrar o momento. O que importa é se ver como inspiração, curtida ou mesmo invejada por seguidores.

E como se repetem por aí "você precisa se amar". O verbo amar é algo para si e não para repartir com alguém (com Daniel ou Mark). O psicanalista Gikovate (1943-2016) discordava disso. Ele dizia que amar só se conjuga quando há outra pessoa na sua frente, o que se sente por alguém, e intransitivo na raiz. Ninguém é capaz de amar a si próprio, embora já vimos muitas notícias de pessoas que, recentemente, tenham se casado consigo mesma. Uma coisa de endoidecer e cada vez mais comum neste século.

Quando se ama necessariamente se ama alguém. Amar "a si próprio" é só a elevação da autoestima a um estado de prazer e completude. Bridget Jones de 2019 é uma solteirona que não se importa com a condenação do destino: solteirona. Ela olha para os lados e as amigas estão na mesma situação. Olha para outro e vê homens imaturos com 40 anos, morando com os pais, quando não muito, homens de geleia e sem objetivos. Então, ela já não se incomoda mais com nada. Seu WhatsApp bomba a toda hora com amigas mandando nudes e piadas de relacionamentos.

Indo mais para o extremismo, há aquelas que encontraram refúgio no feminismo (fincou raiz neste século). Eis um lugar seguro para se justificar: achar o mundo masculino desnecessário, porque todos os homens mentem; todos os homens são machistas; todos os homens não prestam. Então, é melhor ficar só e ter uma relação fortuita para não enferrujar.

O mundo moderno, visto pela tela de um smartphone, criou a desculpa para o vexame. Ninguém se sente mais inseguro quando se tem uma resposta adequada no Google para suas questões e quedas. Junte-se a isso as inspirações, como, por exemplo, numa cidade do Canadá uma jovem que decidiu viajar o mundo com 20 dólares. Viramos — e Bridget, consequentemente — refém da nossa própria desordem emocional e uma vida cada vez mais virtual no modo de se partilhar. Onde os afetos são substituídos por pets, barras de chocolates e curtidas. A dor, em total controle, nos mantém num estado de coma. Enquanto as filas aumentam nos consultórios de psicanálise.

Quando, ainda no século passado, todos pareciam caminhar para o mesmo lado, porque era evidente e óbvia a vida; hoje, vislumbram e experimentam sentidos antagônicos, opostos, numa sociedade cada vez mais verificada por pautas e discussões em redes sociais. Com o surgimento de diversos outros comportamentos que pareciam superados desde que os sapiens habitaram o planeta, há 70 mil anos. A natureza humana, a biologia e as formas mais tradicionais de comportamento e vida já não servem mais. É preciso lacrar, quebrando regras e paradoxos; é justificável enfrentar o protagonismo para se sentir mais inserido.

Todo dia é um enfrentamento em desconstrução às narrativas que perfuram à lógica. E como já disse alguém por aí: a internet deu voz ao imbecil.

A história de Bridget Jones ainda teve outras duas sequências. Uma em 2004 e outra mais recente em 2016, quando nossa frívola heroína já está com 43 anos e ainda solteira. A acrescentar, uma cena me chamou atenção nesse — espero — último episódio. Bridget ao descobrir que está grávida, sai à procura do pai. Um novo affair ou sua eterna paixão Mark Darcy (Colin Firth)? Quem será o pai da criança?

Na cena que sua bolsa se rompe, Mark a leva à um hospital carregando-a, parte do trecho, no colo. No caminho, eles têm que passar por uma passeata feminista. Nesse ponto, a história da solteirona se encontra (e cruza) com a de uma nova geração de mulheres. Essas que acham homens desnecessários e por isso protagonizam manifestações, desafiando velhos estereótipos e de culto à beleza. É melhor parar por aqui. Bridget não cabe mais nesse mundo.

Um mundo cada vez mais virtual, idiota e limpinho. Onde as pessoas estão preocupadas com canudinhos plástico e alguém inventou um pegador de pizza para não ter que sujar suas mãos. E eu nem falei dos anos de 1980. Quanta saudade...

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / junho de 2019

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Quando chama o coração... peraí


ATENÇÃO! ALERTA DE SPOILER 
Enquanto escrevo essas linhas, a crônica Quando chama o coração (ler aqui) já ultrapassou 10 mil views (ou leituras), aqui no Blog. O sucesso, com um número crescente nas últimas semanas, se deve ao fato da Netflix ter disponibilizado a quinta temporada de When Calls The Heart, no início deste mês. A procura por marcadores acaba encontrando este Blog, sem querer. Obrigado!

Na Netflix, a série já está na lista de "em alta", porque os fãs querem saber como continua a história de amor entre Elizabeth e Jack.

Não precisa dizer que, quando escrevi a crônica, em março de 2018, estava muito empolgado com a repercussão das imagens que chegavam dos EUA, dessa mesma quinta temporada. Ali, pelo sétimo episódio, acontece o casamento da década, como anunciou a Hallmark Channel. Finalmente Elizabeth e Jack se casam e pareciam que iam viver uma vida eterna, formando família e que tudo terminaria bem. Mas não foi bem isso... (Confesso que esse término da quinta temporada destemperou o romantismo que dei à minha crônica. Foi uma ducha de água fria.)

Aconteceu, porém, o inesperado. Capítulos depois, o personagem do mocinho Jack some, morre numa missão (?). A morte de Jack pegou todos de surpresa, não só os personagens, mas também o público fã da série. Os comentários nas redes sociais aqui no Brasil e nos EUA eram diversos e divergiam sobre a motivação da morte do personagem.

As mudanças de roteiro não agradou ninguém, claro. Tanto o público como o elenco ficaram perdidos: e agora? A atriz Erin Krakow fez uma live no Instagram na mesma semana. Não dava para esconder os olhos inchados de um choro que não sabemos ao certo se era dela ou de Elizabeth. Depois, a produtora da série, Hallmark Channel, fez uma outra live no Facebook com os dois atores (Erin e Daniel) sentados num sofá com a atriz Lori Loughlin no meio, como se estivesse apaziguando uma briga. Dessa vez Erin não escondeu e deixou escapar algumas lágrimas. O seu choro era de alguém que queria se recuperar de uma dor que ainda sentia. (Tenho comigo — não contem nada a ninguém — que ela estava apaixonada por Daniel.)

Dias depois, as duas atrizes vieram novamente às redes sociais anunciar que a série teria uma sexta temporada. E como todos já imaginavam, um bebê estava a caminho, dando linha a um roteiro reescrito. Mas muitos fãs afirmavam que não assistiriam a continuidade; não haveria mais graça seguir a série dali em diante. Aquele romance, que colocava tempero na história, agora era uma lembrança de Elizabeth. Seu herói estava morto. Era o fim de uma eternidade.

Depois, acompanhando os bastidores, descobri que o ator que interpreta o mountie Jack Thornton, Daniel Lissing, pediu para sair da série com a desculpa que tinha convites para outros papéis. Fiz alguns comentários que não agradaram muitas fãs do ator. Fazer o quê. Eu achei, e continuo achando, sua atitude uma falta de profissionalismo. Ele deveria ter respeitado o contrato e ido até o fim da quinta temporada, ao menos. Aliás, eu acho que não deveria nem haver a sexta. (Está para entrar no ar nos próximos dias nos EUA).

Encerrando, e sendo menos romântico que a crônica anterior, When Calls The Heart continua um refúgio para quem já se cansou deste século XXI tão cheio de valores invertidos (eu cansei). A série é pura emoção, ternura, romantismo, compaixão e tudo que agrada os olhos e os demais sentidos. Se fosse um cheiro, seria como o aroma de café da manhã, numa janela aberta ao passado.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / fevereiro de 2019

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Terreno Baldio

Essa crônica de Nelson Rodrigues pode ser encontrada no livro "A cabra vadia", mas hoje, exclusivamente, decidi postar aqui. É memorável. 

Ah, como é falsa a entrevista verdadeira! Não sei se me entendem. Eis o que eu queria dizer: — trabalho em jornal desde os treze anos e tenho 55 anos. Façam as contas. São 42 anos. Depois de 42 anos de redação, o sujeito acumulou uma experiência em nada inferior às obras completas de William Shakespeare.Posso ir à boca de cena, alçar a fronte e anunciar para a platéia: — “Eu vi tudo e sei tudo”. Não vejam imodéstia nas minhas palavras. Qualquer repórter de polícia, em fim de carreira, terá a mesmíssima vidência shakespeariana. O mérito não é  nosso, mas estritamente profissional. E, depois de 42 anos de  vida jornalística, posso repetir: — nada mais cínico, nada mais apócrifo do que a entrevista verdadeira.

Não me esquecerei nunca do meu primeiro entrevistado. Se não me engano, era o diretor da Casa da Moeda (ou seria da Imprensa Nacional?). Mas não importam os títulos do homem, nem suas funções. O entrevistado é sempre o mesmo, variando apenas de terno e de feitio de nariz. No mais, há uma semelhança espantosa. Nem importa o assunto. Seja batalha de confete, ou Hiroshima, um cano furado ou os Direitos do Homem. O que vale é o cinismo gigantesco. O sujeito não diz uma palavra do que pensa, ou sente. E o pior é o gesto, é a ênfase, é a inflexão. O diretor da Casa da Moeda, que também podia ser da Imprensa Nacional, recebeu-me no seu gabinete. Falou uma hora, ou mais. Hora e meia. Mas fosse um Bismarck e daria no mesmo. Ele se perfilava para falar, como se a sua palavra fosse o próprio Hino Nacional.

Fiz outras entrevistas, centenas, dezenas de entrevistas. E todas me deixaram a mesma sensação de cinismo. No fim de alguns anos, eis a minha certeza definitiva, inapelável: — ninguém devia ser entrevistado, nem os santos. Até que, um dia, na crônica, ocorreume a idéia das “entrevistas imaginárias”. Aí estava a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto. Fascinou-me a “entrevista imaginária”. Precisava, porém, arranjar-lhe uma paisagem. Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências. Restava o problema do horário. Podia ser meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Nada do que se diz, ou faz, à meia-noite, é intranscendente. Boa hora para matar, para morrer ou, simplesmente, para dizer as verdades atrozes.

Fiz “entrevistas imaginárias” com jogadores, dirigentes de futebol, literatos. Ainda anteontem, o Antonio Callado foi meu convidado no terreno baldio. Mas eu sentia, de maneira obscura, quase dolorosa, que faltava alguém no capinzal. “Mas quem?” — eis o que me perguntava. — “Quem?” E, súbito, um nome ilumina minhas trevas interiores: — “D. Hélder!”. De todos os vivos ou mortos do Brasil, era ele o mais urgente, o mais premente. E, de mais a mais, uma batina é sempre paisagística. Ontem, finalmente, houve, no terreno baldio, a “entrevista imaginária”. À meia-noite, em ponto, chegava d. Hélder. Lá estava também a cabra, comendo capim, ou, melhor dizendo,  comendo a paisagem. À luz do archote, começamos a conversar.  Primeira pergunta: — “O senhor fuma, d. Hélder?”. Resposta: — “A entrevista é imaginária?”. Acho graça: — “Ou o senhor duvida?”. E d. Hélder: — “Se é imaginária, fumo. Qual é o teu?”. Digo: — “Caporal Amarelinho”. Cuspiu por cima do ombro: — “Deus me livre! Matarato!”. Faço a pergunta: — “Que notícias o senhor me dá da  vida eterna?”. Riu: — “Rapaz! Não sou leitor do  Tico-Tico  nem do  Gibi. Está-me achando com cara de vida eterna?”. No meu espanto, indago: — “E o senhor acredita em Deus? Pelo menos em Deus?”. O arcebispo abre os braços, num escândalo profundo: — “Nem o Alceu acredita em Deus. Traz o Alceu para o terreno baldio e pergunta”. Ele continuava: — “O Alceu acha graça na vida eterna. A vida eterna nunca encheu a barriga de ninguém”.

D. Hélder falava e eu ia taquigrafando tudo. Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real. E disse mais: — “Vocês falam de santos, de anjos, de profetas, e outros bichos. Mas vem cá. E a fome do Nordeste? Vamos ao concreto. E a fome do Nordeste?”. Não me ocorreu nenhum outro comentário senão este:  — “A fome do Nordeste é a fome do Nordeste”. D. Hélder estende a mão: — “Dá um dos teus mata-ratos”. Acendi-lhe o cigarro.  D. Hélder não pára mais: — “Diz cá uma coisa, meu bom Nelson. Você já viu um santo, uma santa? Por exemplo: — Joana D’Arc. Já viu a nossa querida Joana D’Arc baixar no Nordeste e dar uma bolacha a uma criança? As crianças lá morrem como ratas. E o que é que esse tal de são Francisco de Assis fez pelo Nordeste? Conversa, conversa!”.

Lanço outra isca: — “É verdade que o senhor vai para o Amazonas?”. Riu: — “Onde fica esse troço? Ó rapaz!  Ainda nunca desconfiaste que a fome do Nordeste é o meu ganha-pão? E o Amazonas é terra de jacaré. Tenho cara de jacaré?”. Concordo em que ele não tem nenhuma semelhança física com um jacaré. Indago: — “E o comunismo?”. D. Hélder conta: — “Quando estive nos Estados Unidos, bolei um cartaz assim: O arcebispo vermelho! Era eu o arcebispo vermelho, eu!”. Insinuei a dúvida: — “Mas esse negócio de comunismo é meio perigoso”. Nova risada: — “Perigosa é a direita. A direita é que não dá mais nada. O  arcebispo vermelho  fez um sucesso tremendo nos Estados Unidos”.

Pede outro cigarro. Fez novas confidências: — “Sou homem da minha época. Na Idade Média, eu era da vida eterna, do Sobrenatural. Fui um santo. É o que lhe digo: — cada época tem seus padrões. Benjamim Costallat, no seu tempo, era o Proust. O Charleston já foi a grande moda. Pelo amor de Deus, não me falem da vida eterna, que é mais antiga, mais obsoleta do que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Hoje, a moda não é mais Benjamim Costallat, nem o Charleston. Entende? É Guevara. O  santo é Guevara. E acompanho a moda”. Desfechei-lhe a pergunta final: — “E a Presidência  da República?”. D. Hélder respira fundo: — “Depende. A fome do Nordeste é o barril de pólvora balcânico. Fome, mortalidade infantil, muita miséria e cada vez maior. Chegarei lá”. Era o fim da “entrevista imaginária”. Despedi-me assim: — “Até logo, presidente”. Respondeu: — “Obrigado, irmão”. E antes de partir fez a última declaração: — “Olha, as donas de casa têm uma simpatia para curar dor de barriguinha em criança. Acredito mais na simpatia do que na ressurreição de Lázaro”. Disse isso e sumiu na treva”. 

(publicação original em 14 de março de 1968)

 © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / dezembro de 2018

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Pesar de você


Dois dias depois da eleição de Jair Bolsonaro, num ato de protesto em favor da democracia (oi?), Guilherme Boulous arrastou alguns punhados de estudantes — sempre eles — para seu delírio revolucionário; também para dizer que agora eles seriam a “resistência”, como se estivéssemos às portas de um regime de exceção. Entre um discurso e outro, vi alguns jovens (18 anos, por aí) entoando “Apesar de você”, que rolava numa caixa de som.

A música composta em 1970 era uma carta (sem selo e postagem), em versos subliminares, direcionada ao presidente que Chico Buarque não gostava: Garrastazu Médici. Médici era o “você” da música-homenagem. Etecetera e tal laiá laiá...

Quase meio século depois, a música foi exumada e agora é retumbada em atos de protestos dos movimentos de esquerda pelo país. (Na cabeça deles, ainda vivemos aqueles anos. Ou: ninguém escreveu algo melhor para o Brasil de 2018). Mesmo esses jovens (anos 2000), que nunca tinham ouvido, num desconhecimento histórico, passaram a cantar, como um ato contínuo.

Mas, preste atenção na letra. Ela não se assemelha com nada do momento atual do país; momento de mudança, de pôr ordem na casa, de combate à corrupção, de respeito aos símbolos nacionais e à Constituição. Tudo sob os olhares da velha e boa democracia. Uma roupa surrada, puída querendo se vestir numa visão nova de país. Por outro lado, a música se encaixa melhor (mais apropriada) nos 14 anos de Lula/Dilma. O trem fantasma de onde o país saiu e agora quer esquecer.

O caminho que o PT estava conduzindo o país, sob a agenda do Foro de São Paulo ipsis litteris, era autoritário e ditatorial. Não há mais dúvida! Um Estado inchado, corrupto e de poderes plenos ao partido da estrela vermelha. Sob seus pés, uma população miserável, sem emprego, sem educação, indefesa, amedrontada e viciada em assistencialismo. É fato: tudo que eles diziam combater era o que queriam nos servir: a grande pátria latino-americana e socialista. Fomos salvos e despertados pela Lava Jato e por Sérgio Moro, aos 40 minutos do segundo tempo.

Hoje, quando vejo um jovem desses, geração snowflake (rebelde sem causa), cantando o que nem sabe o que representou, eu sinto mesmo um pesar dele; um pesar de você.

 © Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / novembro de 2018

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Quem deu a facada?

Quem deu a facada em Bolsonaro foram os mesmos que levaram o país a essa miséria intelectual que nos aprisiona hoje. Ou você só acredita em miséria baseada na fome do Nordeste?

Adélio foi só um instrumento e o portador do objeto perfurante; aquele que consumou o ato. Pare e pense: Por que matar uma só pessoa e não um outro ou todos? Por que Bolsonaro? Simples de explicar. Porque ele representa o perigo para a desarticulação do sistema perverso, corrupto e canalha que nos envolve por décadas. Quem deu a facada foram eles.

Há tempos o país não se reconhece mais. E isso não é obra do acaso, como alguns idiotas ainda acham. Isso tem fórmula, alquimia e foi calculado para acontecer nesse tempo. Um povo atingido por todos os níveis de miséria humana não tem reação nenhuma ao poder, irá se vergar a ele e lamber suas botas. Um povo entorpecido por esse sistema é capaz, inclusive, de tirar da cadeia um condenado por corrupção e lavagem de dinheiro de dentro e transformá-lo em presidente. Ao mesmo tempo, achar intolerante, homofóbico, racista, misógino um com a ficha limpa. Um dos problemas do país, dessa miséria intelectual, é se compadecer com o que dizem e não enxergar o óbvio que acontece, de fato, a um palmo do nariz.

Eis o país que deu a faca ao criminoso; um país padecido na miséria humana e intelectual. Ele não se reconhece mais. Não vê gravidade no seu e no futuro de seus filhos e netos.

Isso precisa ter um dia do “basta”.

O país precisa parar de entregar a faca aos criminosos que irão, mais cedo ou mais tarde, golpeá-lo pelas costas.

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / setembro de 2018

segunda-feira, 26 de março de 2018

Quando chama o coração

Eu tenho andando esses dias, digamos assim, mais emotivo. Então, aproveitei para vir aqui no meu refúgio e recostar no meu divã. Por vezes já caí numa cama com o coração nas mãos — meus 20 anos —, como se estivesse doente fisicamente, mas é alma, só alma. Apartei-me dos noticiários do cotidiano, da política, das discussões, da chateação e o que se revelou foi um peito entornando. Amor por alguém? Não, amor que não se põe em colo nenhum, mas que se sente no ar.

(Não tenho certeza, porque não lembro, se foi Nelson Rodrigues quem disse que o único amor puro é aquele que brota na nossa infância. Deve ter sido ele, vou pesquisar...)

Tenho passado uns tempos de muitas discussões e debates nas redes sociais. E por essas eu andei exaurido, fadigado, intolerante, gritando e xingando virtualmente. Fico atônito e inconformado, como muitos, porque queria que as coisas andassem de forma ligeira. Que a justiça viesse a galope, dragando e arrastando tudo e todos para dentro de um calabouço, onde só cabem os marginais do poder. Mas nem tudo depende de meu esforço, ou do meu pensamento positivo — eu penso, logo acontece. Há que se ter resiliência para aceitar e aguardar o tempo onde tudo acontecerá.

Nessa encruzilhada, redirecionei meus pensamentos para outros assuntos e acabei captando paisagens perdidas na janela da minha vida: — Olha aquele amor que pouco se comenta, está passando ali, virando uma esquina... Ele ainda habita no mundo, nos becos, nas casinhas dos arredores, nas montanhas; e, como terra molhada, tem cheiro de chuva. Há pessoas se amando nas nuvens,  nas madrugadas, em lençóis, fronhas, e ouvindo canções de amor. Há pessoas se olhando nos olhos, dizendo "sim" e colocando aliança nos dedos, sem receio do futuro. Ainda há.

(O outono se anuncia e toda vez que ele chega, vem um vento forte dos bons sentimentos; mais frio nas manhãs e mais calor no coração. E tudo fica mais à flor da pele. Os sentimentos brotam como folhas secas no cimento duro da calçada.)

Toda vez que ouvimos falar de histórias de amor, vem à mente uma tragédia como uma sobremesa acre depois do jantar, como dedos e unhas são justapostos. — Porque ninguém pode ser tão feliz assim, e uma tragédia deve acontecer — responderá o leitor. Nunca é um amor com final feliz. Sempre os protagonistas terão um câncer ou uma morte que impeça aquilo (o amor) de ser velho, de gerar filhos, netos e bisnetos; que impeça o amor de ser eterno. Claro que há, na vida real. Em ocasiões raras, já deparei com histórias de casais octogenários quando um morre o outro vai logo em seguida. Os antigos diziam que fulano "morreu de paixão". Não é uma dramaturgia shakespeariana, mas historias de gente de verdade, que não vão para os livros.

E por lembrar Shakespeare, veja que Romeu e Julieta é uma história que se repete ainda nos nossos dias. Digo que ela se repete, porque aqueles que ainda insistem nesse tema (romancistas e roteiristas) seguem a linha do amor que acaba em tragédia, em atropelamento, em doença, em crime e vingança. O amor que mata por amor, que morre por amor, por parecer grande demais ao mundo e o mundo não saber lidar com ele. E todos ficam com aquele nó na garganta de que algo poderia ser diferente. Aí eu pergunto: não dá para ser feliz para sempre, e além da eternidade? Amor que acaba em tragédia não é amor.

Bem, vamos ao que interessa. Já faz um ano, estava procurando algo novo para assistir na TV, cliquei numa série que, só pela sinopse minhas pupilas dilataram: No início do século XX, uma professora linda, recém formada, de família aristocrata, abandona seu conforto para lecionar numa pequena vila na fronteira dos EUA com o Canadá. Como sou capturado por filmes de chapéus e vestidos longos, me peguei a ver, mas já com medo de ser uma dessas tragédias de desencontros, conflitos (com ganhos e perdas) e morte com faca atravessando um corpo na beira da estrada.  

When Calls The Heart é muito maior que isso. É uma história de amor; do amor que se dá e recebe de volta; do amor que é possível e para sempre. Do amor que não se confunde com paixão. Daquele que brota no coração à léguas de distância das suas almas; e seguindo seu rastro e aroma como se o coração chamasse: venha, estou aqui! E faz seu imaginário flutuar, de não ter nem forças para encostar a cabeça no travesseiro e dormir. Você sonha acordado: é disso que sinto falta, desse amor...

A série é baseada no livro homônimo (1983) da escritora canadense Janette Oke. Numa pesquisa rápida, Janette tem 83 anos, e ela se dedica a escrever romances falando sobre sua fé cristã, onde, em muitas vezes, as mulheres são protagonistas.

Depois desse parênteses técnico, sigamos. Elizabeth Thatcher, a bela protagonista, vai atrás do desconhecido. Ela vai em busca de sonhos, com coragem, vivacidade, independência, como num retiro espiritual da sua vida. Ao chegar, ela encontra uma Coal Valley chocada com o acidente na mina de carvão que vitimou mais de quarenta homens. Por consequência, muitas viúvas tendo que criar seus filhos, sozinhas. Desde então, ela começa a perceber que não iria encontrar vida fácil naquela cidadezinha. Mas havia algo maior que tudo no caminho: o amor.

A escola, onde iria lecionar, não existe mais. Ela terá que improvisar e ministrar suas aulas num saloon, que fica fechado durante o dia. As crianças daquela cidade parecem despertar nela um outro sentimento que ainda não tinha tido: a dor pela perda de alguém próximo. É hora de ser mais forte e ajudá-las a enfrentar esse momento. Ao mesmo tempo da sua chegada, o policial de montaria Jack Thornton também apeia na cidade como representante da lei. Jack é jovem, belo, viril, corajoso e justo. O primeiro olhar entre eles é trocado no primeiro episódio e nunca mais eles serão os mesmos. Eles se apaixonam à primeira vista.

O amor que brota, cresce e toma conta entre o policial Jack e sua amada professora Elizabeth é algo de sonho, de conto de fadas. Eles têm pureza na alma. O primeiro beijo vão episódios para acontecer. Eles se amam nos olhares, nos gestos de bravura  e reconhecimento; uma admiração sem muitas palavras. Num dos episódios, Elizabeth tenta editar suas memórias em um livro, e quando ela manda uma carta para a editora, recebe um "não" como resposta. Imediatamente, Jack, percebendo sua tristeza, a surpreende ao confeccionar um único livro para ela. Ele, além disso, ilustra seus textos com seus desenhos. A conquista do coração com gestos singelos. Ela se joga em seus braços quando ele lhe entrega o livro.

O episódio do Natal é também surpreendente e mágico.  (Sem dar muito spoiler, mas vou contar só esse.) Às vésperas do Natal, surge na cidade um velhinho com seu cachorro e numa carruagem cheia de bugigangas. Ele tem um slogan: "eu tenho exatamente aquilo que você precisa". Exibe simpatia e diz pertencer a lugar nenhum, mas vive no mundo... As crianças ao avistarem na sua carruagem, já o identificam: Santa! Mas algo inesperado acabou estragando o baile da polícia que Jack iria levar Elizabeth. O trem, onde trazia os presentes das crianças de Hope Valley (a cidade havia mudado de nome alguns capítulos anteriores), descarrila. Imediatamente, a cidade se junta para fabricar presentes com os objetos que as pessoas possuíam em casa. Nenhuma criança podia ficar sem.

Tudo deu certo. Depois da encenação do Natal e a distribuição dos presentes, Jack recebe do velhinho viajante uma caixinha de música, e lhe diz: — não precisa pagar... Ao mesmo tempo que Elizabeth chega em casa exaurida e vê na sua árvore de Natal um bilhete de Jack pedindo para comparecer ao saloon numa roupa informal. Ela põe o seu vestido de baile e vai até ao encontro com Jack. Quando chega, vê um ambiente todo iluminado à luz de vela, como se fosse um salão de baile. Jack aparece segurando aquela caixinha de música de repertório único, e eles dançam. Antes de partir da cidade, aquele velhinho arremessa uma bola de basebol para o alto, até ela explodir em fogos de artifício e fazer a neve cair na noite de Natal de Hope Valley. Ele era mesmo o papai Noel.

WCTH é puro amor, sem tragédia. Totalmente politicamente incorreta, não porque retrata um período que já parece longínquo da nossa história (o século XX), mas por não dar espaço a discussões como gênero, homossexualismo, feminismo e outros temas do maldito mundo de hoje. Ao contrário, a cada episódio o público leva consigo uma mensagem de compaixão, amizade, heroísmo, resgate, bravura, justiça, fé e amor. A série transmite valores conservadores que uma novela da Globo não mostraria, e sem ser piegas. Tudo se condensa e a faz você aspirar, como se segue um aroma de café fresco quando os olhos se abrem pela manhã.

Enquanto a quinta temporada ainda não chega ao Brasil — Go Netflix! —, os fãs americanos estão se emocionando, todos os domingos, com cada episódio dessa temporada. Tenho acompanhado alguma coisa via Twitter. O ápice foi no domingo (18/03) com o casamento de Jack e Elizabeth; aquele que a Hallmark Channel chamou de "o casamento da década", porque era tudo que o público esperava desde o primeiro episódio. Eles eram correspondentes em tudo e o casamento foi a premiação e a consequência desse amor. O casamento foi para selar o compromisso já assumido daquelas almas, desde o primeiro olhar. Gostaria de reproduzir toda a cena da celebração, mas deixo aqui resumido só um instante: na igrejinha de Hope Valley (Elizabeth ministrou muitas aulas à suas crianças), uma lágrima — única e pequena lágrima — escorre pelo canto de seus olhos, quando ela declara todo o seu amor, e termina com a voz murmurada: — I'm yours.

"They say There´s fireworks in empty Sky. They say. That your stomach fills up with butterflies. They say. You will know. Cause your heart takes flight. When you finally find THE ONE..."
A coisa foi levada tão a sério, que parecia ser vida real. A atriz Erin Krakow (Elizabeth) trocou o sobrenome de solteira de sua personagem para o de casada, na bio da sua conta de Twitter. Passou a se chamar "Elizabeth Thornton". Uma realidade fora do comum, enquanto a hashtag "Hearties", que marca os apaixonados pela série, chegou ao oitavo lugar naquela tarde/noite nos EUA. Os hearties estavam com os olhos cheios de lágrimas. Eu, sem assistir, também fiquei.

O Canal dos EUA Hallmark Channel (tem um histórico de ser um canal cristão com conteúdo para a família), produtor da série, anunciou na mesma semana que WCTH terá a sexta temporada. O sucesso do episódio do casamento teve uma repercussão tão grande, que eles apostaram numa última e derradeira temporada (última?). Isso só comprovou uma coisa: as pessoas, lá e em qualquer lugar do mundo, ainda quererem ver mesmo é história de amor, e com final feliz.

Nessa, meu imaginário já viajou ao término dessa linda história: Jack e Elizabeth irão envelhecer em Hope Valley. Lutarão por outras causas e amores; terão filhos e netos; e, por fim, uma eternidade para viverem. E o mundo ainda respira, porque existe amor. E ele está no ar.

(Lembrei-me da frase de Nelson Rodrigues: "Como sempre me apaixonei por minhas professoras, acho que as grandes paixões do homem surgem quando ele está entre os seis e dez anos, apenas". Então, eu posso dizer que tive a minha Elizabeth Thatcher.)

© Antônio de Oliveira / arquiteto, urbanista e cronista / março de 2018