BEM-VINDOS À CRÔNICAS, ETC.


Amor é privilégio de maduros / estendidos na mais estreita cama, / que se torna a mais / larga e mais relvosa, / roçando, em cada poro, o céu do corpo. / É isto, amor: o ganho não previsto, / o prêmio subterrâneo e coruscante, / leitura de relâmpago cifrado, /que, decifrado, nada mais existe / valendo a pena e o preço do terrestre, / salvo o minuto de ouro no relógio / minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / depois de se arquivar toda a ciência / herdada, ouvida. / Amor começa tarde. (O Amor e seu tempoCarlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A geração ponto com

De tanto ouvir falar, e para não ser atropelado por essa ou qualquer outra geração futura, fui procurar saber o que é “Geração Y”. Entender esses novos seres que habitam o planeta; as causas e consequências nesse choque frontal de gerações, de A a Z. Ou seja, estar em sintonia com meu tempo, para não ser pego desprevenido. Tenho me assustado com alguns comportamentos ultimamente – isolados ainda -, que chegam a me arrepiar, me fazendo pensar se ainda vivo nesse planeta. Será que não estou mais nele? No mundo, onde nosso lado ocidental não está em guerra com ninguém, diretamente, a qualquer disparo, chego a pensar em trincheiras. Tenho receio das revoluções silenciosas.

Esta ordem parece ilógica, pois a geração X é do início dos anos 60, e pela sequência, veio a geração Z e agora a Y. E depois dessa? Acabou o alfabeto... Sei de outras classificações, como aquela que chamavam geração Coca-Cola – anos 80; essa que dizem ser a década perdida, pois nada aconteceu. Será? Ficou marcada pela música homônima da Legião Urbana “Somos os filhos da revolução / Somos burgueses sem religião / Somos o futuro da nação / Geração Coca-Cola”. Antes, ouvi dizer da geração Woodstock – final dos 60 e início dos anos 70, definida pelos movimentos de contracultura, da liberdade de expressão, dos protestos estudantis pelo mundo e do rock´n roll na veia.

Não sei dizer qual delas eu me encaixo, acho que um pouco de cada. As gerações marcam um período, ou vêm retratar o comportamento das pessoas diante do mundo do qual elas representam; um mundo do qual elas receberam e agora modelam com suas mãos. E depois vão tentando se livrar, porque a vida se torna monótona, ultrapassada e escravizada. Partem para outra.

Esta geração, que chamam de Y (nascidos após 1980), é marcada pelos avanços e usos dos recursos tecnológicos; os meios tecnológicos de última geração - ultimate. Na contramão, ainda há, por exemplo, os que em plena era do som digital, preferem o bom e velho disco vinil - como num filme que vi. Mas, a geração Y não está nem aí com quem quer ficar para trás. Eles vão adiante. São tão avançados que, temos impressão de uma criança, antes de aprender a falar, já manuseia esses instrumentos com desenvoltura; o que, para muitos adultos, é um transtorno, algo inatingível. Desconfio que elas nasçam sabendo. Por outro lado, interagem pouco, são seres robotizados; o que torna a vida, que recebem para ser vivida e partilhada, um tanto impessoal, individual e mais competitiva.

Uma amiga me contou que, sua filha de 13 anos, fica horas em frente ao computador. Ao mesmo tempo, consegue manusear várias ferramentas, numa cadeia de informações de aparente exaustão  - não para ela. Para nós, que viemos de um mundo mais lento, fadigamos. Fica difícil acompanhar e optamos por resumir os usos por até duas ferramentas, que entendemos achar profícua. O celular, por exemplo, considero de grande utilidade. Ou, a melhor de todas atuais.

Quando eles se juntam em rodas de bate-papo, são barulhentos, conversando vários assuntos ao mesmo tempo; assim, como fazem nas conversas virtuais, pelo Messenger. Dia desses, fui ao cinema de um shopping local. Era uma sexta-feira. A sessão era daquelas de final de tarde, que você escolhe para relaxar antes de ir para casa jantar. Na entrada do cinema, avistei alguns jovens – na faixa entre 13 e 17 anos – se aglomerando no mall em frente à bilheteria. Imaginei que havia algum filme interessante, ou se estavam ali marcando ponto de encontro na saída do colégio. Quando saí da sessão, fiquei pasmo com a quantidade deles, era quatro vezes mais do que havia. Falavam alto, em várias rodas de conversa. Suas aparências eram de alienígenas. Sem definição de expressão. Todos – meninas e meninos – tinham a mesma aparência, trajes, mesmo estereótipo, e mesmo rosto. Sem sexo definido. Fiquei horrorizado, quando passava em meio a eles, e pensei: quem são? Em qual planeta habitam?

Deixo algumas perguntas a esta geração. Estão interessados pelos caminhos do mundo? Qual a tolerância à corrupção e os desmandos políticos? Ficarão revoltados contra qualquer governo - saindo da zona de conforto (em frente ao computador) -, para mudar uma situação? O que pensam sobre família e Deus?

Outro dia, um garoto de 10 anos – sem nenhum motivo aparente – em poder de uma arma de fogo, que roubou do pai, atirou contra a professora em sala de aula, em seguida seguiu por um corredor até uma escada e atirou contra sua própria vida. Ele só tinha 10 anos, e era da geração Y. Fora isso, nada a temer com eles.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / setembro de 2011

sábado, 3 de setembro de 2011

O tolo emocional


Toda vez que deparo no meu caminho com uma pessoa soberba, egoísta, prepotente, arrogante, invejosa - ufa! - conto até dez e tento entender o que há com aquela criatura; que caminhos a trouxe à vida adulta e por que age daquela maneira. Se não parar para refletir, sentirei ódio e repugnância. Então, respiro fundo.

São assim por quê? Uma maneira de se proteger do mundo, talvez. Ou, por que são analfabetos emocionais e não cresceram na sentimentalidade. Para não invocá-las, me pergunto: o que ela sabe mais do que eu sobre a morte? Volto a sentir pena.

A primeira vez que ouvi dizer sobre inteligência emocional foi em 2001. Uma amiga me contava que, numa cidade vizinha, havia um curso nos finais de semana sobre inteligência emocional. Três anos depois fui convidado a participar de um desses cursos, já com outro nome, mas tudo igual ao que me contaram sobre inteligência emocional. Foi uma sacudida geral nas emoções – choro e ranger de dentes. Na época, eu passava por um processo terapêutico e pouco do que ouvi lá me acrescentou. Mas valeu também pelas amizades que fiz.

Anos mais tarde, assistindo uma palestra, fui entender que inteligência emocional era uma maneira atual para definir maturidade. E tudo o que buscamos, em comunhão com nossa verdade, é sermos mais maduros, mais tolerantes às dificuldades e frustrações do mundo ao nosso redor. Num caminho evolutivo de nós, na mente e no espírito.

Não há maturidade sem a vivência; deixar a vida passar e transpassar sobre si, como uma serpente que desliza sobre nosso dorso, sem medo da picada; ou, como a água que corre pelos menores veios e vãos – deixar a vida acontecer com dores e alegrias. Para a maioria, a maturidade virá com o fundo do poço, onde só há uma alternativa: voltar à superfície; não há maturidade sem o aprendizado dos tropeços e quedas. Enquanto não encaramos, vamos fazendo repetições, continuamente no analfabetismo do autoconhecimento. Durante a palestra, identifiquei muitas pessoas com quem convivi; por vezes, baixei os olhos, porque me vi também... Tento me corrigir sempre. Afasta-me Deus dessa tolice.

Pessoas analfabetas emocionais – tolos emocionais – são, na maioria, seres difíceis de lidar, destemperados; egoístas, intolerantes, de estopim curto; de dedos que acusam com respostas agressivas; malcriadas diante das adversidades; sem autocríticas e desonestas intelectualmente; gritando com tudo e com todos. Alguém que não se habita; uma casca rígida com interior oco. Foi a definição que traduzi. Alguém conhece esse ser?

Hoje, trocaria o termo inteligência emocional por sabedoria emocional. A inteligência já é dada a todos nós, para aprendermos matemática, física e outras ciências; mas a sabedoria é adquirida com as experiências ao longo da vida. Sabedoria é facultada àqueles que buscam o conhecimento, neste caso das emoções, em si. A sabedoria requer prudência, juízo, bom senso, razão e retidão.

A maior cantora brasileira que ouvi – a exemplo de Marilyn Monroe – morreu aos 36 anos de idade. Segundo relatos, Elis Regina morreu depois de fazer uma combinação de cocaína e álcool. Lembro-me dos noticiários da época, dizendo que, ela havia terminado um namoro com um advogado, desconhecido; mas, por quem estava apaixonada. Ela não suportou o fim da relação e fez a tal mistura que levou à morte. Elis era uma mulher inteligente, astuta, respeitada no meio artístico, de gênio forte muitas vezes, mas de inegável talento. Ela não teve sabedoria para lidar com o revés da vida; não teve sabedoria para aceitar as frustrações e derrotas; tentou desviar a dor do seu caminho e tropeçou com a morte.

Lupicínio Rodrigues escreveu estes versos: “Esses moços, pobres moços. Ah, se soubessem o que sei. Não amavam. Não passavam. Aquilo que já passei...”. Esta música vem a mim como uma resposta de quem, na sabedoria, já amadureceu e agora quer resgatar outros moços que não querem enxergar, muitas vezes, o óbvio da vida: não pise em casca de banana, você irá cair! Eu trocaria na letra, “pobres moços” por “tolos moços”. É tolice viver na repetição dos erros; enxergar a casca de banana e continuar pisando. Imaturos criam sofrimento para si; sentem prazer em sofrer e vão arrastando quem está por perto, para o seu buraco.

Já me deparei com alguns tolos emocionais por aí; com algumas tolas eu tentei conviver mais de perto. Acho difícil sustentar relações com pessoas egoístas. Só existe egoísmo no mundo, porque existe generosidade, disse o psicanalista Flávio Gikovate. Há que ter resignação, abandono dos prazeres; desligar a TV, deixar o futebol, fechar o romance que se lê, calar-se e viver para dedicar às suas necessidades - como um serviçal. Apagando os incêndios dos sofrimentos que constrói. Alguém está disposto?

Não acredito no amor incondicional como se apregoa por ai, na forma como é romantizado. O amor incondicional e atemporal só existe nos graus de parentescos e afinidades por pai, mãe, filhos e irmãos. O outro amor – por alguém – só tem validação por meio de troca. Eu darei à medida que receberei. Ou, eu retribuirei na mesma medida. Por isso, muitas relações não duram. Há pessoas que só querem receber, e quando mais você dá; mais ela cobra. Uma hora, a prateleira estará vazia, não haverá mais “mercadoria” para doar. O tolo emocional é avesso em fazer cortesias sentimentais. Tolos não mudam; sim, querem que o mundo mude em seu favor. Também não se veem e não se colocam no lugar do outro, abnegando as emoções alheia. Penarão nas suas relações humanas por não saber doar-se na medida em que recebe.

31 De dezembro - um bom dia para filosofar. Enquanto tomávamos uma cerveja num fim de tarde num quiosque à beira mar, um amigo me contou um adágio japonês: há pessoas que são lagoa e há pessoas que são rio. A lagoa, você a vê, aparentemente calma, serena e bonita, emanando paz... Mas, quando você arremessa uma pedra e ela chega ao fundo, uma argila, em forma de lodo, se desprende da sua profundeza e torna aquela água cristalina, barrenta e turva. A aparente calmaria e beleza não reflete o que guarda lá na alma - a falsa aparência. Por outro lado, existe aquela pessoa que é como rio; está sempre em movimento; sua água é corrente, cristalina e rasa; num sentido único da vida. É possível ver seu fundo limpo – ver os pés. Quando arremessamos uma pedra é levada imediatamente – sem ressentimento.

Pessoas maduras, quando têm que escolher, não escolhem um rio de lágrimas para chorar; nem um caminho de sofrimento para atravessar. Vão pelos atalhos mais simples que a vida mostrar. No final da jornada, todos nós chegaremos ao mesmo ponto e, só então, entenderemos o que a morte nos reserva. Fim do mistério.
© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / setembro de 2011.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Confio em você

Hoje, me veio esta questão — que tanto precisamos ter certeza no mundo em que vivemos —, em quem posso confiar? Muito difícil dizer; fechamo-nos e nos retraímos mais nos dias de hoje; tudo por falta de confiança nas pessoas, ou porque, um dia, confiamos em quem não devíamos. Não dá mais para confiar em ninguém, então me refugio ao meu porão, com meus conflitos e medos; não há relação que se possa confiar. Será que caminhamos, de fato, para isso? Será que o isolamento, é o grande mal que aflige a humanidade? Já nos perdemos em relações, empregos, descaminhos por quebra de confiança em quem mais depositávamos. Decepções e angústias ficaram. Sentimentos que fingimos, relações de fachada, interesses pessoais; eis um cenário bom para a traição e a falta de confiança. Que grau de confiança, temos com as pessoas com quem nos relacionamos?

Eu era do tipo que muito fácil, depositava tesouros e tesouros em cofre alheio. Naufraguei-me muito por isso. Confiar em quem não conhecia profundamente. Agora, acredito que confiança tem que ter o tempo de amadurecimento da relação; tempo para conhecer e saber em que chão pisamos ou em que mundo tocamos as mãos.

Sempre quando quer dar exemplo de confiança, um amigo me faz esta pergunta: você deixaria fulano ou sicrano tomando conta da sua casa, com tudo que tem lá dentro? Esta pergunta passou a ser importante em minha vida. Em quem eu deixaria a guarda de meus pertences? Em qual coração eu depositaria meu amor, com a certeza de rendimentos futuros? Difícil dizer sem conhecer fundo, sem penetrar na alma. Já depositei muito pensando em rentabilidade, mas o que obtive foi um saldo devedor e dívidas (sentimentais) para sanar. Triste, mas é real. Aprendemos, então.

Na minha adolescência, lembro-me de um amigo que confiou a mim um segredo familiar. Ele apareceu chorando no portão da minha casa. Hoje reflito muito sobre esse dia, ele só poderia confiar em quem ele gostava demais. Depois que ele me contou e chorou, disse a ele que não era para ficar assim e tudo se resolveria. Guardei o que disse a sete chaves, como um tesouro precioso e íntimo daquela amizade. Os amigos são para sempre.

Confiamos, necessariamente, pela lente do amor. Confiar é umas das ramificações dos caminhos do amor. Para confiar é preciso olhar com a alma, mais do que com os olhos. Quando amamos e somos amados temos confiança. Se errarmos, iremos dizer que erramos para quem nós amamos, na confiança de que seremos perdoados.  Se isso for importante ao mundo — aprisionado e isolado —, saiba que a confiança une e liberta os corações. Quem confia ama e cuida. Ou, como uma paráfrase de um roteiro para um filme de amor: confiar, amar, cuidar.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / agosto de 2011.

sábado, 6 de agosto de 2011

A era do rádio


Vi recentemente o novo filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”. Saí do cinema recomendando para todo mundo, me entusiasmei. Allen tem essa coisa de tratar o real e o imaginário sob o mesmo prisma; seus personagens fazem essa transgressão sem nenhum temor – vão e voltam; entram e saem. O que torna a trama uma viagem sem fim. Esta me tocou fundo; entrou  pelo túnel do tempo, com o olhar no passado sob as noites da cidade luz.

No filme, traz à Paris – a fim de colher inspiração – um escritor de roteiros para filmes americanos, Gil Pender, vivido por Owen Wilson; ele está escrevendo seu primeiro romance. Sua noiva Inez lhe faz companhia na viagem, com o propósito de viver noites maravilhosas na cidade luz. Ele é obcecado pelo passado, crendo que tudo que foi feito e quem existiu lá, era bem melhor. Descreve também ser um adorador das chuvas que molham seu corpo, sem nunca se importar em carregar uma “umbrella”. Numa dessas noites de embriaguez, sozinho, ele é convidado a entrar num Peugeot antigo, indo parar numa festa. Na verdade, aquela carruagem de rodas sem cavalos, o conduz de volta à Paris dos anos de 1920, onde irá encontrar com personagens ilustres e pelos quais admirava: Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Cole Porter, Salvador Dali, Scott Fitzgerald... Ainda foi agraciado por conhecer Adriana, a sedutora mulher – uma ilustre desconhecida –, por quem ficou apaixonado. Mas, qual a mensagem do filme?

Esperei quase o final do filme para decifrar, ou perceber a mais clara das mensagens que surdiu. Pode haver uma obsessão, mas nunca poderemos dizer que as melhores coisas da vida ficaram no passado, que vivemos ou não (imaginamos). No passado que voltarmos, outras pessoas que lá vivem, também acharão outros passados melhores - foi meu insight. Ele queria se auto afirmar sobre o que escrevia, dando seus manuscritos a esses personagens, com o intuito de receber elogios e confirmação do grande escritor que deseja ser - justificando suas viagens noturnas. Para ensejar sua aventura, ele se ajeita mesmo é com Gabrielle, a moça que vendia disco vinil na praça; e tal, como ele, não se importava em tomar chuva. Fica a dúvida, se ela era do seu presente, ou veio do futuro para encontrar e amar o grande escritor: Gil Pender.

Já faz tempo, tenho trocado o hábito de ver TV por ouvir rádio, quando me levanto. Gosto de acordar e começar o dia com café e notícia. O rádio ainda é uma companhia e continua a encantar; percebi que ele faz nossa imaginação fluir, penso com ele e personifico as vozes que ouço. No dia, vejo garis que trabalham solitariamente varrendo as ruas e os parques da cidade com o radinho no bolso do macacão – a espantar solidão. A locução do futebol pelo rádio é inigualável, dinâmica e emocionante. O mesmo jogo que vemos pela TV, só tem graça se for completado pelo som do rádio. Como os mais antigos diziam da locução de futebol, o jogo é irradiado. Deduzo, então, que o rádio não é do presente, vem do passado; daquele que não deixamos morrer; daquele passado que sobreviveu ao mundo carregado de mudanças e outros meios mais velozes de comunicação. Como nem a TV - o rádio com imagem -, colocou o rádio no passado distante – obsoleto –, então, nada mais irá substituir o prazer que suas ondas criaram em nós.

Antes da chegada da televisão em nossos lares, era pelo rádio que nossos antepassados adoçavam sonhos e ilusões. Dou minha explicação para o time do Flamengo ter a maior torcida do Brasil: a rádio Nacional era a única rádio que transmitia para o Brasil todo – década de 1940 – e irradiava somente os jogos do campeonato carioca. Junto vinham as notícias, radionovelas e programas de humor.

A rádio Mayrink Veiga – RJ foi precursora do melhor programa humorístico das décadas de 1940 até 1960. Está no anuário de 1950: naquela época, a rádio Nacional detinha as maiores estrelas do rádio como Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas, Emilinha Borba; entre os dez melhores programas, nove eram exibidos pela Nacional, mas somente um programa era da rádio Mayrink Veiga – o humorístico PRK-30 -; com o prefixo de uma emissora "de ondas longas e compridas, curtas e encolhidas". O maior show de humor já feito no rádio no Brasil estreou nas ondas da rádio carioca em outubro de 1944. Para muitos, o maior programa de rádio já feito até hoje. Sendo disputado por outras emissoras, passou, posteriormente, para a rádio Tupi-RJ, de Assis Chateaubriand, até findar em 1964. Foram exatos vinte anos de PRK-30 e de muitas gargalhadas no ar.

Lauro Borges e Castro Barbosa
Tive oportunidade agora de conhecer e ouvir as célebres piadas criadas pelos seus apresentadores Lauro Borges e Castro Barbosa. Tudo ainda muito hilário, cheio de deboche, irreverência, improviso e criatividade. Lauro Borges criou 28 personagens ao longo de sua carreira no rádio. É fato, muitos dos humoristas que hoje conhecemos pela TV, como Chico Anísio, fizeram escola ouvindo PRK-30.

O rádio os imortalizou, como aqueles anos de ouro. Depois, com a chegada da TV, eles foram parar nas emissoras da época e aquela coisa do rádio, da imaginação se perdeu. Lauro Borges se suicidou em 1967, quando descobriu um câncer; Castro Barbosa faleceu em 1975. O humor deve ainda muito a eles. Se pudesse, viveria aquela época, só para ouvir PRK-30, como uma volta no tempo: "Bléim! Ao oubir esta suabe gongada, entra no ar, como se fosse uma barbuletinha dourada a PRK-30!...”.

Entrei num Peugeot antigo agora também, eu sei, mas foi bom...

Voltando a Woody Allen, ele dirigiu outro filme que se chamava “A era do rádio”, mas é só coincidência com o que acabo de narrar. Tudo o que nos faz melhor hoje (não somos frutos de nós mesmos), vem dessa raiz do passado que, por vezes, nos incita a voltar com os olhos e ouvidos mais atentos a tudo que nos trouxe até aqui; e assim podermos ser mais puros, essenciais, compreensivos com o presente e esperançosos com o futuro. Como o personagem do filme, podemos achar que tudo e todos eram realmente melhores no passado; até descobrir que outros viajantes do tempo pensam como nós. Não há nada de errado com a linha do tempo, certo com as lições que trazemos para a vida.

Era como um livro de Ernest Hemingway; poderia ser como um quadro de Picasso, ou como um filme de Luís Buñuel, ou quem sabe, uma música de Cole Porter; mas era a PRK-30, uma obra de arte que o rádio eternizou, sem tempo de padecer. Por noites, não me deixa dormir ou embalam involuntariamente meu sono, até me levar a dar boas gargalhadas pelo canal do inconsciente, dormindo. PRK-30 veio até mim pelo dial do passado, e é tudo de bom!

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / agosto de 2011.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Alô, alô PRK-30!


NO DIAL

Nas ondas da rádio Bandeirantes-Am (SP) 840mhz, há um programa de madrugada que se chama "Memória". Trata-se de um programa que conta a história do rádio no Brasil, trazendo muitos programas e personagens que marcaram a época de ouro do rádio. E como tem história para contar... Na política, nas artes, na cultura, na música é um acervo enorme. Quem tiver curiosidade e não está disposto ficar de madrugada ouvindo rádio (acha melhor dormir), os programas ficam disponíveis no portal da Rádio Bandeirantes. É só clicar aqui: Memória .

Antes da TV, era no rádio onde tudo acontecia. Com o nascimento da TV no Brasil, era de esperar que o rádio fosse acabar, ou ficar à mingua - com uma fatia menor de audiência. Isso não aconteceu aqui e nenhum país do mundo. O rádio sobreviveu a todos os demais meios modernos de comunicação que vieram depois.

Num desses programas de madrugada descobri que, o melhor programa humorístico da história do rádio se chamava PRK-30. Fiquei entusiasmado que, resolvi pesquisar mais e escrever o próximo texto para o Blog falando da PRK-30; numa volta ao passado, pelo dial do rádio. Confesso que dei boas gargalhadas com Lauro Borges e Castro Barbosa - protagonistas do programa. É um humor leve, sem apelação e de muita inteligência e improvisos.

O texto está quase pronto para postar. Aguardem.

SOM NO BLOG

Quem acessa o Blog agora, percebe que há um tocador, ou player de música, no canto direito acima. Estou ainda em teste com a novidade. Apanhando, pois algumas músicas não tocam e outras sim. Pelos menos a nova música do Chico Buarque – a que mais gosto – toca na íntegra: “Se eu soubesse”.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / agosto de 2011.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Tolerância zero

O mundo está de TPM. Ou, como cantava aquele transeunte na rua “O mundo está ao contrário e ninguém reparou". A TPM — da miséria nacional — tomou conta do nosso cotidiano. Meninas fiquem felizes, o que antes era uma chatice somente do staff feminino, agora virou aborrecimento geral. Bem, como homens não menstruam, sobrou-lhe o pior: a irritação com tudo que lhe afeta no metro quadrado a sua volta. O que antes era um evento feminino, agora virou epidemia nacional! Fulano matou cicrano porque era gay, exemplo de TPM. Vamos absolver o indivíduo, ele é filho de deputado — outro exemplo. Estamos diante de um fenômeno que, pela intolerância, cometem-se crimes: açoitam, violentam e matam. Nada de preconceito, ou marcha disso e daquilo, somente as leis já bastariam.

Como remédio, instituíram a pregação do “seja politicamente correto”; censurando e repudiando os incorretos. No campo do livre arbítrio — onde estabelecem os regimes democráticos —, não se pode dizer e escrever mais nada sobre nada. Alguém ou algum grupelho, com TPM compulsiva, irá gritar: você ofendeu a mim e minha classe, por isso vou te processar! Acabou o humor! Acabou a livre opinião, o livre pensar... Tudo virou homofóbico e preconceituoso. Não podemos opinar sobre o que se passa em nossa cabeça. Nem para dizer nossas verdades sobre as unanimidades nacionais (todas elas são burras, diria Nelson Rodrigues). Claro, você só poderá opinar, sim, se for para ridicularizar (até ofender) aquele que está a sua direita; já o que estiver à esquerda, aí é preconceito.

O artigo quinto da Constituição Brasileira — muitas vezes esquecido — diz: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Poderíamos parar por aí e cortar o mal pela raiz, baixando as leis contra os crimes de qualquer natureza. Mas não! Eles incitam a manifestar em favor desses grupos, agora organizados — alegando ser do “bem” — em favor do ladismo político que os servem. Pegar na mão daquele grupo, para dizer aos microfones: "esse pobre foi ofendido por um humorista que fez anedotas preconceituosas!" Por outro lado, o chargista que se transforma em mulher para protestar, a favor desse mesmo grupo, é louvado e levado para frente das câmeras de TV. Cabe dizer, um oportunista de marca maior. O mundo está ao contrário e ninguém reparou mesmo.

Em suma, querem mesmo é fatiar a sociedade por seus credos, cor de pele e opção sexual. Disseminando mais o ódio. Não bastavam as leis? Assim, cada qual irá sobressair individualmente a sua maneira e ganhar um pouco de holofote nos meios de comunicação; depois será usado politicamente por este ou aquele vigilante político. Assim também, ninguém irá se unir — numa causa única —, também em praça pública, para extirpar aquele político corrupto, que diz estar ao seu lado. Quando menos organizado a sociedade; melhor para seus fins. O restante, aquilo que se chama povo, este não diz nada, foi privatizado e permanecerá calado planejando seu próximo final de semana onde poderá ser feliz na praia.

Saibam estes grupelhos — como gados no curral — que, nenhum desses que dizem defendê-los, fariam se não houvesse, como objetivo de seus interesses, a política. Ninguém quer uma sociedade justa e igualitária, senão, não rasgariam a Constituição do país. Do outro lado, aquele que se posiciona como vítima, ficará bem quisto perante uma parcela da opinião pública, vendendo uma imagem do bonzinho excluído; ou alguém irá defender uma pessoa única por ter sido molestada por preconceito de ser heterossexual? O chique é se posicionar ao lado de quem faz bem o papel de vítima social. Tolos!

Você idolatra alguém? Se for sim sua resposta, você já tem a minha repulsa. Detesto a forma como algumas pessoas se dirigem a alguém que, por sua obra, admiram. Não visto camiseta estampada com alguns desses que julgam estar acima de qualquer pecado; os sacralizados, como já disse o músico Lobão. A única camisa que visto, às vezes, é do meu time de coração e outra dos Beatles. Agora, não uso para fazer apologia das minhas preferências. Mas, o idólatra, julga seus escolhidos acima mesmo do pecado. Tudo que fazem ou já fizeram essas “divindades” é o que mundo precisa, é o melhor que podemos seguir. Cito, por exemplo, Che Guevara. Na minha adolescência fui conduzindo, como quase toda minha geração, a seguir os passos desse facínora que, parte do mundo resolveu colocá-lo no altar, ao lado de muitos santos cristãos — estes de verdade. Uma grande tolice, que as pessoas vão pregando por aí e adotando como referência universal. Não sigo ninguém. Admiro as pessoas comuns, aquelas que pecam, mas sempre tentam acertar seu torto caminho e são anônimas.

O que reina no mundo? Os interesses pessoais, financeiros e políticos. Como se diz, “não existe almoço e jantar de graça”. Você pagará ou já pagou por este almoço. Não sonhe caro leitor! Ninguém irá dizer: estou lhe fazendo este bem por que gosto da sua amizade, do seu bairro, da sua gente; ou simplesmente para retribuir algo que você fez de bem ao seu próximo. Há sempre um interesse maior e político por qualquer relação que se estabeleça nessa esteira. Alguém irá lembrar: antes já não era assim? Era, mas não tão escancarado. Hoje acabou a hipocrisia. Estamos chegando ao fim das relações por amor e paixão e fazendo somente negócios e contratos. Enquanto isso, a ladroagem, a gatunagem virou algo corriqueiro que, não enxergamos mais crimes onde só existem crimes.

No texto “Criar e Educar”, toquei de leve no tema, mas o mal social está na intolerância. Estamos cada vez mais intolerantes uns com os outros e com quem deveríamos reivindicar, omitimos. As nossas relações interpessoais estão por se esfacelar. Está claro como não há tolerância, cada vez mais nos encurralamos num mundo solitário, como um fone no ouvido. E quando querem nos ensinar como agir contra o mal, ao contrário, somos induzidos a não tolerar mais ainda as pessoas, por suas opções religiosas, sexuais e políticas. Que tal pregar o amor ao próximo?

Como caminhamos, no futuro, a sociedade e a família estarão cada vez mais minguadas — seres isolados. Não por que teremos menos dinheiro para criar filhos e formar famílias, mas para que esses filhos nãos caiam nas mãos de governantes que, pensa que possam criá-los por nós. Querem dizer como devo me dirigir ao ser humano que tropeço na rua, ou que sejamos politicamente corretos, ao se dirigir a quem quer que seja. Sejamos só respeitosos uns com os outros — ponto final.

Contra qualquer intolerância, prego a tolerância zero! É insuportável esta miscigenação; o sangue que corre na veia tem a mesma cor em qualquer ser humano. Tratar com acinte um grupo organizado, ou agredir um único indivíduo comum tem o mesmo teor da intolerância a ser extirpada. Mas, longe com a censura em meu pensamento.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2011.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O avião azul


Tarso e o avião

Cronistas leem outros cronistas para poder se inspirar, ou tirar água da pedra, quando a fonte seca – dar ânimo. Não dá para viver de inspiração a todo o momento; muitas vezes vamos buscar no cotidiano, nos livros, nos filmes e na vida alheia; ou simplesmente nos deparamos com algo em nosso caminho que nos faz pensar mais profundamente na vida. Os objetos, os retratos, as lembranças, em tudo podemos encontrar almas desgarradas e assim desfragmentar as palavras ocultas. Aquelas que só o coração sabe entender.

Perdi um irmão recentemente. Foi dolorido, da lembrança da convivência e agora sem sua presença abriu-se um vazio. Algo que não se preenche com mais nada, só a saudade, ainda doída. Aquela pessoa que nos dávamos e por muitas vezes conversámos tolices cotidianas, agora partiu. Não haverá mais a conversa dos olhos; tudo virou oração.

Minha diferença de idade para ele era 08 anos. Quando era eu criança ele me levava para todos os lados que podia. Lembro-me de uma cena quando ele pediu para minha mãe deixar andar com ele num brinquedo em um parque de diversões; o brinquedo não era para minha idade, mas ele me colocaria no colo, me protegeria. Acho que minha mãe não deixou, pois não me vem a cena dele me segurando. Era caridoso, tinha alma boa, alternando entre o semblante fechado e o riso fácil quando queria.

Tive a primeira experiência de trabalho por intermédio dele. Era ele quem me pagava um pequeno salário, para manter nosso quarto de dormir arrumado e limpo - para mesada não sair de graça. Eu fazia isso todos os dias quando chegava da escola, e quando terminava ia ouvir os discos que tínhamos em casa. Todo final de mês ele me pagava uma quantia, que dava para o lanche na padaria.

Foi nesta época que ele comprou um chevette azul – outro dia me confundi e disse que era verde. Ele vivia lustrando o carro, lavando e encerando - seu primeiro patrimônio. Não sei por que, mas o carro era apelidado carinhosamente por ele de “avião”. Presumo que seja, porque não havia limites em seus rumos e viagens. Com ele íamos para roça pescar, íamos ao estádio ver jogo de futebol e para onde quisesse. Tenho uma lembrança nítida, dele lavando o carro todo final de semana em frente ao nosso portão. A lembrança desse carro me veio nesses dias após sua partida e trouxe-me aqui a saudade que descrevo nessas curtas palavras que lhe rendo. Estas que brotam do coração.

Nesses dias, ainda tragado pela dor, entre muitos abraços que recebi, veio uma frase que guardei, e de certa forma, abreviou um pouco meu sofrimento e de todos os seus queridos que ficaram: “As pessoas não morrem, elas apenas vão à nossa frente, abrindo o caminho”. O avião azul, agora encontrou o seu dono, num voo infinito, no mais longínquo céu...
(*) Para Natália, Filipe e Thiago

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / julho de 2011.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A hora de o trem passar



Tramo ferroviário de Semmering

Enquanto ateava fogo à lareira, o bondoso corretor de imóveis narrava uma pequena história à Frances:
“Senhora, entre a Áustria e a Itália há uma parte nos Alpes chamada Semmering. É uma região de montanhas muito íngreme e alta. Assentaram os trilhos nessa parte dos Alpes para ligar Viena e Veneza. Assentaram os trilhos antes mesmo que houvesse trem para percorrer o trajeto. Construíram porque sabiam que um dia o trem chegaria”.
De Viena à Veneza são 420 quilômetros, Semmering está no meio do caminho, com suas montanhas quase intransponíveis e belas paisagens – uma estância turística. O tramo ferroviário de Semmering possui 41 quilômetros de longitude e foi declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO, em 1998. De fato, era ousado desbravar esta região montanhosa. Aquele corretor sabia o que estava dizendo ou ele tinha boas razões para afirmar que não devemos nos preocupar com a vida e seus “porquês”; tenham sonhos e assentem os trilhos, o trem um dia vai chegar.

O universo conspira com nossos pensamentos, aspirações e ações; abrindo trincheiras, construindo pontes e caminhos. Chegará o dia em que iremos atravessar por eles e perceber que nada foi em vão, valeu ter lutado. Perguntas sem respostas, distâncias percorridas, vidas doadas — tenhamos paciência e deixemo-nos seguir. Pode ser que tudo mude no meio do caminho, mas haverá sempre uma vida a nos esperar. Apontemos o horizonte como uma seta; conheçamos bem a região, as matas e as montanhas que iremos desbravar; carreguemos chulipas nos ombros e as assentemos; depois sobre elas, os trilhos — bem fixos. Um dia chegará a hora de o trem passar.

Na minha profissão, sou encarregado em planejar. Poucos administradores públicos dão importância a essa questão; não há resultado imediato em curto prazo, há que se debruçar sobre os mapas, sonhar e acreditar. Vivemos a planejar a cidade que queremos no futuro. Aqui haverá uma ponte, um viaduto, uma estrada, uma estação, uma praça para descansar... Não sei quando, mas terá. Talvez não viva o suficiente para ver, mas gosto de imaginar as coisas longínquas, futuras. A quem servirá minhas ideias? Difícil dizer. Eu também me beneficio de um mundo onde meus antepassados também traçaram. Eles também pensaram em mim.

Vasculhando minha infância, no caminho da escola, eu avistava todos os dias uma casa exótica de três andares. Cada metro de fachada era uma miscelânea de peças estampadas — sem arquitetura. Meus coleguinhas da época, diziam que o proprietário, construía essa casa há mais de 20 anos, sozinho. Ficava curioso com o que deveria haver lá dentro; ao mesmo tempo, entender da sua paciência em assentar tijolo por tijolo. Ele não teve pressa, sabia esperar a hora, um dia entraria na casa.

No meu primeiro dia, pela janela do ônibus, via a luz do dia ser sugada pela noite que caía naquela serra de luar. Algo me sufocou, era outra cidade, era um desafio nos meus 20 e poucos anos. Pensei: hoje é só o primeiro dia de cinco anos que tenho que cumprir; viajar, aprender, recomeçar, fazer novas amizades, me relacionar; um sacrifício, como se toda a vida findasse ali. E depois? Será que vou suportar? Será compensador? É isso que quero para minha vida? Perguntas e perguntas, enquanto olhava a estrada. Na primeira aula de introdução à arquitetura, o professor também nos encurralou: Vocês querem mesmo a arquitetura, sabendo que terão que ralar muito osso para serem bem remunerados? Houve um silêncio sepulcral na sala de aula. Não me abati e enfrentei. Os cinco anos se passaram como um vendaval que se aplacou; e já faz 20 anos da minha graduação na faculdade de arquitetura. Amizades construídas, obras projetadas. Tudo passou como tudo também ficou guardado.

Há dias em que acordamos inquirindo à vida. O que estou fazendo aqui? Como vim parar nessa cidade? O que me trouxe aqui? O que farei daqui em diante? Onde me levará essa estrada? Por não encontrarmos a resposta imediata (is blowing in the wind), achamos que estamos diante de um abismo e o fim será a sua queda; e viver será a angústia pelo desconhecido, ou sua grande aventura. E com isso vem o medo de viver, de pisar. Ou devemos voltar ao ponto inicial? Não dá mais.

Há mistérios demais na vida e quase todas as respostas estão pairando no vento, como já disse Bob Dylan. Vale, então, o olhar da paciência, da esperança e da fé; compreender e aceitar os caminhos que iremos percorrer e viver sem ter muitos questionamentos quando as portas se abrem (ou se fecham). Há momentos únicos e de encontros; onde os sonhos se concretizam; onde as vidas se juntam e ruas se cruzam; a noite vira dia, o mar encontra a terra; onde os enigmas se decifram (sentem) de uma forma ou outra. Faz-se luz, onde parecia haver só o breu. Ou, como disse a mulher árabe: maktub — está tudo escrito; está tudo traçado na palma da mão, ou nas estrelas...

O que buscamos? Por que caminhamos? Se for felicidade o que ansiamos, não tenhamos dúvidas quando encontrar. Se for o amor, saibamos reconhecer suas nuances, feições e sinais. Pode ser que ele já esteja ao nosso lado, e o desprezemos. Se não soubermos o que almejamos, quando encontrar, também não reconheceremos. Não há busca sem razão. Se não soubermos o que buscamos, poderemos nos deparar também com o que deveríamos desprezar.

Semmering era um obstáculo natural e o trecho dos trilhos tinha muitas razões para existir: ligar duas cidades, dois países, duas culturas, dois povos. Não havia um sentido qualquer, desprezível. Era justificável, que se fizesse os trilhos antes da chegada dos trens. Quem planejou, foi alvissareiro, um visionário, sem medo do erro e do futuro. Na hora certa, o trem chegou e tornou aquela paisagem à vista dos olhares e contemplativa por muitos turistas. Viena se ligou à Veneza pelos trilhos das montanhas quase intransponíveis. Isso é louvável.

Ah, a história inicial do corretor de imóveis é do livro/filme “Sob o sol da Toscana” (Under the Tuscan Sun) — 2003. No filme, dá para fazer uma viagem pela Toscana, com toda sua exuberância; ainda há a graciosidade de Diane Lane. Mas, agora eu fiquei com vontade mesmo de deslizar pelos trilhos de Semmering — as montanhas. A que horas passará o trem?

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2011.

sábado, 25 de junho de 2011

Conversa de sábado — Surpresa!

A encomenda não chegou, mas o gostoso, o mais doce é a espera, quanto tudo nos surpreende. O lado bom da surpresa é nos despertar do mal-estar e nos pôr de volta à vida — em forma de resgate. Hoje o mundo virtual — das compras online — nos dá esta satisfação. Compras pela internet são assim: você compra e paga, depois espera chegar, até exaurir a paciência do porteiro do seu prédio de tanto perguntar: chegou algo para mim? Antes, quando um disco novo saia, íamos à loja e comprávamos; a curiosidade e a surpresa acabavam até chegarmos em casa abrirmos a embalagem e pôr na agulha para tocar. Foi assim quando adquiri meus discos, nos tempos dos long playing. Hoje, atormentamos ao porteiro tarde da noite, até ele, impaciente, dizer: "Senhor, nesta hora não entrega mais SEDEX...". Vamos dormir na incompletude, e botando a culpa no pobre.

Gosto de surpreender com coisas e notícias boas (quem dá notícia ruim é o Zé velório). Quem tem esta prática, se delicia com os olhos de quem recebe. Não precisa haver troca; tudo já foi retribuído no olhar que brilhou ao ver a caixa de presente, ou a faixa de pano estirada na esquina da casa dela, ou por ler um simples e-mail. E o melhor do mundo é quando tudo vem, aparentemente, do nada; digo, sem data de aniversário, ou nenhuma data comemorativa; simplesmente pelo gesto, ou porque precisava dizer aquelas doces palavras. Conheço pessoas que gostam mais de dar do que receber presentes.

Cesta de café da manhã é algo que já recebi. Gostei muito. Primeiro, porque estava apaixonado e depois porque curto uma mesa com café, sem hora para levantar dali. Mas, já tive outra surpresa que recebi mal. Uma vez recebi um buquê de flores. Quem deu fez com boa intenção e paixão, mas minha cara não negou que não gostei. Ela até se irritou e com razão. Eu era imaturo, por não saber que seu gesto foi grandioso; e ela não era obrigada a saber que muitos homens se sentem desconfortáveis, ou diminuídos na sua masculinidade, quando recebem flores. Homens nem têm jeito com flores. Mas, para mim, naquele momento, era: homens não recebem flores. Fui grosseiro na cara, depois me arrependi. Se ela me desse uma bola de futebol, iria gostar mais, com certeza. Depois, pensei: acho que gosto mais de surpreender do que ser surpreendido.

Para os consumistas, vai uma dica: é melhor fugir das compras online e principalmente das compras coletivas. Ponha tais e-mails para cair diretamente na lixeira. Surpreender a si mesmo, às vezes vicia. Surpreenda, então, quem você ama. Assim, poderá fazer nas vezes quando o amor te sufocar.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2010.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Uma noite em 83


Era tarde de um domingo ensolarado de outono, 01 de junho de 1980, o Flamengo e Atlético-MG se encontravam para decidir o título do campeonato brasileiro daquele ano. Mesmo sendo torcedor do Palestra, minha torcida naquela final era para o Atlético, ou melhor, eu era ReinaldoFC. Reinaldo era meu ídolo, incontestável. Nas peladas de rua, eu sempre usava seu nome (em vão) para as minhas jogadas de mestre; imitando seu gesto a cada gol que marcava. “Rei” era o Tostão do Atlético e quando parava com o punho fechado para cima, não dava outra, o goleiro estava estirado na grama — era mais um gol de Reinaldo. Mais tarde, descobri que esse gesto comunista, era na verdade um protesto contra o regime militar, que o Brasil vivia seus últimos capítulos. O Atlético perdeu o título ou o Flamengo ganhou por 3 a 2, pouco importava, pois para mim, Reinaldo tinha dado seu show, até o árbitro tê-lo expulso de campo.

Três anos mais tarde, em 1983, o Flamengo decidia novamente o título, agora contra o Santos. A final foi dia 29 de maio e novamente vitória do Mengão de Zico e Cia. Nesse domingo, quiçá, fosse mais um dia de futebol, macarronada com frango, casa cheia e com as torcidas para os dois lados. Naquele dia, a movimentação à tarde em nossa casa, tinha outro motivo e sabor; tínhamos a missão de ensaiar a música para a final do festival, e compensar o fracasso da nossa torcida na primeira noite do V FECAP — Festival da Canção Peregrina. Mesmo intuindo, que os jurados ficaram comovidos com nossa música na sexta-feira, nossa torcida foi um fiasco; muito dispersa, um tanto atrapalhada e desorganizada para os moldes daquele festival, que premiava também a melhor torcida. A família, os amigos, todos se somavam na sala, no corredor a picar papéis e enchendo sacos de plástico – tudo para a noite da grande final. Havia uma sensação no ar que os deuses da música olhavam para aquela casa naquela tarde. Eu sentia isso.

Quando a noite chegou, seguimos para o ginásio, uns de carro, mas a maioria num ônibus fretado. Um tremor acometeu em meu peito — quase incontido. Atônito, aceitava todos os drinques que me ofereciam. Era preciso relaxar, para não errar nenhuma nota da flauta doce que introduzia a música. No sorteio, para ordem das apresentações, nossa música era a última das dez classificadas. Isso era bom sinal, já com o público aquecido e esfuziante. Em compensação, a espera era pungente.

Após assistir impaciente as nove concorrentes, chegava, por fim, nossa vez. De camisetas vermelhas com estampas brancas, subimos ao palco em dez para defendê-la. O Plantador da Paz (de Claudinho e Gajão) tinha uma letra com tema social: ”Fazer valer a força da paz, que eu pensei nunca ser capaz de alcançar/e refleti como se fosse um farol/ no seio do povo/como um brilho do sol”. Era uma música de festival, daquelas, cujo refrão, evocava o público a cantar junto. Contagiou o ginásio todo. Quando descemos do palco, tivemos a certeza que demos o melhor de nós; agora, isso se concretizaria em vitória? Era uma fantasia, não dependia de nossos esforços mais.

Com os jurados reunidos, ficamos apreensivos, imaginando que poderíamos ficar pelo menos entre as três primeiras, era justo. Quando, finalmente, as músicas começaram a ser anunciadas uma a uma, eu murmurava baixinho ao lado do palco: “agora somos nós”, e não era. Minha sofreguidão se desmilinguiu, quando o apresentador nos anunciou como vencedores daquela noite; aquele festival, onde entramos como meros coadjuvantes, sem intenção nenhuma em vencer. Foi a glória.

Saímos de lá consagrados e mais amigos do que nunca. Após os abraços da vitória, lembrei-me, naquele instante, de meu ídolo do futebol e repeti novamente o gesto de Reinaldo. Levantei o punho fechado para gritar aquele que seria o melhor gol da minha linda juventude. Foi um salto para o céu, daquela juventude que cantava e plantava a paz com suas músicas recheadas de amor e intimismo. Nossa linda juventude viveu naquela noite o seu êxtase. Para mim, o dia mais feliz daqueles vinte anos. Se comparada, uma sensação como as vividas, na década de 60, por Edu Lobo, Chico, Vandré e outros no palco do Teatro Paramount. Nossa canção não vinha de encontro aos padrões daquele festival, mas era, sim, a melhor.

Formamos ali uma família, na música, na amizade e demos o nome de Clube da Esquina nº3. Passados 28 anos, ainda tenho aquele domingo guardado na minha memória, e uma frase que o meu irmão escreveu, parece ainda grafitada no muro da esquina da rua, onde nos encontrávamos para tocar violão: “Enquanto existir neste mundo qualquer tipo de violência, sempre haverá em qualquer esquina do mundo, uma juventude cantando todo tipo de paz”. Nunca me esquecerei da nossa linda juventude, agora marcada e grafitada para sempre no muro branco da minha alma. Daquela noite, ficou o registro de uma fotografia, que alguém cuidou em guardar, o resto são memórias de uma noite em 83.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / junho de 2011.

sábado, 11 de junho de 2011

Chocolate quente

Abri meu baú de memórias e revivi - tirando o pó - um dia dos meus 20 anos. Uma noite de alegria, que passei ao lado de meus amigos da época. Gosto de abrir baús, mas lamento pelas cartas de amor que rasguei ou devolvi à emissária, nos meus momentos de fúria. Lembro-me de uma que recebi nessa época dos 20 anos, veio de Minas. Depois do fim, levei-a até o quintal e pus fogo. Hoje, lamento não ter guardado, faz parte da minha história; agora não sei mais com que palavras eu fui tratado; se era tinta azul ou preta; qual a data; que cheiro tinha (cartas de amor tem cheiro); nem se havia um beijo com batom no final; e se terminava com P.S I love you.

Mas meu baú de memórias, anda cheio de coisas, boas e ruins. Enquanto tomo meu chocolate quente (ouvindo Samba em Prelúdio), olho a neblina dessa manhã de sábado e vem muito das lembranças da vida, do trem da minha história. A propósito, um trem será tema de uma próxima crônica, que já pincelei. Acho que não se deve olhar para o passado com tristeza, mas como lições. Sou contrário ao emprego daquela frase "era feliz e não sabia". Na verdade, sabia sim! Todos os momentos da vida que vivemos felizes, nós sabemos, não temos é coragem de assumir a felicidade presente. Medo de dizer e acabar.

O próximo texto aqui do Blog, falarei de "Uma noite em 83". De fato, eu já havia feito essa minuta de crônica , com algumas palavras lançadas no papel em branco - nada conclusivo. Agora, retomei a conversa e pus as mãos na poeira do meu baú. Saiu uma cronicazinha boa. O título é alusivo ao filme "Uma noite em 67" - a noite que mudou a nossa música popular. Quem quiser ver o filme documentário, assista. Só faço uma ressalva, pois o DVD, deixou Elis Regina, Nara Leão e Sidney Miller nos extras. Uma pena.

Bem, meu chocolate está esfriando e a neblina se dissipando. Hoje será um dia feliz e com sol para uma caminhada no parque, e com coragem para dizer: EU SOU FELIZ HOJE!

Posta por Antônio / junho / 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ainda Marilyn – Uma crônica antiga

Durante uma noite, quando navegava pela rede, descobri – sem querer - um texto escrito três dias depois da morte de Marilyn Monroe (a pronuncia certa é “monrôu”). Essa crônica, intitulada apenas “MARILYN”, foi publicada no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 08 de Agosto de 1962 (ela morreu dia 5). Seu autor é o cronista José Carlos Oliveira. Desconheço seus textos, mas este vem bem de encontro ao que escrevi sobre ela. O mito, a mulher, a sensual Marilyn Monroe.
MARILYN

Antes de mais nada era um corpo, não há dúvida. Um corpo tremendamente perturbador. Um corpo de formas opulentas, sempre na fronteira da obesidade: corpo de mulher-fêmea, acrescido de um defeito particularmente feliz nos joelhos: quando ela andava, só pensava em sexo, sexo, sexo. A pele clara e roliça descia vertiginosamente pelos decotes, deixando entrever a totalidade do corpo envolto em roupas colantes, e então ninguém mais pensava em outra coisa que não fosse sexo. Mas era, além disso, um sorriso maravilhoso, ao mais belo sorriso que jamais houve. Quando Marilyn sorria, a perturbação do espectador aumentava. Ela sorria com a língua entre os dentes – dengosa, maliciosa, pura dádiva. Era a feminilidade em pessoa. A alegria em pessoa.

Ela não teve infância. Nem pai, nem mãe, nem família. Cresceu como enjeitada em sucessivos lares. Não há motivo para atribuir à publicidade a informação obtida no momento supremo da glória: - violaram-na aos sei anos de idade. Há um detalhe praticamente infalível na biografia dessas deusas da beleza, sejam atrizes ou call-girls, de acordo com o inquérito e com os depoimentos de psiquiatras: - nos Estados Unidos, a violação de meninas bonitas ocorre com a assustadora frequência. Humbert Humbert, atormentado pelo encanto da nymphets, não é apenas um momento privilegiado do romance moderno, mas a revelação de um desejo que está presente na aventura íntima do cidadão norte-americano, desejo ara o qual Lolyta provavelmente representa um veículo liberatório eficaz.

Marilyn encontrou na história do cinema pela porta do menor esforço, isto é, tão logo descobriram que tinha corpo. E tão logo decidiu revelar-se na totalidade sua pessoa, isto é, corpo e espírito, sensualidade e tormento, ânsia de felicidade e desconforto no pináculo da fama – humana, frágil, sedenta de afeto, incompreendida e solitária – então, foi deixada em paz. Naquela paz desconfortável, naquela pobreza profunda da vida rodeada de riqueza e mentira. Mas eu pensei muitas vezes que o ser humano é indestrutível, porque toda a vergonha daquela infância e, mais tarde, o selvagem mecanismo que cria e devora os ídolos modernos, nada disso conseguira destruir o maravilhoso e inesquecível sorriso de Marilyn. Agora vejo que estava enganado.

Por José Carlos Oliveira
Jornal do Brasil – 08 de agosto de 1962

Sobre o autor:
José Carlos Oliveira (Vitória, 18 de agosto de 1934 - Vitória, 13 de abril de 1986) foi um escritor brasileiro. Celebrizando-se por suas colaborações diárias no Jornal do Brasil para onde escreveu por mais de duas décadas, tornou-se um dos grandes cronistas brasileiros do século XX, mas praticou também o romance e o memorialismo.

Posta por Antônio - junho 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O pecado mora ao lado


Sente a brisa do metrô. Não é uma delícia?
Quando pensei em escrever essas linhas, era pretenso que o texto fosse jocoso, cômico; pinçadas textuais como referência às comédias dos anos de 1950, protagonizadas e estreladas por Marilyn Monroe. Aos poucos, enquanto mergulhava em sua vida, aparecia mais e mais a sua verdadeira silhueta: medos, perturbações, insegurança, frustrações, vozes, dualidade e as buscas (sem remédio) para uma mente doentia. Percebi a seriedade que deveria tratar a pessoa, e, consequentemente, o mito que desejava descrever.

Já faz alguns meses ganhei de uma amiga o livro “1001 filmes para ver antes de morrer”. Para cinéfilos, um belo presente, um livro de consulta e profícuo. Se conseguir ver a metade dos filmes ali recomendados, já estarei satisfeito. O livro seria perfeito — minha amiga vai brigar comigo —, se não faltasse um filme. Cadê, senhor editor, “O pecado mora ao lado”? Você esqueceu! Você não gosta de Marilyn? Já sei! Como todas as outras mulheres feias e desprovidas de “sex appeal”, sua mulher o proibiu da recomendação do filme. Despeito, Marilyn ainda vive e continua causando com ou sem  a inveja de sua mulher. Mas, pode dizer que não há mais nada além de Marilyn naquela comediazinha sem tempero; aceito, afinal o que mais precisaria aparecer naquele filme do que a figura de um mito. E maravilhosamente linda.

Verdade mesmo, ele não se esqueceu dela, esqueceu só do filme. No livro, cita o filme “Quanto Mais Quente Melhor” — 1959, também estrelado por Marilyn, mas a cena ali foi roubada pela interpretação de Tony Curtis e Jack Lemmon fazendo papéis femininos. Mas, em “O pecado mora ao lado” (The seven year Itch) é todo de Marilyn. O título do filme é justificado pelo que ela representa: a encarnação do próprio pecado. Frequentemente flertamos com o pecado em nossa vida, mas abolimos a sua pregação e juramos não mais cometer (eu juro!). “O pecado é que dá tesão e não a liberdade sexual” — disse Luiz Felipe Pondé. Marilyn é sua própria encarnação na Terra. Olhar, desejar, pensar em Marilyn é pecar mortalmente.

Revendo o filme — sempre com os olhos mais atiçados —, como se esquecer daquela cena imortal do vestido que se levanta ao vento da grelha do metrô? (Sente a brisa do metrô. Não é uma delícia?) Qual meninão (ou homem feito) não tenha tocado o chão com suas babas naquelas pernas torneadas e a inocência da personagem tentando segurar a barra do vestido plissado? Ela nem precisou tirar a roupa, aquela cena bastou todas as outras provocantes já feitas no cinema. Seu marido na época, Joe DiMaggio, quase teve um ataque quando acompanhou-a no set de filmagem; com a cena sendo repetida mais de 15 vezes — mesmo sabendo que ela usava duas calcinhas, bem comportadas. O casamento se ruiu após esse dia, ela pediu o divórcio por não aceitar mais viver com um marido ciumento que a batia covardemente.

A cada repetição — e não me canso — de “O pecado mora ao lado”, um centímetro a mais de seu vestido se levanta naquela cena; Marilyn Monroe está cada vez melhor... Os argentinos dizem o mesmo de Gardel: “está cantando como nunca”; Marilyn está cintilante, também, como nunca. É a figura do mito, vivo, presente, imortalizado em nossas memórias. No poema “Ulisses”, o poeta português Fernando Pessoa descreve: “O mito é o nada que é tudo / O mesmo sol que abre os céus / É um mito brilhante e mudo / O corpo de Deus, / vivo e desnudo”.

Os mitos atravessam os tempos, não morrem jamais. Eternizam como águas nas fontes, jorrando sem parar. Ela é daquelas mulheres que vieram ao mundo não para ser uma dona de casa, criar filhos, amar um só homem e viver anônima. Aterrissou aqui para ser estrela, deusa, bela, blonde, sensual, provocante, fonte infinita e inquieta de beleza... Suas curvas e silhuetas são injustas às demais obras humanas já desenhadas, provocando um sentimento ambíguo: se ama Marilyn, se odeia Marilyn — na mesma frase. Uma mulher arguta, que faz qualquer ser humano sair de sua compostura, até os sem pecados... E vão dizer que não precisa de talento para isso? A natureza a esculpiu como suas melhores obras de arte, na forma mais perfeita e generosa. Assim, como nas palavras que trago de Rubem Alves: “a alma não se cansa da beleza. A beleza é aquilo que faz o corpo tremer”. Em outro trecho completa: “tive vontade de chorar por causa da beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que ficou arrepiado: a beleza se fez carne

Marilyn é tudo que se pode se dizer de beleza na inquietude do ser. Um altar contemplativo. Desculpem-me as magras (modelo de beleza atual), mas ser Marilyn Monroe é essencial. Não há nela, a silhueta retocada com foto shop, com lipoaspiração e plásticas antes dos clicks e filmes — truques muitos utilizados hoje em dia. É possível notar, em algumas cenas, que ela tem até uma barriguinha, bem sutil. É beleza mesmo, pura, sem as máscaras tecnológicas de hoje, que escondem até o umbigo.

Marilyn nasceu Norma Jeane. Ainda bebê, nos primeiros dias de vida, sua mãe Gladys Baker — sem condições psicológicas de criá-la — entregou-a a um casal de desconhecidos. Mãe e avó sofriam dos mesmos problemas. Contam que, sua avó fazia da gaveta da cômoda o seu berço. Infância sofrida por muitas perdas e lares arruinados. Depois da morte da avó, a vida da pequena Norma Jeane foi de casa em casa, até parar num orfanato. Durante um curto tempo, foi obrigada a viver com sua mãe; uma mulher esquizofrênica, psicótica e desequilibrada; tão doida — talvez mais — quanto o pai que nunca a conheceu. Certa vez na infância, num momento raro de lucidez, sua mãe lhe disse: morra na hora certa! (no auge). Ela obedeceu. Após ter vivido o seu último romance, com John Kennedy, o presidente dos EUA, Marilyn morreu em agosto de 1962, aos 36 anos de idade, de causa mortis ainda suspeita. Ele também morreu um ano depois em Dallas-Texas, por tiros disparados por Lee Oswald. Algum roteirista sádico poderia ter escrito que ele teve inveja do presidente garanhão. Eu também teria.

No verdadeiro roteiro da vida, que a levou do estrelato à morte, ela não soube lidar como os traumas da infância, com o sucesso galopante, a fama, o sexo, os calmantes para dormir e não dormir, o desejo dos homens por ela, seus casamentos e com a personagem que criaram para Norma Jeane; se vendo escravizada por ela até sua última gota de sangue. “Os homens não me veem, eles me olham” — disse ao seu psicanalista. Faltou-lhe o quê? O berço necessário da infância, a estrutura familiar, o preparo para uma carreira de sucesso, o amor das pessoas ao redor? Tudo, talvez, numa vida curta, onde a única coisa que lhe sobrou, foi beleza em torrente. Ela até tentou ser normal, mas sem sucesso, ela era Marilyn Monroe

Depois do fim do casamento com Arthur Miller, desabafou: “tentei melhorar um pouco, e quando consigo, descubro que estou imitando eu mesma”. Pobre menina, ela só queria ter uma vida normal, casar, ser mãe, ter família... Tudo que não teve. Por muitas vezes, dizia invejar as pessoas de vida comum — se queixava à sua meia-irmã Berniece. Mas, foi tragada pela fama, levada pelo glamour; subjugada pela personagem que mais soube representar em sua vida: Marilyn Monroe. Nunca mais voltou a ser Norma Jeane. Longe das teorias conspiratórias, foi roubo de vida mesmo; digo, Marilyn Monroe, sequestrou, aniquilou, manteve em cativeiro e viciou Norma Jeane até sua morte. Ela tentou matar Marilyn da sua vida; quem morreu foi Norma Jeane, a vida real. Não há outro fato histórico que prove o contrário.

Nesse ensaio com Marilyn, descobri, com seu hipnotizo que imanta meus olhares, o mais doce pecado. O que podemos fazer mais com uma taça de champanhe e um saco de batata chips? Pecar com Marilyn, é claro. (Não se preocupe. Está tudo bem. Um homem casado, ar-condicionado, champanhe e batata chips. É uma festa maravilhosa...). Descobri depois, na pele que cobria Norma Jeane, havia Marylin Monroe; e na sua tez todo pecado, que convida a maltratar e açoitar quem se deixa levar por sua beleza inquieta. Descobri, por fim — já numa forma de rendição —, que o pecado não mora mais ao lado; o pecado, agora mora dentro de mim.

© Antônio de Oliveira / arquiteto e urbanista / maio de 2011.